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Abrimos novo gabinete de guerra para olharmos para o conflito na Ucrânia e vamos fazê-lo com a ajuda dos enviados especiais do Observador. Vamos agora em direto ao encontro do fotojornalista João Porfírio, que está em Kharkiv com o jornalista Pedro Jorge Castro. João, bom dia.

Olá, bom dia.

Bom dia, João. É sempre bom ouvir-te.

Igualmente.

João, vocês estão quase a sair de Kharkiv, que é uma das cidades ucranianas mais destruídas nesta guerra. O que têm visto por estes dias?

Sim, é verdade. É a segunda maior cidade da Ucrânia e é também a segunda maior cidade destruída de todo este país. Só Mariupol fica à frente ao nível de destruição de Kharkiv. E o nível de destruição é gigantesco. Não só os arredores desta cidade estão praticamente destruídos, mas também o centro. É muito visível no centro da cidade edifícios completamente destruídos. Um desses exemplos é o edifício da Administração Regional de Kharkiv, que foi bombardeado no dia 1 de março. Todos nos recordamos, certamente, daquela imagem fortíssima, um edifício muito imponente a ser bombardeado com dois mísseis. Desse ataque do dia 1 de março resultaram 29 mortos. Portanto, recordo que é um edifício bem no centro da cidade de Kharkiv, a segunda maior cidade da Ucrânia. Andando um bocadinho para os arredores da cidade, vemos um grande mercado, que abastecia toda esta região de Kharkiv, completamente destruído. Desse ataque resultou um morto e tudo está destruído, o que fez com que o abastecimento desta cidade ficasse posto em causa e, portanto, o abastecimento tem sido faseado com ajuda dos comboios que chegam de Kiev, de Odessa e de Lviv. Esses comboios ajudam a que haja mantimentos, comida e tudo o que é necessário aqui nesta cidade, que está a cerca de 50 km da fronteira russa.

João, até por isso, as autoridades esperavam que ontem os ataques a Kharkiv se intensificassem, o que acabou por não acontecer. Como é que o Dia da Vitória acabou por ser vivido ontem em Kharkiv?

Sim, é verdade. As autoridades municipais alertaram para uma possível intensificação dos ataques, visto que é uma cidade estrategicamente bastante importante, não só para a Ucrânia, mas também para a Rússia conquistar. Esses ataques, felizmente, não se concretizaram. Houve, no entanto, como desde o primeiro dia em que aqui chegámos, bombardeamentos. Há poucos minutos, antes de entrar em direto, outros bombardeamentos. Estes bombardeamentos situam-se a mais ou menos 10, 15 km. É onde está a frente de batalha para defender esta cidade. E a 10, 15 km estão as aldeias que os ucranianos tentam a todo o custo fazer com que os russos recuem para estes militares voltarem para a Rússia. Ontem o dia foi estranhamente calmo. As autoridades esperavam uma intensificação desses ataques. Não só as autoridades, mas também os civis estavam bastante receosos de como é que este dia iria ser passado. Nós estivemos no memorial que recorda a Segunda Guerra Mundial. Celebrou-se ontem o dia em que a Alemanha Nazi foi vencida e junto a esse memorial pouquíssimas eram as pessoas que iam deixar flores, ao contrário dos anos passados, que era uma romaria autêntica a este monumento, imensas flores, música, um ambiente de festa. Ontem, esse ambiente resultou em silêncio absoluto. Ouvia-se apenas o bombear de um som que fazia lembrar um coração, como o Pedro bem explicou ontem. E o dia foi estranhamente calmo, pouquíssima gente na rua, os restaurantes e cafés estão praticamente todos fechados nesta cidade. Não há lojas abertas, a única coisa aberta são supermercados. E foi um dia bastante calmo aqui nesta cidade de Kharkiv. De recordar também que em Saltivka, um bairro residencial com cerca de 400 mil habitantes antes da guerra. O número de mortos é indeterminado, mas é um nível de destruição altíssimo. Não há um único prédio neste bairro que não esteja danificado, não há uma única janela que esteja com vidro.

João, vocês vão hoje para Odessa, que ontem voltou a ser alvo dos ataques russos, foi atingido um centro comercial e outros pontos. Como é que se vai para lá? O que esperam encontrar em Odessa?

Sim, é verdade. Como em todas as deslocações que nós temos feito aqui nesta cidade e desde o início da guerra que o Observador está cá, têm-se deslocado sensivelmente estas grandes viagens de comboio. É também de comboio que vamos pra Odessa. São sensivelmente 12 horas até Odessa. E vamos porque a atualidade impera que o Observador esteja onde é necessário e portanto os planos são sempre alterados à última hora. Depois dos ataques de ontem, vamos pra Odessa e vamos estar lá também o tempo que for necessário para reportar aquilo que se passa lá. Aqui ao redor de Kharkiv, todos os dias, metro a metro, os ucranianos conseguem conquistar algumas aldeias nos arredores. Há cerca de uma semana foi conquistada uma outra aldeia e foi permitida a entrada de jornalistas nos últimos dias e o cenário era um cemitério a céu aberto. Valas comuns cheias de soldados russos, civis também na estrada, perto de casas, mas sobretudo soldados russos numa vala comum com cerca de 11 corpos. Cada aldeia que é libertada, digamos assim, é um cenário de horror que se descobre.

João, deixa-me insistir sobre essa viagem a Odessa. Falaste já numa viagem de 12 horas de comboio. Viajar na Ucrânia não é a mesma coisa que viajar noutro país qualquer, seguramente. Vocês quando partem para Odessa já têm, por exemplo, um hotel onde ficar?

Não, não temos, porque é tudo muito volátil. Os hotéis fecham, abrem. É muito difícil nós conseguirmos planear uma viagem com tanta antecedência. Tentamos, obviamente, falar com colegas jornalistas estrangeiros que já estão na cidade e esses sim dão-nos algumas indicações dos hotéis mais seguros. Uma das maiores preocupações pra nós é estar, por exemplo, num hotel que tenha um bunker, porque qualquer ataque aéreo é necessário que nós nos abriguemos. Todas essas variantes são muito importantes. Obviamente, o fixer, o motorista e um tradutor, que é impossível trabalharmos na Ucrânia sem este-

E isso já está garantido agora?

Ainda não.

Ainda não. Tem 12 horas pra fazer.

Exato. Mas nós não estamos muito preocupados com isso, porque é assim mesmo. A vida de jornalista, feliz ou infelizmente, é assim mesmo. Seguramente, garanto-vos que no direto de amanhã de manhã, nós já teremos hotel, fixer, tradutor e motorista pra que consigamos trabalhar obviamente em segurança, porque é um dos nossos objetivos.

Temos a certeza que sim, João. Obrigada. João Porfírio, fotojornalista do Observador, um dos enviados especiais à Ucrânia, está em Kharkiv com o jornalista Pedro Jorge Castro. João, boa viagem pra Odessa, continuação de bom trabalho. Mantenha-se em segurança. Até amanhã, João.