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Ora aqui.
Inspetor, peço desculpa. Tem aqui o disco externo com todas as mensagens de texto e áudio presentes no telemóvel do desaparecido.
Está aí tudo? Fotografias e vídeos?
Tudo aqui em pastas separadas por semanas, desde 2019. Aliás, deve ter sido mais ou menos por esta altura que o dono do telemóvel comprou o aparelho em questão.
Ok. Bom trabalho. Obrigado.
De nada, com certeza.
Ora bem. Dictaphone. Onde é que está esta merda? Ok, dictaphone, aqui. Ora, teste, teste, um, dois, um, dois, um, dois. Ora, teste, teste, um, dois, um, dois. Está! Então. Notas sobre o conteúdo do telefone do desaparecido José Vale Um. 25 de março. São agora 15 horas e 23 minutos. Vou dar início à análise dos ficheiros. Pasta 2019. "O Zé faz 25" é um podcast de ficção para ouvir em oito episódios. Uma coprodução com a Yottavadio e Observador. De autoria de David Neto e Manuel Pureza. Com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Helena Caldeira, Madalena Almeida, José Raposo e a minha, Paulo Calatré. A música do genérico é de Arthur Costa. Episódio seis: Caixa Negra.
Também nós não sabemos o que aconteceu ao Zé. Afinal, tudo é possível numa história de ficção. Mas sabemos uma coisa: não é impossível viver uma aventura todos os dias sem abdicar do conforto. Foi por isso que criamos o novo Citroën C3 Aircross. Um SUV preparado para tudo, acessível para todos. Citroën C3 Aircross. Ninguém resiste ao conforto.
Esquece, tudo é bué barato. É tipo, levas a prancha, levas guita de bolso e depois estás 20 dias no barco, só a apanhar as melhores ondas e os gajos a cozinhar pra ti. Tens de vir, rocho. Eu, o Guedes, o Ceicin e o Praga já vamos há dois anos e vale sempre a pena. Maldivas ou é isso, ou é pop pro ar. Isso se já foste com os teus pais. Isto é a nossa cena, puto. Sol, prancha, birra e comida boa. Tu queres mais o quê? O gajo a dizer que não, mas isto é 100% monstros do mar, caralho!
Eu disse-te que ia ficar nas Alfarrabeiras com o Tica este fim de semana. Tinhas de estar a mar em atrasado?
Calma, pá. Fiz confusão. Eu também só lá vou passar o sábado. Dou uma cacholada com o pessoal e vazo logo.
Não, não vais. Estás-te a passar? Eu avisei que ficava com a casa neste fim de semana há dois meses. E para de mandar áudios e atende a merda do telefone.
Eu já não consigo desmarcar com o pessoal. Mas também qual é que é o teu problema?
Zé, atende a merda do telefone e deixa de ser atrasado.
Pai, quando puder liga-me. Eu tive um stress com o carro e estou parado na IC17. Já liguei para o escritório, mas não o apanhei. Se puder, diga ao Semedo que me venha buscar. Ele que me ligue, eu explico onde estou. Já liguei para o seguro, estão a demorar com mó caraças a mandar um carro de substituição. Ligue-me, se faz favor.
E depois podíamos ir pra minha casa, porque a minha mãe vai passar o fim de semana com o Rui às Caldas.
Tens de me convencer.
Não sejas parvo.
Manda-me uma foto que me convença. Não custa nada. O futran manda, a caveira obedece. Estás onde?
Na biblioteca.
Vai à casa de banho e mostra-me por que é boa ideia irmos pra casa da tua mãe sábado e domingo. Uma pra sábado e uma pra domingo.
Só se acabares com a Joana.
Inês, a Joana é minha namorada, tu és minha caveira. Tu sabes o que merece uma caveira que desobedece a um futran? Castigo.
Ora bem, aqui. 2019, José e Inês Oliveira, já interrogada, ainda não eram namorados. Ok, conversa de abril de 2019 Complementada com uma série de fotografias e vídeos. O conteúdo das fotografias é muitas vezes explícito. Há um vídeo mais longo.
Não acho. Não vamos.
Olha, olha por cima do ombro pra aqui. Olha.
Ok.
Eu quero que olhes pra câmera agora.
Sim?
Parar de gravar. Este puto tem a mania que é um campeão.
João?
Então, estás melhor?
Sim, acho que sim.
Se alguém aparecer aí, se alguém te ligar, seja quem for, dizes-me primeiro, ok?
Sim.
Estás a ver a sorte que tu tens de ter um amigo polícia? Sempre estás mais segura.
É, às vezes.
Porra!
Também não havia muita coisa que pudesses fazer. Eu nem sequer lhe vi a cara.
Também, o que tu queres? Para estar a fazer perguntas incômodas? Quer dizer, essa merda de teres ido apertar com o cara à casa dele, convenhamos.
É, a polícia só devia trabalhar com factos, senhor inspetor. Pesadelos não contam.
As costelas partidas tiraram-te o sentido de humor, foi? A nossa dupla já teve melhores dias.
Como é que estão as coisas em tua casa?
Estão na mesma. A minha mulher tem a ideia fixa de que tu e eu temos um caso. Eu já lhe expliquei, mas agora é tudo paranoia dela. É difícil. É muito difícil.
É, a depressão é uma merda. Mas tu queres que eu fale com ela?
Essa é a ideia mais estúpida que eu já ouvi. Para já, não somos assim tão amigos. E depois eu é que tenho que resolver as minhas merdas. Não te preocupes. Aquilo que eu quero é que tu te mantenhas segura e atenta.
Estou com medo de sair de casa.
Mas tens que contrariar isso. Queres que eu passe aí em tua casa pra te apanhar?
Não. Por já não. Preciso mesmo descansar. Mas se houver alguma coisa eu ligo.
Boa!
João. Obrigada.
Tá, até já. Liga.
Uhum.
Ok, então aqui a abertura da pasta 2020. A pasta tem 8950 MB de informação. Repetem sobretudo as mensagens para os números de Francisco Guedes, Inês Oliveira, Margarida Valbom. A maioria dos registros a partir de março é de videochamadas ou pra números individuais ou pra grupos. Imagino que a pandemia seja a justificação. Ok, março de 2020.
Os médicos dizem que nunca viram nada assim. As radiografias tiradas aos pulmões dos pacientes são assustadoras. A mãe da Paula morreu na enfermaria onde estou. Ontem morreram mais duas senhoras. Isto é muito assustador. Ao que parece, o vírus contrai-se com extrema facilidade e teve origem na China, por negligência laboratorial. Carla, se me estás a ouvir, não saiam de casa.
Era esta a mensagem que eu tinha dito que era falsa. A cena é assustadora, ya. Mas mais assustadora é esta merda de haver gajos e gajas a inventar mensagens de WhatsApp pra deixar a malta mais cagada ainda. Mano, fui ao supermercado há bocado, só pra ver se comprava álcool gel. Nem papel higiênico havia. Tá tudo fodido da cabeça. Mas o Rollo tem o contato de um gajo que faz distribuição de material hospitalar. Aceita encomendas de máscaras, álcool gel. Eu já lhe pedi duas caixas de cenas pra poder ter aqui em casa. É o fim do mundo, caraças.
Zé, irmão, você esteve cá em casa na quarta-feira passada e o João agora tá doente. Ligou pra cá pra casa todo marado, cheio de tosse e febre. Tenta fazer o teste, parceiro. Eu já fiz e tô na boa. Agora a Célia, ela fez e apareceram logo dois riscos, man. Ficou trancada em casa. Vou até encomendar uma comida agora pra entregar lá.
Tenho saudades tuas. Não queres passar por cá?
Inês, a tua mãe está em casa. Estamos todos em casa. Eu não vou furar a cena e ir praí pra jantarmos os três.
A minha mãe deita-se cedo.
Inês, como isto está, era preciso que a dona Ana usasse tampões pros ouvidos que só a fizessem acordar daqui a três meses quando esta merda passasse toda. Eu vou rebentar. Esquece. Não vai dar.
Sim?
Inspetor, o engenheiro Vicente Valbom não para de insistir. Quer falar consigo ao telefone. Eu estava a tentar passar a chamada, mas não sei, não consigo passá-la porque o sistema-
Eu é que tinha esta merda mal autorizada. Passe-me a chamada quando quiser, por favor.
Certo. Inspetor, eu vou passar a chamada.
Força.
Inspetor Durães?
Sim, engenheiro. Como é que está? Em que é que posso ajudar?
Diga-me, inspetor, alguma novidade?
Não, infelizmente, por agora nada
Uma pessoa não o leva para a Ásia sem mais nem menos. Faça alguma coisa, inspector.
Nós estamos a fazer tudo o que está nas nossas mãos para encontrar o seu filho o mais rapidamente possível.
O mais rapidamente já não é. Esta merda é para ficar resolvida antes da campanha arrancar, percebeu? Ou o inspector me traz o meu filho de volta ou garanto-lhe que faço dois telefonemas e o senhor nunca mais tem trabalho, nem como segurança num parque de estacionamento, ouviu bem?
Está a ameaçar-me?
Eu não ameaço, inspector. Dou-lhe uma semana e meia. Encontre o meu filho.
Que filho da puta. Bem, ok. Pasta 2023. Aqui há o registo de várias mensagens trocadas com um número sem identificação aparente. O número repete-se de janeiro até outubro. Este número passa depois a ser outro número, também sem identificação de telefone, que segue de outubro até dezembro. Ambos os números têm uma quantidade considerável de mensagens trocadas com o José. Vou escolher aleatoriamente outra data, março de 2023. Aqui combina-se a entrega de um pacote sem especificar mais do que isso. Vou ler aqui: "Se for preciso, traz mais do que encomenda. Na festa vai estar todo o pessoal e não vai sobrar nada. Quero tudo a dançar com a roda no ar, já sabes como é que é." A resposta do outro lado é: "Falamos melhor ao fim do dia, vou ter contigo. Já te avisei do telefone." Nota, já te avisei do telefone. Não é claro se se trata de uma transação de drogas ou se é outra coisa qualquer. Outro dia aleatório, pode ler-se: "Preciso de mais, não sei como é que levo para as Seychelles. Vou estar vários dias a surfar, mais vale levar qualquer coisa do que contar com o que há lá." Fim de citação. Tudo indica que pode tratar-se de alguma espécie de droga, mas as mensagens estão claramente codificadas. Nota: pedir rastreio da proveniência dos números sem identificação em questão. Vamos agora a uma mensagem de áudio para um grupo de cerca de 40 membros.
Malta, estamos quase naquela altura do ano em que fica tudo marado. Vou fazer a minha festa na minha casa das Alfarrobeiras, que já toda a malta conhece, e bem. Se aquelas paredes falassem, eu estava fodido. Por isso, próximo sábado, façam a vontade aqui ao chefe e apareçam com pouca roupa. Nunca se sabe o que é que pode acontecer. "Let it go, let it go." Bora!
Mais abaixo, na mesma pasta, encontramos uma mensagem de áudio de Vicente Valbom, o pai.
Zé, se estiveres a ouvir esta mensagem antes de embarcarmos, liga-me. Não façam nenhuma asneira enquanto estivermos fora. São 15 dias e estamos longe. Dubai, mete-lhe mais quatro horas em cima. Qualquer coisa, conta com o fuso horário, se faz favor. Se não conseguires resolver, tens o número do Pacheco. Liga-lhe, que ele sabe que se houver um azar, um de vocês lhe vai ligar. Se ele aí for e tiver de esperar por algum motivo, dá-lhe uma cerveja. Podes dar qualquer uma sem ser as pretas que estão na porta do frigorífico. Ligamos quando aterramos amanhã. Até já.
Pasta 2024. O padrão mantém-se. Aleatoriamente, setembro de 2024.
Quem é o novo duque aqui? Sou eu.
José Valbom torna-se duque em setembro de 2024, é o arranque do ano letivo e o arranque das praxes.
Quem é o novo duque aqui? Sou eu. E essa merda é toda nossa. Olé, olé. Guedes, brasileiro, não seja panelinha. Visão, os filhos de cem metro, o que é que acontece agora? Agora a brigada está na rua e os caloiros vão sofrer. Os caloiros? As caloiras. As caloiras. Elas me enganou, é as caloiras. Morenas, tranquem vossas filhas. O pigjão está no ar. Cadê a minha suga? Eu trouxe a suga. Comer, comer, comer.
José Valbom tem depois uma troca diária de mensagens com Francisco Guedes. Várias fotografias de alunas debutantes desse ano, e essas fotografias são acompanhadas pelo nome completo e a idade. Estamos a falar de mulheres entre os 18 e os 20, e os comentários são vários. Os dois estabelecem um código de avaliação das caloiras, que vai de 0 a 20. Avançamos. Conversa com Margarida Valbom, começa com uma série de informações sobre um jantar, e eu presumo que seja o jantar de aniversário da própria.
Eu vou levar o meu namorado, por isso vê lá se não está mais estúpido. Amanhã às 20:00 no Pátio dos Sabores
Como é que ele se chama?
Chama-se Filipe Delgado. É teu caloiro. Eu não posso estar agarrada ao telefone. Se fazes merda, eu mato-te.
Filipe Delgado. Ok, eu juro que não vou fazer nada. Menti.
Estou?
Inspetor, tem uma chamada em linha de uma Inês Oliveira. Quer atender?
Sim, pode passar. Obrigado. Estou?
Senhor Inspetor, fala Inês Oliveira, a namorada do José Valbom.
Sim. Inês, eu vou-lhe pedir desculpa, mas não é a melhor altura para falar.
Eu queria só saber se já conseguiram encontrar o Zé.
Do Zé ainda não sabemos nada, mas continuamos com a investigação. Eu acredito que em breve teremos novidades. Portanto, assim que eu souber alguma coisa, eu digo-lhe como pediu. Inês. Calma, Inês, tem de ser forte. Acredite que eu compreendo o seu sofrimento, mas tem que ser paciente e tem que esperar que façamos o nosso trabalho, está bem? Esperar pelo melhor.
Mas acha que ele vai aparecer vivo?
Como imagina, eu não posso responder a essa pergunta.
Sim, claro. Desculpe, é que eu tenho andado muito alterada com isto tudo. Tem sido muito difícil gerir as emoções.
Eu entendo. Inês, mais uma vez eu peço-lhe desculpa, mas se não se importa, eu vou-
Diga-me uma coisa, Inspetor. Agora que já falou com mais pessoas e teve acesso a mais informação, acha que ficou a conhecer melhor o Zé?
Eu não sei se entendi a pergunta. Conhecer melhor? O Zé está desaparecido e nós estamos à procura dele.
Sim, mas acho que o que eu queria perguntar é se acha que ele merece isto tudo.
Se merece?
Eu não sei como é que eu o pintou na sua cabeça, mas o Zé não é mau miúdo.
Adeus, Inês. Com licença. Ok, nesta mesma pasta e neste período, encontramos também um vídeo. Este vídeo é de caráter sexual e, pelo que parece, a coisa foi consentida, apesar da filmagem. Fazemos uma busca pelo nome da estudante que já testemunhou. Encontramos, acima de tudo, audiomensagens enviadas por Luísa com pouca ou nenhuma resposta por parte do José.
Atende a merda do telefone, Zé. Que merda é esta? Foda-se, mostraste o vídeo, cabrão. Estás fodido. Eu vou fazer queixa de ti à polícia. Qual é a tua? Atende o telefone! Sou eu, outra vez. Atende a merda do telefone. Eu tenho o registo deste no telefone e se for à polícia, eu vou dizer que tu me violaste, cabrão. Atende o telefone! Vês? Não custou nada. Pena que só ligues depois de te ameaçar. Amanhã encontramo-nos e isto resolve-se.
José Valbom terá sugerido que apagou o vídeo para convencer Luísa de que estaria tudo bem, mas o vídeo mantém-se na galeria do telefone. Ok, agora vamos descer até outubro, início.
Não há queixa e isso vai me deixar mais tranquilo? Você está maluco, porra. Isso pode nos ferrar em grande, caralho. Meu, calma, é praxe, é tradição. Olha, ficam pior eles do que nós por serem comerdas. Acredita. E o puto ficou mal com o álcool, ok. Foda-se, o que queres que eu te diga? Não podemos fazer nada agora. Zé, o cara esteve morto durante 30 segundos, meu irmão. Reza para essa merda não dar problema. Mas quais problemas, caralho? Calma. Qualquer coisa não nos lembramos de nada. E depois? Vai dormir, são 4:00.
E aqui está ele, o autor da maior merda que aconteceu naquela universidade neste arranque de ano. O dux veteranum palhaço, responsável pela quase morte de um estudante por praxe violenta. Sim, senhor. E então, palerma? Peço desculpa, senhor palerma. O que tem a dizer sobre as acusações de que há algo?
Tira-me essa merda da cara.
Responda, vá!
Tira-me isso da frente, foda-se, já disse. Não sabes parar?
Olha aí, estás-te a passar. Search. Está aqui. Isto não tem graça nenhuma, mas vá. Nota rápida. Depois do engenheiro mandar o gravador ao chão, fiquei sem ele. E eu a pensar que ainda me safava e que a cassete é que tinha sido um azar do caraças. Lembrete: verificar se isto é mercúrio retrógrado ou é só um azar do catano. C2 e C6 com fissuras, duas costelas partidas e a cara inchada. Relatório
Relatório médico quase completo. Fica por acrescentar que estou desfeita com isto. Porra! A quem puder interessar. Por desempenhar o meu trabalho da melhor maneira que sei, quase acabei morta, depois de ter sido agredida em minha casa. É absolutamente claro que foi a mando que me fizeram isto. E talvez não seja pior desistir e proteger-me a mim e aos meus. Eu nunca pensei dizer isto, mas eu estou a morrer de medo. Eu estou a morrer de medo, merda!
Luís Godinho. Ora, deixa cá ver, Luís Godinho.
Estou?
Margarida Valbom?
Sim.
Daqui Inspetor João Durães. Eu precisava lhe fazer umas perguntas. Tem cinco minutos? Posso gravar a conversa?
Sim, claro. Mas encontraram o meu irmão? Ele está bem?
Não, infelizmente ainda não, mas estamos a fazer tudo o que está ao nosso alcance.
Muito bem. Diga.
Margarida, em setembro de 2024, um tal de Luís Godinho quase morreu durante uma praxe que correu mal e que foi feita pelo seu irmão e pela brigada dele. E nós conseguimos ter aqui acesso a um vídeo seu que fala sobre isso. A Margarida conhecia o Luís?
Sim, conheço.
E o Luís Godinho estava na festa do seu irmão?
Não. O Luís era caloiro do meu irmão em setembro, mas depois do que aconteceu, ele foi pra fora. Não vive cá desde dezembro. Acho que está no Luxemburgo.
Mas o que é que aconteceu, ao certo?
Eu não sei muito bem, porque eu não estava lá, mas o que me disseram é que eles estavam a jogar a verdade ou consequência. O Godinho tinha asma e com os nervos da cena, começou a ter um ataque, só que eles achavam que ele estava só a arranjar desculpas pra não beber mais. Pronto, e em vez de chamarem uma ambulância, deram-lhe licor de absinto ou lá o que foi.
Ele fez alguma espécie de reação, é isso?
Eu não sei pormenores, mas a reação, diria, é sempre a mesma. Aquilo bebe-se e fica-se logo ali.
A que a Margarida o conhecia?
Quem?
O Luís Godinho.
Ele era da turma do meu namorado.
E como é que se chama o seu namorado?
Filipe Delgado.
E ele estava na festa do seu irmão?
Não. Desculpe-me, senhor Inspetor, é que eu vou entrar agora numa consulta no dentista, tenho de desligar.
Claro. Eu queria pedir que nos facultasse o contato do seu namorado. Seria importante ouvi-lo.
Claro, eu envio já de seguida. Agora tenho mesmo de ir. Com licença.
Obrigado. Filipe Delgado. Sim?
Senhor Inspetor, desculpe incomodar outra vez. Há uma pessoa que insiste muito em vê-lo, está lá embaixo na recepção. O que é que quer que faça?
Eu vou lá consigo. Aproveito e tomo um café. Viva, queria falar comigo?
Desculpe incomodá-lo, senhor Inspetor, mas é que aconteceu uma coisa.
Que coisa?
Eu recebi uma ameaça de morte.
"O Zé faz 25" é um podcast de ficção para ouvir em oito episódios, produzido pela Coyote Vadio e pelo Observador. Escrito por David Neto e Manuel Pureza. Com realização de Manuel Pureza, direção de elenco de Rita Tristão da Silva e direção de som de Jonathan Costa. A sonoplastia e a música do genérico são de Artur Costa. Paulo Calatré é João Durães. Beatriz Godinho é Joana Magalhães. Tiago Teotónio Pereira é Zé Valbom. Madalena Almeida é Guigas e José Raposo é Vicente Valbom. Sara Matos é Inês, Vicente Wallenstein é Delgado e Helena Caldeira é Luísa. Rafael Medrado é Guedes e Cristóvão Campos é Pedro. Carla Maciel é Sofia. Miguel Pires é Cândido. O design gráfico é de Miguel Ferraz Cabral. A coordenação do projeto é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. Obrigado por ouvirem. Voltamos no próximo episódio de "O Zé faz 25", disponível no site do Observador e em todas as principais plataformas de podcasts. E se virem o Zé, por favor, avisem.
Este podcast de ficção tem o apoio da Citroën.
