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Já passa das 10 da noite quando o telefone toca no quarto do hotel. É de lá de baixo, da receção. Os funcionários deste hotel de luxo em Atlanta, nos Estados Unidos, só estão a ligar para confirmar que a família portuguesa hospedada no quarto 4031 mantém a intenção de sair na manhã seguinte. Sim, é esse o plano, acordar e seguir viagem.
Thank you, good night.
Não será uma boa noite. Na verdade, está quase a tornar-se a pior noite da vida daquela família. Alguém bate à porta, mas a força é tanta que quase a deita abaixo. É a filha, ainda adolescente, que se levanta para ir abrir. Aproxima-se, roda a maçaneta e a porta é logo empurrada com grande violência. Cinco homens armados irrompem pelo quarto. Um deles corre até ao pai, aponta-lhe uma arma à cabeça e encosta-o à parede com as pernas afastadas. O filho mais novo começa aos gritos e dá pontapés ao polícia, que o tenta afastar. Só tem 11 anos, não percebe o que está a acontecer. No primeiro momento, a própria mãe também pensa que a família está a ser assaltada. Mas não. Aqueles homens são agentes da polícia norte-americana, o FBI. Um dos agentes manda os miúdos calarem-se. O FBI suspeita que o homem possa estar armado e que pode até ter guarda-costas, mas o pai grita em inglês: "Não, não há armas no quarto". Garante que não está ali mais ninguém além daquela família de quatro pessoas. A tensão desce-se um pouco. O polícia deixa o pai abraçar finalmente os filhos, mas mantém sempre a pistola apontada. Outro agente revista-o enquanto lhe lê os direitos.
You have the right to remain silent. Anything you say can and will be used against you in the court of law.
Os agentes viram o quarto do avesso. Camas, gavetas, sacos, roupas, tudo. Tudo é revistado. Não encontram nada. Não há armas nem capangas, mas há um cofre e é o português que aponta para lá. Estão ali US$ 15 mil, diz aos polícias, que estavam à espera de encontrar milhões. Nos últimos meses, aquela família já tinha escapado por um triz a duas operações de captura do FBI. Há muito que estavam a ser seguidos pelas autoridades internacionais e até por um detetive privado. Agora, foram finalmente encontrados. E daqui a poucos minutos, o pai estará a ser levado pelos agentes para uma das prisões mais violentas dos Estados Unidos. Para o proteger, será posto na solitária, enquanto aguarda, desesperado, pela extradição para uma cadeia portuguesa. Em Portugal também o querem de volta rapidamente, porque a verdade é que este homem não é um fugitivo qualquer. A entrada de rompante do FBI no quarto de hotel em Atlanta acontece na noite de 19 de março de 1993. É a data em que se celebra o Dia do Pai. E o pai, aqui, chama-se Pedro Caldeira. Até há bem pouco tempo, ele era o príncipe da bolsa. Chegou a ganhar qualquer coisa como nove milhões de euros em menos de seis anos. Bateu recordes. No pico do seu poder, tornou-se o profissional liberal que mais impostos pagou na história do fisco português. Tinha nas mãos o dinheiro de boa parte dos ricos e poderosos e era uma das principais figuras da alta sociedade de Cascais. Todos queriam estar com ele, todos queriam ser vistos com ele e todos queriam fazer negócios com ele. Quando fugiu de Portugal, deixou para trás um buraco de milhões e um país em sobressalto. Como um encantador de serpentes, Pedro Caldeira encantava ricos e poderosos. Achava-se de tal forma invencível que os outros acreditavam que o dinheiro ia sempre aparecer. E ele também. Mesmo quando havia obstáculos, dava sempre a volta por cima. Até ao dia em que não houve mais volta a dar. Este é o "Encantador de Ricos", uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, São José Correia, com banda sonora original de The Legendary Tigerman. Episódio um: a máquina de fazer dinheiro.
Esta é uma história real e é o conhecimento da história que guia a Honda em direção a um futuro melhor. Nesta viagem, os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis. Vamos continuar este percurso juntos, porque a Honda tem muito para contar, mas também tem muita vontade de ouvir.
Foi amor à primeira vista. E como tantas outras grandes histórias de amor, foi fruto de um acaso. Há um dia, em 1972, em que um professor universitário falta às aulas. Na verdade, Pedro, na altura com 22 anos, pouco se terá importado com este furo. Andava a arrastar-se no curso. Aquilo não era pra ele. Foi pra Engenharia Mecânica no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, mais para fazer a vontade ao pai do que por outra coisa. Naquele dia em que um professor falta por estar doente, Pedro Caldeira vai para o bar da faculdade matar tempo com um colega. Não têm nada pra fazer. É então que o amigo conta que herdou algumas ações e quer ir à Bolsa de Valores, que fica na baixa de Lisboa, saber ao certo quanto valem. E faz a pergunta que vai mudar a vida de Pedro Caldeira pra sempre: "Queres vir comigo?" O momento em que Pedro entra pela primeira vez na Bolsa vai mudar tudo. Nunca mais vai querer sair. O ar é quase irrespirável com tanto fumo de cigarro. Na sala da Bolsa de Valores, há gritos por todo lado. Uns querem vender, outros querem comprar. E ainda há apenas curiosos que querem assistir a todo aquele frenesi de perto, aos pregões constantes e aos preços das ações a serem escritos a giz em quadros de ardósia. Caldeira ainda está encantado com aquele rebuliço quando vê aproximar-se outra figura-chave nesta história. Abílio de Sousa, um dos corretores mais experientes da Bolsa de Lisboa naqueles tempos. O jovem estudante do Técnico já o conhecia. Aliás, é primo dele por afinidade. Cumprimentam-se, falam um pouco. Abílio é uma pessoa prestável e decide ajudar o amigo Caldeira com as ações que tinha herdado. O grande poder dos corretores naqueles anos era este: todos os negócios na Bolsa tinham de passar por eles. Além disso, eram uma espécie rara. Havia pouco mais de meia dúzia em todo o país. Um deles era Maria Cândida Rocha e Silva, atual presidente do Banco Carregosa e a primeira mulher a trabalhar como corretora em Portugal.
Recebia as ordens, encontrava-se no floor com os seus colegas. "Eu tenho isto pra vender, tens isto pra comprar?". Vínhamos pro escritório e depois, de quem recebia os títulos, eu tinha que entregar o dinheiro. De quem recebia o dinheiro, eu tinha que entregar os títulos.
Nos mercados financeiros modernos, há grandes empresas com computadores a processar milhões de operações por segundo. Mas na altura, tudo era feito à mão por um pequeno grupo de pessoas. E é por aí que vai começar o sarilho. Uma semana depois de entrar na Bolsa pela primeira vez, Pedro Caldeira já decidiu: nunca mais quer voltar pra uma sala de aulas. Nem sequer chega a acabar o curso. Vai perceber rapidamente que a sua verdadeira vocação é outra, é ser uma máquina de fazer dinheiro. Aquele mundo onde o poder e os milhões se cruzam, atrai-o. Depois de um almoço com Abílio de Sousa, o primo corretor, Caldeira passa a ir à Bolsa todos os dias. Abílio vê qualquer coisa nele e convida-o para trabalhar no escritório. Mas nem todos acham boa ideia. O pai é contra. Insiste que o filho termine o curso de engenharia. Só muda de opinião quando percebe que Pedro vai passar a ganhar 10 contos por mês. E isso é só pra começar. É o dobro do que o pai ganha no exército. Naquele tempo, comprava-se um carro novo por 50 contos. Caldeira é que nunca teve dúvidas. Quando sabe o que vai ganhar, oferece-se pra começar logo no dia seguinte. Mas como é que se podia pagar um salário tão alto a um miúdo sem qualquer experiência e que nem tinha acabado o curso na faculdade? Porque o movimento na Bolsa cresceu de repente e a concorrência entre os corretores era pouca. No início dos anos 70, há muitas empresas cotadas, cerca de 85. Nuno Valério, professor de História Económica no ISEG, recorda que foram anos de especulação desenfreada.
Estamos na fase final da segunda e maior época de ouro da economia mundial, com, em quase todo o mundo, as maiores taxas de crescimento que devem ter existido desde sempre. E o mesmo se passava em Portugal.
As ações e títulos financeiros são simples papéis transportados aos molhes em carrinhos de mão, de um lado pro outro, nas ruas da baixa lisboeta. As pessoas formam fila logo de manhã pra serem as primeiras a jogar na Bolsa, como se de um cassino se tratasse Toda a gente que tem algumas poupanças quer entrar. Veem o vizinho e o amigo a ganhar dinheiro rapidamente e não querem ficar de fora. Em muitos casos, fazem-se fortunas de um dia para o outro.
Nessas ocasiões, as pessoas não sabem verdadeiramente em que é que estão a investir. Isto é, sabem que o mercado está a subir e querem aproveitar.
No Porto passa-se o mesmo. Trocam-se títulos e ações como quem troca cromos da bola. Quem compra está convencido de que amanhã ou depois vai conseguir vender mais caro.
Havia uma rua, que era a rua Sampaio Bruno, vulgarmente chamada Wall Street, onde as pessoas transacionavam. Mil Sonae, dá-me cá isto, Cimentos Tejo, dá-me cá o dinheirinho. Era como quem vendia papéis, laranjas, fosse o que fosse. Realmente, isto era uma atividade muito tentadora, porque as pessoas ganhavam dinheiro com muita facilidade e muito rapidamente. Houve pessoas que foram endividar-se junto da banca para poderem especular e daí ter havido casos de pessoas que se suicidaram.
Naquela altura, a bolsa não tinha estrutura para aguentar todo aquele movimento. Havia compras a mais, vendas a mais e dinheiro a mais a andar de um lado para o outro. Era um verdadeiro faroeste. Os corretores precisavam de ser rápidos e ágeis. E como se iria perceber em pouco tempo, o mais rápido e ágil de todos era Pedro Caldeira. Tudo começou como um jogo. Ela tem apenas 18 anos e trabalha numa loja de roupa em Cascais. Um dia, uma amiga, que também trabalha na mesma loja, lança-lhe um desafio: trocar as agendas telefónicas em papel, onde apontavam os números de telefone dos amigos e conhecidos. O jogo passa por ligar, à sorte, para um número qualquer e tentar marcar um encontro. Cristina começa por recusar. Acha o jogo sem sentido, mas fica com a agenda. E um dia, sozinha em casa, decide arriscar. Percorre as anotações confusas da amiga. São quase todas alcunhas ou apenas nomes próprios, sem qualquer contexto. Até que liga para o número da primeira pessoa que lhe aparece com o nome completo. Cristina arrepende-se, pousa o telefone de repente, mas numa fração de segundos volta a ganhar coragem. Disca o número e desta vez deixa tocar. Primeiro ninguém atende. Depois, uma voz masculina surge do outro lado. É Pedro Caldeira. Cristina explica que não se conhecem, mas que têm amigos em comum. Pedro desculpa-se, diz estar ocupado. A conversa não dura muito. Mas a jovem não desiste. E é ela que, noutra ocasião, volta a ligar, como recordaria anos mais tarde numa biografia de Pedro Caldeira, autorizada pelo próprio. Os telefonemas sucedem-se e Pedro fica cada vez mais intrigado com aquela miúda persistente de sotaque espanhol. Decidem marcar um encontro no Muchacho, um restaurante com vista para as escarpas da Praia do Guincho. O namoro entre a jovem loira e bonita e o rapaz quatro anos mais velho, bem-parecido e bem-vestido, começou logo ali. Cristina tem pai português e mãe basca. Nasceu quando os pais estavam numa quinta da família em Almada, mas acabou por passar os primeiros 17 anos da vida em Espanha. Regressou a Portugal antes dos 18 para viver sozinha, coisa rara naquela época. E é em Cascais que vislumbra o futuro glamoroso que quer ter. Cristina entra naturalmente nos círculos da alta sociedade de Cascais, pelos contactos que faz com as clientes na boutique de roupa e também através dos trabalhos como babysitter em casas de boas famílias. É ao lado dela e das amigas que Caldeira começa a estar em jantares com banqueiros e grandes homens de negócios na altura, como Jorge Espírito Santo ou Jorge de Brito. Menos de um ano depois de se conhecerem, casam-se numa pequena cerimónia numa igreja de Sintra, em dezembro de 1973. Como todos os noivos, prometem que estarão juntos na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza. E estiveram mesmo. Vinte anos mais tarde, Cristina estará ao lado dele e dos dois filhos quando o FBI entrar de rompante num quarto de hotel nos Estados Unidos para o prender. 1973 é o ano em que a vida de Pedro Caldeira começa a mudar. E não apenas por causa de Cristina Poucos meses depois de começar a trabalhar na Bolsa de Lisboa, surge uma grande oportunidade. O primo, Abílio de Sousa, convida-o para ocupar o lugar de proposto. É um cargo importante. O proposto é uma espécie de adjunto que pode substituir o corretor na bolsa e acaba por ser, no fundo, um candidato a receber também uma licença própria no futuro. Sem essa licença, ninguém pode ser corretor. Pedro Caldeira sente-se completamente à vontade naquele trabalho. É preciso muito mais um pensamento rápido do que um conhecimento acadêmico. E o talento para lidar com pessoas faz com que se destaque rapidamente. Maria Cândida Rocha e Silva conheceu-o nessa altura.
O Abílio era uma pessoa de contas, de organização, e o Pedro Caldeira era um homem de relação. E depois, como era uma bonita figura e como recebia muito bem as pessoas, era um ótimo comercial.
Não demora até Caldeira começar a ganhar muito mais do que os 10 contos por mês. Há meses em que tira mesmo mais de 100 contos. E, tão ou mais importante que isso, já tem na agenda muitos contactos influentes. Entre eles, Eduardo Furtado, presidente do Banco Sotto Mayor, o banco ao qual Caldeira há de ficar a dever milhões, anos mais tarde. Mas há outros problemas que vão começar a surgir antes disso. Há poucas coisas que podem obrigar a fechar uma bolsa de valores. Uma delas é uma revolução. A economia mundial já está a perder folgor desde 1973, mas na Bolsa de Lisboa, o grande choque só chega com o 25 de Abril. Depois de terem triplicado no espaço de apenas dois anos, as ações caem subitamente mais de 80% por causa da revolução. Recorda o professor Nuno Valério.
Aquela bolha especulativa que tinha existido entre 71 e 73 rebentou e foi o fim dessa primeira fase de grande entusiasmo bolsista em Portugal.
Durante o processo revolucionário, empresários e banqueiros fogem para o estrangeiro com medo de serem acusados de sabotagem económica. Abílio de Sousa, o patrão de Caldeira, é um dos que preferem sair do país à cautela. Mas Caldeira ainda é jovem e não liga muito à política. Decide ficar e continua no escritório. Mesmo com a bolsa fechada, ainda há algum trabalho a fazer, como cortar à tesoura os cupões dos títulos de obrigações. Todos os meses há que levar os cupões aos bancos, receber os juros e depositá-los na conta dos clientes. Pedro Caldeira chega a ter um convite para trabalhar no Banco de Portugal, mas a mulher, Cristina, olha para o cargo como rotineiro, enfadonho. Caldeira acaba por concordar e continua no escritório de Abílio de Sousa, mesmo com a bolsa fechada. Mas a dada altura, deixa de haver dinheiro para pagar os ordenados e ele sai. Aparentemente, o grande sonho da bolsa termina ali. Caldeira faz de tudo para ganhar a vida. Cria uma empresa de recortes de imprensa, que destaca notícias sobre Portugal para serem lidas no país e no estrangeiro. Aquilo a que hoje se chamaria clipping. O trabalho é muito, como na bolsa, mas com uma grande diferença: o dinheiro é pouco. Experimenta vender acessórios para equipamentos de som de alta fidelidade e até aposta na indústria de macacos pneumáticos para carros, que lhe corre um pouco melhor. Neste período, é Cristina quem faz mais sucesso. Abre a própria loja de roupa, a Caché, e começa a tornar-se famosa em Cascais, a movimentar-se no jet set e a aparecer nas festas da alta sociedade. Dali a alguns anos, será comum ver Cristina Caldeira na imprensa cor-de-rosa ao lado de figuras como Lilica Nessas ou Margarida Prieto, mulher de Manuel Damásio, empresário que viria a ser presidente do Benfica. É neste período em que Caldeira está fora da bolsa que o casal tem a primeira filha. Nasce em 1978 e terá 14 anos no momento em que o pai é apanhado pelo FBI nos Estados Unidos. A bolsa só reabre em 1977 e muito lentamente. Dois anos depois, quando a atividade o justifica, Caldeira é convidado por Abílio de Sousa para regressar. Volta ao lugar de número dois do corretor. Nessa altura, só há três corretores em Lisboa. Um é Abílio de Sousa. Outro é Eduardo Ricciardi, o bon vivant que, reza a história, foi a grande paixão da fadista Amália Rodrigues. E por fim, o veterano Valentim Lourenço. Valentim não tem filhos e a grande paixão desta velha raposa da bolsa é o futebol do Benfica. Sabe que está no final da vida e procura alguém que possa continuar o negócio.
Havia um corretor em Lisboa, que era o Valentim, que Sentindo-se velho e não tendo herdeiros, foi procurar junto do Dr. Abílio se lhe dava uma maneira, uma ideia de como é que ele havia de fazer, se seria bom fechar o escritório, como é que havia de fazer. E aí surgiu a hipótese. E disse-lhe: "Eu sei que para o Pedro Caldeira esse é o sonho da vida dele, é ser corretor."
Maria Cândida Rocha e Silva recorda que os dois lá se terão entendido. Valentim convida-o a ser, numa primeira fase, preposto dele, de forma provisória, e Caldeira aceita. Claro, com o aguçado sentido de oportunidade que tinha. Na viragem dos anos 70 para os 80, Valentim Lourenço fica doente e ausenta-se durante longos períodos. Pedro Caldeira fica a tomar conta do negócio. Em boa parte do tempo, já é ele o corretor. Há poucas empresas na bolsa, cerca de 20. Em alguns dias realizam-se apenas uma ou duas transações, ou mesmo nenhuma. Mas aos poucos, o negócio anima, graças à lista de clientes que Caldeira conquistou antes de a bolsa fechar por causa da revolução. E quando Valentim regressa, o jovem promissor já tinha feito aumentar o movimento. Deram frutos os dias inteiros que Caldeira passou ao telefone a tentar persuadir antigos investidores, traumatizados pelas perdas da revolução, a voltarem à bolsa. O patrão, Valentim, está encantado. Vê em Caldeira uma solução para não ter de fechar o escritório. E o convite que lhe estava na cabeça, há já algum tempo, surge enquanto os dois comem um bife no restaurante Martinho da Arcada, no Terreiro do Paço, não muito longe do edifício onde a bolsa funciona em Lisboa. A proposta é simples: no imediato, Pedro fica a ganhar um terço do salário que tinha antes, mas a contrapartida é aliciante. Receber o trespasse do negócio de graça quando Valentim se afastar em definitivo, dentro de dois anos.
Sei que o Pedro apareceu no mercado como corretor precisamente por causa disso, porque teve um golpe de sorte.
Animado pela perspectiva de um dia tudo aquilo ser dele, Caldeira trabalha como um louco. Moderniza o escritório, instala um telex, uma telecópia, um terminal da Reuters e até, mais tarde, o primeiro computador. O acordo foi cumprido. A 23 de junho de 1983, herda o escritório do patrão. Caldeira, agora corretor de pleno direito, não demorará até fazer o primeiro grande negócio. No início dos anos 80, nasce uma nova tribo. Chamam-lhes yuppies. É uma palavra que condensa a expressão inglesa de young urban professional, o jovem profissional e urbano. Valorizam o sucesso, o estatuto social e, claro, o dinheiro. Gostam de se exibir com carros caros como BMWs ou Porsches, relógios de luxo, jantares nos melhores restaurantes do centro da cidade, com muitos coquetéis e muito champanhe. Como todas as tribos, os yuppies identificam-se à distância. Vestem bem, com fatos de fino corte feitos à medida, camisas impecavelmente ajustadas ao corpo. E ainda um pormenor, que na altura não podia ser dispensado: os suspensórios. Em Nova Iorque existiam muitos sítios onde podiam ser encontrados, mas talvez nenhum como Wall Street.
The point is, ladies and gentlemen, that greed, for lack of a better word, is good. Greed is right. Greed works.
Ganância e ambição. Gordon Gekko, o personagem interpretado por Michael Douglas no filme Wall Street, de 1987, resume o espírito da época. E nos anos 80, o mais próximo em Portugal que tivemos de Gordon Gekko foi Pedro Caldeira. Caldeira veste-se bem. É um homem atraente, sedutor e tem uma aura que dá ar de ator de Hollywood. Também ele não vai dispensar os suspensórios, como manda a moda que chega de Nova Iorque, e o cabelo com gel impecavelmente puxado para trás. Mas enquanto a personagem encarnada por Michael Douglas é fria e calculista, o grande trunfo de Caldeira vai ser outro. O de seduzir qualquer um a um ponto de, em poucos minutos, fazê-lo sentir que já são amigos há décadas. É uma manhã calma de 1983 na Bolsa de Lisboa. A grande euforia que iria marcar os próximos anos ainda está para começar. A bolsa negoceia ações, mas nem tudo passa necessariamente por ali É o caso dos títulos de dívida ou obrigações. Papéis que representam empréstimos que as empresas contraem junto de investidores com a promessa de recuperarem o investimento e também ganharem juros. São compradas e vendidas diretamente, sem passar pela intermediação de um corretor. Naquela manhã, os três corretores da Bolsa de Lisboa estão no chamado parquet, onde se fazem as transações. Pedro Caldeira, o novato em ascensão, Abílio de Sousa, o antigo chefe, e Eduardo Ricciardi. Há alguns ajudantes a levarem recados de um lado para o outro. Mais ao lado, estão meia dúzia de curiosos a ver as cotações. Mas, nesse dia, estão também ali os representantes de três ou quatro bancos. A versão desta história é contada pelo próprio corretor, numa biografia escrita por uma jornalista e amiga de Caldeira, Manuela de Sousa Rama, em 1996. Ao aperceber-se da presença do grupo, Caldeira vai ter com um deles. Cumprimenta-o e fá-lo sentir-se em casa. Conversam só os dois, discretamente. E de repente, Caldeira obtém uma informação importante. O banco que aquele homem representa está vendedor de um lote de um milhão de contos em obrigações, dívida do Estado. Caldeira vê logo ali uma oportunidade. É um lote enorme e começa a pensar como pode contornar a forma como as coisas são habitualmente feitas, para garantir que aquele negócio passe pela bolsa e pelas mãos de um corretor. As mãos dele, claro. Se conseguir arranjar um comprador e assim ser o intermediário deste negócio, ganhará uma grande comissão. Os dois falam baixinho. Assim que acaba a conversa, Caldeira vai calmamente até à secretária, escrevinha umas contas num bloco, faz alguns telefonemas para perceber se algum dos outros bancos quer comprar aquele lote. Faz tudo de uma forma muito discreta, para evitar que alguém perceba o que está a preparar. Levanta-se e vai falar, à parte, com o representante de outro banco. Convence-o das virtudes do negócio. Propõe um preço, mas não lhe diz qual é o banco que está a vender. Em poucos minutos, consegue fechar a operação. E mais importante do que isso, consegue encaixar uma comissão milionária, precisamente mil contos. Foi apenas o primeiro de muitos outros milhares e muitos milhões. É o início de uma ascensão fulgurante, que nada, nem ninguém, parecia conseguir travar. Em meados dos anos 80, o clima é de euforia. A entrada iminente no mercado comum da CEE, a comunidade económica que antecedeu a União Europeia, anima os mercados e traz muito dinheiro e muito investimento estrangeiro. É a oportunidade perfeita. E Pedro Caldeira vai saber agarrá-la. A bolsa volta a transformar-se numa espécie de casino onde todos querem entrar com o sonho de ficarem ricos de um dia para o outro. Caldeira movimenta milhões e tem uma enorme ambição: quer ser um grande banqueiro. Mas por muito poder que se tenha, há sempre alguém que tem ainda mais poder. Basta um primeiro-ministro ir à televisão e dizer uma simples frase para as coisas lhe começarem a correr mal. Mas essa é uma história para o próximo episódio. No próximo episódio.
Era caótico. Chegou uma altura em 87 que era um caos.
Acho que era negócio. Não me pareceu nunca que eles andassem à procura de promoção social por promoção social. É, por isso eles apareciam lá nas minhas festas, porque estavam lá os outros todos também.
Vejo uma notícia, fico completamente apanhado de surpresa.
O Encantador de Ricos é uma série em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, São José Correia, e tem banda sonora original de The Legendary Tigerman. O guião e as entrevistas são de Edgar Caetano. A edição é de João Santos Duarte. A sonoplastia é de Artur Costa. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos sons retirados do YouTube. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast. Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis.
