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5h32. Jardim passa dias para chegar a esse resultado, mesmo que para isso seja preciso não dormir. Estuda ao pormenor os movimentos dos homens que vigiam a rua da Embaixada do Malawi, onde está refugiado. Percebe que as luzes da rua, muito intensas, são todos os dias desligadas pelas 5h30 da manhã e que a guarda é rendida às 6h30. Tudo o que tem de fazer é tentar tirar a máxima vantagem da penumbra assim que as luzes se desligam, e arriscar que os homens estejam distraídos ou a dormir. 5h32 minutos da madrugada. Era esse o minuto certo em que teria de tentar a fuga. Aquilo não seria nenhuma missão impossível. Jardim pensa que quem tinha escapado de uma morte iminente no Congo, salvo no último momento por uma foto de família, ou enfrentado perseguições na Índia, também haveria de conseguir fugir de um edifício no meio de Lisboa. Escolhe a noite de 12 para 13 de junho de 1974. É a noite de Santo António. E monta uma farsa. Convence os mais próximos, como a filha e o irmão, de que nunca vai fugir. Faz vários telefonemas a marcar encontros na embaixada na semana seguinte, assumindo que estava sob escuta. Todos deveriam pensar que estava ali para ficar. No dia 13, precisamente quando o relógio marca 5h32, abre a porta da embaixada com todo o cuidado para fazer o mínimo de barulho possível. Tem uma arma debaixo da roupa e um cinto com duas granadas. Na mão, aperta uma terceira granada à qual retirou a cavilha de segurança. Está preparado para tudo. Até para morrer. Era sempre tudo para levar até ao limite. Jardim não conhecia meio-termo. Ou fugia, ou morria ali. Mas aqueles que o queriam apanhar também haveriam de morrer com ele. Quem o conheceu diz que era muito raro ver-lhe uma expressão de medo no rosto. Quando tivesse de morrer um dia, queria que fosse à maneira dele. Dizem que tinha sempre uma cápsula de cianeto por perto, para qualquer eventualidade. Passou pela guerra em África, por operações clandestinas no Brasil e na Índia, por fugas arriscadas no Congo. Escapou sempre ileso de tudo. Mas vai acabar por encontrar a morte quando ninguém estava à espera. E deixar em aberto um mistério que nunca poderá ser resolvido. Este é "O Misterioso Engenheiro Jardim", uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Lourenço Ortigão, com banda sonora original dos HMB. Episódio seis: A hora da vingança.
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É perto da meia-noite do dia 13 de junho, mais de 18 horas depois de o pai abrir a porta da embaixada com uma granada na mão. Patucha Jardim está em casa quando o telefone toca. É uma chamada internacional. Estão a ligar-lhe do luxuoso Hotel Ritz, em Madrid. O hóspede do quarto 530 quer falar com ela. Quando transferem a chamada, percebe imediatamente que é o pai.
A dizer: "Olha, desculpa, saí, ao contrário de tudo o que te disse." Já tinha tomado um banho, estava num bom hotel e ia descansar. É o que ele me disse. Para mim, foram dois choques. Foi o choque de ele me ter enganado, começar por aí, e o maior choque de pensar E agora o que é que vai acontecer? E agora o que é que ele vai fazer lá para fora? E agora?
A filha chora ao telefone enquanto conversam, mas não pergunta mais pormenores. O pai sempre lhe pôs isso na cabeça: nunca confiar em ninguém. Qualquer telefone pode estar sob escuta.
Claro que não perguntei nada, porque não era nosso costume. Nós já sabíamos que não era suposto perguntar. E logo que eu desliguei o telefone, ligaram-me as minhas irmãs de Moçambique, a minha mãe. Felizes e contentes, parecia que alguém tinha saído do Euromilhões de agora, que não havia na altura. "Ganhámos! O pai já saiu da embaixada de Malawi." "Não estão a ver o mesmo programa que eu estou, porque isto é horrível. Nós estamos numa guerra, praticamente. Ninguém vai deixar o meu pai entrar em Moçambique."
Em menos de 24 horas, Jardim sai de uma embaixada vigiada em Lisboa para chegar a um hotel de luxo na capital espanhola. Como é que o conseguiu fazer? Primeiro, escondeu a fuga das pessoas mais próximas que o iam visitar à embaixada. A filha, o irmão e a cunhada. Deixou apenas uma carta para cada um deles. Assim que chega à casa, Patucha abre o envelope. É uma carta curta onde o pai pede desculpa por lhe ter dito que nunca iria fugir. Promete ainda que vai ligar nesse mesmo dia, por volta da meia-noite, se tudo correr bem e conseguir chegar ao destino, que não revela qual é. Jardim faz ainda um pedido à filha: que continue a ir à embaixada todos os dias levar o almoço ao pai, para que todos pensem que ele ainda lá está. E a terminar, pede-lhe que queime imediatamente a carta depois de a ler. Jorge Jardim sabia que não bastava escapar da embaixada. Tinha de conseguir sair do país. Caso contrário, seria sempre procurado. Passou os últimos dias a estudar a melhor forma de atravessar para Espanha. Consegue mesmo arranjar mapas detalhados do terreno e fotografias panorâmicas da fronteira. Escolhe a zona de Castelo de Vide por causa das serras e pinhais, onde acha que vai estar em vantagem caso seja perseguido por pessoas não habituadas ao mato. No momento em que sai da embaixada de granada na mão, Jardim percebe que não vai precisar do armamento. Como tinha previsto, o escuro e o cansaço dos guardas àquela hora fazem com que ninguém repare nele. Volta a colocar a cavilha de segurança. Tem um carro à espera, uma rua mais abaixo. Assim que entra, o motorista arranca e dirige-se para fora de Lisboa. Jardim nunca revelou quem o ajudou na fuga. Nem mesmo à própria família, garante uma das filhas, Carmo.
Nunca contou como escapou e disse que morreria sem contar, porque não poderia pôr pessoas que estavam ainda vivas em causa.
As filhas desconfiam que o pai teve a ajuda de pessoas com ligações ao exército, mas também dos serviços secretos franceses, com os quais tinha relações próximas, conta Patucha Jardim.
Presumo eu que tenha sido quem o ajudou a sair. Franceses. Mas não garanto, não sei. Digo-lhe com franqueza, não sei.
O carro dirige-se para a fronteira. Anos mais tarde, do pouco que revelara sobre o que aconteceu naquele dia, Jardim vai contar que a tranquilidade era tanta que, ao passarem por Abrantes, não resistiu a parar num café que encontrou aberto àquela hora. A filha não tem dúvidas de que o pai usou vários carros na fuga.
O meu pai deve ter andado em três ou quatro carros até chegar a Portalegre, por exemplo. Para não haver o perigo de alguém ter seguido aquele carro de manhã, de madrugada. Acho que saiu de madrugada, ainda era noite.
Quando chegam à serra, Jardim é largado à beira da estrada e começa a andar a pé. É a única forma de conseguir passar a fronteira despercebido. A dada altura, vê uma brigada de guardas-florestais, mas consegue esconder-se a tempo. Nem dão por ele. Pensa que se houvesse necessidade de confronto, talvez nem tivesse dificuldade em passar pelos guardas. Era um homem habituado ao mato africano, mas não queria deixar vítimas inocentes pelo caminho. Continua a escalar a serra até chegar à linha de fronteira. Vá confessar mais tarde que foi uma caminhada penosa, que só se aguentou porque abusou da coramina, uma substância utilizada como estimulante cardíaco e respiratório. E porque estava animado pelo pensamento de que iria voltar à África Assim que percebe que já está em Espanha, desce a serra e para junto de um foz. Começa a cavar um buraco com as mãos e enterra o material de guerra que levava. A partir de agora, não quer ser apanhado com armas, caso seja interceptado pelas autoridades espanholas. Anda cerca de 10 horas por montes e vales, munido de um mapa do terreno, até que encontra, finalmente, o ponto exato que tinha sido combinado com os cúmplices. Tem um carro à espera que o leva até Madrid. Assim que chega, instala-se numa suíte do Hotel Ritz. Liga à família a dar conta do sucesso da fuga. Um plano executado ponto por ponto, como previsto, com uma precisão quase matemática. Jardim chamou-lhe a operação perfeita. Ninguém se apercebeu de nada. Em Lisboa, a rua da embaixada de Malawi continuava a ser vigiada. Pensavam que Jardim ainda estava no interior. Dias depois, aproveita o momento para gozar com as autoridades portuguesas.
Foi para Espanha, deu uma grande entrevista, em que chamou palhaços a todos e mais alguns governantes de Portugal, porque estavam lá os militares todos à volta da embaixada e eles já nem sei que ela estava.
Jardim quer saber como foram as reações à fuga. Dizem-lhe que o general Costa Gomes, que vê como o grande inimigo, estava ausente do país quando tudo aconteceu, mas quando lhe contaram, não conseguiu esconder a preocupação. Jardim confessa que isso lhe deu um enorme prazer. Relatam-lhe que o general Spínola reagiu com mais desportivismo e terá mesmo afirmado: "Era de esperar que um tipo como ele fizesse isso." Mais tarde, Jardim vai fazer publicar uma fotografia nos jornais perto do local onde conseguiu passar a fronteira. Nela aparece sorridente, junto a uma placa que diz: "Portugal a dois quilómetros." Segura apenas um pequeno saco escuro na mão direita e na cabeça tem um inseparável chapéu indiano cinzento escuro, o amuleto da sorte que o acompanhava em todas as missões. Jorge Jardim passa também a ser alvo de um mandado de detenção em Moçambique para o dissuadir de regressar ao território. A partir de Madrid, denuncia ações de perseguição que chegam até ao congelamento de contas bancárias e acusa o general Costa Gomes de lançar uma campanha de descrédito contra ele, afirmando que tinha grupos de mercenários prontos para fazerem uma revolução, tomar o poder em Moçambique e instaurar um novo regime racista e colonialista. Mas Jardim não desiste. O próximo passo é regressar a África. Ainda nada estava perdido. Nas próximas semanas, Jorge Jardim vai alimentar a ideia de que é possível levar para a frente o programa de Lusaka, o plano para a independência de Moçambique, que estava a negociar com a Zâmbia e o Malawi. Viaja para os dois países e garantem-lhe que nada se alterou. O genro, Orlando Temes de Oliveira, guarda hoje as agendas de Jardim. Folheia a do ano decisivo de 1974 e prova como, quatro meses depois da revolução em Portugal, e mesmo tendo o mandado de captura, ele ainda achava que o programa de Lusaka poderia ser concretizado.
Em 74, em agosto, quando ele já estava proibido de entrar, ainda quiseram falar com ele. E olha o que ele escreve aqui: "Lusaka confirma papel." Ou seja, em agosto de 74, a Zâmbia confirma o primeiro papel que tinha assinado.
Mais tarde, iria aperceber-se que os zambianos deram esperança a Jardim porque, dada a situação instável em Portugal, ainda duvidavam que Lisboa quisesse fazer uma verdadeira descolonização. Portugal poderia tentar um sistema federalista, como defendia Spínola. O primeiro encontro entre representantes do novo governo português e da FRELIMO, que aconteceu no início de junho, não tinha tido resultados promissores. É nessa altura que Jardim comete um enorme erro, que ele próprio admite tê-lo condenado. É convidado para ir à Tanzânia negociar diretamente com a FRELIMO, mas recusa, argumentando que ainda não é a altura certa. E acaba por ser ultrapassado. Quem aceita ir é o major Melo Antunes Um dos autores do programa do MFA, que negoceia diretamente com Samora Machel, líder do movimento independentista. O pré-acordo convém à FRELIMO. Implica uma entrega direta do poder, sem uma consulta popular. Foi esse o momento que afastou definitivamente Jardim do jogo, admite também a filha Carmo.
Não estamos interessados no Jorge Jardim, porque temos aqui uma oportunidade que nos foi dada, que foi Portugal entregar o país só a nós, como partido único. E o Jardim não é isso que quer. O Jardim quer que haja outros partidos, que se criem outros partidos em Moçambique, que haja outros partidos que estejam dentro do governo de unidade nacional em Moçambique. Portanto, não faz sentido nenhum. Jorge Jardim não faz sentido. Neste momento, é para descartar.
Jardim faz a última visita a Lusaka no final de agosto. Estranha o ambiente e a ausência do presidente, que o informam estar fora a resolver assuntos de Moçambique. Uma semana depois, o caminho para a independência iria mesmo passar por Lusaka, mas já não por Jorge Jardim.
Acordo entre o Estado português e a Frente de Libertação de Moçambique. Reunidas em Lusaka-
É assinado a 7 de setembro de 1974, entre a FRELIMO e o Estado português, explica o historiador Pedro Aires Oliveira.
Novamente Lusaka, mas desta vez o acordo de Lusaka é muito diferente do programa de Lusaka. O acordo de Lusaka reconhece a preeminência política da FRELIMO na condução dos destinos do país. Nem sequer os portugueses tentam fazer depender do reconhecimento da independência, a realização, por exemplo, de eleições para uma assembleia constituinte. Isso são coisas que depois devem ser determinadas pelos moçambicanos.
No mesmo dia em que o acordo é assinado, violentos protestos da minoria branca rebentam em Lourenço Marques, contra os termos do acordo e a entrega do poder diretamente à FRELIMO. São três dias de protestos violentos. Jardim chega a ser acusado de estar envolvido na agitação. Mais uma vez, ele e a família negam tudo. A situação leva à fuga de milhares de pessoas. Entre os que são forçados a sair, está a família de Jorge Jardim. Carmo abandona o território no final de 1974.
Nós não somos retornados, como toda a gente nos chama. "São os retornados que vieram de Moçambique". Não é verdade. Quando muito, podem nos chamar refugiados, porque nós pertencemos a Moçambique. Nós éramos moçambicanos de alma e coração.
A independência de Moçambique acabaria por acontecer a 25 de junho de 1975. E em circunstâncias muito diferentes daquelas que Jorge Jardim pretendia. Jardim sente que está rodeado de inimigos que executaram um plano para o isolar. Os inimigos são o novo poder revolucionário de esquerda em Portugal, especialmente Costa Gomes e Melo Antunes. O plano era entregar o poder apenas à FRELIMO, que estava dominada pelos interesses comunistas e pela influência da União Soviética, e impedir o aparecimento de outras forças políticas. Os que quiseram afastar Jardim do processo de descolonização, com o general Costa Gomes à cabeça, alegam que ele contava com a lealdade de grupos armados e poderia tomar o poder à revelia de todos. Ou seja, fazer uma independência ao estilo de Ian Smith, na Rodésia, que favorecesse a minoria branca. Carmo Jardim garante que isso não faz qualquer sentido. Se assim fosse, o pai não teria negociado um programa para a independência com o apoio dos líderes negros dos países vizinhos, de quem era amigo.
Eu acho que é ridículo pensar-se que o Jorge Jardim queria fazer uma independência tipo Ian Smith, quando, no fundo, os grandes amigos dele eram de raça negra. E acham que ele tem esses amigos que estão a apoiar, antes do 25 de abril, para uma independência que acreditam que seja possível, multirracial e multipartidária, tipo Ian Smith? Desculpe, não cabe na cabeça de ninguém.
Pedro Rebelo de Sousa, filho de Baltazar Rebelo de Sousa, que foi governador-geral de Moçambique, diz que Jorge Jardim também foi prejudicado pelo poder que teve e pelas posições que defendeu durante o Estado Novo.
Eu julgo que aí houve um acertar de contas, sobretudo das Forças Armadas
Com aquela personalidade que era um ser atípico e completamente fora de controle, muitas vezes, dessas Forças Armadas. Isto independentemente de serem mais Costa Gomes ou de serem mais Spínola, todos eles. Passou a ser alguém que era contagioso. Está a compreender?
Como Jorge Jardim, outros acabariam por ser forçados a sair também de Portugal, mas por causa da luta de poder dentro da Junta de Salvação Nacional. Spínola é obrigado a renunciar ao cargo de presidente da República e, em outubro, Costa Gomes fica com o lugar dele. A partir daí, começa uma perseguição aos que apoiavam Spínola e muitos optam por fugir. Entre eles, está um homem que vai ser importante na nova causa de Jorge Jardim. João Braga está em Madrid há poucos meses quando recebe um telefonema. Do outro lado, ouve uma voz em castelhano. "Yo soy el comandante Pereira y quería hablar con usted." O fadista, na altura com 30 anos, acha estranho, mas ao mesmo tempo fica curioso e aceita falar com o homem. Encontram-se no parque de estacionamento subterrâneo do condomínio onde Braga vive. O fadista vê um carro com um homem ao volante. Assume que é a pessoa que o contactou.
Assim que entrei, as portas trancadas. Achei logo aquilo esquisito. O tipo estava com um chapéu à amazontina, óculos escuros, um bigodinho a encimar o beiço superior, com uns botins. Eu não conhecia o homem de parte nenhuma. Ele falava castelhano comigo, eu com ele. Costumava falar de política, eu só ouvia. Dizia uma coisa ou outra, mas, sobretudo, deixava-o falar. E depois disse que aqui, no país ao lado, não sei o quê, referia-se a Portugal, e eu não conseguia identificá-lo.
Braga pressente, de alguma forma, que o homem com ar de mexicano não é ameaçador. Pelo contrário, está cada vez mais intrigado para perceber o que é aquilo. Pergunta se não podem continuar a conversa noutro sítio, mais agradável, onde se pudesse beber um copo. O homem do bigodinho aceita. Arranca com o carro e leva-o a um bar madrileno que o fadista não conhecia, chamado Backgammon. Quando entram, o homem tira o chapéu. Tem o cabelo todo penteado para trás, com brilhantina. O bar é escuro, mas ele não tira os óculos de sol. Falam do estado das coisas em Portugal, do que está a acontecer em África. E João Braga continua sem suspeitar de nada. A conversa corre bem. O homem do bigodinho decide convidar o fadista pra casa dele. E é só nesse momento que João Braga percebe com quem está a falar.
Porque quando entrei, olhei pra direita e vi umas fotografias, e uma delas era de uma das filhas que eu conhecia. Era a mais velha, a Patucha. E eu olhei e disse: "Ah, isto é o Jorge Jardim." Voltei-me pra eles, "passa lá, por que não se identificou em português?" E ele aí começou a rir à gargalhada. Disse: "Ah, até que enfim foi preciso vir aqui."
João Braga tinha conhecido Jorge Jardim no início dos anos 70. Cruzavam-se no Comodoro, em Lisboa, casa de má fama à noite, mas que durante o dia servia almoços e era um restaurante respeitável, garante o fadista.
Antes de chegar ao bar, havia uma mesa, uma mesa pequena, onde ficava eu com o meu amigo para a cana, e numa mesa em frente costumavam ficar dois cavalheiros. Um deles era de Mirandela, que nos mandava uma travessa com uns enchidos já arranjadinhos. Aquilo era uma delícia. E então, quem eram os ditos cavalheiros? Era o engenheiro Jorge Jardim, mais um amigo dele, que era Inspetor-Geral das Finanças. E foi aí que eu conheci pessoalmente o engenheiro Jorge Jardim.
Os dois reencontravam-se agora em Madrid e estavam em circunstâncias parecidas. À semelhança de Jardim, João Braga também tinha sido alvo de um mandado de captura em Portugal, mas por ser acusado de apoiar Spínola. Braga e Jardim têm ambos motivos para querer vingança daqueles que estão à frente do poder revolucionário em Portugal E o fadista alinha nos planos do engenheiro.
Tinha uma boa vida. Não fiz mal a ninguém. Por que eu estou aqui? Então pensei, como mais qualquer outra pessoa pensaria: já que estou aqui, vou lhes dar motivos para não gostarem de mim.
O objetivo era provocar o máximo de perturbação possível. O plano foi revelado a João Braga numa das conversas no bar de Madrid onde se costumavam encontrar. Lançar fogo às sedes do PCP e de outros movimentos considerados de esquerda radical. Iria contar com um apoio de peso, a rede de contactos da Igreja Católica em Portugal. João Braga e os operacionais Jardim acabam por integrar o movimento que ficou conhecido como Maria da Fonte. Foi um dos grupos responsáveis pelos ataques do famoso Verão Quente de 75.
De Lourinhã até São Pedro da Torre, foram 318 sedes do Partido Comunista e da extrema-esquerda. Foi tudo ardido. Era para repor a legalidade democrática, embora não tivesse havido as eleições legislativas, já tinha havido para a Assembleia Constituinte. E foi uma derrota esmagadora do PC e da extrema-esquerda. Portanto, não fazia sentido nenhum, democraticamente, que esses partidos continuassem à frente dos lugares das Juntas de Freguesia e das Câmaras Municipais que eles ilegalmente tinham ocupado.
O fadista conta mesmo como, a dada altura, passam a ter uma ajuda improvável.
As últimas sedes eram os próprios bombeiros que nos pediam: "Deixem-nos ser nós, nós vamos apagar o fogo à sede." "Mas vocês são bombeiros, vocês é suposto apagar os fogos, não é incendiar. Isso é connosco." "Não, mas como somos nós que vamos apagar, nós é que sabemos como é que havemos de incendiar para ser mais fácil depois apagar." Os próprios bombeiros é que incendiaram as últimas sedes.
No final de 1975, após a morte do ditador Francisco Franco e com a mudança de regime em Espanha, Jorge Jardim é aconselhado a deixar Madrid. Muda-se para Las Palmas, nas Canárias. No Natal, gostava de reunir os 13 filhos e todos os anos fazia questão de tirar uma fotografia de família. Mas neste ano tem apenas a filha Carm com ele. É um homem sozinho e isolado. Aproveita para escrever um livro, a versão dele sobre tudo o que aconteceu no processo da independência de Moçambique. Será publicado na primavera de 1976 e tem como título "Moçambique, Terra Queimada". Nessa altura, diz que já tem igualmente em curso um livro sobre a Índia. Promete escrever também sobre as outras aventuras ao longo da vida, mas nada disso vai acontecer. Jardim tem um sonho: voltar a Moçambique. Enquanto isso não é possível, em 1979 aceita um convite. Vai para o Gabão como administrador de um banco associado ao presidente do país, Omar Bongo. A mulher, Teresa, tinha morrido no ano anterior, vítima de um ataque cardíaco. Nessa altura, o mandado de captura já não existia e Jardim veio a Portugal para o enterro. Em 1980, casa-se com Palmira Barral, uma ex-candidata a Miss Moçambique, que também chegou a servir como agente secreta na rede dele, participando em ações ao lado de João Maria Tudela. Palmira era ainda sobrinha de Manuel Nazaré, que ficou conhecido por ser o médico pessoal de Salazar. Chegou mesmo a ser o primeiro deputado negro da Assembleia Nacional. Quem se cruzou com Jardim no Gabão, conta que ele se sentia angustiado. Dizia que o banco andava com problemas de dinheiro. Achava que tinha muitos inimigos. Como um verdadeiro agente secreto, estava sempre preparado para qualquer eventualidade, revela Patucha Jardim.
Tinha um cianetozinho que ele dizia que andava com ele, porque no dia em que fosse preso e no dia em que não tivesse mais hipótese de salvação, então metia o comprimido na boca
Mas nos últimos tempos, garantiu que nunca se iria suicidar. Colocou isso por escrito num documento datado de 28 de setembro de 1982. O título: "Indicações mais urgentes para o caso da minha morte". E mesmo que as causas da morte parecessem óbvias, Jardim escreve: "Investiguem quem me possa ter suicidado." 1 de dezembro de 1982. Jorge Jardim está numa reunião no banco, no Gabão. Ao lado dele, estão dois filhos. A dada altura, Carlos Frederico percebe que algo de estranho se passa com o pai.
E o meu pai não respondeu à primeira pergunta e o Carlos Frederico respondeu. À segunda vez, acho que ele estava assim, com a mão na cara, com o braço na mesa. À segunda vez também não respondeu e o Carlos Frederico deu-lhe um toque no braço e ele caiu para a frente.
Jardim já não reage.
Chamaram a correr o médico, ambulâncias, tudo. Abriram as portas do banco para passar, e as portas, que acho que eram em vidro, estilhaçaram todas, onde ele passou a porta, que é uma coisa que para os africanos quer dizer muito.
Jorge Jardim é declarado morto no hospital. Tinha feito 63 anos há apenas duas semanas. Assim que é informada do que aconteceu, Carmo Jardim lembra-se imediatamente da indicação que o pai tinha dado.
Foi a primeira coisa quando o meu irmão Carlos Frederico me telefonou que estava com ele na reunião. Eu disse: "Carlos Frederico, não te esqueças, tens de pedir autópsia ao meu pai." Quando foram para a autópsia, entretanto o presidente Bongo já o tinha mandado embalsamar.
Oficialmente, nunca se soube a causa da morte de Jorge Jardim. Esse é o mistério que nunca poderá ser resolvido. Carmo diz que quer acreditar que foi um ataque cardíaco, que hoje em dia não lhe passa outra coisa pela cabeça. A filha não conseguiu cumprir a primeira vontade expressa pelo pai, de que a morte fosse investigada, mas garante que ainda não perdeu a esperança de realizar a segunda.
A outra era ser levado para Moçambique, desde que o país fosse realmente um país democrático, multirracial e multipartidário. Sempre disse isto. E só não foi ainda para Moçambique porque Moçambique não é um país democrata. No dia em que Moçambique for um país democrata, irei pedir às minhas irmãs por tudo, que o deixem ir para Moçambique com a minha mãe.
O clã continuou a luta do pai. Ainda em vida, Jorge Jardim interpôs um processo contra Costa Gomes e a Junta de Salvação Nacional, por causa do mandado de captura de que foi alvo e que alega não ter tido fundamento. O processo só iria terminar em 1996. Apesar de ter sido o único a assinar o documento, Costa Gomes foi absolvido. O tribunal considerou que foi uma decisão coletiva da Junta, e o Estado português foi condenado a pagar uma indenização à família Jardim. Foi também nos anos 90 que as filhas regressaram pela primeira vez a Moçambique, mais de 20 anos depois de terem abandonado o território. Foram visitar a casa onde viveram no domo, nas instalações da Lusalite. Aquela que até tinha torre de controle e uma pista de aterragem. A casa ainda existia, mas estava em ruínas. E para surpresa das filhas, estava guardada por homens armados.
Quando nós voltámos pela primeira vez depois do 25 de abril, depois de termos sido postos fora, entre aspas, de Moçambique, estavam lá uns seis militares com Kalashnikovs. Eu cheguei lá com as minhas irmãs. Eu disse: "Então, contem lá. O que vocês estão aqui a fazer?" "Nós estamos a guardar a casa do senhor engenheiro." "Vocês estão a guardar a casa do senhor engenheiro? Mas por que vocês estão a guardar a casa do senhor engenheiro?" "Sabe, temos ordens." "Mas por quê?" "Porque o senhor engenheiro vem cá. O espírito do senhor engenheiro está aqui. Então nós temos que guardar esta casa, porque senão o senhor engenheiro ainda vai fazer aí alguma coisa, uma revolução." E todas as vezes que eu fui, a casa está cada vez pior, mas tem lá os seguranças. Eu disse: "Por favor, vocês acham, a sério? Sabem por quê? Eu sou filha do engenheiro Jorge Jardim, e eu tenho a certeza que o meu pai não vem aqui, porque se o meu pai viesse aqui, eu também vinha, porque eu queria falar com ele, mas ele não vem aqui. O espírito dele não vem." "Vem. Nós temos ordens. Vem."
Mesmo depois de morrer, ainda tinham medo do que poderia fazer. O misterioso engenheiro Jardim. O Misterioso Engenheiro Jardim é uma série para ouvir em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Lourenço Ortigão, e tem banda sonora original dos HMB. O guião e as entrevistas são de João Santos Duarte. A sonoplastia é de Mariana Sousa Aguiar. O design gráfico é de Miguel Ferraz Cabral. A edição é de Tânia Pereirinha e de João Santos Duarte. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio ouvimos sons retirados do YouTube. Se gostar desta série, pode seguir, dar cinco estrelas e comentar o episódio na Apple Podcasts ou no Spotify. Pode subscrever e gostar no YouTube. Assim, recebe uma notificação sempre que houver um novo episódio. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast.
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