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Aqueles homens não sabem o que estão ali a fazer. No meio do mar, ao largo de uma ilha que julgam deserta. São 230. Estão divididos por seis embarcações diferentes. Para eles, este secretismo não é novidade. Já estão habituados a só saberem à última hora que alvo vão atacar. Mas desta vez nada os podia preparar para o que estava para vir. Não fazem qualquer ideia de que naquela ilha, 200 outros homens estão há meses a receber treino militar, que estão ali porque estão a preparar um golpe de Estado no país vizinho, e que eles, os 150 comandos e 80 fuzileiros africanos, vieram para participar na operação lado a lado com esses homens. Até 48 horas antes da partida, todos são deixados às escuras, mesmo os comandantes dos navios que os vão levar até Conacri. Luís Costa Correia é naquela altura o comandante da Montante. Recorda-se que no momento em que o segredo é revelado, os problemas começam logo a surgir.
Eu pressenti que aquilo poderia não dar muito bem pelo lado dos comandos, porque nos dois dias antes, os oficiais comandos que estavam no meu navio pediram para reunir na camerinha do comandante. Eu, naturalmente: "Sim, senhor, muito bem." E eu percebi que aquilo, lá dentro, o fiado era fino, os berros. Portanto, eles estavam preocupados com o seu futuro.
Os ânimos a bordo exaltam-se. São cada vez mais os homens que se recusam a participar. O próprio comandante Costa Correia também só sabe dos objetivos da Mar Verde pouco antes do dia previsto. E também ele tem reservas. Estamos em novembro de 1970. Faltam apenas 48 horas para a partida. Sem saberem de nada, António Lobato e os outros portugueses estão agora numa nova prisão e com segurança reforçada. Uma coisa é fugir para o meio do mato, onde se podem esconder, mesmo com todos os perigos, mas conseguir escapar de uma casa fortificada no meio de uma cidade cheia de gente é um desafio praticamente impossível. Não havendo fuga, teria de existir um resgate. A única hipótese de saírem dali passa pelo sucesso de uma operação que é também vista como a última oportunidade de Portugal vencer a guerra. Mas nada é certo. Só um restrito grupo de pessoas no governo e nas chefias militares têm informação sobre o que está na iminência de acontecer. E ainda menos os que vão saber que a Mar Verde, no último minuto, ficará em risco de não avançar. Este é o Sargento na Cela 7, uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, PP Rapazote, com banda sonora original de Noiserv.
Esta é uma história real e é o conhecimento da História que guia a Honda em direção a um futuro melhor. Nesta viagem, os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis. Vamos continuar este percurso juntos, porque a Honda tem muito para contar, mas também tem muita vontade de ouvir.
Episódio cinco: a operação clandestina. A casa tem dois pisos, mas a primeira coisa estranha que salta à vista é que não tem janelas. Pode ter sido uma casa normal em tempos, mas agora está longe de ser apenas um sítio onde alguém vive. Está rodeada por muros de três metros de altura. Não há portão, apenas uma abertura larga no muro de cimento, mas está fortemente vigiada. À entrada, há uma guarita com sentinelas. No interior, em cada um dos quatro cantos do muro, existem outras quatro vigias, todas guardadas por homens armados. E na cobertura está montada uma metralhadora pesada. Situado nos arredores de Conacri, este é um dos alvos mais importantes da Operação Mar Verde. É para aqui que António Lobato, João Neto Vaz e Júlio Rosa são transferidos poucas semanas depois da tentativa de fuga falhada e de terem sido novamente capturados. Sete meses antes da Operação Mar Verde, aquilo que encontram não tem comparação com a prisão de Kindia. À sua espera, os prisioneiros têm um quarto com três camas de ferro, colchões, a sério, e não de palha, e cobertores, e ainda uma casa de banho. Luxo a que Lobato não tem acesso há sete anos, desde o dia em que partiu em missão à ilha de Como.
Em relação à outra, era um hotel de cinco estrelas, porque era uma casa transformada em prisão, onde eles tinham presos os deles também. Onde eles tinham presos do PAIGC.
Do lado oposto do corredor, estão outros 23 militares portugueses que os independentistas da Guiné-Bissau capturaram ao longo dos últimos anos. Estão repartidos por dois quartos com beliches e uma casa de banho ao meio para todos. Passam os dias fechados e só têm autorização para passear no pátio durante 15 minutos por dia, dois a dois. Quando Lobato e os restantes chegam à prisão, Geraldino Contino, o operador cripto que foi capturado na primeira e única missão em que participou, já lá está há dois anos. E por essa altura, já arranjou formas de tornar a vida na prisão mais suportável para ele e para os outros.
Quando estávamos ali, tínhamos sempre cigarros, que eram cigarros cubanos, e davam-nos umas caixinhas de fósforos pequeninas em cartão. Esses cigarros chamavam-se marca Legeros, mas aquilo parecia charutos, era como aquele tabaco francês, que é muito forte, o Gauloises. E eu: "Mas não há cartas". Daquelas caixinhas de fósforos que eu tinha, eu fazia daquela parte de cima. Fiz cartas! Cartas, com umas meninas assim para atrevidas. O que é que eu ia fazer? Uma rainha, em vez de não punha a rainha vestida, punha a rainha descascada. A dama era outra, o cavalheiro. O rei era o mais abonado. Mas pronto, eram cartas.
Ao contrário de Lobato e Vaz, Dino garante que nunca fez planos para fugir. Para quê? Para onde? Se não o mataram naquele dia em que o apanharam, já não o vão matar. É mais seguro esperar que o libertem ou que a guerra acabe. E além do mais, até tem boas relações com os carcereiros.
Tinha lá o chefe dos guardas, tinha lá uma namorada francesa, mas não sabia francês. Ele trazia umas cartas da namorada e eu lia. E depois ele dizia para eu escrever. "Mas o que é que queres dizer?" "O Dino que sabe". Eu escrevia cartas. "Ma chérie".
Coda, o chefe das sentinelas apaixonado, recompensa Dino com mamões e bananas em troca das cartas de amor e dá-lhe um tratamento preferencial que está muito longe de dispensar ao sargento aviador Lobato.
O chefe da prisão, que ao mesmo tempo tinha sido guarda-costas do Cabral, era uma besta física. E um dia, eu já não me lembro se foi por estar a cantar o hino nacional lá dentro da prisão, o nosso hino, ou outra coisa assim do gênero, o tipo entra lá dentro de rompantes, diz-me 200 coisas, já não me lembro exatamente o quê, e me aponta a metralhadora. Mas o tipo reteve-se. Disse assim: "Se não fosse o Cabral, já estavas morto há muito tempo".
Amílcar Cabral, o líder do PAIGC, salvou-lhe a vida há sete anos, quando decidiu que o movimento ia começar a fazer prisioneiros de guerra, em vez de matar todos os militares inimigos capturados. Lobato era odiado, mas valia muito mais vivo do que morto. Como lembra Dino, era um troféu.
O primeiro troféu que eles tiveram foi um aviador, que era a classe militar mais odiada pela população, porque bombardeavam os aldeamentos, desde que houvesse a suspeita que se refugiavam ali militantes do PAIGC.
A operação está por horas, mas ao largo de Soga, os comandos africanos continuam irredutíveis e recusam-se a participar na missão. José Matos investiga o período da guerra de África e revela um dos motivos que deixavam aqueles homens receosos.
Dentro dos comandos africanos, havia vários elementos que tinham família na República da Guiné. E quando lhes é dito que a operação, afinal de contas, era uma operação no país vizinho, vários deles manifestam grandes reservas em meter-se numa operação dessas.
José Matos explica que na cabeça dos comandos, não há um cenário futuro que lhes seja favorável. Se a operação for bem-sucedida e o golpe de Estado resultar, por serem africanos, serão vistos como traidores no seu próprio continente. Se a operação falhar, as vidas deles e das famílias também estarão em risco. O militar que supervisiona a companhia de comandos é a voz da discórdia.
Esse oficial, Leal de Almeida, manifesta grandes reservas ao comandante Calvão. Diz mesmo ao comandante Calvão que a sua tropa, os seus comandos africanos, não estão disponíveis para ir à República da Guiné fazer a operação. Isto provoca, obviamente, ao comandante Calvão, um problema gravíssimo na altura, porque o comandante Calvão precisava, de facto, dos comandos africanos, e faz com que o comandante Calvão leve o oficial Leal de Almeida a Bissau, a falar com o Joãozinho. E o Joãozinho, em Bissau, eu diria que passa uma grande reprimenda no Leal de Almeida e que de certa forma o pressiona fortemente para que ele aceite a missão e, portanto, para que ele participe e ponha na ordem os comandos africanos.
Leal de Almeida irá efetivamente à operação. Mas como se verá mais tarde, a desavença entre os comandos não ficará resolvida, mesmo depois de amar verde partir para o terreno E isso vai ser fatal. Na reunião com os comandantes das embarcações, Costa Correia, que está ao leme da Montante, também apresenta vários argumentos contra a operação.
Eu penso que a operação é um erro. As consequências para Portugal, a prazo, eram negativas. Aquilo era contra a ética, de certo modo, atacar um país sem declaração de guerra. Evidentemente que eu estaria inteiramente de acordo com a operação no que diz respeito aos prisioneiros de guerra ou a sua recuperação. Sabia que isso teria alguns custos, mas ao nível estratégico da política portuguesa, parecia ser um grande erro, se pensássemos na evolução que o mundo estava a ter. Essencialmente, foi isto. E não foi pouco.
Costa Correia consulta a sua guarnição. Apesar de manter as dúvidas, decide avançar. É no navio que comanda que vão viajar os dirigentes máximos da Frente Nacional de Libertação da Guiné. Entre eles, estão os homens que Portugal escolheu para formar o novo governo da Guiné-Conakry, com a promessa de que, após o golpe de Estado, o PAIGC vai ser aniquilado no país. Um deles é Thierno Diallo. É o militar mais graduado do movimento e o homem escolhido para substituir o presidente Sekou Toure, até que seja possível convocar eleições. Diallo chega a Soga apenas no dia da partida. É lá que se encontra com António de Spínola, que vai de propósito à ilha passar revista às tropas. Spínola garante aos homens que, aconteça o que acontecer, Portugal não deixará de apoiar as suas famílias. É só naquele momento, a poucas horas de as lanchas partirem, que o homem que deverá ser o novo presidente da Guiné-Conakry fica a par do plano completo da operação. E isso também vai ser um problema, conta a sua filha, Bilguissa Diallo.
Quando o meu pai foi para Soga e soube como é que tecnicamente o plano ia acontecer, percebeu que não ia estar na equipa que ia prender Sekou Toure. Pediu modificações e o Spínola disse-lhe: "Não, não é possível". E disse-lhe: "Está com medo de ir libertar o seu país?" E o meu pai disse: "Ok, eu vou, estou aqui, vou, mas acho que assim não vai resultar".
As lanchas de desembarque médias, LDM, com fuzileiros, são frequentemente utilizadas como unidades de patrulha. A vigilância que exercem destina-se a detectar e impedir movimentos do inimigo.
Praticamente todos os meios da Marinha que Portugal tem na Guiné são mobilizados para esta operação. A frota é composta por seis embarcações, quatro lanchas de fiscalização e duas lanchas de desembarque grandes, entre elas a Montante, comandada por Costa Correia.
Pode levar uns carros de combate ou pode levar bastante gente a bordo, disponível para desembarcar de imediato, para estarem lá a passar uns dias. Dois ou três dias ainda bem, mas mais que isso, não.
São 20h de 20 de novembro de 1970, uma sexta-feira. Ultrapassadas as divergências, a frota com mais de 400 homens parte de Soga rumo a Conakry. Um avião da Força Aérea assegura que as águas estão livres. Vamos ouvir José Matos.
É enviado um avião de patrulhamento marítimo, um avião da Força Aérea, que estava na ilha do Sal, e que é enviado à frente dos barcos para ver se havia por ali algum barco suspeito, no fundo, alguém que pudesse denunciar o trajeto da força naval. Esse avião vai à frente, vai fazendo a vigilância do mar, e se houvesse qualquer questão ali que aparecesse, imaginem, um barco de guerra soviético, qualquer coisa do gênero, o avião de patrulhamento marítimo avisava a força naval de que: "Atenção, não passem aqui" ou há este problema.
Todas as embarcações estão descaracterizadas e avançam sem luz. Não levam bandeira. As letras que normalmente as identificam foram pintadas por cima, para que ninguém suspeite de que lá dentro seguem militares ao serviço de Portugal. A esquadra da Marinha de Guerra Portuguesa vai demorar cerca de 24 horas a chegar ao largo de Conakry. A operação acontece em pleno fim de semana, na noite de sábado para domingo.
O facto de ser ao fim de semana era uma altura em que, por exemplo, os quartéis tinham menos militares, enfim, havia na própria cidade de Conakry, digamos que haveria um estado de alerta menor, por ser ao fim de semana também.
A operação tem três grandes objetivos: libertar os prisioneiros de guerra portugueses, depor o presidente Sekou Toure e atacar as forças do PAIGC no país. Alpino Calvão estudou ao pormenor a tabela das marés e o calendário astronômico. Sabe que naquela noite haverá maré cheia, o que facilita a aproximação das lanchas à costa para desembarcar as forças.
Chegar de noite para não serem detectados. E nesse aspeto, eles quando chegam à zona envolvente da cidade, esperam só que a maré seja favorável para os desembarques ocorrerem e mesmo os próprios alvos, nomeadamente alvos militares, obviamente que a segurança estaria mais desguarnecida e seria a altura certa para fazer a operação.
A tensão está no máximo. A mais arrojada operação planeada durante a guerra na Guiné está pronta a avançar.
Não me esqueço nunca mais. Aquilo era no molhe do Yacht Club e havia lá uma festa. Era num sábado ou num domingo, havia lá uma festa, era dixieland, nunca mais me esqueço. Dava vontade de sair a dançar, quase. Via-se que me tinha ao longe, claro, mas achei graça, realmente, foram muito bem acolhidos que me vê.
É quase 01h30 da madrugada de domingo, dia 22 de novembro. Dispersos por vários pontos da cidade, os militares portugueses começam a chegar à terra em botes de borracha. A Montante é a única que tem mesmo de acostar para deixar sair os tripulantes e vai ter de o fazer em pleno Porto de Conacri, mesmo ao lado de um bar, o Yacht Club.
O meu navio tinha a missão mais difícil. Os outros navios tinham que fundear ao largo da costa e mandar o pessoal pra terra por botes. O meu não, o meu tinha que ir mesmo à terra desembarcar o pessoal. Ali, não tiveram que molhar os pés, sequer. Serviço de qualidade. Montante, serviço de qualidade.
Os militares e os dissidentes desembarcam sem que os homens e as mulheres que dançam no bar se apercebam de nada. A cidade está sob ataque, mas a música não para. 01h40 da madrugada. O comandante Alpuim Calvão, a bordo da lancha de fiscalização Orion, dá ordem ao primeiro grupo para avançar. Objetivo número um: destruir as lanchas do PAIGC ancoradas no porto de Conacri. Quando se aproximam, os 14 fuzileiros deparam-se com o pior cenário possível: um navio de guerra soviético parece fundeado no porto.
Mas mesmo assim, apesar dessa suspeita deles, eles decidem avançar. Com a ideia, vejam bem, estamos a falar de um pequeno grupo de homens, com a ideia de atacarem o próprio barco soviético, se ele lá estivesse. E continuam o seu trajeto, entram na enseada do porto e só quando eles, depois, já se estão a aproximar dos barcos, é que percebem que afinal foram enganados, porque a ideia que eles tinham de um barco grande era afinal dois barcos encostados um ao outro, que dava a ideia de um barco maior. Mas vejam bem o aspecto de coragem destes homens, que no fundo, mesmo perante a suspeita que pudesse lá estar um barco soviético, vão em frente.
Os fuzileiros eliminam uma sentinela e lançam granadas para o interior das embarcações. Três delas afundam-se com a explosão, quatro ficam em chamas. Alguns elementos das tripulações ainda tentam reagir. Vinte guerrilheiros do PAIGC são mortos. Minutos mais tarde, as luzes da cidade apagam-se todas ao mesmo tempo. Percebe-se que o grupo que seguiu para a central elétrica também foi bem-sucedido. Já há tiros por toda parte. Conacri acorda em pânico e às escuras. A equipa que desligou a central tinha saído da Montante. É dessa embarcação que sai também o grupo de 50 homens que tem como alvo o campo militar Camori, onde estão os paióis do exército guineano e os edifícios do Ministério da Defesa e do Estado-Maior. É nessa equipa que vai Thierno Diallo, o homem que vai tomar o poder caso o golpe de Estado resulte. Desarmam as sentinelas e dominam o campo sem fazerem um único ferido. Depois instalam-se e ficam à espera que os homens de Sekou Toure comecem a chegar para receber ordens e organizar a defesa da cidade. Munidos de bazucas, eliminam algumas dezenas de militares e destroem pelo menos 16 carros de combate. Quando já não vem mais ninguém, incendeiam os edifícios e dão por encerrada a missão. O fato de ter sido tão fácil tomar as mais importantes instalações militares da Guiné-Conacri não é uma surpresa. O país tem um exército mal pago e mal preparado.
A própria organização das forças guineanas também é uma organização muito deficiente. E nesta situação toda, no meio daquela confusão, durante a madrugada, muitos soldados são mortos, coitados, são surpreendidos pelos grupos portugueses que lá estavam já entranhados. De facto, as forças guineanas viviam numa situação miserável, passavam fome, mal pagas, mal treinadas, mal preparadas.
É o próprio ditador que promove a situação. Com um exército forte, Sekou Toure correria maiores riscos de se virarem contra si e fazerem um golpe de Estado. Em vez disso, prefere criar uma outra força, a milícia popular, que é quem faz a sua defesa pessoal. E assim esvazia de poder os militares, que até para acederem a armamento têm dificuldades. A própria chave dos armazéns onde está o arsenal fica guardada no palácio do presidente, por causa da paranoia do ditador. Um dos alvos mais estratégicos da operação não é militar. E para garantir o sucesso da missão, tem que ser atingido o mais depressa possível. É preciso ocupar a Rádio Nacional para comunicar com a população e proclamar o golpe de Estado. O próprio comandante Alpuim Calvão escreveu a declaração que deverá ser lida aos microfones da Voz da Revolução. A equipa que segue para lá desembarca a apenas 100 metros das instalações. Um militante da Frente Nacional de Libertação da Guiné serve de guia. Em poucos minutos deviam ter sido capazes de tomar conta da rádio e de interromper a emissão regular. Mas quando chegam à morada, os militares julgam não encontrar o edifício.
Mas esse guia, que ia para a rádio, já não estava em Conacri há vários anos. E quando ele chega ao sítio onde era a rádio, ele fica desorientado e realmente pensa: "bem, mas a rádio era aqui, mas eu não estou a ver a rádio". O que é que tinha acontecido? Uma situação também das tais caricatas. O edifício onde a rádio funcionava tinha sido aumentado e era um prédio, já. E é natural que o guia, quando lá chega de noite, juntamente com as forças portuguesas, o pobre coitado fica desorientado, porque olha para lá e não vê a casa que ele conhecia. Está lá um prédio que ele não conhece. E quando ele vê o prédio, pensa: "bem, então afinal onde é que é a rádio? Já não é aqui."
O guia, que pertence à Frente Nacional de Libertação da Guiné, é um engenheiro que tinha tirado o curso em Paris e não ia a Conacri há largos anos. Nem ele nem os militares reagem. Em vez de entrarem pelo edifício, ficam paralisados e nem sequer comunicam o fracasso. A bordo da Orion, Alpique Alvão só fica a saber que a missão falhou quando começa a ouvir uma mensagem que está a ser transmitida, sem interrupções, a avisar a população de que centenas e centenas de mercenários europeus de várias nacionalidades estão a ocupar a cidade. É uma falha estratégica grave e que pode hipotecar os resultados do golpe. A partir desse momento, a população sabe o que está a acontecer. E os guerrilheiros do PAIGC também. É aqui que as coisas começam a correr mal para a Mar Verde. Se o golpe de Estado quer ter qualquer hipótese de sucesso, Sekou Touré tem de ser encontrado a todo o custo. Um dos grupos com a missão de apanhar o ditador é enviado para a sua casa de verão, mas a desorientação que já condenara ao insucesso o ataque à rádio repete-se no bairro onde a casa está situada.
No meio do escuro, nas ruas de Conacri, mesmo tendo guias, não é fácil. E por acaso, esse grupo que vai à casa do presidente Sekou Touré, engana-se na casa. E curiosamente, a primeira casa que eles abordam é a casa do bispo de Conacri. E claro que eles depois percebem que estão enganados, mas perguntam lá em casa do bispo onde é que é a casa do Sekou Touré. E em casa do bispo, eu diria que algum empregado diz onde é que é. "É ali mais à frente, vão por aqui", e por aí fora.
Longe daquele bairro, com a cidade toda às escuras, há um edifício tão cheio de luzes que até parece estar a comemorar o Dia da Independência Nacional. A esta hora, o ditador Sekou Touré está no lugar mais óbvio de todos, o palácio presidencial. Quando a operação começa, está a dormir, sem saber nada do que se passa. Mas aos primeiros tiros na cidade, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas e o comandante da polícia dirigem-se ao palácio. Querem alertar o presidente e organizar a resistência. Só que ao vê-los chegar sem aviso, o ditador pensa que vêm para fazer um golpe de Estado contra ele. Terá dito a tremer: "matem-me, mas não me entreguem ao povo. Não me façam passar por essa vergonha." Os oficiais têm de o tranquilizar. Há uma revolução em curso, mas não são eles que estão por trás dela. Só querem a chave do armazém onde as munições estão guardadas, para poderem responder ao ataque. Segue-se uma constatação óbvia: Touré não pode ficar ali nem mais um segundo. O secretário de Estado da Juventude e Desporto também está presente. Mais tarde, nas suas memórias, há de contar como Touré foi trocar de roupa e apareceu vestido todo de branco. "Não pode ser", avisou. Torna-se um alvo demasiado fácil para qualquer atirador. Quando a equipa de comandos encarregue de atacar o palácio chega ao objetivo, já não encontra sinais do ditador. Por essa altura, Touré está refugiado em casa da mãe do diretor-geral dos Serviços de Segurança, uma localização insuspeita, onde ninguém se lembraria de o procurar. O alvo principal do golpe de Estado está irremediavelmente perdido. Sekou Touré não é a única figura de topo a ter a cabeça a prémio. Para aplicar um golpe decisivo no PAIGC, os portugueses querem capturar Amílcar Cabral, o líder do movimento que há anos fez da cidade de Conacri a sua base. Mas neste caso, bem podiam procurar por toda a cidade.
O Amílcar Cabral nem sequer estava em Conacri nesse dia, estava numa viagem na Europa, no Bloco do Leste, a recolher apoios e portanto, mostra mais uma vez que a informação foi uma falha grave, porque se as forças vão a Conacri com o objetivo de atacar a sede do PAIGC e de, obviamente, capturar ou eliminar o secretário-geral do PAIGC, como é que é possível o homem estar na Europa a viajar e ninguém saber de nada? É uma coisa um pouco absurda.
A sede do PAIGC, onde Cabral tem também a sua residência, é efetivamente atacada com lança-granadas foguete. A mulher do líder do movimento, Ana Maria Cabral, escapa por pouco. Nenhum dos principais dirigentes é capturado durante a operação. Por esta altura, começa a ser evidente que muitos dos principais objetivos da Mar Verde estão em risco. Os guias que deviam orientar os grupos de ataque perdem-se no meio da cidade e as informações com base nas quais toda a operação foi planeada não batem certo com o que encontram
A PIDE, de facto, não tinha informadores em Conacri, é uma limitação que há. E também há uma falha na própria preparação da operação, porque esse aspeto foi obviamente descurado. Uma operação daquela envergadura tinha que ter informações atualizadas de alguma forma.
Também há problemas nas comunicações. E não apenas porque uns homens falam português, outros francês e outros crioulo. O grupo em que segue o pai de Bilghissa Diallo, depois de ter tomado com sucesso Camp Samory, não consegue comunicar com a Orion e receber novas ordens de Alpuim Calvão. Quando regressa ao ponto de reembarque, o coronel Diallo já está ferido. Levou um tiro num braço, mas está disposto a voltar para a cidade.
Eles voltaram para a praia à procura de informações, porque os walkie-talkies deixaram de funcionar. Ele era demasiado otimista, porque naquela altura pensava que algo ainda era possível e obviamente não era.
Uns após os outros, são vários os grupos que tentam comunicar com o navio de comando, sem qualquer sucesso. E já há equipas na praia a pedir para reembarcar. Alpuim Calvão não percebe o que se está a passar e toma uma decisão radical. Abandona o seu posto de comando na Orion e mete-se num bote de borracha. Primeiro sobe a bordo da segunda lancha de desembarque, a seguir, Conte da Costa Correia faz o impensável: segue ele próprio para terra.
Uma decisão muito arriscada. Nestes casos não se deve fazer isso, deve mandar alguém, sim, mas ele tinha que estar a bordo no centro de comunicações. Mas não, foi a terra, apanhou um táxi, pagou em dinheiro local, para não olhar espantado para o motorista, foi lá para saber o que se passava, de uma maneira possível, e regressou a bordo. Parece que não, mas foi para aí uma hora, ele deve ter gastado isso. Uma engenharia técnica incrível. Não se passa pela cabeça de ninguém.
No relatório que escreveu depois da operação, Alpuim Calvão faz uma avaliação diferente. Diz que só esteve meia hora em terra a organizar o reembarque dos militares e a pedido de um dos comandantes. Mas se as coisas já estão a correr mal, vão ficar ainda piores. De todas as comunicações trocadas no frenesim da operação, há uma enviada por volta das 3:00 para o navio do comandante, que se destaca.
"O filho da puta do tenente fugiu com 20 dos meus homens. Traiu-me miseravelmente."
O tenente é Januário Lopes. É um dos comandos africanos que ainda antes da partida, se manifestaram contra a operação. A deserção não foi uma surpresa para muitos. Januário tinha um irmão, o JJ, fazia parte do PAIGC e vivia em Conacri. Durante o trajeto para o objetivo que lhe estava destinado, manda parar os seus homens e anuncia que não vai atacar. Todos os 24 que o acompanham acatam a ordem e decidem também desertar. Mas as coisas vão correr-lhes terrivelmente mal. A deserção desfalca a equipa Sierra, que vai atacar o aeroporto. Apesar disso, o capitão que está à frente da força não desiste da missão. O problema não é chegar ao sítio. Isso será feito com relativa facilidade. A questão é encontrar os alvos. Às 2:30 da madrugada, um capitão em desespero envia esta mensagem ao centro de comando:
"Percorri os hangares e não se encontram lá Mig nenhuns."
Os 20 homens vagueiam pela pista do aeroporto. Não há qualquer sinal dos caças MIG, de fabrico soviético. À angústia de não encontrar os aviões, soma-se uma tensão crescente. Apercebem-se de que estão a ficar cercados pelo inimigo.
"Informo que estou rodeado por dois blindados e muitas tropas."
Ouvvem-se tiros de metralhadora. Só há uma coisa a fazer: retirar dali e regressar a bordo. O tempo está a acabar. Alguns dos principais objetivos da operação fracassaram, mas ainda é possível libertar os prisioneiros portugueses da prisão do PAIGC. Entre eles, António Lobato, o prisioneiro de guerra que mais tempo esteve em cativeiro. E também António Júlio Rosa, João Neto Vaz e Geraldino Contino. Quando começarem a ouvir os primeiros tiros, os quatro vão pensar que está em curso uma revolução interna contra o ditador do país, Sekou Touré. Não lhes passará pela cabeça que aquele grupo de militares está ali por causa deles. Mas essa é uma história para o último episódio.
Eu pensei que morria nessa noite. Estive dois, três minutos sem ar dentro do quarto, debaixo da cama. Dá-me uma granada, dá-me uma arma qualquer, qualquer coisa. O instinto, isso não me esqueço nunca mais, era continuar: "Agora vamos para o meio de Conacri dar cabo destes gajos todos".
De tal maneira fiquei maluca, que estava em casa dos meus pais, o meu pai recebeu o telefonema que o António estava em Lisboa.
O Sargento na Cela 7 é uma série para ouvir em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. Pode ouvir no site do Observador e subscrever nas plataformas de podcast habituais. É narrada por mim, PP Rapazote, e tem banda sonora original de Noiserv. O guião é de Tânia Pereirinha e João Santos Duarte. As entrevistas de Tânia Pereirinha. A sonorização e pós-produção áudio de Diogo Casinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio usamos também sons históricos do Centro de Audiovisuais do Exército. Podcast Plus do Observador é mais do que um podcast.
Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis
