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Abrimos agora o novo gabinete de guerra para olharmos para o conflito na Ucrânia e vamos fazê-lo com a ajuda dos enviados especiais do Observador. Vamos agora em direto ao encontro do jornalista Pedro Jorge Castro. Pedro, bom dia.

Bom dia, Marisa.

Bom dia, Pedro. É sempre bom ouvir-te. Pedro, tu e o João Perfílio saíram ontem de Mykolayiv para Odessa, onde apanharam o comboio da noite para Kiev. Acabaram de chegar à capital ucraniana. Que diferenças encontraram na cidade? Já nos consegues dizer?

Sim, já consigo dizer algumas coisas. Diferenças grandes em comparação com Kharkiv e com Mykolayiv, outras cidades onde estivemos nas últimas semanas, ao nível do movimento. Essas cidades têm muita coisa ainda fechada, têm muita gente que saiu da cidade e são cidades muito mais próximas da linha da frente e isso nota-se em todo o ambiente da cidade, nas horas de recolher obrigatório, que são períodos mais largos. Aqui em Kiev já não é nada disto. Nota-se até um grande contraste mesmo com a cidade que encontrámos no primeiro mês da guerra, quando também cá estivemos. Logo na própria estação. A estação neste primeiro mês era um pequeno caos, não havia serviço nenhum a funcionar. Agora até parece uma estação de uma cidade que não é a capital de um país em guerra. As lojas todas abertas e quiosques na estação, um movimento muito grande de pessoas a regressar. Até escadas rolantes já funcionam, que nem havia. Nota-se, de facto, um grande contraste. E cá fora o movimento também não tem nada a ver. Fomos abordados por 20 pessoas a perguntar se queríamos um táxi. Há dois meses e tal da primeira vez que chegámos a Kiev, isso não existia. Estava-se muito pendente. Os dados oficiais indicam que já há mais pessoas a entrar na Ucrânia do que a sair, o que se nota, de facto, na vida da capital, porque mesmo em termos de trânsito, não há engarrafamentos, mas as estradas já estão cheias, já há menos checkpoints. Não passámos por nenhum checkpoint à saída da estação, tirando obviamente o controle de passaportes no próprio cais, mas de resto já é uma cidade onde a vida flui quase com a normalidade possível e isso não tem nada a ver com a situação de grande tensão que encontrávamos aqui há dois meses, no início da guerra.

Pedro, podes dizer-nos onde é que estás? Ouvimos um ruído que é muito normal para nós, um ruído de cidade muito normal.

E mesmo assim estou afastado, para não ser um ruído tão... Mas estou aqui mesmo numa das ruas principais da capital ucraniana e vê-se todo esse bulício. É uma rua com três faixas para cada lado e os carros circulam, está tudo ocupado. Nada disto existia há dois meses. Há dois meses, se havia um carro para cada lado, de vez em quando era muito. E mesmo assim com os checkpoints. Neste momento, de facto, nada disso se verifica. Vê-se muitas mulheres na rua, coisa que também não havia há dois meses, ou seja, as mulheres também voltaram à cidade e voltou a haver aquilo que pode ser uma vida normal. Ainda não voltou toda a gente, obviamente. Toda a gente sabe que há o risco, a qualquer momento, de haver um novo ataque a Kiev, apesar de não ter nada a ver com a situação do início de há cerca de dois meses.

Sim, mas confirmamos, de facto, o som ambiente é o som de uma cidade, isso é interessante. Pedro, antes de saírem de Mykolayiv, entrevistaram o procurador local, o homem que tem estado a coordenar as investigações sobre crimes de guerra e havemos de ler entretanto a entrevista no Observador, mas o que é que saiu de novidade dessa conversa que tiveram?

Foi uma conversa muito interessante. Para já, números factuais. Eles têm abertos 982 casos, portanto 982 investigações por ataques contra alvos civis na cidade de Mykolayiv. Isto dá cerca de 12 crimes de guerra por dia, desde que a guerra começou. Resultaram na morte de 141 civis, incluindo aqui um bebê, e 266 feridos, dos quais 15 crianças. Em mais de metade destes ataques foram usadas bombas de fragmentação. O que eles fazem nestes casos, cada vez que há um ataque contra estes alvos civis, eles não revelam números sobre militares, nem sobre mortes de militares, nem sobre ataques contra alvos militares. Mas cada vez que há um ataque contra alvos civis, a equipa de procuradores desloca-se ao local com os polícias. Obviamente registam tudo o que tem a ver com o tipo de arma que foi utilizada, recolhem destroços dessas armas ou das munições que encontram no local, provas fotográficas, ouvem sobreviventes, testemunhas, vítimas e tentam perceber de onde é que pode ter vindo o ataque, mais ou menos, para um dia se tentar identificar a unidade militar responsável e o comandante que deu esta ordem. No fundo, eles estão a acumular provas, estão a acumular documentação para um eventual julgamento em tribunais internacionais contra a Rússia, por crimes de guerra. Até lhe perguntei o que é que este procurador achava, como homem de lei, qual é que ele achava que era a pena que deveria ser aplicada a Vladimir Putin, caso ele viesse a ser condenado E ele só diz: "É pior". Não sei se é pior ficar na prisão durante anos ou a pena de morte. Outro grande foco das investigações da Procuradoria, obviamente em tempo de guerra, é a investigação de traições, de pessoas que colaborem ativamente com o inimigo, passando informações. Houve um caso gravíssimo em Mykolayiv, que foi o de um procurador, colega deste procurador, que foi apanhado a passar informações aos russos, precisamente as informações mais sensíveis, sobre o resultado de ataques, o número de feridos, a situação de russos na área de Mykolayiv. Todas as informações sensíveis. Ele foi apanhado pelos serviços secretos ucranianos, terá confessado e neste momento está preso. Mas isto é uma situação que provoca um grande embaraço na Procuradoria. Aliás, o procurador disse mesmo que chegaram a confundi-lo com ele, porque este caso foi divulgado pelos próprios serviços secretos, mas não disseram o nome do implicado, do suspeito de traição. Disseram que era o chefe da Procuradoria de Mykolayiv e houve muita gente a pensar que era este procurador que nos deu a entrevista. Ele disse que teve que ligar para os serviços secretos para ver se arranjavam outra maneira de divulgar a informação, porque havia pessoas a pensar que era ele. Mas ele diz que, de qualquer maneira, tem muita vergonha de ter acontecido um caso destes com um elemento da Procuradoria, com tanta responsabilidade, numa altura destas. Em relação à população, eles contam que na cidade têm três casos de pessoas identificadas por suspeita de traição. Eu até lhe perguntei qual era a motivação destas pessoas que em Mykolayiv colaboravam com os russos. O que me disse foi que eram essencialmente vantagens materiais, era dinheiro, pessoas que se vendem por dinheiro e que dinheiro compra as ideias. Outra situação com alguma importância tem a ver com o número de procuradores a trabalhar. Ele perdeu cerca de um terço da equipa, essencialmente mulheres que saíram de Mykolayiv com as crianças desde que começou a guerra. Mais ainda, tem dois procuradores que foram atingidos por bombardeamentos. São circunstâncias aleatórias, um num bombardeamento no mercado, o outro num bombardeamento numa aldeia onde estava com os pais. Um deles ficou com o braço amputado, o outro, o bombardeamento acertou na perna esquerda. Esta é uma situação que reforça mais o orgulho que ele tem na equipa e nas pessoas que se mantêm a trabalhar nesta altura de guerra, com todos os riscos associados, mas que continuam a fazer o seu trabalho para tentar defender o país e ajudar o país.

Este é um trabalho que vai ser publicado em breve no Observador. Vamos ficar a aguardar para lermos todos os detalhes, ainda com mais pormenor. Pedro Jorge Castro, um dos enviados especiais à Ucrânia, está em Kiev com o fotojornalista João Porfírio. Pedro, continuação de bom trabalho. Até amanhã. Um bom dia para vocês.

Obrigado