Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
A primeira ideia que eu tenho é que me pareceu que tinha caído um berlinde. Foi a primeira impressão que eu tive. Os miúdos deixaram, mas era às 3h da manhã. Depois começou a chover.
Ainda meio adormecido, Geraldino nem imagina que aqueles barulhos possam ser tiros. Talvez sejam os filhos do carcereiro, que vivem no primeiro andar da casa-prisão. Mas quando os sons se aproximam e começam a tornar-se mais fortes, o operador de criptologia capturado dois anos antes, conclui que nem podem vir do andar de cima, nem podem ser berlindes. António Lobato também acorda pelas 3h da manhã. Percebe imediatamente que são tiros, mas pensa que talvez seja uma tentativa interna de derrubar Sekou Touré.
Tiros a aproximar-se e tiros a afastar-se. A primeira ideia foi: "É mais uma intentona cá no Sekou Touré, que aquilo eram frequentes, pelo menos contavam eles. Era mais uma que nos bate à porta, bem aqui próximo.
Mas nunca tinha ouvido nada assim?
Não, nunca tinha ouvido nada assim. Mas por aquilo que eu ouvia dos presos, dizia: "É mais uma."
Dentro de minutos, Lobato há de ouvir uma segunda explosão, mas essa vai abrir-lhe uma porta para a liberdade. Uns após os outros, os principais objetivos da Operação Mar Verde estão a falhar. Sekou Touré, o ditador da Guiné-Conakry, está em parte incerta. Amílcar Cabral, o líder do PAIGC, também não foi encontrado. E não há sinal dos caças MiG, que deviam estar parados no aeroporto da capital. Os militares portugueses e os dissidentes da Frente Nacional de Libertação da Guiné estão há algumas horas em Conakry. Alguns já começam mesmo a regressar à praia, quando um grupo, chefiado pelo tenente Cunha e Silva, chega às imediações da casa-prisão do PAIGC. Lá dentro, está não só António Lobato, preso há sete anos e meio pelos independentistas, mas também outros 25 militares portugueses. Libertá-los e trazê-los de volta à casa é agora o maior objetivo da missão. Este é o Sargento na Cela 7, uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, PP Rapazote, com banda sonora original de Noiseearth.
Esta é uma história real e é o conhecimento da História que guia a Honda em direção a um futuro melhor. Nesta viagem, os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis. Vamos continuar este percurso juntos, porque a Honda tem muito para contar, mas também tem muita vontade de ouvir.
Episódio seis: O resgate. O alvo está à vista. O grupo enviado para atacar a casa-prisão para cerca de 150 metros antes de chegar ao objetivo, mas o terreno é descampado. Numa questão de segundos, são surpreendidos por tiros disparados pelos guardas da prisão. Um militar fica logo ali, gravemente ferido. Os portugueses respondem com um tiro de bazuca, que destrói a guarita e mata os guardas que protegiam a cadeia. Na escuridão, não conseguem dar com a entrada. Só mais tarde vão ver que estava mesmo ali ao lado, quando já tinham aberto um buraco no muro. Por essa altura, Lobato e os outros prisioneiros escondem-se debaixo da cama. Quando o segundo tiro de bazuca é disparado, João Netovaz chega a pensar que vai morrer.
Eu pensei que morria nessa noite. Estive dois, três minutos sem ar dentro do quarto, debaixo da cama. Cinco minutos, por excesso, antes, tiros. Quando se ouve tiros, vamos lá pôr à sombra. Estamos à sombra debaixo da cama. Passado aqueles cinco minutos, sai a bazucada no muro. Não fazes ideia, o ar e o oxigénio que aquilo queima. Não fazes ideia o que é uma bazucada. Aquela coisa parecida com um trovão ligeiramente grande. Uma bomba de Carnaval multiplicada por 50 mil vezes.
Rebentaram com a janela e gritaram o meu nome. Instintivamente, uma pessoa, eu adivinhei tudo, como se tivesse conhecimento de tudo. Como se tivesse prévio conhecimento de tudo. Ouvi a gritação, os nossos, e pedi para virem pela janela fora.
Vás também nunca se esquecerá do momento em que ouviu falar português do outro lado do muro da prisão
O gajo está ali assim, com a mão dada na escada, depois aproxima-se e começa a falar português. E nós apercebemos-nos logo disso lá dentro. Estávamos relativamente perto um do outro. Nós sabíamos onde é que eles estavam sensivelmente, mas eles não sabiam onde estávamos nós. Começaram depois a escavar o resto da janela para gritar que estávamos ali. Nós saímos pela janela, nem foi pela porta. Um gajo estar ali preso tantos meses e depois ouvir falar português cada parte de fora. Não se consegue descrever, ninguém consegue descrever o que sente.
Os fuzileiros dão com a cela de Lobato, Bas e Rosa e perguntam pelos outros prisioneiros.
Encontro o marinheiro, o Simas, que foi à prisão com o grupo dele. E onde é que estão os outros? Estão na outra ponta da prisão. Fui com eles até a outra ponta do recreio da prisão, que tinha outra porta e outra sala, onde estavam os outros 24 ou 25.
Lobato leva-os até ao outro lado da casa, onde os restantes também são libertados. Vestem apenas uns calções e estão muito magros. Um dos militares envolvidos na operação contará mais tarde como pareciam doidos de tanta alegria. Riem e choram ao mesmo tempo. Os fuzileiros só querem sair dali o mais depressa possível, mas aqueles homens não param de festejar. António Lobato garante que no grupo nunca ninguém pensou que algo assim fosse possível. A jornalista Tânia Pereirinha conversou com António Lobato.
Nunca me passou pela cabeça. Nunca me passou pela cabeça, nem a mim, nem a ninguém. Mas continuava a acreditar que não ia ficar ali para sempre? Sim. Porquê? As guerras acabam todas, mais cedo ou mais tarde. Se eu sobrevivesse os anos suficientes para a guerra acabar, não me queriam lá para nada, depois. Só representava mais uma despesa para eles.
E, no entanto, para Dino, a noite de 22 de novembro era apenas uma espécie de Natal antecipado.
Quando foi feito o ataque da nossa tropa àquela prisão de Conacri, eu já tinha sido chamado e informado que ia ser libertado nesse Natal.
Todos os anos, o PAIGC libertava um prisioneiro. Geraldino Contino só não percebia porque tinha sido o escolhido desta vez. Ele, que era dos maiores rufias da prisão, mas o certo é que os preparativos já estavam em marcha.
Foi lá um alfaiate tirar as medidas para o fato. Eu, dali a 11 dias, saía dali, ia para o tal estabelecimento, a edificação onde estavam os dirigentes, para melhorar a minha alimentação.
Ia sair da prisão pela porta principal, mais gordo e com um fato novo, preparado para as fotografias de propaganda do PAIGC. Acaba por sair magricelas e de calções, através de um buraco na parede. Mas isso não lhe interessa. Está finalmente em liberdade. Só que sair da prisão é apenas um primeiro passo para aqueles homens. Estão agora no meio de uma cidade hostil. Há tiros e combates por todos os lados, num país onde uma tentativa de golpe de Estado está em curso. Será ainda necessário chegar aos barcos para poder respirar de alívio. Quase em simultâneo, há outros alvos a serem atacados na cidade. Um deles é o quartel da Guarda Republicana, que serve também de prisão política. Na equipa, vai um dos mais lendários, mas também controversos, comandos da guerra em África: Marcelino da Mata. O militar mais condecorado da história do exército português tinha passado os últimos meses em Soga, a dar instrução aos dissidentes guineanos, mas no momento de zarpar para Conacri, tinha desaparecido. O corajoso militar admitiu mais tarde a Alpuim Calvão que tinha medo da água e por isso subiu a uma árvore e escondeu-se enquanto todos os outros embarcavam. Só desceu porque teve vergonha, mas não se livrou de uma ameaça de 10 dias de cadeia quando voltasse da operação. Já em Conacri, Marcelino da Mata tem uma ação de valentia quando salta para cima da casa da guarda e consegue abrir o portão do quartel por dentro para os portugueses entrarem. Quem o recorda é José Matos, autor do livro "Ataca Conacri".
E o Marcelino da Mata, mostrando justamente as capacidades, as aptidões militares que tinha, como se fosse num filme de Hollywood, salta pela janela, pelo vidro da janela, para dentro da casa da guarda e mata à facada, com o sabre que ele levava, o sentinela que lá estava. E abre o portão por dentro. O portão estava fechado e é Marcelino da Mata que depois sai da casa da guarda e abre o portão.
Os portugueses conseguem entrar. Mas o comandante do grupo, o alferes Abílio Ferreira, natural de Nelas, é atingido com uma rajada na cabeça e morre. Será o único europeu a perder a vida durante a Mar Verde. Oficialmente, foi dado como morto na Guiné portuguesa e era também o único que conhecia por inteiro o plano de ataque ao quartel. A partir desse momento, o próprio Marcelino da Mata dá a ordem: é para matar tudo o que aparecer à frente. E é isso que acontece.
Era um militar que, para quem estava com ele, era excelente, mas para o inimigo era péssimo. Portanto, não tinha piedade. E ele, de facto, mata Muitos guardas republicanos estavam dentro do quartel. Fala-se que ele terá matado cerca de 80, 90 elementos lá dentro. Vejam bem a violência desta situação.
Muitos dos guardas são mortos por Marcelino, já depois de se terem rendido. O comando executa também vários militares guineanos que estão do lado dos portugueses. Anos após a operação, Marcelino da Mata há de contar que perdeu a conta aos homens que matou, quase todos apenas com o sabre da sua G3. Para trás, diz que deixaram centenas de cadáveres. O relato é apenas um dos vários que fez sobre algumas das 2412 operações em que participou na Guiné. Para muitos, este homem nascido na Guiné portuguesa é um herói, condecorado por atos de bravura na guerra de África. Para outros, um criminoso de guerra. E depois há ainda os que o consideram um traidor por ser negro e ter lutado contra a independência, sempre do lado de Portugal. Naquela madrugada em Conacri, foi guardando nos bolsos da farda divisas e galões dos inimigos. Quando volta a bordo da Orion, mostra-os a Alpuim Calvão.
Ele quando fala com o comandante Calvão, depois da operação ter sido executada, o comandante Calvão pergunta-lhe o que é que tinha acontecido no quartel da Guarda Republicana. E ele diz: "Matei dezenas deles". Aliás, ele até traz chapas de identificação. E o comandante Calvão diz-lhe: "Então, mas homem, vários desses guardas eram do nosso lado. Você matou os bons e matou os maus, matou-os todos". E ele disse: "Mas eu não sabia de nada, eles estavam lá e comecei a matá-los".
António Lobato é finalmente um homem livre, sete anos e meio depois. Mas falta ainda chegar ao barco que o coloca a ele e aos outros prisioneiros a salvo. No meio da adrenalina da fuga, Lobato chega a pedir uma arma.
Eu disse: "Dá-me uma granada, dá-me uma arma qualquer, qualquer coisa". Porque o meu instinto, isso não me esqueço nunca mais, era continuar: "Agora vamos para o meio de Conacri dar cabo desses gajos todos". Mas não, não me deram arma nenhuma, nem coisa nenhuma. Aí foi rebenta, aí está bem rebentado.
Mas pediu?
Pedi, mas não deram e fizeram bem em não dar. Até devem estar malucos, o tipo que aí estava, era dar-lhe uma arma.
No caminho de regresso, o grupo que liberta os prisioneiros envolve-se em combates perto da sede do PAIGC, mas consegue chegar à zona de reembarque sem problemas de maior. No cais, passam por pessoas que continuam a beber tranquilamente no bar do Iate Club. Permanecem alheias a tudo o que se passa na cidade naquela noite. Lobato garante que nunca teve qualquer dúvida de que aquela fuga iria ser bem-sucedida, e depois de embarcar, fica mais tranquilo. Do outro lado do porto, já começam a juntar-se pessoas a olhar para as lanchas que continuam sem sair do lugar. Em vez de se deitar a descansar, João Neto Vaz vai tentar perceber porque não seguem viagem.
Estive a falar com um gajo qualquer, qualquer da Marinha, que estava na lancha onde eu estava. Perguntei: "Estamos aqui assim a fazer o quê?" "Rapaz, se não vai haver um golpe de Estado ali, ainda vamos beber uma imperialzinha em Conacri". A ideia era essa, mas aquilo deu tudo buraco.
O resgate dos prisioneiros foi um sucesso, mas o resto da operação está a ruir. É cada vez mais evidente que o golpe de Estado falhou. São agora 5:00. Com o sol quase a nascer, o comandante Alpuim Calvão toma a decisão mais difícil: é preciso retirar. Não pode arriscar. Os aviões inimigos, que se supunha estar no aeroporto de Conacri, não foram localizados e destruídos, e são agora a maior ameaça, explica José Matos. A frota portuguesa está demasiado vulnerável a um ataque.
A operação é toda ela naval e é feita com navios, com obviamente limitações, mas nomeadamente em termos de defesa antiaérea, tinham fortes limitações. Não tinham grandes hipóteses de enfrentar um avião MIG. E nós, na operação, não tínhamos nenhum barco de guerra que tivesse um sistema de defesa antiaérea, vamos assim dizer, que pudesse enfrentar um avião daqueles. E também não tínhamos cobertura aérea. Daí que a destruição dos aviões era muito importante e tinha que ser feita daquela forma, tinha que ser feita, de facto, no terreno, porque se não acontecesse isso, nós ficávamos completamente vulneráveis a um ataque aéreo.
O reembarque das tropas é finalizado apenas por volta das 9:00. Já o sol vai bem alto. O último grupo a regressar é o de Marcelino da Mata, que quase fica em terra. A montante, recebe mesmo ordem para inverter o rumo de regresso e voltar atrás para os recolher. Luís Costa Correia, comandante da lancha, lembra a história de como o grupo se atrasou porque quis trazer algumas recordações de terra.
O Marcelino da Mata distraiu-se, ficou a cortar cabeças com o seu grupo, ficou num saco. Passaram por um sítio qualquer onde havia instrumentos musicais. Nunca mais me esqueço de eles chegarem nos botes, quando nós mandámos nos botes, uma sensação de algum risco, naturalmente. Naquela ocasião, já tinha havido disparos sobre o nosso navio, que era o que estava mais perto. Nunca mais me esqueço de os ver com dois tipos lá, um com um trompete, outro com um trombone. Já que estavam em viagem para lá, logo ao princípio, travam-se de razões por causa da distribuição, dois lados. Eu então berrei eles lá da ponte. Foi das poucas vezes na minha vida que eu berrei. Disse: "Atenção, olhem, há uma paragem daqui a 100 m, saem aqui!" Foi o remédio santo.
Quando inicia a retirada, a montante é alvo de disparos de morteiros vindos da cidade. Responde com tiros de intimidação.
Porque ao fim e ao cabo, as últimas salvas do império não foram na Índia, as últimas salvas do império contra outro país, não necessariamente contra a marinha, contra forças armadas de outro país, foram do meu navio. A pessoa que tinha reservas sérias relativamente à operação. Olha os paradoxos da vida.
No meio desta história, há um mistério por resolver. Onde estavam, afinal, os aviões? Naquela manhã, o responsável pela aviação militar ainda é contactado pelo governo da Guiné-Conakry para pôr os caças no ar. Comunica que estão todos avariados, mas compromete-se a pôr nem que seja um a voar. Pedem-lhe que pelo menos ponha o helicóptero presidencial a sobrevoar a cidade como manobra de distração. O objetivo é fazer crer aos invasores que o presidente tinha abandonado Conakry. Quando Lobato é levado a bordo da Orião, o navio de comando, Alpoim Calvão pergunta-lhe pelos aviões. Só de olhar nos últimos meses pela janela da prisão, o piloto já sabia a resposta.
Deu-me um grande abraço. "Viemos buscar e valeu a pena". Depois começou a falar comigo: "Estamos em crise, sol alto, 7 h, 8 h e agora os aviões". E eu disse: "Fique descansado que aviões não vêm". Porque eu passava a vida a olhar para o céu, pelas grades, a ver se havia aviões. Era raro ver um avião militar passar, então aqui ainda achavam que estavam lá perto. E quando vi um ou dois passar, era tudo muito direitinho, isto são pilotos da algareira. Não treinam grande coisa, mas não apareceram aviões nenhuns.
Os caças tinham sido transferidos apenas dois dias antes para Labé, uma cidade 300 km a norte de Conakry. Só um acabou efetivamente por conseguir levantar voo naquele dia, já de manhã, para tentar interceptar os portugueses. Por volta das 9 h, sobrevoa a cidade a baixa altitude e deteta um barco que julga ser inimigo, conta o investigador José Matos.
O pobre do piloto tem a infelicidade de chegar à cidade, já as tropas portuguesas tinham retirado, já não havia barcos portugueses lá perto e ele, por engano, acaba por atacar um cargueiro cubano que estava a entrar no porto e acaba por disparar contra o cargueiro. Por acaso não matou ninguém, só por sorte. Mas foi uma coisa que perseguiu esse homem, era um tenente, e que perseguiu esse homem o resto dos anos, porque nunca mais se esqueceu, coitado, de ter atacado por engano o cargueiro cubano.
Por essa altura, os seis navios portugueses já navegam de regresso à ilha de Soga. Até que o sol se volta a pôr, a frota vai manter-se em alto estado de prontidão. Ainda está sob ameaça de ataque. Entretanto, em Bissau, Spínola fica furioso com a falhanço do golpe de Estado.
O General Spínola fica muito desiludido com o resultado da operação, porque o General Spínola tinha como principal objetivo o golpe de Estado. E quando isso não acontece, e essa parte podemos dizer que a operação nesse aspeto é um golpe falhado, tem alguns desabafos, nomeadamente com o comandante marítimo na Guiné, em que ele diz ao comandante marítimo, na altura, que o Calvão tinha sido uma desilusão. Portanto, ele tem esse desabafo. E depois, quando o Calvão regressa a Bissau, também o critica. E manifesta-lhe, de certa forma, o seu desagrado, o seu desconsolo, com o que tinha acontecido.
No relatório que escreveu na altura, Alpoim Calvão defendeu que ter ficado em Conakry, naquelas circunstâncias, teria sido correr um risco de consequências desastrosas. O comandante, que morreu em 2014, assumiu toda a responsabilidade pelo que falhou na operação. "Bem ou mal, o único juiz no campo da ação era eu. A decisão de retirar, e sabe Deus como me custou fazê-lo, foi minha". Com o avançar da manhã, as forças leais a Sekou Touré começam a retomar o controle da cidade. Desde a madrugada que a rádio Voz da Revolução, que não chegou a ser tomada, passava apelos de resistência aos invasores. É pela rádio que, mal nasce o dia, os habitantes de Conakry percebem que o ditador se mantém no poder. A bordo de um dos navios, António Lobato tem a primeira refeição em liberdade em mais de sete anos.
Ia morrendo, quer dizer, ia-me dando uma congestão, porque veio o marinheiro: "O que é que quer comer?" E o Calvão na cidade: "Olha, o que ele quiser. Olha, um bife". Há sete anos que não comia um bife. Era um bife, uma coisa monstra. Comi aquilo num instante, como se nunca tivesse comido. Senti-me mal, mas mal a sério. Então, eu já não estava habituado a digerir daquelas coisas há tanto tempo.
As embarcações regressam à ilha de Soga, onde tudo começou, ao final da tarde do dia 23. O piloto é depois transportado de helicóptero para Bissau, onde se encontra com Spínola No Palácio do Governador, toma banho, almoça e recebe dois copos de presente, que ainda hoje guarda. Também traz roupa quente que o próprio Spínola manda buscar ao seu guarda-fatos para lhe emprestar.
E depois diz-me ele assim: "Olha, vais para Lisboa, isto é inverno." Isto foi em novembro. Estava muito frio. "E leva esta camisolinha de lã alta. A camisola podes ficar com ela, mas a guardanapo levas à minha casa, levas à minha mulher." E eu levei.
Na noite de 26 de novembro, Lobato e os restantes prisioneiros aterram no Aeroporto da Portela, em Lisboa. O autocarro militar que os recolhe anda durante uma hora às voltas até parar no Forte de Catalazete, em Oeiras.
Tínhamos dois inspetores da PIDE à espera, um de nome Berlinga, nunca mais esqueci o nome, e as mulheres deles lá com eles. Fomos para as instalações, aquilo já estava tudo preparado. Janelas todas trancadas, portas todas trancadas, sempre com luz acesa, tudo no escuro. E lá ficámos uma semana. Eu levantava um dedo, o PIDE vinha ao correr buscar, fosse o que fosse que eu dissesse. Se eu dissesse que era um cabrito inteiro, eles iam buscar. Estive preso mais uma semana.
Mas com explicação? Disseram-lhe alguma coisa ou não?
Sim, que eram os jornalistas da France Presse que andavam a correr tudo por todo o lado, porque sabiam o que é que se passou.
E foi por isso que andaram a dar então as voltas.
Possivelmente, penso eu, para despistar alguém. Senão, não tem outra justificação possível.
A última coisa de que os prisioneiros estavam à espera ao regressar a casa, era serem atirados para uma nova prisão, se bem que agora com luxos e mordomias. É preciso manter ao máximo o sigilo sobre o que acaba de acontecer. Tanto que já em Portugal, os militares começam a ler notícias sobre eles próprios. É uma narrativa inventada pelo regime para mascarar a Operação Mar Verde.
Oficialmente, nós nem lá fomos. Segundo dizem, oficialmente, a tropa portuguesa não foi lá, foi o Moda que fugiu. Porque eu estava ali em Catalazede, e comprava os jornais todos os dias, depois vinha: "Chegou o Fernão Vaz para a Guiné, está em tal lado." E eu aqui. As notícias no jornal. Tinha chegado, chegou o Lobato, chegou este, chegou aquele, e nós aqui no Forte de Catalazede. Porque oficialmente nós tínhamos fugido sem o apoio da tropa portuguesa. Tínhamos fugido por conta própria, e estava a chegar hoje um, amanhã chegava outro, depois chegavam cinco ou seis, até que chegaram todos.
Durante a semana, Maria dos Anjos, a mulher, e os pais de Lobato, de quem é o único filho, não fazem a mínima ideia de que ele já está em liberdade e em Lisboa. Nem os pais de João Neto Vaz, que já lhe tinham feito o funeral e ainda o julgam morto. Até onde pode o ditador da Guiné-Conakry ter tido conhecimento da operação? A dúvida ainda permanece. Nos meses que antecederam a Mar Verde, Sekou Touré foi avisando que um ataque ao país estaria iminente. E já nessa altura, apontava o dedo a Portugal. Touré não só saberia que algo estava em curso, como até estava a par do recrutamento de dissidentes nos países vizinhos. Quem o garante é Bilguissa Diallo.
Ele sabia. Não sabia quando, não sabia como, mas sabia que ia acontecer. Sabia porque tinha espiões dentro da operação. Dentro da FLNG havia diferentes níveis de informação. Mesmo com o meu pai, eu apercebi-me de que muitas das coisas que ele pensava não foram o que aconteceu.
E apesar de todas as cautelas para que a operação não fosse atribuída aos portugueses, nunca houve dúvidas sobre quem estava por trás da Mar Verde. Ainda há combates nas ruas de Conakry, quando Sekou Touré acusa o Portugal fascista de recrutar e treinar centenas de mercenários para fazerem um golpe de Estado no país e pede a intervenção das Nações Unidas. A partir daí, o ditador aumenta a repressão. Em apenas dois meses, prende 5000 pessoas e condena várias centenas à morte. O governo e as forças armadas são dizimados. Grande parte dos ministros e dos oficiais superiores do exército recebem voz de prisão. Um ano mais tarde, serão julgados por um tribunal popular, que há de condenar 62 pessoas à morte e outras 68 a penas de prisão perpétua com trabalhos forçados. Três ex-ministros e o comissário da polícia são enforcados numa ponte da capital, os seus cadáveres deixados em exposição durante dias para dar o exemplo. Meses antes, também tinha sido essa a sorte do grupo de militares portugueses liderado pelo tenente Januário Lopes. Depois de desertarem, logo às primeiras horas da Mar Verde, os homens procuraram as autoridades guineanas e revelaram-lhes tudo o que sabiam sobre a operação. No final, não receberam clemência. Acabaram enforcados, um por um, em árvores da capital da Guiné Conakry. O Conselho de Segurança das Nações Unidas reúne no próprio dia da Operação Mar Verde. É rápido a condenar Portugal.
O Conselho de Segurança reúne-se no próprio dia ou no dia seguinte, e 10 dias depois, está cá fora o relatório, na altura desmentido pelas autoridades portuguesas, mas com o recuo histórico, vê-se que era perfeitamente verídico.
Oficialmente, o governo português mantém que nada tem a ver com a operação. Recorda Bernardo Funchal Pereira, diplomata e autor de vários livros sobre o período do Estado Novo. Dias depois da Mar Verde, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Patrício, continuará a negar o envolvimento de Portugal perante as queixas insistentes da Guiné-Conacri, junto da comunidade internacional.
Efetivamente, o Conselho de Segurança reuniu-se na mesma noite e foi distribuída aos seus membros uma carta da missão permanente de Portugal, contendo o mais formal e categórico desmentido do governo português. Acentuava-se na carta que nada tínhamos a ver com os acontecimentos alegados pela República da Guiné, país que tinha por hábito culpar-nos das suas dificuldades internas.
Esta posição, explica José Matos, que investiga o período da guerra em África, levou a um isolamento ainda maior de Portugal na comunidade internacional.
Claro que Portugal, a partir daquilo, daquele momento, ficou completamente isolado.
Eu diria aqui, de forma caricata, que o gato tinha um rabo demasiado grande para ficar escondido. Portanto, o rabo ficou de fora. Portugal foi, de facto, condenado. Ninguém, na altura, teve dúvidas de que Portugal estava claramente associado àquilo.
Até ao 25 de abril, o regime português negou sempre a operação. Depois disso, e apesar de, entretanto, os documentos sobre a Mar Verde terem sido desclassificados, mantém-se a névoa sobre o que aconteceu.
E depois do 25 de abril, a operação nunca foi reconhecida pelo governo português. Mesmo hoje, o nosso primeiro-ministro há uns tempos pediu desculpa em Moçambique, pelo massacre, mas até hoje nenhum governo português pediu desculpa por ter ido à Guiné-Conacri, invadir a Guiné-Conacri. E, portanto, ainda hoje continua num certo limbo.
Naquele dia em que o telefone toca em casa dos pais, em Espinho, Maria dos Anjos está longe de imaginar a notícia que vai chegar do outro lado da linha. Sete anos e meio depois de uma espera angustiante, António está finalmente em liberdade. Ela nem quer acreditar.
Nesse dia, de tal maneira, fiquei maluca, que estava em casa dos meus pais, o meu pai recebeu o telefonema para eu ir, que o António estava em Lisboa.
António tinha passado os últimos dias impaciente na sua nova prisão temporária, desta vez imposta pela polícia secreta portuguesa. Ao fim de uma semana, dizem-lhe que poderá sair, mas com uma condição.
Tem calma, pá. Amanhã ou depois, vais, irmão, sais daqui. E eu: "Não é?" "Mas tens que fazer uma coisa." Eu: "O quê?" "Tens de inventar uma fuga, dizer que fugiste." Eu: "Não, isso inventar fugas é fácil, não custa nada. Então, inventa lá uma fuga, que amanhã eu venho-te buscar para ires à televisão."
E é assim que, para o país inteiro ouvir, o sargento António Lobato, um herói de guerra que passou mais de sete anos na prisão sem nunca ceder, aparece no horário nobre da televisão. Vai contar uma história imaginada de como fugiu sozinho. Mas isso, só por si, não é suficiente para o regime. Lobato e os restantes 25 prisioneiros libertados ainda têm de assinar um papel. Comprometem-se a não revelar nada sobre o que se passou. Oficialmente, a Operação Mar Verde nunca existiu. António Lobato está agora livre. Nunca perdeu a esperança de que aquele momento pudesse chegar, mesmo depois de tudo o que viveu na prisão. Só faltava mesmo o reencontro com Maria dos Anjos.
Lembra-se do reencontro?
Se me lembro, não posso esquecer. O centro da Força Aérea ainda era na Avenida Marquês Pombal. Era ali, agora já não é, mas era ali. E eu nunca mais me posso esquecer do abraço que ele me deu. Não me esqueço.
O António, que está agora diante dela, é muito diferente do homem do qual se tinha despedido sete anos e seis meses antes, numa manhã de maio. Está pelo menos 20 quilos mais magro. Tem uma cicatriz que lhe marca o rosto, atravessando toda a testa até ao nariz. As costas estão cobertas de marcas das catanadas que levou quando foi capturado. Mas aos olhos de Maria dos Anjos, nada mudou.
Para mim, ele estava sempre igual. Esteve sempre igual na vida, ainda hoje. Isso nem me fez mal, porque o que dominou foi aquele abraço e vê-lo. Pronto, foi isso. Foi um herói nacional ímpar. O meu marido foi ímpar, foi o maior herói nacional dos nossos tempos. Isto está cá hoje sentido, eu não deixo de sentir isso.
Já se passaram mais de cinco décadas desde que António Lobato foi resgatado e regressou a Portugal. Tinha 32 anos, agora tem 84. A cicatriz da testa está menos marcada, mas permanece lá. Continuou a ser piloto militar. Chegou a experimentar a aviação comercial em Cabo Verde, mas não gostou. "Aquilo não é voar", é o que ainda hoje diz. Também voltou várias vezes à Guiné-Bissau. Reencontrou alguns dos seus carcereiros. Até almoçou com Nino Vieira, que na altura era presidente. Não guarda ressentimentos. Maria dos Anjos, a mulher, também cumpriu o seu sonho. Dedicou-se às artes, tornou-se bailarina e foi professora de ballet no Conservatório da Gulbenkian. Agora, António já não voa, mas se lhe pedirmos para definir a liberdade, é para dentro do cockpit que volta e para a sensação de voar pela primeira vez.
As sensações, eu acho que não há palavras para descrever. Não se sente tudo no primeiro voo. É uma sensação muito brusca, muito forte. A sensação de voar vem depois, ao longo do tempo. Sei lá, eu estou sozinho num avião a 30 mil pés de altitude, a 10 ou 12 km, a ver a curvatura da Terra, porque se vê. Num dia limpo, tenho uma imagem dessas que nunca mais esqueço. Lá em cima o ruído desaparece praticamente todo, silêncio absoluto, e a gente a ver o mundo. Liberdade plena. Não há maior sensação de liberdade. E tudo isso faz parte de nós, vem connosco. E haja o que houver, surjam os obstáculos que surgirem, é para ali. A gente vai bater sempre ao mesmo. Vamos fazer outra coisa? Não, enquanto puder, é isto.
"O Sargento na Cela 7" é uma série para ouvir em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. Pode ouvir no site do Observador e subscrever nas plataformas de podcast habituais. É narrada por mim, PP Rapazote, e tem banda sonora original de Noiserv. O guião é de Tânia Pereirinha e João Santos Duarte. As entrevistas de Tânia Pereirinha. A sonorização e pós-produção áudio de Diogo Casinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio ouvimos também sons históricos do arquivo das Nações Unidas e também retirados do YouTube. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast.
Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis.
