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Há uma arma escondida na bagagem. Dominic espera que as coisas não cheguem a tanto, mas neste tipo de trabalho, uma arma pode ser sempre necessária. O problema é que a pistola tem de passar por três aeroportos para chegar ao destino final. Mesmo no início dos anos 90, é preciso uma grande combinação de negligência no controle de passageiros e alguma sorte para ninguém dar por nada. Por isso, no momento em que o chamam, já sentado no avião, Dominic sabe muito bem do que se trata.
Estou no avião, chamam-me ao balcão. Vou ao balcão. "Olhe, abra aqui a mala. O senhor traz aqui uma arma." E eu abro a mala. Mostrá-la uma arma? O que é isso? Querem ver que a minha mulher, pensando que isto era o estojo da barba, meteu aqui esta bolsinha. Ai, o que esta bandida me fez!
Dominic acaba mesmo por conseguir convencer a segurança do aeroporto de Chicago a levar a arma. Afinal, mais do que ter licença de porte, aquela é a pistola de serviço dele. A justificação também resulta em Nova Iorque, onde apanha um segundo voo, agora para Lisboa. Mas à chegada a Portugal, a arma fica retida. A partir desse momento, o detetive deixa de ter qualquer cobertura. Dominic nasceu na Fuseta, no Algarve, e os pais chamaram-lhe Domingos. Ganhou um novo nome quando foi viver para os Estados Unidos e com a nova identidade chegou também uma nova profissão: detetive privado. Tudo aconteceu quando fez amizade com dois polícias reformados, depois de se ter fixado em Lake Geneva, uma pequena cidade a cerca de uma hora de Chicago. Pouco depois, os três abrem uma agência de detetives privados. Até que um dia surge um contacto inesperado, vindo de Portugal. É uma família muito rica que perdeu mais de dois milhões de dólares com Pedro Caldeira. Pedem o máximo secretismo e em troca oferecem uma compensação muito atrativa. Contratam-no para encontrar o corretor e recuperar o dinheiro. Pedro Caldeira não sabe, mas em breve vai ter um homem a seguir todos os passos que der. Depois da viagem de carro para Madrid e de ver esgotadas todas as soluções para arranjar o dinheiro de que precisa para se salvar, Pedro Caldeira decide fugir. Pressionado pelas notícias que chegam de Portugal, o corretor, agora caído em desgraça, compra a viagem no impulso, no primeiro avião que o leve até ao sítio mais longe possível. Nos dias a seguir à fuga, a imprensa vai publicar muitas notícias. Que Caldeira passou por França, pela Suíça, por Marrocos, que está na América Latina, em algum país onde a extradição para Portugal seja mais difícil, que está em Taiwan ou na China, ou em qualquer ilha do Caribe ou do Pacífico. Nada disso é verdade. A verdade é que ninguém, nem os pais, nem a família mais próxima, ninguém sabe onde está o homem mais procurado do país. Este é o Encantador de Ricos, uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, São José Correia, com banda sonora original de The Legendary Tigerman. Episódio cinco: O Fugitivo.
Esta é uma história real e é o conhecimento da história que guia a Honda em direção a um futuro melhor. Nesta viagem, os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis. Vamos continuar este percurso juntos, porque a Honda tem muito para contar, mas também tem muita vontade de ouvir.
Dominic viu o homem sair do banco com uma mala na mão. Tinha estado a aguardar dentro do carro. Quando o homem chega, abre a mala e mostra-lhe o que está lá dentro. Mil contos em notas. O detetive podia fazer uso daquele dinheiro como bem entendesse. Hotéis, restaurantes, viagens, tudo o que fosse preciso para encontrar Pedro Caldeira. Só havia uma coisa que estava fora de questão.
Fui contratado, vim a Portugal Passaram uma preocupação com esses poderes para o perseguir, para tentar tudo por tudo para recuperar o dinheiro, exceto, naturalmente, assassiná-lo. Exceto isso, certeza. Eu tinha esse receio na altura de que podia haver alguma violência metida nisto, porque ele podia contratar um indivíduo qualquer que pudesse tentar evitar que alguém se intrometesse na vida dele.
Ainda hoje, mais de 30 anos depois, Dominique Chagas não quer revelar o nome da pessoa que o contratou. Garante apenas que foi alguém que lhe disse ter ficado prejudicado em mais de dois milhões de dólares e que, por aquela altura, já tinha perdido a esperança de conseguir recuperar o dinheiro por vias normais. O objetivo era tentar encontrar Pedro Caldeira e conseguir chegar a um qualquer acordo que pudesse resultar na recuperação do dinheiro. Muitos suspeitavam que, antes de fugir, o ex-corretor teria escondido milhões.
Estar num local onde eu pudesse falar pessoalmente com ele e dizer: nós não apresentamos queixa. Devolva-nos o dinheiro e a gente havia de chegar a um acordo qualquer. Ele podia ser compensado de outra maneira. Não levar aquelas coisas da bolsa, mas levar outras. A minha missão era exatamente poder encontrá-lo, falar com ele, tentar chegar a um acordo para a devolução do dinheiro. Sei lá, talvez oferecendo-lhe uma comissão qualquer.
Durante cerca de um mês, em outubro de 1992, Dominique tenta recolher todo o tipo de informações sobre o paradeiro de Pedro Caldeira. Fala com amigos, vizinhos e conhecidos. Passa por Cascais e Lisboa e também viaja para Marbella, em Espanha, onde os Caldeira tinham casa e costumavam passar férias. Não há nenhuma pista, nenhum rasto. Pedro Caldeira conseguiu mesmo desaparecer. Quem o procura não sabe, mas o plano de fuga improvisado durante a viagem de avião começou logo a correr mal. Assim que aterra em Miami, Caldeira aluga um carro e faz cerca de 60 km com a família até Boca Raton, onde tem amigos que sabe que o podem ajudar nos primeiros dias. Mas quando lá chega, é surpreendido. Os amigos mudaram de casa e de número de telefone. Não os consegue localizar. Decide então continuar a viagem para norte e a família instala-se num pequeno hotel em Palm Beach. Não fica muito tempo. Sem saber o que fazer, parte de novo para a estrada. Faz mais de 1600 km rumo à capital, Washington, onde espera encontrar outros amigos que o possam acolher. Agora tem mais sorte, mas mais uma vez, é apenas uma solução temporária. Caldeira há de dizer mais tarde que a ideia de regressar a Portugal esteve sempre presente, mas que os poucos telefonemas que fez para Lisboa o desencorajaram. Os amigos e o próprio pai aconselham-no a manter-se à distância, pelo menos por enquanto, ainda que todos continuem sem saber onde ele está. É então que surge finalmente um golpe de sorte. Um outro amigo diz que tem uma casa disponível em Palm Beach, onde a família pode viver, se quiser, durante alguns meses, até janeiro. Caldeira nem pensa duas vezes. Repete os 1600 km, desta vez para sul. Palm Beach começou a ganhar fama no início dos anos 90, mas quando os Caldeira lá chegaram, não era ainda a estância balnear que, nos anos seguintes, viria a ser escolhida por muitos milionários para terem luxuosas casas de férias. Depois de ter saído de Madrid com apenas 36 contos no bolso, Caldeira consegue transferir para os Estados Unidos cerca de 10 mil contos que tinha em bancos no estrangeiro. Não tem ainda um plano muito concreto, mas já tem dinheiro para andar em fuga durante vários meses. Não se fala de outra coisa em Portugal. A fuga de Pedro Caldeira está em todos os jornais e nas notícias da televisão. É retratada como o maior escândalo financeiro das últimas décadas no país. Escreve-se que Caldeira, o príncipe da bolsa, que todos julgavam invencível, desfalcou a corretora e fugiu com milhões, embora se tenha provado mais tarde que isso não era verdade. Esse dinheiro foi usado para cumprir compromissos com os bancos ainda antes de fugir. E enquanto está nos Estados Unidos, todos os dias surgem novas revelações. As atenções viram-se agora para os clientes que confiaram as fortunas ao corretor. "Lista negra de Pedro Caldeira põe jet set lisboeta em pânico", escreve um jornal. "Relação de nomes considerada explosiva", afirma outro. A partir de maio de 1991, a relação de Caldeira com os clientes muda Como os investimentos tradicionais em bolsa não eram suficientemente atrativos, precisou de ir mais longe para os convencer a continuar. Recebia o dinheiro, investia-o em nome próprio e assumia todos os riscos. Os clientes tinham o capital sempre garantido e também os juros anormalmente elevados que o Caldeira lhes prometia. Se tudo corresse bem, dividiriam o lucro. Se alguma coisa falhasse, teria de ser o próprio Caldeira a assumir o prejuízo. Já vimos no último episódio que na lista de clientes particulares de Caldeira estavam figuras bem conhecidas na altura, como um futebolista famoso, um milionário que fez fortuna no setor automóvel e um arquiteto excêntrico que se movia no mundo da aristocracia e da política. Mas há outros nomes que ainda não foram revelados. Entre eles, está o dono do sítio onde Caldeira angariava muitos dos clientes mais ricos: a Casa do Largo, ponto de encontro da alta sociedade de Cascais. Tomás Branquinho da Fonseca, na altura um grande empresário da área do marketing e publicidade, perdeu várias dezenas de milhares de contos. Na lista, aparece também o nome de Rui Guedes, pianista e amigo da família Caldeira. Chegou a tocar nas festas de aniversário de Cristina, em Marbella, e ficou conhecido por ter feito a adaptação portuguesa de Topogígio. Como, na altura, era diretor no Montepio e não queria que o seu nome fosse falado ou constasse de documentos, Rui Guedes fazia todas as transações com Caldeira em notas. Mas nesta história, Rui Guedes não é apenas um investidor. É ele quem apresenta Caldeira a um empresário muito conhecido na área da construção civil. Saúl Maia de Campos foi o construtor do edifício do primeiro hotel Holiday Inn, em Lisboa, e tinha negócios na margem sul do Tejo. Construiu 1600 casas na Costa da Caparica e outros 14 prédios junto à Lisnave, em Almada. Tem também ligações ao futebol. Chegou a ser vice-presidente do Futebol Clube do Porto. Em agosto de 1991, Rui Guedes junta Saúl Maia de Campos e o corretor num almoço no Clube dos Empresários, na Avenida da República, em Lisboa. Antes do encontro, porém, já tinha feito uma revelação a Caldeira: o empresário tem 1,4 milhão contos para aplicar com o juro mais elevado possível. O construtor acaba por colocar nas mãos do corretor mais de 400 mil contos que nunca irá recuperar. É o homem que vai perder mais dinheiro com a fuga de Caldeira. Hipólito Pires, dono da empresa que era representante da Seat em Portugal, também perdeu dinheiro com Pedro Caldeira. Hoje, diz que não compreende porque é que o corretor fugiu, mesmo acreditando que foi realmente ameaçado de morte.
Eu vou lhe dizer uma coisa muito abertamente. Em 1975, eu trabalhava na fábrica em Setúbal, na linha de montagem. E nessa altura, ser gestor ou ser responsável do que quer que fosse em Portugal, era um risco. Houve um dia que eu, na fábrica em Setúbal, quando cheguei lá, tinha um cartaz com o meu nome, com uma corda à volta do pescoço, pendurada. Dizia: "Morte aos fascistas, aos lacaios do capitalismo". Para mim, a avaliação que eu faço é esta: se ele não tinha nada que esconder, por que é que se foi embora?
O empresário, a dada altura, um dos homens mais ricos do país, ainda hoje tem dúvidas sobre o que aconteceu ao dinheiro.
Uma coisa são prejuízos. Tem prejuízos, a situação líquida passou a ser negativa. Se as pessoas forem responsáveis e conscientes, apresentam-se à falência e assumem. Quando isso acontece, o restante da massa liquidatária, pode não dar para pagar a todos os credores, mas dá para pagar uma parte, por pequena que seja. Agora, quando há um volume de negócios daquele e depois, no final, não há nada para pagar, para mim é estranho. Ponto.
Durante a fuga, Caldeira sente que precisa contar a sua versão da história e não perde tempo. A 31 de julho, apenas uma semana depois de o corretor sair do país, o semanário O Independente publica uma longa entrevista com ele. Caldeira nunca revela onde está. Não nega que tirou milhares de contos à sociedade corretora, mas garante que não fez esse desfalque para fugir com o dinheiro. Foi para pagar dívidas particulares e resolver problemas que deixou em Portugal. E assegura mesmo que só tem com ele uma quantia que lhe dará para sobreviver seis meses. Conta que contraiu dívidas pessoais para recomeçar a atividade e refazer a vida. Isto depois da suspensão de que foi alvo e do problema com o Banco Pinto & Sotto Mayor. Garante mesmo que só começou a pagar juros elevados nos últimos dois a três meses, porque era cada vez mais difícil arranjar dinheiro, o que não é verdade. Afirma que fez tudo com boas intenções e sem querer lesar os clientes, acreditando que conseguiria sempre pagar o prometido. E admite que, quando não havia mais nada a fazer, usou o dinheiro da sociedade corretora sem dar conhecimento aos outros acionistas. No final, garante que não se importa de encarar a justiça portuguesa, mas reconhece que a vida como corretor, que foi a profissão de sonho dele desde o primeiro momento em que entrou na bolsa, está irremediavelmente condenada. E a vida pessoal também. Precisamente no ano da fuga de Pedro Caldeira, morre Dona Branca, aos 90 anos. Estava sozinha, num lar, sem que se soubesse exatamente onde estavam os milhões recebidos pela mulher que se celebrizou como a banqueira do povo. Em Portugal, a Dona Branca é o exemplo mais conhecido dos esquemas Ponzi, assim chamados por causa de Charles Ponzi, o ítalo-americano que montou o primeiro grande esquema em pirâmide da história. A ideia é fácil de explicar. O dono da pirâmide convence um grupo de pessoas a entregar-lhe dinheiro com promessas de juros elevados. Na verdade, não tenciona investir e rentabilizar aquele dinheiro. Quer ficar com ele. Por isso, a única forma de cumprir a promessa é convencer um novo grupo de pessoas a fazerem o mesmo. E é com esse novo dinheiro que vai pagar os supostos juros ao grupo anterior. O que entusiasma os primeiros investidores é verem que os juros são efetivamente pagos. Juros altos que nunca conseguiriam em depósitos no banco, por exemplo. E é aí que se gera um passa palavra que é decisivo para atrair os novos investidores, essenciais para a pirâmide crescer. Até ao dia em que tudo começa a ruir. Pedro Caldeira geria Dona Branca da Bolsa. Há de escrever o jornal Público no final de julho, já depois dele fugir. Mas a verdade é que no processo que vai sentar o corretor no banco dos réus, anos mais tarde, o tribunal há de concluir que ele nunca criou um esquema em pirâmide e nunca usou o dinheiro de novos investidores para pagar os juros de outros. Logo após a fuga, as autoridades portuguesas começam a preparar o mandado de captura internacional de Pedro Caldeira. Dentro de poucos dias, a ordem para o deter será distribuída por 158 países, emitida através do gabinete da Interpol, em Lisboa. É nesta altura que o pai de Caldeira começa a procurar um advogado para defender o filho e escolhe uma pessoa que já conhece bem.
O pai do Pedro Caldeira fala comigo e pede para eu tomar conta do caso. Eu era muito amigo do pai do Pedro Caldeira, tinha uma enorme consideração por ele e também tinha simpatia pelo Pedro, embora não tivesse a intimidade que tinha, mas não tinha o conhecimento ou a vontade que tinha com o pai.
Rodolfo Lavrador é o homem que passa a representar Pedro Caldeira e que o vai acompanhar até finalmente ser julgado, anos mais tarde. Na altura em que o filho foge, o pai de Caldeira já está muito doente. Mesmo assim, passa várias vezes pelo escritório do advogado para desabafar. Confessa que não percebe como é que tudo aquilo aconteceu ao filho. Libânia Bileu, secretária do escritório de advogados, recorda essas conversas. Em especial, uma. Quando o pai do corretor finalmente soube que o filho estava nos Estados Unidos, confidenciou-lhe que estava a tentar enviar uma encomenda para os netos.
Eu também comecei a ter um bocado à vontade com o senhor. Eu morava em Carcavelos e os pais moravam na Gandarinha. Sou uma pessoa que não sou notivaga. Deitava-me cedo, muitas vezes já estava a ir pra cama, o pai Caldeira telefonava: "Ó Libânia", porque não queria falar ao telefone. „Venha cá, venha cá à casa, venha cá à casa, que eu queria falar consigo". Isto às 22h. Eu metia-me no meu carrinho, lá ia até à Gandarinha. E ele lá desabafava, porque não sei o quê, agora tem uns sobrinhos, primos do Pedro, e que vão levar umas coisinhas pros meus netos, porque a dor também muito grande do avô eram os netos, que eram pequenos. „Vou lhe arranjar aqui umas papas, será lá, que o meu neto gosta muito, que é pro meu sobrinho levar”.
À última hora, esta encomenda vai ser travada pela polícia. Tudo por causa de um porta-fatos que levanta suspeitas no aeroporto de Lisboa. Caldeira raramente sai de casa nos Estados Unidos, mas quando o faz, vai à rua sem qualquer disfarce. Usa apenas um chapéu e só às vezes. A família faz uma vida discreta. Estão muito tempo em casa, em Palm Beach. Passam longas horas a ver televisão e a ler os jornais portugueses, que chegam com vários dias de atraso. Os Caldeira têm dificuldade em encontrar uma escola para os filhos. Ela com 14 anos, ele com 11. As escolas exigem as equivalências no sistema de ensino português, mas tratar disso seria impossível, porque iria denunciar a localização da família. Até que encontram um pequeno colégio que aceita inscrever as crianças sem grandes exigências. Aproveitam as férias dos miúdos para viajar. Até fazem férias de Natal na neve. Caldeira dedica-se a escrever. Envia cartas aos seus clientes particulares a pedir desculpa pela situação e a garantir que pagará o que deve. Cartas que serão entregues em mão por Libânia, secretária do advogado. Por vezes, sai de casa para se encontrar com algumas pessoas que conhece na região. Chega até a ter reuniões em que dá aconselhamento financeiro sobre investimentos na Europa. Uma forma de também receber algum dinheiro. Mas o casal sabe que está a ser procurado e tenta despistar as autoridades. Até pede a um amigo de nacionalidade argentina para levar as cartas para Buenos Aires, para serem enviadas dali para amigos de Caldeira em Portugal, de forma a lançar uma falsa pista sobre o paradeiro da família. Não funciona. Por esta altura, a polícia já sabe onde eles estão. O advogado de Pedro Caldeira tem uma forte suspeita, quase de certeza: tem o telefone do escritório sob escuta. E não apenas o dele, mas os telefones de outros colegas com escritórios vizinhos na Baixa de Lisboa.
Puseram em escuta o meu telefone, o telefone da minha secretária, o telefone dos meus colegas da Rua do Covilhã que estavam ao pé, os colegas de outros que estavam mais ao pé do palácio com quem eu ia também. Puseram esses telefones todos em escuta.
Rodolfo Lavrador precisa falar com o cliente, mas não quer correr riscos e arranja uma solução.
Para evitar essas interferências, eu dei-lhe um número de telefone, fui a Badajoz, a um hotel que eu conheço, que era um hotel dos touros, logo à entrada de Badajoz. Fui lá tomar o café da manhã, fui lá para o hotel, disse na recepção: "Olha, eu sou fulano, estou à espera de uma chamada internacional. Se ela vier, passem-ma, se faz favor". E assim foi. Esperei um bocado, veio a chamada internacional, eu recebi a chamada, falei com o Pedro e falámos do que tínhamos a falar, que era possível falar na altura.
A própria secretária do advogado virá a descobrir mais tarde que também está a ser vigiada pelas autoridades e que todas as conversas estão a ser ouvidas. Terá a certeza disso depois de se ter descaído sobre o paradeiro de Pedro Caldeira, numa conversa telefónica com uma amiga que era assistente de bordo e se preparava para visitar os Estados Unidos com o marido, piloto de aviões.
Tinham um filho, que era o Gonçalo, a estudar lá na América. Iam à América visitar o Gonçalo. Estupidamente, disse: "Mas aí é onde anda o meu amigo Pedro Caldeira". Pronto. E quando o avião aterra lá com a Juca e o João a bordo, o João não ia pilotar o avião, mas entra a FBA e diz: "Onde é que está o comandante? Onde é que está o comandante?" Levaram-nos a ele, à Juca e ao João, levaram para o FBA. Estiveram o dia todo a ser interrogados, convencidos que eles sabiam e iam ter com o Pedro Caldeira. Não era verdade, não iam nada ter com o Pedro Caldeira. Eu só soube que isto se passou quando eles regressaram e foram lá ao escritório, disse: "Olha, eu venho cá dizer, porque nós fomos, como tu sabes, de férias e visitei o Gonçalo e fomos apanhados por causa do Pedro Caldeira".
Libânia ainda pensa que o facto de ter falado demais ao telefone contribuiu para que as autoridades, mais tarde, chegassem ao ex-corretor. Mas a informação decisiva para encontrar Pedro Caldeira viria de outra pessoa. É que o detetive Dominique Chagas está a fazer progressos. Final de fevereiro de 1993. Falta menos de um mês para Pedro Caldeira ser apanhado. Um homem caminha dentro do aeroporto de Lisboa, discretamente, com uma mala porta-fatos. O suspeito anda com naturalidade. Aparentemente, ninguém repara nele, mas a Polícia Judiciária está a vigiá-lo e sabe exatamente o que ele está a tentar fazer. Dentro da mala estão roupas, jornais, produtos de higiene, guloseimas e papas Cerelac. Estão também notas, $6500 em notas. No momento certo, o homem é interceptado pelos inspetores. É um primo de Pedro Caldeira. Vive na Alemanha e já serviu de intermediário entre o corretor e o pai. Tinha trazido cartas e outros objetos que lhe chegaram dos Estados Unidos e está prestes a transportar uma encomenda em sentido contrário. Este canal de comunicação entre Pedro Caldeira e Portugal acaba de ser cortado. O corretor fica cada vez mais isolado. Dominique Chagas não desiste. Depois das investigações em Portugal, o detetive privado volta para os Estados Unidos. Quando suspeita que Pedro Caldeira está no país, começa a fazer perguntas e o ponto de partida são as bases de dados das companhias aéreas e dos aeroportos.
Depois fui logo pra América, andei dos aeroportos a saber das chegadas, etc. E depois comecei nas pegadas dele e foi assim que começou lá.
Está confirmado. Dominique Chagas acabou de encontrar Pedro Caldeira. O corretor e a família estão em Palm Beach. Com essa informação, vai falar diretamente com o FBI. Já tinha um contacto, o agente Muller.
Sempre que tinha alguma novidade, eu entrava em contacto com esse Muller. Penso que foi através dessas informações que foi mais facilmente. O agarrou.
O FBI pode finalmente pôr-se em campo. O fugitivo português mais procurado dos últimos meses está prestes a ser capturado. Os agentes cercam a casa em Palm Beach, onde têm a indicação de que Pedro Caldeira está. Lançam a operação mas quando finalmente entram, percebem que há algo de errado. A casa está vazia. Algumas semanas depois, o corretor é localizado pela segunda vez, noutro bairro, não muito longe. E o processo é o mesmo: o mandado de detenção é reativado com nova morada. Os agentes do FBI chegam à casa mais uma vez prontos para o deter. Mas a história repete-se. Não está ninguém. Caldeira e a família tinham saído um ou dois dias antes. É neste momento que na PJ se começa a gerar uma suspeita. Há uma fuga de informação. Alguém está a avisar Pedro Caldeira. Mas essa é uma história para o último episódio. No próximo episódio.
Porque a polícia gosta de fazer show off e mostrar que conseguiu apanhar um fugitivo, quando, no fundo, ele nessa altura não era fugitivo nenhum.
O nosso homem tinha um savoir-faire, umas palavras tão doces para todos. Ele continuava a ser o mesmo. Estive sempre à espera de um grãozinho onde ele pudesse tropeçar e ele nunca tropeçou.
"O Encantador de Ricos" é uma série em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, São José Correia, e tem banda sonora original de The Legendary Tigerman. O guião e as entrevistas são de Edgar Caetano. A edição é de João Santos Duarte. A sonoplastia é de Artur Costa. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos sons retirados do YouTube. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast. Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis.
