Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Começa agora mais um Domínio da Guerra da Rádio Observador, que não se faz sem o major-general José Moreira.

Olá, muito bom dia a todos.

Bem-vindo. No espaço de uma semana, tivemos duas reuniões de alto nível em busca de uma solução de paz para a Ucrânia. Na sexta-feira, Trump recebeu Putin de forma majestosa no Alasca e, na segunda, promoveu uma reunião na Casa Branca com Zelensky e vários líderes europeus. Estas iniciativas de Trump não foram consensuais, mas tiveram o mérito de acelerar o processo de discussão em torno da guerra e do futuro da Ucrânia e também da segurança da Europa. No ar ficou a possibilidade de uma reunião entre Putin e Zelensky. General, o presidente Trump está claramente com pressa em organizar esse encontro, mas que balanço podemos fazer de tudo o que se passou até agora e que perspectivas se desenham para parar o conflito?

Esta foi, na verdade, uma semana marcante. No espaço de poucos dias, numa sexta-feira e depois na segunda-feira seguinte, tivemos duas reuniões em que participaram alguns dos grandes líderes mundiais para discutir o problema da Ucrânia. Temos que lhe dar esse mérito, esse crédito de ter trazido para a ordem do dia das discussões internacionais a questão da necessidade de se encontrar uma saída para o final da guerra na Ucrânia. Não é claro, passados estes dias, que estejamos mais perto da paz na Ucrânia. Nada claro, eu depois irei desenvolver este assunto. Mas, na verdade, a discussão em si ajuda a isso. Ajuda a identificar, pelo menos, as dificuldades que temos pela frente e para as quais temos que encontrar solução. Os dois acontecimentos marcantes são, evidentemente, a reunião de Anchorage, no Alasca, no dia 15 de agosto, foi na passada sexta-feira, entre Vladimir Putin e Donald Trump, e a reunião na Casa Branca, nesta segunda-feira.

Em que Zelensky não esteve sozinho.

18 de agosto, em que Zelensky se fez acompanhar por um leque muito substantivo de líderes europeus. Antes de detalhar cada uma destas reuniões, há aqui um ponto comum a estas reuniões. E o ponto comum não é a Ucrânia, é Trump. Trump foi o centro destas reuniões.

Como ele gosta de ser.

Como gosta de ser. E tudo foi preparado para dar a Trump uma visibilidade internacional que ele gostava muito de ter exatamente nesta época. Portanto, discutiu-se Ucrânia? Certamente, sim, mas elas também foram organizadas para promover e colocar Trump no centro das discussões, o grande árbitro daquilo que é o sistema internacional, com suas capacidade de decisão e de resolver conflitos, como ele costuma dizer. Eu gostaria de arranjar aqui dois adjetivos para cada uma destas duas reuniões. Vamos lá aos adjetivos. A Cimeira de Anchorage, no Alasca, foi a cimeira da cumplicidade dos dois amigos que não se viam há imenso tempo.

Aliás, como se viu logo pelo cumprimento, passou bem, não é?

Exatamente. Os dois amigos que não se viam há muito tempo, que estavam cheios de saudades um do outro e que estavam os dois felicíssimos pela oportunidade de se encontrarem. Portanto, cumplicidade aqui nesta reunião. A de segunda-feira foi a reunião da solidariedade. Os líderes europeus ficaram assustados perante a possibilidade de um novo encontro entre Trump e Zelensky na Casa Branca e decidiram comparecer tipo guarda-costas, guarda de honra, com Zelensky para evitar outra vez uma repetição daquilo que tinha sido o primeiro encontro na Casa Branca entre Donald Trump e Zelensky.

Mas foi importante, não foi, general?

E, portanto, foi importante. É aquilo que eu chamo a cimeira da solidariedade. Vamos ver agora cada uma delas em detalhe. Cimeira de Anchorage, no Alasca. Os nossos olhos não queriam acreditar no que estavam a ver. A potência líder do sistema internacional estava a receber, de braços abertos e como se fosse o Rei Trump a receber o Czar da Rússia, com direito a passadeira vermelha, em vez de ter um par de algemas para prender aquele que era o líder de uma potência euro-asiática que tinha desencadeado uma guerra tremenda na Europa. E olhamos com alguma surpresa, não pelo fato de Trump ter recebido Putin, mas da forma como Trump recebeu Putin. E Trump estava entusiasmadíssimo.

Muito, sim.

Bateu palmas. Só faltou bater os pés no chão quando Putin ia descer as escadas. Trump estava entusiasmadíssimo com a hipótese de encontrar pessoalmente Putin. Ora bem, o líder da Federação Russa recebeu tudo no Alasca. Recebeu um cumprimento efusivo de Trump logo à chegada Recebeu uma passadeira vermelha, recebeu uma boleia no carro presidencial, recebeu um isolamento relativamente aos jornalistas que não tiveram a oportunidade de lhe colocar as questões. Recebeu aquilo que aparentemente terá sido uma reunião mal preparada por Trump, o que permitiu a Putin desenvolver completamente aquilo que era o argumentário que trazia.

Foi o primeiro na conferência de imprensa.

Recebeu a oportunidade de ser o primeiro na conferência de imprensa, recebeu a oportunidade de falar durante nove minutos e meio sem interrupção, quando Trump só conseguiu falar, e mal, durante três minutos e pouco. E portanto, Putin recebeu tudo aquilo que queria de Trump. Isto levanta-nos imensas dúvidas. Como é que Trump deixou Putin sair dali, como dizia logo nesse dia e nos dias seguintes a imprensa russa, como um vencedor. Putin, aos olhos da opinião pública da Rússia, saiu como um vencedor da cimeira de Anchorage. O que é que Trump ganhou nesta cimeira? Ganhou visibilidade, mas a visibilidade não resolve a guerra. A visibilidade de Trump não vai resolver a guerra. Como Trump recebeu Putin e lhe deu isto tudo, ficamos sem perceber se não pôs nenhumas condições para tudo isto pudesse acontecer. Trump acha que terá ganho ou reforçado a sua amizade sobre Putin. Eu sempre desconfiei muito desta amizade ou da capacidade desta amizade, ainda que legítima, ainda que pessoal, mas que possa transformar alguma coisa daquilo que é o processo de desenvolvimento dos interesses da Federação Russa. Os europeus ficaram assustados com a cimeira de Anchorage. Ficaram assustados porque, na verdade, tudo de Anchorage pareceram ser cedências a Putin. E portanto, a Europa achou que tinha que ir em peso com o Zelensky para ver se demovia Trump, que nos seus discursos a seguir a Anchorage, deu a sensação que, afinal, a Rússia tinha razão. Que esta coisa do cessar-fogo se calhar não era uma boa ideia, que era melhor irmos para um plano de paz a sério, negociado em tempo, ceder territórios, etc. Portanto, segunda-feira foi uma espécie, na minha perspetiva, na minha leitura, de controlar danos da cimeira de Anchorage. Vamos ver se conseguimos suster esta inclinação que agora Trump parece ter de apoio à posição da Federação Russa. E portanto, chegamos à cimeira da Casa Branca na segunda-feira. O formato foi diferente de Anchorage. Não houve passadeira vermelha para ninguém, mas havia também um presidente, o presidente da Ucrânia, que também estava presente.

Outro tratamento.

Outro tratamento. Não teve direito a passadeira, nem palminhas quando descia do avião, nem boleia no carro presidencial. Portanto, foi completamente diferente.

Nem Trump se deslocou a lado nenhum.

A lado nenhum. E aqui, os jornalistas foram convidados para as primeiras palavras dos líderes reunidos na Casa Branca. O que não deixa de ser estranho, porque é completamente diferente do tratamento que foi dado a Putin. Putin foi sempre mantido, protegido, longe da imprensa. Ora, aqui, os líderes europeus sentados naquele formato, foram obrigados, durante os primeiros 10 minutos para cada um, a elogiar Trump. E portanto, a imprensa foi admitida nesta sala para ouvir os líderes europeus a elogiar Trump.

Nada é por acaso.

Nada é por acaso. Os formatos condicionam os conteúdos. As partes formais vão obrigar a que os conteúdos possam ser instrumentalizados, dirigidos para se obterem determinados resultados. Portanto, o que apareceu ali foi um conjunto de líderes europeus a elogiar Trump. Foi isso que nos foi dado. E depois, na segunda parte, já sem a presença dos líderes europeus, ainda assim houve fotografias que mostraram Trump na sua secretária enorme e os líderes europeus em cadeirinhas sentados à volta, como se estivéssemos numa aula de geografia, porque tínhamos o mapa da Ucrânia ao fundo. As imagens que foram passadas, não foram passadas por acaso. Foram passadas para mostrar que Trump tem um domínio sobre a Europa e que os líderes europeus farão de acordo com aquilo que Trump decidir. Portanto, tudo isto, esta parte formal, foi desenhada para obter estes objetivos, que são os objetivos que passam. Depois, conteúdo. O conteúdo da discussão da cimeira da Casa Branca foi muito marcado por uma perceção errada de Trump. Trump saiu de Anchorage com a ideia Pelo menos foi isso que transpareceu da conversa com os líderes europeus, de que afinal tinha havido uma concessão da Federação Russa, que era a Federação Russa aceitava garantias de segurança à Ucrânia. E a cimeira, e depois nos dias seguintes, as discussões europeias centraram-se nas garantias de segurança a dar à Ucrânia.

Até vir a Federação Russa dizer-

Até vir a Federação Russa dizer: "Desculpa, Trump percebeu mal o que nós tínhamos dito. Nós quando falamos em garantias de segurança, são as garantias de segurança que a Rússia, depois de conquistar a Ucrânia, pode dar à própria Ucrânia. Quem será o garante das condições de segurança não é a NATO, ninguém falou nisso. Trump deve ter percebido mal". Portanto, a cimeira da Casa Branca começa com um equívoco, que é o equívoco das garantias de segurança que Trump parece ter percebido como tendo sido uma cedência, finalmente uma cedência dada por Moscovo. Afinal, essa cedência não existiu. A Rússia já veio dizer oficialmente, através de Lavrov, que não existe essa cedência, não existe nenhuma compreensão, nem nenhuma intenção de deixar agora os países europeus e, eventualmente, também países da NATO, poderem ter tropas na Ucrânia a garantir a segurança. A Rússia é que quer garantir a segurança da Ucrânia, para além de um conjunto de outras coisas. No final, esta semana começou com grande entusiasmo pelas perspectivas que se abririam e depois foi se esvaziando ao longo da semana. Agora o tal encontro trilateral já pode não existir e o encontro bilateral, como diz Lavrov, é depois de um longo processo de negociação entre as partes, porque é preciso ver aqui se Zelensky tem ou não tem legitimidade.

Voltamos à conversa que já tivemos há um mês.

Voltamos outra vez à conversa. A Rússia vai desenvolvendo processos para voltar sempre à casa de partida. E portanto, todas nossas esperanças de que estamos a caminhar para a paz, de vez em quando, não havia um jogo que era o jogo da glória, em que a gente caía numa casa e tinha que voltar à casa de partida. Não era uma coisa assim? A Rússia organiza o seu dispositivo negocial de maneira a voltarmos sempre à casa de partida. Nós estamos outra vez na casa de partida. Agora, neste momento, já não sabemos para que estamos a negociar as garantias de segurança, porque, na verdade, a Rússia disse que não aceita tropas da NATO e a NATO e os países europeus vão cumprir aquilo que a Rússia disse. É isto que é extraordinário. É a Rússia que determina se há presenças de tropas ocidentais na Ucrânia. Isto é verdadeiramente extraordinário. Estamos outra vez na casa de partida.

No nosso programa da semana passada, analisamos os esforços do Egito e do Qatar para se chegar a um cessar-fogo no Médio Oriente. E falamos também sobre os preparativos militares de Israel para controlar a cidade de Gaza. General, hoje, que ponto de situação podemos fazer?

Os dois processos mantêm-se em andamento e nenhum deles está, neste momento, em condições de se sobrepor ao outro. Isto é, há um processo político que foi acelerado pelo Egito e pelo Qatar para que o Hamas se comprometa no cessar-fogo, naquele cessar-fogo daquela ideia de Witkoff dos 60 dias e troca de metade dos prisioneiros. E enquanto Israel, não deixando cair a possibilidade de um acordo, mudou os termos do acordo. Para Israel, já não se trata de libertar metade dos reféns, trata-se de libertar a totalidade dos reféns. Portanto, os dois processos continuam vivos. Agora em termos diferentes, porque Israel agora só admite o acordo com a concessão pelo Hamas da libertação de todos os reféns detidos. Mas não desistiu do outro processo, portanto, os dois processos estão a decorrer em paralelo. O processo negocial e o processo da ocupação militar. Para dar possibilidade, capacidade militar às IDF, em face daquilo que é a dimensão geográfica e humana da ocupação de uma cidade como Gaza, naturalmente que as IDF não tinham forças suficientes para o poder fazer. E então, está agora a decorrer o processo de mobilização, uma mobilização brutal, são 60 mil reservistas que vão ser chamados. Sessenta mil reservistas são duas vezes a totalidade das Forças Armadas portuguesas. Israel vai levantar um exército em 15 dias, que é duas vezes a totalidade das Forças Armadas portuguesas. Isto é uma brutalidade. Mais uma vez, eu torno aqui a dizer, porque toda a gente já sabe que eu digo isto há muito tempo, é preciso regressar ao serviço militar obrigatório. Sem serviço militar obrigatório, não há produção de reservistas. Nós não temos reservas porque não temos serviço militar obrigatório. Israel nunca desistiu e é por isso que em 15 dias, numa situação de emergência, consegue reunir centenas de reservistas. E portanto, estes dois processos interligam-se aonde? Interligam-se no fato de, como parece determinado em entrar em Gaza, o Hamas está agora duplamente pressionado, do ponto de vista militar por Israel e também do ponto de vista político pela iniciativa do Qatar e do Egito.

General Arlindo Moreira, estamos habituados a ver Sergei Lavrov sempre de fato e gravata e com um ar grave e pesado, mas o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia apareceu desta vez em Anchorage descontraído e com uma sweatshirt onde se liam as iniciais da antiga União Soviética. Que fumo foi este?

Vamos inaugurar agora no "Domínio da Guerra" também a parte da moda.

Vamos fazer um check.

A moda também é importante, sobretudo esta moda de provocação.

Era para ter ouvido o mesmo comentário que Zelensky ouviu quando foi à Casa Branca.

Exatamente. Nós estamos habituados a um Lavrov sério, sisudo. Não estávamos à espera.

Rancudo, sempre.

Sim, rancudo, sempre zangado com a vida. E desta vez encontramos alguém muito sorridente. Sorridente com o quê?

A cadeira era sósia.

Sorridente com a sua sweatshirt. A sua sweatshirt dizia em cirílico CCCP, que eram as iniciais da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Isto é uma provocação tremenda, ir discutir o assunto-

E no Alasca.

No Alasca, ir discutir este assunto com Trump, aparecendo para a reunião, ele durante a reunião esteve de fato e gravata, mas aparecendo em Anchorage com uma coisa que dizia União Soviética, que é como quem diz: "Não vamos esquecer as raízes de todo este problema, que foi a dissolução da União Soviética". Portanto, isto foi uma provocação que fez, e uma provocação dirigida não apenas a Trump e à Ucrânia, mas também às outras antigas repúblicas socialistas soviéticas. Estamos a pensar da Estónia, Letónia, Lituânia, Moldova, etc., que estão também na primeira linha da mira daquilo que pode ser a expansão imperial russa, agora sob o lema da antiga União Soviética. Portanto, foi uma provocação e Lavrov estava satisfeito com esta provocação, com esta sua sweatshirt. 120 € é o que dizem que custa esta sweatshirt.

Eu fui ver isso. E o nosso ponto de mira de hoje foca-se em Melania Trump. General, por que quis trazer a primeira-dama dos Estados Unidos para o nosso "Domínio da Guerra"?

Nós estamos agora-

Vamos ver o outfit, pois não? Porque isso está sempre impecável

Além de inaugurarmos a parte da moda no "Domínio da Guerra", também temos o glamour no "Domínio da Guerra". Durante a Cimeira do Alasca, o presidente Trump entregou pessoalmente, em mão, uma carta escrita por Melania Trump a Vladimir Putin. Aliás, isto foi logo no início. E Vladimir Putin abriu a carta e leu a carta para si enquanto as delegações esperavam que ele lesse essa carta. Não terá dado uma resposta, naturalmente, à carta, tinha acabado de a ler, e também não houve comentários públicos depois posteriores relativamente à carta. Mas, na verdade, esta é uma forma de diplomacia, esta diplomacia pessoal, que pode ser muito mais eficaz do que a diplomacia clássica. Isto é, uma carta. Aquele assunto podia ser tratado por Marco Rubio, mas não tem o mesmo impacto, nem o mesmo desenvolvimento do que ser a esposa do presidente dos Estados Unidos a escrever esta carta. O tema da carta são as 19.500 crianças, pelo menos, que estão identificadas como tendo sido levadas dos territórios ucranianos para famílias, para adoção na Rússia ou para instituições na Federação Russa. 19.500 crianças. A carta está muito bem escrita e até consegue falar sobre o tema sem falar nestas 19.500 crianças, mas é esse o tema desta carta. E eu recordo o último parágrafo da carta, porque me parece que é uma boa maneira de terminarmos este programa. Presidente Putin, este é o último parágrafo: "Ao proteger a inocência destas crianças, fará mais do que servir a Rússia, estará a servir a humanidade. Esta ideia desafiante transcende todas as divisões entre humanos. O senhor, Mister Putin, tem o poder de implementar esta visão com uma assinatura da sua caneta. É tempo de o fazer". Acho que é uma boa maneira de terminarmos o nosso programa.

Pode ser, sim. General Arlindo Moreira, muito obrigada por mais um "Domínio da Guerra".

Foi um enorme prazer.

Bom fim de semana para si. Muito obrigada.

Muito obrigado.