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Eu costumava esperar por ele por volta das 16h, na varanda. Tínhamos uma varanda que dá pra rua e vê-se o portão. Eu esperava por ele, normalmente ali, sentada fora, à espera dele. Eram 16h, eram 17h, eram 17h30, nada. Não apareceu. De repente, já não sei a que horas, vejo parar em frente ao portão, um jipe, de onde saíram três ou quatro militares. Abriram o portão, vieram ter comigo. Eu estava sentada. Tive logo um pressentimento estranho. Sabem o que é ficar como uma estátua? Assim eu fiquei. Eu não falei, eu não abri os olhos, eu não me mexi.
Maria dos Anjos pressentiu logo que algo não estava bem. E esse pressentimento depressa passou certeza, mesmo antes daqueles homens falarem. António não ia voltar a casa nesse dia. O que ela não sabe ainda é que não serão dias, nem sequer meses. Terá de esperar mais de sete anos para o reencontrar. António será o prisioneiro de guerra português que mais tempo passará em cativeiro. Para o resgatar, será necessário uma operação tão arriscada e controversa, que acabou por nunca ser reconhecida oficialmente pelo Estado Novo. Este é o Sargento na Cela 7, uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, PP Rapazote, com banda sonora original de Noiserver.
Esta é uma história real e é o conhecimento da História que guia a Honda em direção a um futuro melhor. Nesta viagem, os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis. Vamos continuar este percurso juntos, porque a Honda tem muito para contar, mas também tem muita vontade de ouvir.
Episódio dois: Os deuses da morte. Naquele dia, António Lobato devia ter ficado em terra. Tinha acabado de chegar de uma missão de vários dias em Cabo Verde. As regras mandavam ir pra casa e descansar. Mas algo está a acontecer. Na base aérea de Bissau Langue, está a ser preparada uma megaoperação, talvez a maior desde que a guerra começou. O sargento Lobato não resiste e vai espreitar a sala de operações. A voz que vai ouvir a conversar com António Lobato é da jornalista Tânia Pereirinha.
Assisti ao briefing que o comandante das operações estava a dar pra operação do dia seguinte. Estava estipulado no quadro de operações aqueles que iam, os comandantes de parelha, uma parelha é o conjunto de dois aviões, comandante de esquadrilha, o conjunto de quatro aviões, quem eram.
E o seu nome não estava lá.
O meu nome não estava lá, que não podia estar, porque eu tinha chegado de um voo de Cabo Verde. Mas acontece que faltava um. E eu disse: "Olhe, falta um, não faz mal, eu não me importo nada disso. Cheguei de Cabo Verde, eu não me importo nada disso". Disseram: "Não, tudo bem, você aliás, já conhece isto melhor que ninguém". Eu estava a acabar a minha comissão, estava lá há quase dois anos, já.
Quanto tempo é que faltava para sair?
Um mês ou dois, pra vir embora. Não me importo, ponha-me lá que eu não me importo de ir.
Estamos em maio de 1963. O conflito na Guiné arrancou em janeiro com o ataque a um quartel em Tite. Desde então, não há tréguas na guerra entre militares portugueses e guerrilheiros do PAIGC, o Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde, fundado em 1956 por Amílcar Cabral. Os portugueses acreditam que a Ilha de Como é um dos redutos dos independentistas.
Era uma ilha que, como se dizia na altura, estava cheia de bichos, estava cheia de terroristas, que era assim que se chamavam. Que era o PAIGC, na altura. Estava lá o inimigo. Dizia-se que estava lá uma ilha instalada. Foram pra lá vários aviões pra ver se o desalojavam.
Os pilotos seguem com atenção os planos de ataque. Dez aviões e 10 homens vão estar envolvidos nesta operação. Vão atuar divididos em parelhas, que irão voar lado a lado e atacar os alvos de forma autónoma. Os nomes das equipas estão escritos no quadro, mas há uma alteração de última hora que vai mudar tudo
E o rapaz que estava ao meu lado tocou-me no braço. Conhecia-me, eu tinha chegado há pouco, não tinha manga larga. Ele estava com outro qualquer, que não me lembro quem, se eu pudesse ir consigo. Eu levantei o braço e disse ao chefe das operações: "Olha aqui, o Casals, se pudesse trocar, ele conhece-me". "Sim, senhor". O senhor lá me deu os nomes. Exatamente assim, parece que estava tudo prescrito o que me havia de acontecer. E assim foi, o Casals passou para a minha asa, que estava à asa de outro qualquer, e lá fomos para a operação.
O dia 22 de maio de 1963 é uma quarta-feira e desperta com uma densa neblina em Bissau que obriga a adiar ligeiramente a partida, prevista para 6:30 da manhã. O sol já nasceu quando a esquadrilha descola finalmente de Bissau. A parelha do comandante é a primeira a levantar voo. Os aviões dirigem-se para sul. Nada daquilo devia ter acontecido. Lobato não devia sequer estar no ar e Eduardo Casals não devia estar a voar ao seu lado. Poucos minutos após a descolagem, o objetivo já se aproxima. O aviador desce a pique para a Ilha de Como. Com o alvo na mira, dispara a primeira rajada de metralhadora. A zona está coberta de árvores, que dão pouca visibilidade para o terreno. É um local ideal para os guerrilheiros se abrigarem. Quando volta a subir, Lobato percebe imediatamente que alguma coisa não está bem.
Eu percebi que uma das minhas asas foi chumbada com disparos leves, balas. Não foi míssil, não havia na altura, mas balas . A gente sente o avião como se fosse o nosso próprio corpo. E disse: "Olha, vamos embora, porque eu não sei o que pode ter acontecido com o que apanhei vindo lá de baixo". E já estávamos a caminho da base, saímos da zona da operação a caminho da base, baixo, 300 metros de altura, 1000 pés. Eu disse: "Olha, vais aí por trás de mim, entras por baixo, porque a gente ali à base era 20 minutos ou 25. Entras por baixo de um avião e dás uma espreitadela, vê se fez alguma coisa danificada na trem de aterragem, é o que você precisa seguir". E assim foi, muito bem, ele veio por trás, mas com muito pouca experiência. Lá está, formados já mais tarde, e é uma coisa que todo o piloto sabe, é que quando se mete debaixo de um avião, há um efeito de sucção do avião de cima para os de baixo, a puxá-lo. Ele não teve atenção nisso, saiu por meu avião, uma hélice a cortar o avião dele. Dei dois ou três gritos. Chama o pneu do menor, vive em fiasco por chão dentro. E eu, com a minha parte, fiquei com o meu hélice todo torcido e o motor do avião desequilibrado, a ameaçar saltar fora. Só há uma coisa a fazer: parar imediatamente o motor, porque se o motor saltar fora por qualquer motivo, então a gente não sai de lá. Parei o motor, estabilizou. E agora ou paraquedas ou pôr o avião aí no meio do mato em qualquer sítio. Então, revi uma clareira lá embaixo. Eu falei: "Vamos tentar o planeamento, aproveitar a velocidade do avião e fazer um planeamento correto para entrar no início da clareira e não chegar ao outro lado, porque senão parte-se todo nas árvores". Fiz o planeamento e pus o avião no início da clareira. O que era a clareira? A clareira era um campo de arroz, que eles chamam bolanhas, na Guiné. Os campos de arroz, não sei se é metro a metro, dois em dois metros, são traçados por sulcos que levam água para regar o arroz. O avião, por baixo das asas, tem duas partes salientes, que eram as metralhadoras de fora. As metralhadoras entram naqueles sulcos. O embate e a entrada arrancaram as duas asas do avião, uma de um lado. As duas ao mesmo tempo, o que foi bom. De maneira que o avião parou muito antes de chegar ao outro lado, pararia na mesma, mas assim parou mais depressa. A fuselagem, portanto, todo o corpo do avião, deu três ou quatro cambalhotas sobre a própria, ficou de lado. Eu abri a cabine, não magoei nada e saí cá para fora. Ileso. A única coisa que tinha era o relógio esmagado, não sei como. Nessa altura não se pensa nada. A única coisa que se pensa, isso sei o que eu pensaria agora e é o que pensei na altura: "Porra, desta já me safei".
Lobato entra imediatamente em modo de sobrevivência. Sabe que a 20 quilômetros dali, mais coisa, menos coisa, fica Catió, onde as tropas portuguesas têm um quartel. Só tem de se pôr a caminho em direção a sul. Se andar depressa, estará lá antes do cair da noite. Mas como Maria dos Anjos virá a descobrir umas horas mais tarde, nesse dia António nunca chegará ao destino. Ela está imóvel. Ainda não ouviu os militares que acabam de estacionar à sua porta, mas já pressente o que tem para lhe dizer. Naquele momento, não tem forças para se agarrar à promessa que o marido lhe fez na noite anterior, de que voltaria sempre para casa, acontecesse o que acontecesse. Não se lembra sequer daquelas palavras. Incapaz de abrir os olhos, recebe a notícia sem qualquer reação.
Tinha havido um acidente, um avião tinha colidido com o outro, um deles tinha caído e morrido, mas o avião onde estava o meu marido, o António, tinha aterrado. Eles sabiam disso. E foi isso que me disseram, que ele tinha desaparecido
Eles saíram e veio depois um enfermeiro dar-me na veia uma injeção de um produto que faz adormecer as pessoas logo. Mas eu nem com esse produto dormi. Deitaram-me, a senhora que vivia comigo, pôs-me na cama e eu perdi a fala, não conseguia falar. E eu passei a noite a remexer-me na cama. Não dormi. Nem com esse remédio eu dormi.
Lobato tem água pelos joelhos. Olha à volta do campo de arroz e tenta orientar-se. À primeira vista, é tudo mato cerrado. Depois, num dos extremos do campo, avista um conjunto de cubatas que compõe uma pequena aldeia, uma tabanca, como lhe chamam. No outro extremo, apercebe-se de um grupo de oito ou 10 trabalhadores. Estão espantados a olhar na sua direção. Nesse momento, volta a pensar que está safo e vai falar com eles.
E a primeira coisa que eu fiz foi dizer: "Ouçam, vocês se me levarem a Catió, me orientarem o caminho para Catió, têm recompensa". Não me lembro exatamente o que eu disse, mas foi uma coisa do gênero. Há um que diz: "Está bem, eu tenho uma bicicleta, vamos de bicicleta". E eu: "Tudo bem, vamos embora, seja do que for". No meio dessa conversa toda, houve um deles, sem eu dar por isso, que me dá uma catanada aqui na cabeça, abre-me a cabeça. Está aqui o corte. E os outros caem todos em cima de mim. Eu fico no chão, estendido, a sangrar, com os olhos já tapados de sangue, e aquela gente toda em cima de mim, não sei como nem por quê. Não sei explicar. Eu sei que abri braços e pernas e aquele monte de gente, foi todo para cada lado. A gente multiplica as forças por não sei quanto quando está aflito. De tal maneira que consegui meter-me no meio do mato. Estive lá num cantinho, no meio do mato, tirei o lencinho, amarrei a cabeça, pus assim aos olhos. O sangue parou, porque isto abriu mesmo, está aqui um alto. Fiquei lá quietinho, peguei numa faca, uma faca de mato, na combinação de voo, e tirei a faca e fiquei à espera. Fiquei à espera uma eternidade. E aquela gente a procurar-me por todo lado. Também não me via. E eu assim: "Não, não me veem agora, mas vão me ver daqui a um bocadinho". Mas os outros espalharam-se todos e há um, se calhar o mais pisteiro, vai e para em frente a mim, lá no meio dos arbustos. Deu-me de soco na mão, fica a olhar para mim quietinho e diz-me assim: "Dá a faca". E eu olhei assim: "Vem buscá-la". É uma cena, ainda me lembro perfeitamente dela. Ele: "Não, dá a faca". Eu levantei-me assim: "Vem buscá-la". E repetimos isto três ou quatro vezes. E ele ficou, não se mexeu mais.
Passam-lhe uma série de cenários em turbilhão pela cabeça, aberta pela lâmina da catana. Apesar de estar ferido no rosto e também nas costas, Lobato tem a certeza de que consegue dar conta do homem que tem à frente. Não está sequer armado. Basta um gesto rápido e certeiro. O problema são todos os outros, que continuam a vasculhar o mato à sua procura e não vão desistir até o encontrarem. Numa fração de segundo, mentaliza-se que as hipóteses que tem de sobreviver são praticamente nulas e percebe que se matar ou ferir alguém, estará tudo perdido. Resignado, pega na faca e atira-a ao chão. Parece que passaram dias, mas a manhã daquele 22 de maio ainda mal começou. A avaliar pela curva do sol, deverão ser umas oito da manhã quando chega à pequena aldeia, mesmo ao lado do campo de arroz onde aterrou de emergência. Primeiro tiram-lhe as roupas, logo a seguir as botas, dão-lhe uma manta para se cobrir e um par de sandálias de plástico para se calçar. Depois, instalam-no à sombra de uma mangueira.
Fiquei em cuecas, com aquela manta pelos ombros, encostado ao mangueiro, e pus-me a olhar para as mangas lá para cima. E a olhar para cima, ver os mangos, estava cheio de fome, de ter perdido sangue. Estava mesmo com fome. E um diz assim: "Queres mangos? Quero". Então ele chamou, qualquer um: "Tira lá mangás cá para baixo". Fui tirar, não sei quantos comi, mas devo ter comido para 20 ou 30. Comi, comi, comi mangas com casca e tudo, ali vindas de cima, e a seguir adormeci. Mas adormeci profundamente. Quer dizer, podiam ter feito de mim aquilo que quisessem. Quando acordei, já não estavam as duas pessoas que tinham ficado ao meu lado, estavam dois guerrilheiros, um de pé e o outro sentado ao lado, mas com a metralhadora Kalashnikov já ali sentada ao meu lado.
As poucas esperanças que ainda alimentava, desapareceram assim que abre os olhos. A partir desse momento, Lobato já não tem dúvidas. Tem a certeza de que os guerrilheiros do PAIGC vão executá-lo. Só não sabe é quando. Não tardará até receber ordem para se levantar e começar a andar. Hão de caminhar durante o resto do dia e parte da noite pelo meio do mato e através de pântanos, com lama de um metro de altura que lhes dificulta o avanço. O destino, a Ilha de Como, a mesma ilha que de manhã o aviador atacou À medida que se aproximam, vão-se multiplicando as casas destruídas e as paredes crivadas de balas. Lobato estava habituado a ver aquele mundo apenas de cima. É a primeira vez que é confrontado com o resultado da devastação que a Força Aérea tem feito cair dos céus.
Chegamos a um sítio, uma das entradas da ilha, uma aldeia que se chama Oediqueia, onde me mostraram uma mulher com um braço decepado e com um bebê, se não era recém-nascido, teria um ano, dois. Bebê ainda, muito bebê, e ela com o braço todo decepado. E o homem dele diz-me assim: "Estás a ver o que vocês fazem?" Eu digo assim: "Bom, trouxeste-me para aqui que é para", e pensei, senti isto, e disse: "Pronto, trouxeram-me para aqui para eu ver esta cena e executarem-me aqui".
Lobato tem quase a certeza de que não foi o ataque da manhã que provocou aqueles ferimentos. A aldeia fica a norte da zona que os aviões portugueses atacaram, mas mais tarde há de confessar que no momento em que estava cara a cara com a mulher e a criança, se sentiu o ser mais pequeno do mundo.
O ritmo de missões na Base Aérea 12 é intenso. Aviões aterram e logo outros se seguem no cumprimento constante das missões para que continuamente são solicitados.
Naquele início de guerra, Portugal está a ganhar e isso deve-se muito à intervenção da Força Aérea. Do lado do PAIGC, a guerrilha faz-se apenas em terra. Não há helicópteros, não há aviões. Os portugueses dominam os céus e espalham a destruição. Para as populações, os pilotos são os deuses da morte. Mas Lobato estava enganado. Não o matarão em Oediqueia, nem em nenhuma das outras aldeias por onde vai passar nos próximos dias. Se em algum momento esteve perto de perder a vida, foi quando ficou à guarda de Miguel, um guerrilheiro que tinha um capachinho feito de pelo de macaco e que era canibal. Mesmo assim, bastou que os companheiros lhe explicassem que o tuga não era para comer, e o perigo passou. Nunca esteve nos planos do PAIGC executá-lo. Pelo contrário, as ordens são para o manter vivo, mas isso o aviador só descobrirá um pouco mais tarde. Por agora, continua a ter só um objetivo: sobreviver. E para isso, vai ter de fugir.
À noite levaram-me para uma cubata e puseram lá um guerrilheiro comigo, na cubata. Só um. Não numa coisa de pau, de madeira, mas numa palhaça. Pronto, ele numa, eu noutra, ao lado. Deitamos, eu deitei-me também e à distância ele começou a rosnar, com a arma ao lado. Eu aí não dormia, estava atento. E granadas, tinha lá granadas ao lado, num saquinho. Deixei-o rosnar. Rosnou. E eu como ele continuava a rosnar, fui estendendo a mão, meter a mão no saco e apanhei uma granada. Apanhei uma granada e escondi-a. Levantei-me sorrateiramente, ele continuou a rosnar, e saí da tabanca, pois aquilo tem uma cerca. Saí da cerca e caminhei em direita à mata. Eu estava pertinho de cartiol do quartel.
Seriam apenas 4 ou 5 km a andar até ao quartel. Só tem de conseguir chegar à zona de floresta e embrenhar-se no mato. E a partir daí, desaparecer. Mas o plano não é infalível.
Vou direitinho à mata, andei para aí, quê, sei lá, 500 metros, antes de chegar à mata. E vêm três ou quatro mulheres com umas cabaças à cabeça, veem o branco, começam aos gritos, e eu estou feito. Portanto, acorralaram a aldeia toda, vai tudo atrás. Elas evidentemente riem: "Olha, um branco". E vai tudo atrás de mim. Eu assim de repente pensei: "Só tenho uma maneira". Meti-me ali junto uns arbustos, baixei as calças e fiz de conta que estava a fazer os meus serviços, peguei na granada e enterrei-a. É claro, eu bocadinho tinha os guerrilheiros que vinham comigo ao pé. "Então, tu foste?" "Não, vim fazer coisa para não acordar ninguém", não sei o quê, não sei que mais. Não deu pela falta da granada, porque tinha várias no saco, e levaram-me para trás outra vez e a coisa ficou assim.
O aviador sai ileso da ousadia, mas o episódio vai servir para que os seus carcereiros se apressem para o entregarem no destino que lhes foi indicado. Passam de imediato para a outra margem do rio e começam uma nova caminhada, de novo por pântanos lamacentos. Ao final de duas horas, avistam finalmente um novo acampamento de guerrilheiros. Lobato é posto perante um homem que nunca viu antes, mas de quem já ouviu falar, e muito. Um homem que entre os independentistas é tido como uma espécie de semideus, imune às balas do tuga. Um homem que comanda toda a guerrilha na zona sul da Guiné com pulso de ferro. Quinze anos mais tarde, esse homem será primeiro-ministro da Guiné-Bissau e depois será o primeiro presidente eleito democraticamente no país. Chama-se João Bernardo Vieira, mas entre os guerrilheiros é conhecido simplesmente como Nino. Está sentado imóvel no tronco de uma árvore enorme. Tem os braços cobertos de pulseiras de madeira e couro e um corno pendurado ao pescoço. Nino Vieira manda o piloto português sentar-se. Nesse momento, Lobato sabe que estão esgotadas todas as hipóteses de fuga. Tem a certeza de que bastará um passo em falso para que o homem dê a ordem para o matar, e menos de um segundo para que ela seja cumprida. A morte teria sido mesmo o seu destino, se tivesse sido feito prisioneiro apenas duas semanas antes.
"E tem sorte", foi aqui que eu soube, "porque o Cabral deu-nos ordem para fazer prisioneiros. Senão, cortava-te a cabeça". Mas não.
Fez o gesto?
É, fez o gesto. Tinham ordens, era a minha sorte eles terem ordens, para se apanhassem ao Eno, matarem e levarem, porque até ali matavam tudo o que apanhavam.
Foi na altura em que começaram a fazer prisioneiros, não é, o PAIGC?
Fui o primeiro.
Os relatos que até então passavam de boca em boca, davam conta da crueldade dos independentistas, sempre que lhes caíam soldados portugueses nas mãos. Ainda incrédulo por ter sido poupado a uma morte que tinha como certa, Lobato também começa por não levar a sério a boa vontade do tão temido Nino Vieira.
"Queres escrever uma carta à tua mulher? Não vale a pena, não chega lá. Como quiseres". Eu disse: "Então dá cá papel". O homem meteu a mão na bolsa, tirou um bocado de uma folha de um caderno de linhas, aqueles cadernos antigos que tinham linhas, e uma esferográfica do bolso. Está bem. Eu escrevi três ou quatro linhas. Supunha que ele entendia essa carta.
Hão de passar três dias até que voltem novamente a andar. Por essa altura, o aviador já sabe o seu destino. Vai para Conacri, a capital da República da Guiné, logo ali do outro lado da fronteira. O país é governado desde 1958 por Sékou Touré, o homem que fez da Guiné a primeira colônia francesa da África Subsaariana a conseguir a independência. E é na altura, um dos principais pontos de apoio do PAIGC. O fundador Amílcar Cabral, vive em Conacri. É também lá que estão as principais bases do partido. Sob o lema: "Preferimos a liberdade na pobreza do que a riqueza na escravidão", Touré, um antigo trabalhador dos Correios feito líder sindical, instaurou no país uma ditadura marxista. Nos 26 anos em que permaneceu no poder, mais de 50 mil pessoas terão sido assassinadas pelo regime. Um regime que, desde as primeiras horas, tratou de apoiar as lutas independentistas dos países vizinhos, como explica José Matos, investigador em História Militar e especialista no período da guerra de África.
No fundo, havia a perceção de quais eram as grandes vantagens que o PAIGC tinha, e uma dessas grandes vantagens era o fato de ter as bases nos países vizinhos. A Guiné-Bissau é rodeada pela República da Guiné e pelo Senegal a norte, mas a República da Guiné está a sul e está a leste, e o PAIGC tinha, de facto, fortes apoios na República da Guiné. Portanto, o regime do presidente Sékou Touré era um forte apoiante do PAIGC. O PAIGC tinha a sua sede política em Conacri, portanto, o secretário-geral Amílcar Cabral costumava estar a trabalhar e a sede do partido era também Conacri, e era lá que o PAIGC tinha um apoio muito forte. Desde o começo da guerra que as forças portuguesas e os militares portugueses, enfim, vamos assim dizer, os estrategas portugueses, sabiam que se pudessem um dia atingir as bases do PAIGC, que obviamente isso era um aspeto vantajoso para Portugal e negativo para o PAIGC.
Lobato é levado para a Guiné Conacri a bordo de um navio mercante português roubado pelos guerrilheiros. Está exausto. Está há mais de uma semana a andar, através de matas cerradas e de pântanos. Nos pés tem as mesmas sandálias de plástico que lhe deram quando foi capturado. Tudo o que tem comido é arroz. O cansaço é tanto que já nem sente dores, nem na cabeça, cuja ferida já começa a fechar, sob o lenço azul da farda de piloto que lhe serviu de torniquete, nem nas costas, também cortadas com golpes de katana. Há um vulto que se aproxima. Mas é diferente daqueles guerrilheiros que o escoltaram nos últimos dias. Não é novo e não tem qualquer arma. O velho de barba branca encaminha-o para uma pequena sala. Há apenas espaço para um armário metálico, duas cadeiras gastas e uma mesa.
Eles levam-me lá para uma tabanca qualquer. Tinha lá uma mesa de madeira, deitei-me em cima. Veio um homem. Lá viu, viu aqui assim: "Isto aqui é melhor deixar estar, não fazer nada". Viu umas costas que estavam esponjosas. Havia aqui carne esponjosa. "Aqui a gente trata, mas vai doer. Mas olha, espera aí". Foi lá a um canto e trouxe uma garrafa de vinho. "Olha, isto é vinho vosso, é vinho do vosso. Bebe!" Eu peguei na garrafa e dei-lhe.
Só depois percebe o que está ali a fazer. O velho tira do armário uma agulha grande e um novelo de fio. O piloto tem feridas ainda abertas nas costas pelas catanadas que levou. Vai ser cosido a sangue frio por aquele curandeiro. E o vinho é apenas para tentar aliviar as dores. Está quente. Vem numa garrafa que já passou por dezenas de outras bocas, mas é vinho português e aquele simples gole de algo familiar é o suficiente para o reconfortar. Depois, o curandeiro dá-lhe um rolo de pano branco para colocar entre os dentes.
E ele diz: "Agora vais-te virar de costas". E começou a cortar. Aí, sim, senti dores Aí agarrei-me. A dor era tanta que deixei de ter dor. A gente quando atinge um certo limite da dor, deixa de ter dor, fica quase insensível. O certo é que o homem lá tratou, desinfetou não sei com o quê, não pôs pensos nem pôs nada, não tinha.
Logo a seguir, Lobato volta a embarcar no navio português roubado pelo PAIGC. Sai depois para um jipe, onde vai continuar a viagem até à capital, de sulavanco em sulavanco e com paragens para interrogatórios em esquadras de aldeia. É quando chega finalmente a Conacri, que tem a primeira amostra do que o espera.
Sei que era uma sala muito escura, térrea, tudo negro, cheia de gente. As necessidades eram feitas no chão, uma cova aberta no chão, aquilo fedia, empestava por todo lado. Eu lembro-me que saí para uma esquina e fiquei ali a vomitar até de manhã, num cinto daqueles. Aquilo é uma peste doida, maluca. Digamos que era uma pocilga pior que as pocilgas dos nossos animais, são muito mais limpas que uma coisa daquelas.
Na capital da Guiné, oferecem-lhe pela primeira vez a liberdade. Para isso, só tem de aceitar ir à rádio e denunciar publicamente a guerra e a política colonial do governo português.
Pode ir para qualquer país de Leste, se quiser. Vai para lá, estuda, trabalha ou eventualmente para a Argélia, que tem lá um colega seu, que é o general Humberto Delgado, que não se importará de o receber. Eu disse: "Não, vai não." Acho que era trair alguma coisa muito profunda.
Já passou cerca de um mês desde o acidente. Maria dos Anjos está em casa, em Bissau, quando dois homens desconhecidos lhe batem à porta. Um deles está quase nu, de tanga e com uns atilhos tribais em volta dos braços. Não diz uma palavra em português. O outro vem como intérprete. A primeira coisa que fazem é pedir-lhe um copo de leite. Sozinha em casa, sem saber ao certo se o marido está vivo ou morto, só tem água para lhes dar. Em troca, recebe uma folha de papel pautado, dobrada em quatro. Era o bilhete escrito pelo marido. Nino Vieira tinha cumprido a promessa.
A carta era muito simples. "Querida, estou vivo e voltarei." Só assim, duas frases.
Por esta altura, António Lobato está dentro de um Mercedes preto com mais quatro homens, três deles armados. Estamos a 17 de junho de 1963, o 27º dia desde que se despenhou na ilha de Como. Não sabe para onde vai. Após três horas de viagem, entram numa povoação. Kindia, consegue ler numa placa à beira da estrada. Logo a seguir, o carro para à porta de um edifício. Só um dos homens é que sai. O piloto fica no interior, guardado pelos outros três. Durante duas horas mantêm-se ali sem que alguém explique o que se passa ou para onde vão levá-lo. Depois, ordenam-lhe que saia e entre num Opel, na companhia de dois outros homens vestidos a civil. Dessa vez, a viagem durará apenas uns minutos. Termina junto aos portões com três metros de altura de uma fortaleza, em forma de hexágono. Não pode imaginar o que vai encontrar no interior. Mas essa é uma história para o próximo episódio.
Os prisioneiros que morriam, morriam lá. Se não era todos os dias, era quase. Saiam pendurados assim por uma perna, vinham praticamente esqueléticos, pendurados por uma perna, atiravam-nos lá para fora, não se sabe onde é que os levavam. Eu assim enganei estes gajos todos. Olha os oficiais, vinham todos escarados, nadar nas bolhas. E eu estava ali. Eu sentia que tinha dado a volta ao boneco. Falar é chato. Entra muito cá dentro. Mas quantas horas eu passo nisso, não haverá gajo nenhum que não venha de lá ou com um sentimento de saudade por certas coisas, ou com um sentimento de revolta contra ele próprio.
O Sargento na Cela 7 é uma série para ouvir em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. Pode ouvir no site do Observador e subscrever nas plataformas de podcast habituais. É narrada por mim, PP Rapazote, e tem banda sonora original de Noiserv. O guião é de Tânia Pereirinha e João Santos Duarte. As entrevistas de Tânia Pereirinha, a sonorização e pós-produção áudio de Diogo Casinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio usamos também sons históricos do Centro de Audiovisuais do Exército e outros retirados do YouTube. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast.
Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis.
