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Se quiser ouvir todos os episódios de seguida, basta ser assinante Standard ou Premium do Observador. Para assinar, vá a observador.pt/assinar. O rasto de Duarte Lima pelo Brasil limita-se a umas quantas entradas e saídas no país. Onde ele é conhecido é em Portugal. E há uma porta a que a polícia brasileira não bateu logo nos primeiros dias: o número 174 da Rua Gomes Freire, em Lisboa, a sede da Polícia Judiciária. Já se passaram meses desde o aparecimento do corpo de Rosalina, quando Aurélio Nascimento fala finalmente com Vítor Alexandre, subdiretor da PJ de Lisboa.

Houve contactos, efetivamente, entre o Aurélio do Nascimento, o comissário responsável pela investigação, com a Polícia Judiciária, através de mim. E, portanto, nesses primeiros contactos, ou o primeiro contacto, é-me relatado, numa conversa normal entre polícias, o que é que tinha acontecido, com alguns pormenores, para me pôr ao corrente, minimamente, dos factos.

Na conversa, a equipa Saturno 46, da Polícia Civil, quer algumas informações que possam ser úteis para o que está a ser feito no Brasil. Querem perceber quem é Duarte Lima.

Suscitou, digamos, uma ou duas ou três questões, mais de natureza informativa, aquelas questões normais que os polícias colocam, se a pessoa é conhecida, se não é, em Portugal, se não está. Enfim, um conjunto de questões meramente informativas e sem valor processual. Digamos que era só para orientar o investigador, dotando-o de um conhecimento maior sobre a pessoa que estava em investigação, como é que ela era vista em Portugal, se existiria algo contra ele. Um conjunto de questões e de respostas que pretendia obter da minha parte, que lhe fizessem um quadro da personalidade da pessoa que eventualmente teria cometido o crime que estava em investigação.

Agora, a polícia brasileira sabe que o principal suspeito da morte de Rosalina Ribeiro, a última pessoa a ter estado com ela em vida, é um homem muito conhecido em Portugal.

Duarte Lima é fundador. Duarte Lima, enquanto-

E muito, muito poderoso.

Chama-se Domingos Duarte Lima.

Ao longo de décadas, Duarte Lima foi assessor no governo e foi deputado no Parlamento. Foi eleito para a Assembleia da República por Bragança entre 1983 e 1995. Depois, por Lisboa, entre 1999 e 2002, e novamente por Bragança entre 2005 e 2009. Durante o cavaquismo, quando o PSD governou o país com maioria absoluta, foi vice-presidente da Comissão Política Nacional do partido. E foi líder do grupo parlamentar durante quatro anos, o que fez dele uma das pessoas mais influentes do país. Ganhou o hábito de organizar jantares luxuosos em casa, que juntavam os principais banqueiros portugueses e os políticos mais importantes. Mas, além do poder, havia as suspeitas e as acusações. Como os polícias brasileiros irão descobrir, a ascensão de Duarte Lima foi feita de muitas sombras. Como é que tinha conseguido juntar tanto dinheiro? Qual o verdadeiro património que controlava? Onde é que acabava a verdade e começavam as mentiras na vida pessoal? Se queriam resolver o homicídio de Rosalina Ribeiro, tinham primeiro de perceber quem realmente é Duarte Lima. "As Sombras de Duarte Lima" é uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, João Reis, com banda sonora original de Filipe Raposo. Episódio quatro: Um Homem Muito Poderoso.

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Em Lisboa, Domingos Duarte Lima começou uma segunda vida. O fim da pobreza e o início do luxo. Foi na capital, onde chegou nos primeiros anos da década de 70, que em pouco tempo conquistou o que nunca tinha tido. Domingos perdeu o pai, funcionário da EDP, aos 11 anos Adérito Lima morreu de cancro e ele, o quinto de nove filhos, acabou por se tornar o único apoio da mãe, Maria de Jesus Duarte. A família vivia com dificuldades e Domingos era o mais velho ainda a viver em casa nessa altura. Teve de deixar a escola e de começar a trabalhar. Com o dinheiro ajudava a mãe e também fazia poupanças. Começou a passar férias em casa das irmãs mais velhas, em Lisboa, e aos 18 anos mudou-se definitivamente para a capital. Voltou a estudar para acabar o liceu e trabalhou para a imobiliária de um tio. Em cinco anos, fez dinheiro suficiente para construir uma casa para a mãe na terra. Muitos veem-no como um exemplo.

Lima vem de um meio muito pobre, é um excelente aluno na universidade, é o homem que tocava o órgão.

Dentro de poucos anos, José Pacheco Pereira vai cruzar-se com Duarte Lima na política. Lembra uma das características que ajudou a construir a imagem de um homem culto. Adorava música sacra e aos 13 anos já era organista na Sé de Miranda do Douro. Continuaria a tocar com regularidade em algumas das principais igrejas. Um dia, quando foi entrevistado na RTP, filmaram-no a tocar Bach no órgão da Igreja da Lapa, no Porto, considerado um dos mais emblemáticos do país. Entra no curso de Direito da Universidade Católica, em Lisboa, em 1976, com uma bolsa de estudos. Os colegas reparam na forma como se veste, nos hábitos e nos gostos que tem. Não faz muitos amigos. Uma exceção é Margarida Amarante, que além de ser colega na faculdade, também é militante do PSD. Têm isso em comum. Duarte Lima aderiu ao partido em 1974, por ser um admirador de Sá Carneiro. É ela quem o apresenta a Ângelo Correia, que se vai tornar numa espécie de protetor de Duarte Lima. A partir daí, é tudo muito rápido. Com 25 anos, o jovem transmontano passa a ser assessor político e de comunicação de Ângelo Correia no Ministério da Administração Interna. Logo de seguida, é eleito deputado. Estamos em 1983. No Parlamento, tem agora rendimentos de 53 contos líquidos por mês, o equivalente a 1939 € hoje em dia. Tem uma casa em Miranda do Douro, comprada com um empréstimo do Montepio, uma casa em Linda-a-Velha, onde vive, e um Toyota Carina. Mas como se perceberia em breve, isto era apenas o começo. Duarte Lima vai tornar-se um dos homens mais poderosos do cavaquismo. Em 1989, é escolhido para vice-presidente da Comissão Política Nacional do PSD e dois anos depois ocupa um dos lugares mais importantes do regime. Lidera o grupo parlamentar do partido durante a segunda maioria absoluta de Aníbal Cavaco Silva. É nessa altura, em 1993, que um fax dirigido a Duarte Lima chega à Assembleia da República. É de um empresário de Mogadouro que quer um favor, que ele fale com o presidente da Câmara de Vinhais para que a construtora que detém seja escolhida para uma obra pública. Mas comete um erro. O empresário engana-se no número do fax e envia o pedido de favor para a sala do grupo parlamentar do Partido Socialista. O caso vai parar aos jornais e uma notícia do Público obriga Duarte Lima a justificar-se. O deputado garante que nunca acedeu ao pedido do construtor e a polémica vai sendo esquecida. Mas a 9 de dezembro de 1994, o jornal "O Independente" lança uma nova investigação que vai abalar a política nacional e até ameaçar as bases do cavaquismo. O jornal escreve que o património de Duarte Lima já não tem nada que ver com o que o deputado declarou em 1991, quando entrou na Assembleia da República. Na política e em algumas redações, já se comentavam os sinais exteriores de riqueza. Agora, a manchete revela propriedades luxuosas e levanta dúvidas sobre a forma como foram compradas. Em causa estão três apartamentos em Lisboa e uma quinta em Sintra. Duarte Lima não surge como proprietário de todos os imóveis, mas os indícios de que lhe pertencem são fortes. A ascensão financeira de Domingos Duarte Lima começou em 1987. Nesse ano, explica o deputado ao Independente, terá lucrado 80 mil contos com o investimento de 20 mil na Bolsa de Lisboa. Um valor que, segundo o jornal, é ainda assim insuficiente para explicar todo o património que adquiriu desde então. Foi justamente em 1987 Que Duarte Lima se mudou de um modesto apartamento em Linda-a-Velha para um luxuoso andar de 300 m² no edifício Via Veneto, na Avenida João XXI, em Lisboa. Viveu seis anos nessa casa, mas nunca fez escritura e, por isso, nunca pagou a SISA, um imposto semelhante ao IMT. Fez um contrato promessa de compra e venda e acordou que pagaria pelo apartamento 36 mil contos em quatro prestações. O vendedor era o construtor José Cristóvão, que antes da independência de Angola, era o dono do Hotel Presidente, em Luanda. Foi o próprio construtor quem revelou ao Independente que tinha feito um acordo com Duarte Lima. Se ele conseguisse, através dos contactos privilegiados que tinha, fazer com que o governo angolano lhe devolvesse o hotel, José Cristóvão oferecia-lhe um apartamento avaliado em 80 mil contos. Apesar de Duarte Lima não ter conseguido, em 1991, ambos acordaram uma troca do apartamento do edifício Via Veneto, que Duarte Lima estava a pagar, por outro junto ao Campo Pequeno, numa zona nobre da capital. São, na verdade, dois apartamentos no 11° andar do elegante e recente edifício Vale Mor, a fração A e a fração B, mas foram unidos ainda durante a fase de construção. O Independente escreve que tudo foi combinado entre o construtor e Duarte Lima. O apartamento tem agora 500 m², um elevador privativo que vai da garagem até ao hall de entrada. Não tem interruptores de luz porque tudo é automático e, segundo o Independente, foi decorado com um luxo asiático que custou largas dezenas de milhares de contos. Há um detalhe. Só metade do piso, ou seja, a fração B, está no nome de Duarte Lima. A outra metade, a fração A, foi escriturada em nome de Emília Fonseca, mãe de Vítor Fonseca, homem de confiança do deputado e, até o início daquela investigação jornalística, adjunto dele na direção do grupo parlamentar do PSD. Assim que os jornalistas começaram a fazer perguntas, escreve o Independente, Vítor Fonseca deixou a Assembleia da República. Há, pelo menos, outras duas situações suspeitas. A primeira: as casas foram compradas por um preço muito abaixo do valor de mercado. Os dois apartamentos, somados, custaram 116.500 contos, o equivalente agora a mais de €1.200.000. Mas, segundo a investigação do Independente, um apartamento idêntico naquele prédio custa 230 mil contos, o dobro. A segunda situação estranha: o líder parlamentar do PSD paga pelo empréstimo ao banco uma mensalidade de 268 contos e diz que ainda gasta mais 200 contos com o arrendamento do apartamento do lado à mãe de Vítor Fonseca. Ou seja, seriam 468 contos no total. Como o salário do líder parlamentar pode chegar, no máximo, aos 510 contos, aqueles encargos, a serem reais, representariam quase todo o rendimento mensal dele. A quarta propriedade referida na investigação do Independente é bem maior. É conhecida como a Quinta dos Muros Altos, na zona de Janas, em Sintra. Tem três hectares e valia, à altura, cerca de 124 mil contos. Mas, mais uma vez, não está em nome de Duarte Lima. Foi escriturada por Alda Maria Lima, uma modesta sobrinha do deputado, escreve o Independente. Segundo o jornal, foi Duarte Lima quem tratou de tudo com o vendedor e o adjunto dele, Vítor Fonseca, também esteve envolvido no negócio. A quinta seria da sobrinha apenas no papel. O Independente descreve um episódio que reforça a suspeita. Um dia, Mário Soares, então Presidente da República, com casa em Farros, andava a passear pelas redondezas e reparou que a quinta estava em obras. Aproximou-se e perguntou aos trabalhadores que lá estavam quem era o novo proprietário. A resposta: Duarte Lima. Cavaco Silva está numa cimeira europeia em Essen, na Alemanha, quando sai a notícia do Independente sobre as propriedades do líder parlamentar do PSD. Questionado pelos jornalistas, o Primeiro-Ministro tenta distanciar-se da polémica.

Tem que perguntar ao Duarte Lima e ao grupo parlamentar. Não faço qualquer comentário, até porque não estou em condições, nem tenho informação suficiente para fazer, e nem faria.

Duarte Lima percebe que não pode mais manter-se em silêncio. Anuncia que vai falar com os deputados, com os líderes parlamentares dos outros partidos e com o Presidente da Assembleia da República. Já tinha feito uma nota na sexta-feira, quando saiu o semanário A dizer que tudo não passava de especulação, mas percebe agora que isso não foi suficiente para conter os danos. Na segunda-feira, dia 12 de dezembro, há uma reunião do grupo parlamentar aberta à imprensa e Duarte Lima vai preparado para falar. Traz cinco páginas dactilografadas e faz um anúncio.

Tomo a decisão pessoal, que assumi sem ter consultado ninguém, mas que comuniquei recentemente aos meus colegas de direção, de autosuspender as funções de presidente do grupo parlamentar para que os meus colegas me designaram até que tudo esteja devidamente esclarecido. Esta é, para mim, a melhor forma de vos respeitar e de vos servir, e de respeitar e servir os meus eleitores.

No final, revela que vai enviar duas cartas, uma ao Procurador-Geral da República, pedindo a abertura de um inquérito, outra à Direção-Geral das Contribuições e Impostos, pedindo uma inspeção. Dois dias depois, o Procurador-Geral da República, Cunha Rodrigues, abre um inquérito-crime com caráter de urgência. Em comunicado, diz que as imputações, a provarem-se, poderiam indiciar infrações criminais. No Parlamento, José Pacheco Pereira, até aqui vice-presidente da bancada do PSD, assume a liderança. Dias depois, o jornal Público revela outra polémica. Duarte Lima não estava inscrito na Ordem dos Advogados quando tratava dos assuntos do Hotel Presidente, apesar de ter dito que agia na qualidade de advogado. Em março do ano seguinte, um documento do fisco, divulgado pelo próprio Duarte Lima numa conferência de imprensa, parece aliviar a pressão por garantir que não foram encontradas irregularidades.

Segundo as conclusões do inquérito, fica provado que sou apenas proprietário de um andar com valor de 45 mil contos, cito entre aspas, comprado com empréstimo bancário de 20 mil contos. O inquérito conclui igualmente ter sido o meu comportamento exemplar e inatacável perante a administração fiscal. Não estando eu em falta perante ela, cito de novo, em relação a qualquer dos atos que pedi que fossem investigados. Este relatório conclui que não estou em falta com nenhum dos meus impostos perante a administração fiscal. Contrariamente àquilo que se poderia concluir do Independente, o fisco nada me pede e eu nada lhe devo.

Mas dias depois, o Independente faz uma manchete com apenas duas palavras. "Mentes Lima". De acordo com o semanário, não foi feita qualquer investigação aos bens do deputado, como ele alega. A Direção-Geral de Contribuições e Impostos tinha-se limitado a responder a algumas questões estrategicamente colocadas pelo próprio Duarte Lima. O jornal faz mais perguntas e fica a saber que, afinal, o deputado tem dívidas de cerca de 800 contos de IVA. Na mesma altura, o jornal escreve também que a sobrinha de Duarte Lima vendeu a Quinta de Sintra a uma sociedade sediada nas Ilhas Virgens. Os compradores são dois uruguaios que confessam que nunca viram o imóvel. Têm um procurador no negócio que trata de tudo. Vítor Fonseca, o antigo assessor de Duarte Lima. Enquanto tudo isto acontece, Duarte Lima está doente, muito doente, com o mesmo cancro que matou o pai. Não o conta a muita gente, diz apenas a algumas pessoas, incluindo aos colegas da direção do grupo parlamentar e ao núcleo duro do governo de Cavaco Silva. Estamos em dezembro de 1994 e as notícias sobre o património apanham-no na pior altura possível. Está a piorar e tem de ir fazer um tratamento ao estrangeiro. A algumas pessoas diz mesmo que vai aos Estados Unidos. Fora do núcleo político, fala com uma jornalista do Diário de Notícias sobre a doença. Na altura, Eva Cabral era também diretora da revista Jovem Reformista, que era distribuída juntamente com o jornal do PSD, Povo Livre, de que Duarte Lima era diretor.

Lembro-me que fiquei chocada. Se uma pessoa te diz que tem leucemia, não te diz que vai tirar um caroço numa orelha. A pessoa fica chocada. Agora, há muitos tipos de leucemia.

Como não lhe foi pedido segredo, Eva Cabral usou a informação num perfil que foi publicado na edição do DN de 16 de dezembro. O título era "Um Solista Sob Suspeita". Passava uma semana da primeira manchete do Independente. Com cada vez mais notícias e suspeitas sobre ele, Duarte Lima desaparece. Diz que tem de se ausentar para um tratamento em Nova Iorque. Mas há algo que não bate certo. Todas as manhãs, muito cedo, contacta pessoas ligadas à direção do grupo parlamentar do PSD e parece já conhecer tudo o que saiu nos jornais que tinham acabado de chegar às bancas. A distância entre Portugal e Nova Iorque é grande. Não há internet e o fuso horário é diferente. Há quem comece a desconfiar que o deputado do PSD nunca saiu de Portugal. Mais, há quem no governo e no grupo parlamentar comece a pôr em causa que esteja doente. As dúvidas são tantas que um dia Duarte Lima é convocado para uma reunião de urgência em casa de José Silva Marques, vice-presidente da bancada parlamentar do PSD. Pacheco Pereira também está presente. São umas duas ou três da manhã. Duarte Lima aparece a ostentar uma novidade tecnológica, um telefone móvel de grandes dimensões. Falam primeiro sobre irregularidades que foram encontradas nas contas do grupo parlamentar durante a liderança dele. De seguida, confrontam-no com a doença. Silva Marques é um homem duro, que passou vários anos na clandestinidade durante o Estado Novo por pertencer ao PCP. Pede a Duarte Lima que mostre uma fatura dos tratamentos em Nova York ou qualquer outro comprovativo da clínica. Duarte Lima promete que vai arranjar. É nesse momento que Silva Marques explode. Irrita-se com a calma do deputado. Como é que alguém tão doente está a ser posto em causa e não sai porta fora quando lhe fazem aquele pedido? Quem está na reunião fica cada vez mais convencido de que tudo não passa de uma encenação. Duarte Lima é então convidado a ir para uma sala redigir uma carta de compromisso. Tem de assumir as irregularidades entretanto descobertas, nomeadamente com o uso do cartão de crédito do grupo parlamentar, e tem de comprometer-se a abandonar a liderança. O pedido de suspensão que fez já não é suficiente. Mantará, ainda assim, o mandato de deputado para preservar a imunidade parlamentar. Em fevereiro de 1995, Duarte Lima está em processo de divórcio da mulher. Na mesma altura, volta ao Parlamento e senta-se na última fila. A RTP diz que o regresso acontece após o período de convalescença de uma cirurgia, mas não explica o motivo da suposta operação. O inquérito-crime determinado pelo Procurador-Geral da República dura dois anos. Em 1997, fica a saber-se que foi arquivado. Por um lado, porque Duarte Lima e o sócio Vítor Fonseca pagaram os impostos em dívida. Por outro, porque algumas das suspeitas não configuravam um crime. Naquela altura, os crimes de tráfico de influências e branqueamento de capitais ainda não existiam na lei portuguesa. Mas a investigação chega a várias conclusões que questionam o enriquecimento rápido de Duarte Lima. O Ministério Público e a Polícia Judiciária acreditam que o apartamento Vale Mor foi comprado por um valor muito abaixo do mercado. O aluguer do apartamento da mãe do assessor era fictício. E Duarte Lima era o verdadeiro dono da Quinta de Sintra. Mas a conclusão mais surpreendente é que entre 1986 e 1994, Duarte Lima depositou nas próprias contas mais de um milhão de contos, tendo declarado ao fisco apenas 182 mil. A maior fatia dos depósitos foi feita entre 1992 e 1994, ou seja, quando era líder da bancada parlamentar. Duarte Lima apresentou três explicações. Os investimentos que fez na bolsa e no mercado não oficial de capitais, a compra e venda de obras de arte e os rendimentos como advogado. Mas o Ministério Público só encontrou dois clientes, a Associação Nacional de Farmácias e a construtora Mota & Companhia. Foram ainda localizadas no nome do deputado e de uma dezena de pessoas próximas dele, 35 contas bancárias cujos rendimentos dos titulares não justificavam os depósitos. Por isso, a investigação conclui que há indícios de manobras de simulação de capitais, ainda que não se tenham conseguido apurar factos que integrem o abuso de poder da função de deputado. Em 1997, Duarte Lima decide voltar a um lugar influente na política. Candidata-se à presidência da distrital do PSD Lisboa contra Pacheco Pereira e o jovem Pedro Passos Coelho. Consegue ser eleito, mas no ano seguinte é diagnosticado com uma leucemia aguda. Passa meses em isolamento num quarto de 10 metros quadrados. Pede para levar para o hospital um órgão que toca de auscultadores nos ouvidos para não incomodar os outros doentes. Em alguns momentos, chega a ver os amigos através de um vidro. Passam pelo IPO vários políticos, incluindo o presidente do PSD, Marcelo Rebelo de Sousa. O tratamento chega ao fim com sucesso Após serem feitos testes de compatibilidade genética, descobre-se que o irmão Joaquim pode ser o dador de medula. Nos estúdios da SIC, meses depois, Duarte Lima fala com a amiga Margarida Marante sobre a doença. A entrevista é exclusivamente sobre o cancro. O deputado descreve como viveu o choque de receber o diagnóstico.

Um mês antes, tinha tudo bem na minha vida, um checkup absolutamente normal e, por um mero acaso, para fazer um seguro de vida, passado um mês, eu tive que repetir esses exames e descobri que tinha essa doença. Claro que a companhia de seguros já não pôde aceitar os documentos para o seguro de vida, mas esses exames foram, efetivamente, o verdadeiro seguro para a minha vida. A sensação é a sensação de morrer antes de morrer.

Durante toda a conversa com Margarida Marante, Duarte Lima nunca refere que anos antes já teria tido cancro, nem fala dos pretensos tratamentos em Nova York que motivaram a reunião com Silva Marques. Há relatórios médicos posteriores onde consta o histórico clínico dele. São assinados pelo médico Manuel Abecasis, que o tratou no IPO e que com ele viria a fundar a Associação Portuguesa Contra a Leucemia. Também aí nunca é referido qualquer episódio de doença oncológica anterior. A doença funciona como uma espécie de redenção para Duarte Lima. No ano 2000, volta a casar, desta vez com Maria Paula, uma antiga secretária. Ela tem 36 anos, ele 44. A mulher passa a acompanhá-lo em eventos relacionados com a recém-criada Associação Portuguesa Contra a Leucemia. Em algumas galas de recolhas de fundos, estão personalidades como Cavaco Silva e a mulher, assim como Manuela e António Ramalho Eanes. Há também desportistas e músicos a participar nos eventos. Duarte Lima organiza também luxuosos jantares na casa da Visconde Valmor, onde vive. Convida individualidades da banca, como Oliveira e Costa, João Rendeiro e Ricardo Salgado, políticos como o ex-primeiro-ministro José Sócrates, o antigo ministro da Cultura Manuel Maria Carrilho e Adriano Moreira. Tudo está feito para impressionar. Desde a milionária decoração da casa, assinada por Graça Viterbo, às paredes repletas de obras de arte, passando pelo chef que confecciona os pratos na hora, Luís Suspiro. Duarte Lima está lá para receber e para criar redes de influência. Apresenta os amigos uns aos outros e sai reforçado com essas ligações. Terá sido lá, por exemplo, que José Sócrates conheceu pessoalmente Ricardo Salgado. Em 2011, a revista "Sábado" escreve que um dia, um amigo mais atrevido perguntou a Duarte Lima de onde vinha tanto dinheiro, dado que não lhe eram conhecidos clientes. O advogado terá respondido que só trabalhava num caso: o caso de uma herança. Outubro de 2010. Passam nove meses desde que os investigadores brasileiros falaram ao telefone com Duarte Lima. Desde 15 de fevereiro, dia em que lhes enviou um e-mail a informar que tinha uma reunião marcada para pedir o levantamento do sigilo profissional, nunca mais tiveram notícias dele. Não sabem sequer se esse pedido foi ou não aceito pela Ordem dos Advogados. Após os contactos informais com o subdiretor da PJ de Lisboa, Vítor Alexandre, e com o procurador Rosário Teixeira, que está a investigar Duarte Lima no processo BPN Homeland, Aurélio Nascimento e Rogério Lima formulam uma série de perguntas que são enviadas por carta rogatória para as autoridades portuguesas. Estão ali todas as dúvidas que têm sobre Duarte Lima, recorda Vítor Alexandre.

O que acontece é que as autoridades brasileiras, em determinado momento, têm que dar um salto qualitativo, chamemos-lhe assim, ou específico na investigação. Como o crime ocorre num país estrangeiro, naturalmente, as autoridades estrangeiras não podem atuar em Portugal, não podem vir no país onde pretendem obter informação e vão fazê-lo de diferentes formas. Pode ser por carta rogatória ou através, hoje, de modernos meios de colaboração e, portanto, de introduzimento de informação ao nível jurídico.

Se Duarte Lima se disponibilizasse para falar diretamente com a polícia do Brasil, o processo seria mais rápido. Mas desde o início que o advogado deixou bem claro que isso não ia acontecer. Não havia outra alternativa senão ouvi-lo através da Polícia Judiciária.

Chega ali por alturas de outubro de 2010. Nós agarramos naquela carta como se fosse um qualquer processo. Não era um inquérito, era uma carta rogatória, como disse, e começámos a trabalhar, vimos o que é que as autoridades pretendiam.

Alguns dias depois de a carta rogatória do Brasil chegar a Portugal Domingos Duarte Lima é chamado à sede da PJ em Lisboa. Vai finalmente ser ouvido pela polícia portuguesa sobre o homicídio de Rosalina Ribeiro. Os inspectores têm 193 perguntas para lhe fazer. Duarte Lima chega, senta-se e informa: não vai responder a nenhuma.

Usufruiu do direito legal que lhe assistia de não querer prestar declarações. Tomámos nota, formalizámos esta intenção, encerrou-se o auto, assinou e foi devolvido às autoridades brasileiras esta posição processual do doutor Duarte Lima.

A defesa de Duarte Lima alega desconhecimento sobre a condição em que era suposto o cliente ser ouvido, se como testemunha ou como suspeito. Quando são informados do que aconteceu, Aurélio Nascimento e Rogério Lima percebem que Duarte Lima nunca vai colaborar com eles e decidem encontrar sozinhos todas as respostas, a começar pelo carro que o advogado português alugou na véspera do crime. Na esperança de encontrarem uma pista, vão voltar à estrada que liga Niterói a Maricá. Vão analisar centenas de multas e vão cronometrar o percurso que vai dar ao local onde Rosalina Ribeiro foi assassinada. Mas essa é uma história para o próximo episódio. Se for assinante Standard ou Premium do Observador, não tem de esperar e pode ouvir já todos os episódios. Se ainda não for, basta assinar em observador.pt/assinar. No próximo episódio.

Eu pergunto a ele: "Então o senhor pode ver e me dizer depois onde o senhor alugou esse carro?" E ele nunca disse. Ele nunca falou. Por que o carro era importante? Por tudo que se descobriu depois do carro. Por que os tapetes do carro sumiram? Por que o carro foi entregue lavado? O que não é normal.

Não há relação entre mim próprio e o desaparecimento da senhora dona Rosalina Ribeiro, a não ser o facto de eu ter sido uma das últimas pessoas a ter estado com ela no dia em que ela desapareceu. É óbvio que há uma má conduta. Eu não me lembro, na minha vida, enquanto pessoa que tem consciência de si mesma, de assistir a uma montagem tão vil e tão tenebrosa em relação a alguém.

O Observador contactou Domingos Duarte Lima, mas o advogado recusou ser entrevistado para este podcast. "As Sombras de Duarte Lima" é uma série para ouvir em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, João Reis, com banda sonora original de Filipe Raposo. O guião e as entrevistas são de Carlos Diogo Santos. As entrevistas a Olímpia Feteira, Maria Alcina e Rosemary Spinella foram feitas em 2015. A sonoplastia deste episódio é de Artur Costa. O design gráfico é de Miguel Ferraz Cabral. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos sons da SIC, do arquivo da RTP e do YouTube. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast.

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