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Olá, seja bem-vindo ao "Valor da Floresta", o novo podcast do Observador com a Navigator, que ao longo das próximas semanas nos vai levar a olhar pra floresta de uma forma que uma grande parte de nós não estava habituada. Um organismo vivo que contribui das mais variadas formas pra sustentabilidade e futuro do planeta. Eu sou a Maria João Simões e hoje a minha convidada é a professora Manuela Pintado, da Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica. Olá, professora, bem-vinda.
Bom dia, muito obrigada pelo convite, é um gosto estar aqui.
Neste segundo episódio, vamos falar sobre a bioeconomia de base florestal e de como esta pode representar uma oportunidade estratégica para Portugal. Professora, penso, por isso, ser importante começarmos precisamente por explicar o que é isto da bioeconomia.
Sim, a bioeconomia é uma área já existente há alguns anos, mas que é, sem dúvida, uma economia do futuro e que promove a utilização de recursos naturais como fonte de novos produtos ou soluções para o mercado. E, portanto, ela vem contrapor muito aquilo que é a síntese de moléculas, que vem contrapor muito a utilização de fontes fósseis ou fontes que são limitadas no nosso planeta e, portanto, vem encontrar uma solução para termos verdadeiramente uma economia sustentável. E que está também muito diretamente ligado com o que hoje falamos da economia circular. Portanto, cada vez mais, a bioeconomia se designa até bioeconomia circular, porque os princípios da bioeconomia, de utilizar recursos naturais para obter novos produtos, está completamente alinhado com o que a economia circular nos diz, sobretudo, que é o princípio de deixarmos de usar fontes ou recursos que são limitados e vamos continuar a circular as nossas matérias-primas para continuarmos sempre a obter, num circuito, economias de valor. E isso está muito alinhado, obviamente. A grande diferença é que na bioeconomia nós pensamos só no lado positivo, como é que vamos criar novos produtos com esses recursos, e a economia circular tem outros conceitos a alimentar, de facto, o circuito de redução, de reciclagem, para podermos ser muito sustentáveis no planeta em que vivemos.
E de que forma que usar melhor os nossos recursos florestais pode ser uma vantagem estratégica para o desenvolvimento do país?
Primeiro, porque somos um país verdadeiramente floresta. E os números que temos em Portugal, de cerca de quase 40% do nosso território português ter essa oportunidade floresta, é sem dúvida, um grande meio de Portugal se diferenciar na bioeconomia. Além disso, também, toda a percentagem significativa do nosso PIB, relativamente a esta floresta, dos 3%, em conjunto com a motivação pela inovação cada vez maior das indústrias, e sobretudo também a procura de novas oportunidades de indústrias para colocar produtos sustentáveis no mercado, cria, sem dúvida, o ambiente e o ecossistema, gosto mais desta palavra, o ecossistema apropriado para nos diferenciarmos na bioeconomia. Aqui temos que pensar muito que não somos só nós que queremos bioeconomia, as diretrizes europeias e mundiais forçam claramente as empresas, a sociedade e o planeta a caminhar nesse sentido. E, portanto, há muitas orientações, muitos incentivos que o permitem fazer. E temos as condições criadas, para além de termos a matéria, os recursos na floresta, temos também um alinhamento com as políticas que nos vai permitir progredir mais. E é esperado que esta bioeconomia duplique em valor até 2050. E temos apenas é que fazer bom uso dos recursos que temos, bom uso da motivação das empresas, especialmente também, que o governo nos ajude com as políticas e os incentivos para que conseguimos, de facto, fazer esta-
Nem de propósito, professora Manuela Pintado, há exemplos práticos de como a floresta está a ser usada para criar novos negócios ou empregos em Portugal?
Sim, completamente. Primeiro, porque as grandes fontes da madeira, que na floresta, ou a cortiça, são aqueles que têm sido, de facto, os principais elementos econômicos da floresta, têm se vindo a revelar como elementos econômicos de internacionalização e de grande valor em Portugal. Mas temos que diversificar mais, sobretudo no caso do papel, por exemplo, sabemos que hoje em dia temos setores de papel que tendem a diminuir e, portanto, as próprias empresas têm que repensar nas oportunidades de utilização dessa celulose, que habitualmente utilizariam no papel. E aparece aqui a inovação e a disrupção como oportunidade. E falamos, por exemplo, de que a celulose não ser apenas convertida em papel, mas como fontes de fibras para têxtil, novas embalagens. E, portanto, isto fez repensar a própria indústria, em como é que podemos trazer mais valor à celulose que a floresta produz. É o primeiro ponto. O segundo ponto é também a própria madeira na construção sustentável. Passou a ter uma dimensão que até há poucos anos não tinha e, portanto, hoje também a madeira passou a ser um material de uma imagem e concretização de uma construção sustentável, não só pela utilização maior de madeira, mas porque a própria inovação e disrupção começou o desenvolvimento de novos materiais que podem substituir e reduzir significativamente o betão ou outras estruturas menos sustentáveis. Além disso, temos que pensar que quando desenvolvemos alguns destes materiais, sobretudo na indústria do papel, não conseguimos, naturalmente, criar valor de toda a biomassa.
Claro que sim.
E passa a haver novas oportunidades emergentes em que a própria empresa, para além do seu maior produto, seja o papel ou outro produto principal à base celulose, vai ter elementos sobrantes, nomeadamente as hemiceluloses ou a lenina. E, portanto, já em muitos casos, Portugal é pioneiro, as duas principais empresas em Portugal já começaram a sua diversificação no aproveitamento destes subprodutos da indústria do papel e geram-se grandes oportunidades de negócio, tanto a partir dos resíduos ou dos subprodutos que se geram para novos setores de aplicação. E aqui falamos, hoje, tão conhecido, o desenvolvimento de novas embalagens com propriedades especiais, novos produtos para revestimentos, novos produtos para a cosmética.
Há toda uma nova preocupação com a questão da sustentabilidade, não é?
Completamente, porque sabemos que até 2050 nós, só a nível de materiais, temos que aumentar as oportunidades de recursos em mais de 70% para conseguirmos responder às necessidades materiais que o planeta, neste momento, e as sociedades nos exigem. É aqui uma grande oportunidade, sobretudo nos materiais, de encontrarmos na floresta a transferência do que é uma sociedade muito baseada em plástico e em fósseis para materiais que são-
Alternativas.
Alternativos, bioplásticos ou biomateriais que asseguram esta transformação com a mesma qualidade e com a mesma segurança, naturalmente.
Professora, estamos prestes a terminar. Quais são os principais desafios para a implementação da bioeconomia florestal e como é que cada um de nós pode contribuir?
Primeiro, se pensarmos na sociedade, a abertura do consumidor, a abertura do cidadão. Esta perceção, e muitas vezes ainda há falta de compreensão, de como é que a floresta pode ser um sistema regenerativo, porque muitos ainda veem a floresta como um recurso que se está a exceder, um recurso massificado. Temos que também fazer entender a sociedade que a floresta é um sistema, e cada vez mais terá que ser, um sistema regenerativo, que nos traz um recurso fundamental para várias aplicações, mas que temos que criar com ela uma qualidade e uma saúde fundamental para progredir e para a saúde do ambiente. Isso muitas vezes ainda não está bem compreendido pelo consumidor e temos que, de facto, fazer essa literacia, universidades, empresas, e mostrar que vamos crescer e continuar a usar estes recursos, mas de forma responsável, sustentável e que torne o sistema cada vez mais regenerativo. O segundo ponto muito importante: temos aqui um problema também de cadeias de valor. Se eu, que produzo papel, entendo e tenho o mercado preparado para comercializar esse papel, quando começo a entrar na definição de novos produtos, seja para a área cosmética, seja para a área alimentar, para a área de embalagens, eu tenho que colaborar. E aqui a colaboração é a palavra decisiva na simbiose com outras indústrias. Não podemos apenas desenvolver um novo material, se depois não temos toda a cadeia de valor e todos os stakeholders para poder valorizar. Finalmente, eu penso que temos aqui também uma questão, que é a questão da legislação, das certificações. Contamos com o apoio governamental para que permita facilitar, sempre nos limites da segurança e da qualidade, mas que facilite, muitas vezes, a aprovação mais rápida destes produtos, porque a legislação tem, em média, um atraso significativo face à inovação que estamos a implementar para o mercado. Também aqui a necessidade de o governo facilitar, com os seus legisladores, estas oportunidades de rapidez, até porque já há muitos países que o estão a fazer com velocidade e, se queremos ser, de facto-
Não ficar para trás, não é?
Um país verdadeiramente relevante na bioeconomia, a legislação também tem que caminhar com a inovação, com o mundo económico e com as empresas.
Professora Manuela Pintado, foi um gosto. Muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.
Muito obrigada, foi também.
Obrigada. Eu sou a Maria João Simões e regresso daqui a 15 dias para um novo episódio do "Valor da Floresta", uma iniciativa do Observador e Navigator. Espero por si.