Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

João Neto Vaz chegou à Guiné em 1966.

Rebenta a mina, aquilo logo ali sim uma certa confusão, uns tiros para um lado, uns tiros para o outro, e uma ficou para a polícia, ficou ali sem sossego da polícia que eles tiveram lá e depois voltaram para trás no mesmo sítio. Quando foi à noite, faltava o gajo da bazuca. Eu então falei: "O que é que foi feito aquele gajo?" "Sei lá, esse gajo não foi comigo, não o vi." Andámos no outro dia à procura dele, apanhámos aí 100 gramas do gajo, ele ia escondido atrás da GMC, porque os bandeiros tinham sido atacados, ele queria ir lá protegê-los. Rebentei-lhe a mina debaixo dos pés, apanhámos 200 gramas de carne daquele gajo, que de contado à carreira era formiga. Havia aqui 100 gramas, ali 20 gramas, aqui 50 gramas. Aquilo depois de suceder uma vez, aqui duas, três, quatro, cinco, a cabeça falha. A cabeça falha.

Foram dois anos de guerra até ser preso e enviado para Quindiá, onde já estava António Lobato. Passaram mais de 50 anos e ainda hoje, sentado, sozinho, na sala de casa, na Serra d'Aire, não há um dia em que não pense no que viu, no que fez e no que lhe aconteceu durante a guerra.

Falar é chato. Entra muito cá dentro. Mas quantas horas eu passo nisso? Quantas horas, menina! Queiras queiras, não queiras não, não haverá gajo nenhum, a não ser que nunca estivesse metido nisso, que venha, pelo menos da Guiné, dos outros já não me pronuncio, porque, por exemplo, aqui vários gajos foram para Angola e Moçambique, nunca deram um tiro, nunca ouviram um tiro, que não venha de lá ou com um sentimento de saudade por certas coisas, ou com um sentimento de revolta contra ele próprio. Mas nós é que fomos para lá, não foram eles. Eles já lá estavam. Essa é a parte chata da questão. Meu Deus.

Lobato foi o primeiro, mas muitos outros prisioneiros de guerra se vão seguir na Guiné. Depois de 1963, as coisas só pioram para os portugueses. Os céus, onde os aviadores como Lobato eram reis e senhores, deixam de ser inalcançáveis para o inimigo. Em terra, os portugueses sofrem cada vez mais baixas. Fechado na sua pequena cela, Lobato virá a saber disso pelos relatos dos que irão chegando à prisão ao longo dos anos seguintes. O que nenhum deles imagina é que uma conversa entre dois homens, noutro continente, vai pôr em marcha uma operação secreta para os libertar. Mas naquele primeiro ano em que está preso, um espaço de dois metros por quatro é o único mundo do piloto. Este é o Sargento na Cela 7, uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, PP Rapazote, com banda sonora original de NoiseHuub.

Esta é uma história real e é o conhecimento da história que guia a Honda em direção a um futuro melhor. Nesta viagem, os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis. Vamos continuar este percurso juntos, porque a Honda tem muito para contar, mas também tem muita vontade de ouvir.

Episódio três: O Código Secreto. Lobato acorda em sobressalto. Naquela primeira noite quase não dormiu. Nos primeiros momentos depois de acordar, nem percebe bem onde está. Julga que está absolutamente sozinho. Em poucos segundos, vai começar a distinguir os sons que lhe chegam do outro lado da porta da cela. Por agora são estranhos, mas rapidamente farão parte da rotina dos seus dias na prisão. Há pesadas portas de ferro que se abrem e fecham, passos arrastados, gritos de comando ritmados por um chicote que estala no ar antes de cair, umas vezes no chão, outras vezes nas costas de alguém. Lobato aproveita os apoios de ferro da porta da cela reforçada por dentro, para elevar o corpo até à pequena janela com grades que se encontra no cimo. Nunca se esquecerá daquilo que vê na primeira manhã, quando os seus olhos descobrem finalmente a luz do exterior A prisão é um hexágono, dividido entre salas compridas e estreitas e celas pequenas.

Essas celas têm 2 m por 3 m, mais ou menos 6 m² no máximo. Que é para pessoas individuais, mas eu vi lá meter 26 pessoas numa cela dessas. E as salas estreitinhas, talvez da largura deste bocadinho por aqui abaixo, com uma saliência de cimento, com altura de meio metro, a todo o comprimento da sala de um lado, e outra saliência do outro lado, a todo o comprimento também, e no meio um corredor, terá também meio metro. Corredor, quer dizer, um espaço entre os dois blocos. Nesses blocos de cada lado, há palhaças onde dormem presos, em cima desse cimento. Nessas celas, são umas três ou quatro celas.

A pouco mais de 100 km de Conacri, a capital da República da Guiné, a prisão da cidade de Kindia recebe toda a espécie de prisioneiros. Ladrões, assassinos, mas também homens acusados de crimes financeiros, invariavelmente condenados a penas de prisão perpétua pelo regime sanguinário do ditador Sekou Touré. A maior parte dos prisioneiros estão amontoados nas celas comuns. Único branco entre 400 reclusos, e o único prisioneiro de guerra, Lobato tem uma cela só para si. Mas não é por estar sozinho, por não ser sujeito a trabalhos forçados e por não ser chicoteado pelos guardas, como todos os outros, que as condições em que vive são menos desumanas. Terá de esperar um ano até finalmente ter autorização para sair da cela e passar tempo no pátio. Um ano. Só ele e os presos doentes não vão trabalhar todas as manhãs a toque de chicote. Serão cerca de 50 ao todo. Uns tuberculosos, outros com sífilis e outros leprosos, como os sete que ocupam uma das celas mesmo ali ao lado, exatamente igual à de António Lobato. Naquele hexágono sobrelotado e sem condições de saneamento, quase todos os dias há alguém que morre.

Nas celas há baldes. Há dois baldes, um com água, que serve para tudo, e outro que faz de sanita. Não há papel higiênico, não há coisa nenhuma. Nas salas não são baldes, são ex-bidões, bidões cortados ao meio. E que todas as manhãs saem quatro presos com o bidão às costas, cheio de caca, para irem despejar num daqueles recintos atrás da prisão, que eu esse nunca vi, mas ficava justamente atrás da minha cela. Portanto, aquilo devia ter caca de anos aos montes. E não havia um comprimido, não havia um médico, nunca vi um médico na prisão, nenhum enfermeiro, ninguém. Os prisioneiros que morriam, morriam lá, se não era todos os dias, era quase, saíam pendurados assim por uma perna, vinham praticamente esqueléticos, pendurados por uma perna, tiravam-nos lá para fora, não se sabe onde é que os levavam.

O estado físico do próprio piloto depressa se agrava. Primeiro são os ataques constantes de paludismo, com febres que o levam a tremer de frio, apesar do clima tropical, depois os dentes que se enchem de cáries tão dolorosas que quase desmaia. Está tanto tempo parado que desenvolve problemas de bexiga e de estômago que lhe provocam dores insuportáveis. Isolado numa cela minúscula, sem dizer uma palavra durante meses, sente que caiu no vazio. Considerado criminoso de guerra, preso sem direito a julgamento e sem qualquer esperança de ser libertado, começa a não encontrar razões para viver.

Uma das ideias que surge de imediato é a gente pôr termo às coisas depois de pensar e repensar, não sei se durante semanas ou durante meses. Diz: "Não, isto não tem fim, não há esperança de coisa nenhuma. Não, eu assim não quero continuar a viver."

João Neto Vaz, o homem que ouvimos no início deste episódio, também irá ocupar uma das celas do hexágono de Kindia. Chega à Guiné em 1966, três anos depois de Lobato ter sido preso. Tem 21 anos e vai com a missão de formar o seu próprio pelotão de militares locais. O território que encontra já não é o mesmo que o piloto António Lobato conheceu.

Só em Bissau é que não havia guerra e não era todos os dias. O resto, em toda qualquer parte do mato, havia tiros todos os dias. Enquanto se fosse para Angola, para Moçambique, havia um período de um ano sensivelmente nas zonas de guerra, e depois havia o resto do tempo nas cidades. A Guiné não tinha. A Guiné tinha toda, desde uma ilha qualquer, para lá onde fosse, havia tiros em todo lado. É difícil perceber aquilo, porque é um território pequeno, que tinha mais tropas do que tinha a Angola. A Guiné tinha 80, 90 mil portugueses num território do tamanho do Alentejo, todos com a arma na mão.

É por esta altura que as coisas começam a correr mal para os militares portugueses na Guiné. A supremacia aérea que até então Portugal tinha sobre o PAIGC foi pulverizada com a chegada à guerrilha de defesas antiaéreas fornecidas pela União Soviética. Os aviões deixam de ser intocáveis e os portugueses perdem o controle do ar. Treinados em campos militares nos países vizinhos, os guerrilheiros do PAIGC são, em plena Guerra Fria, armados pelo Bloco de Leste, com carregamentos de metralhadoras, lança-granadas e sistemas de canhão, e veem os seus contingentes reforçados com militares cubanos que se juntam à guerrilha. O efeito é imediato. As baixas entre os portugueses são maiores do que nunca Mas o regime mantém-se irredutível em não abrir mão do território. Seja primeiro com Salazar, seja depois de 1968, com Marcelo Caetano à frente do governo.

Para quem tinha uma posição mais flexível, a Guiné sempre foi vista como o território que se podia mais facilmente abandonar, porque era um território muito pequeno, muito pouco desenvolvido, muito dificilmente defensável, podia ser sacrificado. Não se fez para não abrir o precedente.

Bernardo Funchal Pereira é diplomata e autor de vários livros sobre o período do Estado Novo. Recorda que Portugal está isolado internacionalmente. As Nações Unidas exigem repetidamente que o país ponha fim ao seu império colonial e o que não faltam são apoios internacionais ao PAIGC.

E é um movimento que é apoiado pelos países do Bloco de Leste, mas não só. Por exemplo, a Suécia é uma grande apoiante no tempo do Olof Palme, do PAIGC. E o Amílcar Cabral era um político hábil, que prestava muita atenção ao aspecto internacional da luta, era muito conhecido nas Nações Unidas, portanto, tinha muitos apoios.

Mas não é só na comunidade internacional que surgem vozes críticas da guerra. Entre os próprios militares portugueses, também cresce cada vez mais o sentimento de que aquela guerra não é deles, nem faz sentido. Geraldino Marques Contino chega à Guiné em 1967 como operador de criptologia. A única coisa que tem de fazer é codificar e descodificar comunicações. Uma posição que à partida lhe devia garantir uma comissão tranquila, sem nunca ter de sair do quartel em Tite para participar em missões. Na verdade, com os estudos que tinha, podia até ter sido oficial e comandar um pelotão de combate, mas preferiu mentir na recruta e dizer que só tinha tirado a quarta classe. Primeiro para se manter a salvo, depois porque achava que Portugal não estava do lado certo da história.

Eu vivi e cresci em Angola até aos 17 anos. Fiz lá a instrução primária. Para mim, quando voltei, a perceção que os metropolitanos tinham era diferente da minha. Naquela altura já éramos um bocadinho pró-vietnamitas. Eles estão a lutar por aquilo que é deles.

Naquela época, Geraldino tinha um problema de atitude. É ele próprio que o reconhece. Nunca forma com o batalhão e ainda faz questão de passar de toalha ao ombro rumo ao banho quando os camaradas estão na parada.

Eu só era um jovem. Eu é que enganei estes gajos todos. Os oficiais vinham todos escregados, nadar nas bolhenhas. E eu estava ali. Eu sentia que tinha dado a volta ao boneco. Eles estão aqui a mochar. E eu, pronto.

Esta arrogância vai acabar por lhe sair cara. Hoje, tem a certeza de que foi ela que fez com que o tivessem integrado no pelotão enviado para ocupar a aldeia em Bissau Sema, onde o PAIGC se abastecia de arroz. Será a primeira e última operação em que participa na Guiné. De Bissau Sema, Geraldino há de sair diretamente para a prisão de Quindiá. Nos primeiros meses em Quindiá, António Lobato quase desespera. Sente-se perdido num espaço exíguo do qual não o deixam sair em nenhum momento. O único contacto com o exterior são as pequenas grades da porta de ferro, pelas quais vai avistando a vida na prisão. Um quotidiano que se repete sem qualquer alteração. As portas de ferro que se abrem e fecham, os chicotes contra as costas dos outros prisioneiros, as orações a Alá no fim de mais um dia miserável. Depois lembra-se de Maria dos Anjos, que deixou sozinha, e daquela promessa que lhe fez na última noite que passaram juntos. "Eu voltarei." Recorda os pais de quem é o único filho e a aldeia onde nasceu. E de todos esses pensamentos, nasce outra convicção: tem de fazer tudo para sobreviver. A partir desse momento, traça um plano. A única forma de se manter vivo e de não voltar a cair no desespero é ocupar ao máximo a cabeça. E cansar o corpo.

Fazia exercícios todos os dias até aqui para o lado. Cansava-me. Depois, como comia pouco, a comida era fraquíssima, eu perdi peso, fazia exercícios, estava exausto, rapidamente ficava exausto, ia para lá e dormia 16 horas seguidas. No sítio donde não há nada, tudo é importante. Aquilo começa a ficar cheio de percevejos, os percevejos são importantíssimos, são uns companheiros fabulosos, entretêm-nos horas e horas durante o dia. Começaram a aparecer a picar-me de noite. Como é lógico. Eu disse: "Olha, estão a começar a aparecer e a picar de noite". Só tem uma maneira de fazer para os matar. Levantar-se devagarinho enquanto eles estão cá fora, porque assim que a gente se mexe, eles fogem. Depois, começar a matar. Era uma das formas de passar um tempão enorme, mas isso era importantíssimo.

Lobato já está na prisão há mais de um ano, quando do nada, ouve alguém falar português. Do lado de fora da cela, uma voz arrastada, com sotaque, pergunta-lhe se a sua família sabe que está ali. Diz-lhe que não, que nem sequer terão a certeza se está vivo ou morto. E não há tempo para mais. Com um sussurro, o misterioso homem manda-o calar-se. Os guardas estão a aproximar-se. É nesse momento, pendurado na porta da cela, a espreitar por entre as grades, que o piloto tem a primeira visão daquilo que se tornará o seu maior aliado na prisão. Chambor Lambert Joseph Alexandre Raymond. Assim se chama o francês oriundo da Guiana, que Lobato vê afastar-se rumo à cela número 6. O português, que consegue arranhar, há de contar-lhe mais tarde, aprendeu no Brasil, onde também viveu uns anos. Forte, mestiço, veste roupas de bom corte e anda pela prisão como se fosse dono dela. O guianês, ou guianes, como outros lhes chamam, trabalhava no Ministério do Tesouro em Conacri. Isto até se descobrir que tinha transferido uns quantos milhões de francos para a sua conta na Suíça. À custa do desvio, foi condenado a prisão perpétua. Mas isso ali só é um problema para quem não tem dinheiro. A cela mesmo ao lado da de Lobato é só um sítio para dormir à noite. Passa o resto do dia em roda livre pela prisão. Benesse alcançada com umas quantas notas metidas ocasionalmente nos bolsos dos guardas. Vindo não se sabe bem de onde, o dinheiro nunca para de chegar. E o dinheiro abre todas as portas, até a do gabinete do diretor. João Neto Vaz também se cruzou com Chambor na prisão de Quindiá.

O guianes chegava a correr com o chefe da prisão, do gabinete, para arranjar lá a mulher do Pedro, do Paulo e do Chico.

Como?

Saía de lá o chefe da prisão, do gabinete dele, ali para lá com uma mulher. Falou o poder que aquele gajo tinha dentro daquela prisão.

Para alguém que tem visitas conjugais, com várias mulheres diferentes e na divisão mais exclusiva da prisão, arranjar uma folha de papel e uma caneta é uma brincadeira de criança. Um dia, passa-os a Lobato por entre as grades da cela e diz-lhe para escrever à mulher.

"Você escreva em nome de quem entender. Eu dou a carta à minha mulher, ela manda para a Guiana e da Guiana manda-na para Portugal." E assim foi. A primeira carta que eu mandei para cá foi escrita para uma Edwiges qualquer, para a Guiana francesa. A mulher dele trouxe para Conacri, mandou-a para a Guiana e da Guiana veio para Portugal.

E é assim que um belo dia, remetido pela cunhada de Chambor, que mora nas Caraíbas e se chama Edwiges, um envelope com carimbo transatlântico é entregue a Maria dos Anjos, em Espinho. A partir daí, a correspondência entre Lobato e a mulher é retomada e nunca mais para. Não tarda muito até que comecem a chegar à prisão outros objetos além das cartas. Sempre em nome do guianês, que arranja forma de os passar para a cela do lado, através das grades. Em todos os anos que estão juntos em Quindiá, Chambor e Lobato nunca chegam a estar frente a frente, cara a cara. No forro de um casaco mandado coser por Maria dos Anjos a uma modista, Lobato recebe, sem que ninguém desconfie, um maço de notas que lhe permitem comprar favores na prisão. Também nenhum carcereiro se interroga quando Chambor recebe um inofensivo livro editado em Lisboa e escrito em português. Nunca passaria pela cabeça de ninguém que ia ser através dele que o piloto preso naquela fortaleza ia conseguir passar ao governo português o relatório da missão de 22 de maio de 1963. E até informações sobre a cadeia e as movimentações do PAIGC.

Eu pedi um livro para cá, que veio através do mesmo caminho. É um livrinho pequeno e fiz um código com base nesse livro. Um A da página não sei quantas, da linha tal, podia ser um Z na página 20 ou na página 30. Não era fácil decifrar o código.

E ele mandava informações militares para cá, para eu entregar ao ministério. Eu ia lá ao ministério e entregava a carta em que ele dizia quantos aviões é que tinham ali, quantos aviões é que tinham acolá, mais as coisas que ele ia conseguindo saber, ele informava o governo. O nosso governo era informado de assuntos militares através de mim.

Por essa altura, Maria dos Anjos já foi forçada a voltar para casa dos pais. Aos 20 anos, continua a ser uma miúda, mas já não é a menina incapaz de tomar decisões, que anda na rua de mão dada com o pai. Com o desaparecimento do marido, foi obrigada a crescer e, pelo caminho, transformou-se numa espécie de agente especial do governo, enviada ao estrangeiro para tentar negociar a libertação do piloto António Lobato. Ainda antes de abandonar Bissau, foi à Gâmbia com o sogro. Como um vizinho tinha boas relações com o embaixador da Guiné Conacri, pediu-lhe ajuda para libertar o marido.

O senhor insultou-me de tudo. "A senhora não tem vergonha de vir aqui pedir que eu interceda por causa de um bandido, de um assassino?" Bem, não faz ideia.

Mas talvez a maior aventura tenha sido quando se viu sozinha num avião com destino à Suíça. Primeiro, porque naquele tempo uma mulher não era sequer livre de sair de Portugal por sua vontade

Era impossível uma mulher, por exemplo, viajar de avião sozinha para qualquer sítio. Tinha que ter autorização ou do pai ou do marido. Era quase impossível. Eles trataram de tudo, o governo tratou de tudo.

O governo marca-lhe um hotel em Berna e uma reunião com um tal de senhor Nicolé. É um advogado que supostamente mantém muito boas relações com Sékou Touré, o ditador da Guiné-Conakry. Simpático e prestável, Nicolé diz-lhe aquilo que ela quer ouvir. Garante-lhe que o líder guineano tem abertura para negociar e que não é bem a pessoa que todos dizem ser.

"Tem muito má fama, eu sei, mas olhe que não, ele é bom homem, ele é bondoso, eu tenho a certeza absoluta. Eu vou consigo. Vamos lá os dois falar e vimos embora com o seu marido."

Aquelas palavras reavivam-lhe a esperança. Maria dos Anjos regressa a Portugal a acreditar que o marido vai finalmente ser libertado. Quando, semanas mais tarde, a chamam ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, em Lisboa, não espera menos que boas notícias. Nem quer acreditar quando lhe dizem que, afinal, aquele é só mais um beco sem saída.

"O que se passou em Berna com o senhor Nicolé?" E eu contei tudo direitinho. Resposta dele: "Pois, mas a senhora não sai, não vai para lado nenhum, porque o senhor Nicolé faz tráfico de brancas." Eu, na altura, nem sabia. Ninguém sabia o que era tráfico de brancas.

Afinal, aquilo que o homem queria era levá-la para a Guiné-Conakry para a prender noutro tipo de prisão. Mas esta nova desilusão não lhe tira a esperança. Ao longo dos anos seguintes, Maria dos Anjos acredita sempre que um dia vai reencontrar António. No dia em que é apanhado pelo inimigo, João Neto Vaz, o homem que ouvimos no início deste episódio, já devia estar bem longe da Guiné. Tudo começa a correr mal naquela noite de 1968, em que só queria que o deixassem estar sossegado, perdido nos seus pensamentos e acompanhado por uma garrafa de uísque.

Eu quando fui preso lá pelos já estava com 21 meses de missão, que eu já devia de cá estar. Já tinha cá de estar, só que eu fui maluco. Naquela altura, menos juízo tinha. Cada um tem o seu feitio e o meu era um bocado nostálgico. Havia aqueles dias em que se falasse ao pé de mim, havia confusão. Estava uma noite dessas no bar, na cantina, no chalé, e chegou o capitão ao pé de mim, um merda que não valia 10 tostões. O caso desse arquiteto, o arquiteto de Lisboa, foi pescado, vim para lá. Não percebi nada daquilo, mas era burro, estava convencido que estava na Guiné, que estava numa coisa, estava aqui sim em Lisboa. Então chegou ao pé de mim naqueles dias que eu tinha uma garrafa de uísque ao meu lado, estava lá meio sossegado, tão longe de estar bêbedo, nem pensar nisso. E chegou e falou: "Você vai fazer isto, fazer aquilo, fazer..." Eu: "Ó capitão, fale mais baixo." Ele aumentou a voz. "Fale mais baixo, agarro-lhe nos cornos!" Participou de mim, apanhei 30 dias de prisão espinada gravada em missão, eu.

O problema não foi só o mês de prisão que apanhou por desobediência. Foi também o fato de lhe terem aumentado o tempo de missão como castigo e de lhe terem retirado o pelotão que comandava. Quando sai da cadeia, a única coisa que quer é passar o resto da comissão longe do perigo até poder regressar a casa.

Eu disse: "Ó capitão, porra, estou com 21 meses de missão, ainda levo se calhar um tiro na cabeça. Mas deixe passar três meses de férias que eu quero num destacamento." Nunca tinha sido atacado, aquela porcaria. Andava ali sim a brincar. E o capitão compreendeu a minha situação, bem, disse: "Vá, levo-te lá, vais para lá passar férias." Fui passar férias para o outro lado. Ai, mama.

Menos de um mês depois de ter chegado ao novo destacamento, Vaz estará preso outra vez, mas agora pelos guerrilheiros do PAIGC. Acontece num dia 22, o mesmo dia em que o avião de Lobato se despenhou. Só muda o mês e o ano. Mais tarde, ambos serão libertados também num dia 22, numa operação que quase ninguém acreditava ser possível, mas isso é uma história para contar mais à frente. De repente, sem qualquer aviso, Vaz sente uma arma encostada ao pescoço.

Fui apanhado à mão, a 20 metros do cordel, sem arma, sem nada.

Tinha saído por quê?

Menina, porque tinha 20 anos e havia tabancas por ali à volta. Repara, ali nunca houve um tiro, mulher. Naquele destacamento, os primeiros tiros que houve foi no dia que eu fui apanhado.

Quando João Neto Vaz é preso, Geraldino Marques Contino, o operador cripto que nunca tinha saído do quartel, já está nas mãos do PAIGC há um ou dois meses.

Por volta, sei lá, de 1 h, uma coisa qualquer, fomos atacados. Eles foram direitos à cubata do comando, que era nós. Eu nem usava arma, tinha era uma faca de mar. Eu nunca saí numa operação, nem tinha que sair.

Feito prisioneiro, Dino, como lhe chamam os camaradas, vai passar 10 ou 11 dias a andar em direção à Guiné-Conakry e faz de tudo para que o inimigo não fique na posse do seu segredo.

Eu tinha um pequeno livro de códigos

Que era o mais simples, que se chamava o Codópera. Era um pequeno livrozinho que era para as comunicações mais fáceis, que era como se fosse um dicionário. Cobra, inimigo. As mensagens são curtas. Nesse percurso, que era noturno, eu fui mastigando as folhas desse livro e cuspindo, porque eu não conseguia saber quem era o padre cripto.

Dino irá passar pouco mais de um mês em Quindiá, antes de ser transferido de prisão. Com ele, segue o seu superior, o alferes Júlio Rosa, outro homem que também vai desempenhar um papel importante nesta história. Estamos em 1968. É nesse ano de grandes transformações na Guiné, que Dino e Vaz são feitos prisioneiros. Quando são apanhados, o general António de Spínola está a caminho de Bissau. Na bagagem, traz quatro anos de guerra em Angola, várias condecorações e uma fama que o precede, muito graças à coragem que o leva a participar em todas as operações da unidade que comanda. É Salazar quem o convida pessoalmente para ocupar o cargo de governador-geral e tentar inverter o rumo da guerra na Guiné. Conhecido por andar sempre de monóculo e pingalim, o general torna-se rapidamente popular entre locais e militares. Bernardo Fúcher Pereira, autor do livro "Orgulhosamente Sós: a diplomacia da guerra de África", diz que Spínola teve um impacto imediato.

O Spínola é um chefe militar muito determinado e muito agressivo e, portanto, imprime às operações militares uma muito maior contundência e agressividade.

Parte dessa agressividade, passa por algo que sempre foi visto com muitas reservas nos corredores políticos em Lisboa: autorizar operações que passem as fronteiras e entrem nos países vizinhos. Em agosto de 1969, Spínola está de férias e a banhos nas Termas do Luso, quando recebe uma proposta que tem tanto de inesperada como de arrojada. Vem pelas mãos de Guilherme de Alpoim Calvão. Aos 33 anos, o jovem capitão da Marinha já está na sua segunda comissão na Guiné e chefia o Centro de Operações Especiais. Calvão vem com moral em alta. Acaba de comandar uma operação com o nome de código Nebulosa, nas águas que fazem fronteira com a Guiné-Conakry. O resultado foi a detenção de vários guerrilheiros, a apreensão de armas e a destruição de um navio do PAIGC. Mas Alpoim Calvão quer mais. Diz a Spínola que está na hora de atingir o PAIGC no seu núcleo e de lhe tirar toda a capacidade naval, logo a partir de Conakry.

E quais eram os dois principais objetivos? Era destruir a marinha do PAIGC que estava no porto de Conakry. Existiam alguns barcos que tinham sido fornecidos pela União Soviética, que estavam, de facto, em Conakry, e libertar prisioneiros de guerra portugueses, que estavam também presos numa prisão do PAIGC em Conakry.

As lanchas do PAIGC alcançam velocidades superiores a qualquer um dos navios portugueses na Guiné, para além de estarem bem equipadas. São uma ameaça séria. Spínola aceita a proposta com entusiasmo. Aquele era o tipo de ação que podia começar a virar novamente a guerra a favor dos portugueses. Alpoim Calvão não perde tempo. Em poucos dias estará a voar novamente, agora com o chefe de delegação da PIDE na Guiné-Bissau, Matos Rodrigues. Vão num avião da TAP em direção a Joanesburgo. Para conseguirem fazer explodir as lanchas rápidas do PAIGC, precisam de um tipo muito específico de minas, detonáveis à distância, que têm de ser coladas nos cascos por mergulhadores.

Curiosamente, a Marinha Portuguesa não tinha dessas minas. Nós já tínhamos naquele tempo boas relações com os sul-africanos e, de facto, o Calvão vai à África do Sul buscá-las. O que eu acho curiosíssimo nessa história é, de facto, ele ter trazido as minas na bagagem do avião.

Cerca de 30 quilos de material explosivo saem do aeroporto de Joanesburgo e aterram em Lisboa, dentro da bagagem de um passageiro, como se nada fosse, sem que isso tenha levantado qualquer suspeita. De Lisboa, seguem para Bissau, já a bordo de um avião militar. Não passarão muitas semanas até que a operação que Alpoim Calvão apresentou a Spínola nas Termas do Luso ganhe dimensões que muitos pensavam não serem possíveis. Muito menos os homens que foram feitos prisioneiros de guerra e levados para a Guiné Conakry. João Neto Vaz ainda passou um tempo numa prisão que o PAIGC tinha em Conakry, a capital, mas o rótulo de perigoso e suspeitas de que estaria a preparar-se para fugir, levaram-no a ser transferido. Com ele, vai outro prisioneiro português, o alferes Júlio Rosa, que morreu em abril de 2019. Foi a primeira, mas não a última vez que fizeram planos de fuga juntos.

Um cara quando está preso, pensa em fugir. E um dos caras que foi preso comigo, era o rádio telegrafista, eu não sei por que razão, o cara foi fazer queixa à gerência daquela brincadeira dos turra, digamos assim, ao Fidel Cabral, que eu mal estava a pensar em fugir. As conversas banais de um cara que está preso. Resultado, isso a mim e ao alferes, o alferes Rosa, fomos transferidos de Conakry para Quindiá, para junto do Lobato

Nunca os tinha visto na vida, nem eles a mim. Eu tentei estabelecer uma comunicação com eles, a fazer sinais de letras no ar, ele percebia tudo e conseguiamos comunicar. Enquanto começamos a sair para o recreio juntos, conseguíamos comunicar, dizer quem eram, quem não eram, quando vinham, quando não vinham. Antes de nos encontrarmos no recreio, já sabíamos tudo uns dos outros.

Desde que ali chegou, Lobato já pensou em mil formas de fugir. Até tentou cortar as barras de ferro da cela com uma pequena lâmina que o guineense lhe arranjou. Agora vai ter ajuda. Aqueles três homens, cada um na sua cela, têm três coisas em comum: todos são portugueses, todos são prisioneiros e todos querem sair dali, custe o que custar. Não é de estranhar que se tornem inseparáveis, assim que os carcereiros lhes permitem que se encontrem no recreio apenas uma hora por dia, todos os dias. Foi o maior erro que os guardas podiam ter feito. Só que essa é uma história para o próximo episódio.

Começar a olhar em volta e ver as coisas, mas fugir como? Preso de cimento, de um metro de largura, ferros, não sei que tamanho. Até que há um dia que surge uma ideia. Meter dentro do táxi no campo rolê era fácil. Depois de estar lá dentro, ele a conduzir como conduzia eu, não havia problemas nenhuns. E se tivesse o pescoço apertado, pode ter a certeza que o táxi anda.

O ministro Sérgio Gaúchotajra estava fora da jogada, não sabia de nada. Neste caso da Operação Mar Verde, certamente que quem sabia, que eram muito poucas pessoas, havia muitos que estavam contra.

"O Sargento na Cela 7" é uma série para ouvir em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. Pode ouvir no site do Observador e subscrever nas plataformas de podcast habituais. É narrada por mim, PP Rapazote, e tem banda sonora original de Noiserver. O guião é de Tânia Pereirinha e João Santos Duarte. As entrevistas de Tânia Pereirinha, a sonorização e pós-produção áudio de Diogo Casinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Podcast Plus do Observador é mais do que um podcast.

Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis.