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"Onde Para o Caso", na Rádio Observador. Nesta edição recordamos os confrontos do ano passado nas celebrações do 25 de Abril em Lisboa.

Confrontos entre grupos de extrema-direita e manifestantes antifascistas, a PSP teve de intervir. Em causa esteve uma concentração no Martim Moniz que acabou por não ser autorizada depois de um parecer negativo emitido pelas autoridades.

Neste episódio vamos recordar o que aconteceu e tentar perceber se mudou alguma coisa na forma como as autoridades lidam e olham para estes grupos, numa altura em que as tradicionais celebrações do 25 de Abril se aproximam já neste sábado.

A edição deste "Onde Para o Caso" é do jornalista Rui Casanova.

A PSP emitiu um parecer negativo para uma manifestação de extrema-direita no dia 25 de abril de 2025, no dia do tradicional desfile que desce a Avenida da Liberdade e termina nos Restauradores. Ainda assim, houve uma grande concentração de pessoas ligadas a organizações como o Grupo 1143, Habeas Corpus e ERCT, no centro de Lisboa.

Acabaram por se encontrar mais na zona do Largo São Domingos e Rossio, no centro de Lisboa. No fundo, acabaram por confluir todos para o mesmo local.

E foi nesse momento, Ricardo, em que se deram os confrontos. Através deste som que ouvimos aqui em fundo, percebe-se bem a divisão e a tensão. De um lado, manifestantes antifascistas gritam "25 de Abril sempre!", do outro, membros ligados a grupos nazis gritam palavras de ordem.

Altura em que a PSP teve de intervir com recurso à força.

Sim, houve vários momentos tensos ao longo do dia que devia servir para celebrar os 51 anos da liberdade. Este momento particular é o momento em que um membro ligado ao Grupo 1143 começa a agredir manifestantes, tinha se infiltrado entre eles e do nada partiu para as agressões.

E nessa mesma tarde, o presidente do partido ERCT, o ex-juiz Rui Fonseca e Castro, acaba mesmo por ser detido nesta concentração.

Foi detido pela PSP, foi um dos momentos que marcaram aquele dia 25 de abril de 2025.

Incorre no crime de obediência qualificada, no crime desobediência.

Não incorro em crime nenhum e você precisa se desculpar.

Não cumprir a ordem que eu lhe estou a dar, que é uma ordem legítima.

Vai me levar? Vai me levar?

Tem três minutos.

E acabou mesmo detido. O líder do movimento 1143, Mário Machado, também foi detido pela PSP na zona do Rossio, em Lisboa. Isto depois de terem sido registados confrontos entre apoiantes dos grupos de extrema-direita e manifestantes antifascistas.

E Rui, vamos à pergunta: um ano depois, o que está a PSP a fazer para evitar que esta violência volte a repetir-se este ano, numa altura em que as celebrações do 25 de Abril se aproximam, são já no próximo sábado?

Foi precisamente o que perguntámos à PSP, que nos garante estar atenta. A polícia explica que faz um esforço permanente de pesquisa e de recolha de informação sobre este tipo de manifestações, quer sejam as que são comunicadas às autoridades e as que possam ser realizadas fora da lei. Numa resposta enviada à Rádio Observador, a polícia adianta que esta permanente recolha de informação permite garantir o conhecimento atempado e necessário para planear todas as medidas necessárias e também preparar os meios humanos e materiais para fazer face a qualquer situação que possa colocar em causa a ordem pública e a liberdade de circulação, tal como aconteceu no ano passado. A PSP garante ainda à Rádio Observador estar preparada para intervir e reagir, caso seja necessário. A polícia não respondeu, no entanto, de forma direta e taxativa, se vai reforçar ou não o dispositivo ou preparar algum tipo de plano especial para este ano, além do habitual face às tradicionais celebrações do 25 de Abril.

E é nosso convidado neste episódio de "Onde Para o Caso", o coronel Francisco Rodrigues, presidente do OSCOT, o Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo. Bem-vindo, senhor coronel Francisco Rodrigues. Como é que as autoridades podem ou devem monitorizar estes grupos, sejam eles de extrema-direita, de extrema-esquerda, ativistas extremistas, climáticos, enfim, temos, infelizmente, para todos os gostos. Há aqui um acompanhamento constante, deve existir esse acompanhamento constante ou o que assistimos é uma reação aos momentos que vão acontecendo?

Eu diria que, daquele que é o meu conhecimento profissional, as autoridades, sejam as forças de segurança, PSP, GNR ou o resto dos serviços do Estado que se encarregam da segurança pública, estamos a falar dos serviços de informações, Polícia Judiciária, etc, têm procurado ao longo do tempo, e quando eu digo procurado ao longo do tempo, eu atrevia-me a dizer desde que temos um Portugal democrático, para não falar do que lhe antecedeu, mas desde a criação dos serviços de informações nos anos 80, em meados dos anos 80, tem havido sempre a preocupação de acompanhar movimentos extremistas, sejam eles de que origem for, como acabou de referir. É evidente que à medida que o fenómeno também, de certa formaTem aqui um live de importação de alguns processos de imitação relativamente àquilo que se passa noutras geografias. É evidente que as forças de segurança e os serviços de segurança e serviços de informações têm procurado também adequar as suas metodologias a esses novos fenómenos, a essas novas formas de manifestação extremista. Portanto, eu diria que as forças e serviços de segurança acompanham muito de perto o fenómeno e procuram, naturalmente, de uma forma preventiva, colocar em prática um conjunto de metodologias que lhes permita, acima de tudo, e é isso que se quer, que estes grupos não venham a provocar alterações da tranquilidade pública.

Da ordem pública.

No caso, exatamente, de ordem pública.

Senhor coronel, na sequência do que nos acaba de dizer, a PSP, numa resposta oficial enviada à Rádio Observador, fala numa constante pesquisa e recolha de informação relativamente a este tipo de grupos. Em que é que consiste, ao certo, esse trabalho e que meios têm as autoridades portuguesas para lidar e monitorizar estas organizações?

A PSP afirma, e muito bem, através das suas equipas, acima de tudo, as suas equipas de investigação criminal e também dos elementos que fazem o chamado patrulhamento de proximidade, recolher tudo aquilo que é possível recolher do ponto de vista de identificar fenómenos que conduzam a estes processos de radicalização, seja ela qual for. As polícias no seu todo, a própria GNR, mas a polícia também, que é a questão que me está a colocar, procura diariamente, e estou certo que o faz de uma forma bastante assertiva, tentar recolher tudo aquilo que é possível, por forma a identificar e depois antecipar a possibilidade, naturalmente, depois através da implementação no terreno.

Mas essa recolha de informação, diga-nos se é muito baseada em fontes abertas, imagino, redes sociais, grupos, será muito por aí, não é?

E não só. As forças de segurança e os serviços de informações e a própria Polícia Judiciária têm a possibilidade também de obter informações através de pessoas, daquilo que a gente tecnicamente chama as fontes humanas, isto é, de pessoas que têm conhecimentos de determinado tipo de situações que podem contribuir com informação importante para construirmos, no processo analítico, formas de antecipar fenómenos e muitas das vezes, quando existem críticas relativamente à atuação das forças e dos serviços de segurança quanto a estes fenómenos, tem muito a ver também, e temos que naturalmente ter sempre isso em mente, que do outro lado destes movimentos, existem também pessoas que procuram proteger-se do ponto de vista de proteger a sua identidade e proteger os seus movimentos e as suas intenções. Portanto, também temos que dar a possibilidade de que os outros, daqueles que estão para lá da lei, também se defendam da possibilidade das forças e serviços de segurança terem o conhecimento perfeito ou o mais perfeito possível daquilo que está a acontecer ou daquilo que puder vir a acontecer. Não é em fontes abertas, com certeza, que eles baseiam, e no caso concreto, a Polícia de Segurança Pública, baseia a recolha de informações para colocar no terreno todos os efetivos e todos os instrumentos que têm necessidade de colocar exatamente para poder antecipar e poder, em última instância, e é isso que sempre as polícias procuram evitar, é a repressão desses fenómenos.

Francisco Rodrigues, que papel também deve ou pode ter aqui o governo, sendo que tem o novo ministro da Administração Interna, Luís Neves, que certamente conhecerá bem a orgânica, a forma de atuação e organização deste tipo de grupos, seja de extrema-direita, seja de extrema-esquerda, como falávamos há pouco. O que é que pode ou deve aqui fazer Luís Neves para evitar novos episódios de violência, como já assistimos no passado?

O senhor ministro da Administração Interna tem todas as condições para acrescentar, se me é permitido o termo e a ousadia, valor àquilo que de facto está a ser feito pelas forças e serviços de segurança. Por quê? Porque exatamente como acabou de referir, ele vem da Polícia Judiciária e a Polícia Judiciária tem sido um instrumento fundamental exatamente na procura de arranjar solução para a não proliferação deste fenómeno. Ele, ao longo dos seus cerca de 30 anos de Polícia Judiciária, acompanhou muito perto daquilo que eram fenómenos de radicalização, inclusivamente a questão do crime e do terrorismo. Portanto, eu acho que ele é a pessoa, se me é permitido também dizê-lo, que neste momento se encontra em melhor situação do ponto de vista da ocupação da pasta da Administração Interna para, conjuntamente com os operacionais, com as polícias e serviços de informações, encontrar a forma de combater o fenómeno. Estou muito positivo quanto à possibilidade do senhor ministro da Administração Interna acrescentar valor àquilo que as polícias estão a fazer.

Francisco Rodrigues, o presidente da OSCOT, o convidado deste episódio de "Onde Para o Caso?", hoje dedicado aos confrontos violentos nas celebrações do 25 de abril do ano passado. Fica por aqui este episódio. A edição de hoje ficou a cargo do jornalista Rui Casanova. Para a semana há outro caso no "Onde Para o Caso?"