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As ruas da Parede estão desertas. Passa das 10 da noite, quando um carro para à porta do Rádio Clube Português e deixa sair três dos ocupantes. Todos eles são caras conhecidas da literatura portuguesa, artistas surrealistas e, como não podia deixar de ser, frequentadores do Café Gelo. António José Forte, Vergílio Martinho e Mário Henrique Leiria. Sem trocar uma palavra, o trio de poetas entra no edifício de pistola em punho. Os corredores estão vazios. Naquela época, a televisão chega ainda a poucas casas e, por isso, a noite é o horário nobre da rádio. Como os programas já estão todos gravados, não está ninguém nos estúdios, tirando o contínuo de serviço. Apesar disso, os operacionais não quebram o silêncio. Com gestos de mãos e de cabeça, e sob ameaça de armas, dão-lhe a entender que o melhor é que também fique calado. Amarram-no com uma corda e indicam-lhe o interior de um cacifo. Conformado, o contínuo entra pelo próprio pé e é rapidamente trancado a cadeado. O caminho para o estúdio está livre. Uma vez lá dentro, um deles carrega num botão e interrompe a emissão. Logo a seguir, outro trata de substituir a fita que ainda está a rodar no gravador pela bobine revolucionária. Durante alguns instantes, não se ouve nada. A rádio fica muda. Depois começam finalmente a soar os primeiros acordes do hino nacional, que antecede a proclamação. Há militares nas ruas prontos para derrubar o governo. A população é chamada à Baixa de Lisboa para ajudar a fazer a revolução. A Operação Papagaio está no ar. Na verdade, a Operação Papagaio não estava no ar. Ao longo dos anos, não houve apenas uma versão dos acontecimentos a circular, mas várias. A que acabei de vos contar é apenas uma delas, e é falsa. É a versão do escritor e editor Fernando Correia da Silva, num texto que dedicou ao amigo Mário Henrique Leiria. Correia da Silva nunca revelou quem lhe contou a história, que descreveu como um regabofe coletivo. Os detalhes passavam de mesa em mesa nos cafés de Lisboa. Segundo esta versão, naquela noite, o Rádio Clube Português foi invadido por um grupo de malucos e o cabecilha tinha sido Mário Henrique Leiria. Leiria era poeta, de esquerda, desbocado e inconformado. Morava em Carcavelos e era uma espécie de membro honorário, não apenas da primeira, mas também da segunda geração de surrealistas portugueses. Tinha tudo para fazer parte do plano que tentou derrubar Salazar via rádio. E esse feito aparece mesmo na biografia do autor na Wikipedia, com honras de primeiro parágrafo. Depois de ser preso pela PIDE aquando da Operação Papagaio, instalou-se no Brasil. Mas a verdade é outra. E durante 64 anos, esteve perdida num sítio onde ninguém se lembrou de procurar: os arquivos da polícia política de Salazar. Esta é a "Operação Papagaio", uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Miguel Guilherme, com banda sonora original de Rita Red Shoes. Episódio quatro: Andam a brincar aos cowboys.
Esta é uma história real e é o conhecimento da história que guia a Honda em direção a um futuro melhor. Nesta viagem, os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis. Vamos continuar este percurso juntos, porque a Honda tem muito para contar, mas também tem muita vontade de ouvir.
O ambiente era de conspiração anti-regime, à moda surrealista. O escritor e editor Carlos Chiabra passou os primeiros anos de vida na Parede. Morava numa casa de madeira que ficava justamente nas traseiras do apartamento de Gave Roche. O pai, que também se chamava Mário, era primo e padrinho de casamento de Mário Henrique Leiria. Por isso mesmo tratavam-se por primários.
Tenho memória de quando eu era criança e na Parede, haverem reuniões em casa dos meus pais e com o Mário Henrique e um montão de outros, e que eles ficavam discutindo esse tipo de planos mirabolantes. Eu até me lembro, porque o nome chamava a atenção, que tinha um dos integrantes desse grupo que era um sujeito que se achava um grande artista, mas que os outros tiravam certo sarro dele, principalmente quando ele não estava perto. Tiravam por trás, que ele era chamado do Mínimo Gorky, porque ele tinha um talento pequeno como escritor. Mas, ao mesmo tempo, o sujeito não era muito bom de higiene, então ele também era chamado de Máximo Porky.
Máximo Lisboa, o verdadeiro nome do poeta gozado na casa do Chiabra, também fazia parte do grupo do Gelo Aliás, foi o organizador, juntamente com Carlos Loures, da famosa revista "Pirâmide", uma espécie de órgão oficial dos surrealistas do café. Sendo que Carlos Loures é o autor de outra das versões da Operação Papagaio, que chegaram até os dias de hoje. Carlos Chiabra foi viver para o Brasil com a família quando tinha seis anos. Pouco tempo depois, seria o primo Mário Henrique a emigrar. Dizem que para ir atrás do grande amor da vida dele, uma alemã conhecida como Fipsi, com quem tinha mesmo sido casado. Quando Leiria se mudou para São Paulo, em 1962, ficou instalado em casa do Chiabra, onde chegou mesmo a ter uma relação pouco amistosa com um papagaio.
Nos fundos da casa, tinha uma edícula em cima da garagem e o Leiria morava lá. Inclusive, ele já tinha muitos problemas de reumatismo na época. E quando ele subia, tinha várias escadas, tinha um lance com muitos degraus, e ele ia reclamando em todos. "Ai, caralho, puta que pariu, na merda desta porra!" Encadeando palavrões, que era o jeito que ele tinha, aquele jeito bem português, de modo geral. E ele usava todos os que ele sabia, dos mais cabeludos. E foi muito engraçado, porque inclusive o papagaio da vizinha começava a responder. Aprendeu vários palavrões e aquilo irritava mais ainda o Leiria, que respondia ao papagaio. E o papagaio: "Vai tomar no cu! Vai tomar no cu, grande caralho, filho da puta!" E aquilo era um espetáculo. Então, sempre, eu ia chamar meus irmãos ou a minha irmã nos chamava: "Olha, o Leiria vai subir as escadas." E era um espetáculo. A gente ia pra varanda da casa, que ficava atrás, e ficávamos assistindo aquele espetáculo.
Hoje com 68 anos, Carlos Chiabra recorda-se das histórias mirabolantes que o primo de sotaque engraçado lhe contava, e dos avisos da mãe para que não acreditasse em nenhuma delas.
Ele me comprou um avião de montar, de madeirinha, e aquilo tinha que ter uma grande paciência, era um grande número de componentes. E todos os sábados, em geral, pelo que eu me lembro, eu ia ficar lá com ele e a gente passava umas três ou quatro horas juntos. Depois de muitos meses, o avião nunca saiu do mesmo lugar, porque ele se distraía me contando histórias. As principais que ele contava era a participação dele na Guerra Civil Espanhola. Inclusive, ele me mostrou uma Luger que ele tinha capturado de um oficial alemão. Histórias que logo a minha mãe, ela, principalmente, dizia: "Olha, isso é tudo invenção dele. O Leiria nunca esteve na Guerra Civil Espanhola."
Mário Henrique contou muitas histórias ao primo, mas nenhuma delas sobre a Operação Papagaio. Tânia Martuccelli é professora, crítica literária e a maior especialista na obra de Mário Henrique Leiria.
Eu vim fazer doutoramento aqui nos Estados Unidos e eu ia pra Lisboa nos verões pra fazer investigação. A minha área de pesquisa sempre foi Portugal. E numa dessas viagens de verão, eu encontrei o espólio do Mário Henrique Leiria. Era uma série de caixas na seção dos reservados da Biblioteca Nacional, com muitos manuscritos, além dos originais dos contos do Gin Tonic, enfim, uma série de documentação que, talvez conhecida de alguns estudiosos, mas nunca estudada com afinco ou organizada, porque outra coisa que o material ali precisava era de ser organizado. Quando eu encontrei esse material do Leiria, eu parei tudo e comecei a me dedicar só a ele.
Ao longo dos últimos 20 anos, a investigadora brasileira esteve mergulhada no espólio do escritor. Nunca descobriu uma única referência à Operação Papagaio.
Imagine só, a população toda indo pra baixa, pensando que houve o golpe e acabou a ditadura. Teria sido algo muito próprio das ideias do Leiria, mas nunca encontrei nada relativo a isso.
Nas centenas de páginas sobre o assunto guardadas nos arquivos da PIDE, o nome de Mário Henrique Leiria também nunca aparece. Mais, da ficha do artista naquela polícia política, só consta uma detenção pra averiguações. E essa aconteceu em fevereiro de 1952, em Carcavelos, sete anos e meio antes do assalto ao Rádio Clube Português. O que só nos pode levar à conclusão de que Mário Henrique Leiria não foi um dos surrealistas que entraram neste plano louco para pôr fim à ditadura. Mas o mais provável é que tenha ficado com pena e que se tenha gabado de ter participado na operação, como fez, aliás, com a Guerra Civil Espanhola, que chegou ao fim quando tinha apenas 16 anos. Isso pode explicar que apareça em duas das quatro versões da Papagaio que chegaram até os dias de hoje. É uma noite de quarta-feira. As ruas de Paredes estão desertas. Passa das 10 horas quando dois carros param à porta do Rádio Clube Português. Mas os ocupantes não chegam a sair. São caras conhecidas da literatura portuguesa, artistas surrealistas e, como não podia deixar de ser, frequentadores do Café Gelo. António José Forte, Renato Ribeiro, Manuel de Castro e Mário Henrique Leiria. Bem-vindos à segunda versão da Operação Papagaio. A versão contada pelo surrealista Carlos Loures, coordenador da revista Pirâmide, juntamente com Máximo Lisboa, também conhecido como Máximo Porky ou Mínimo Gorky. Em comum com a de Fernando Correia da Silva, esta versão tem o quando, o onde e dois dos protagonistas: António José Forte, que realmente fez parte do plano, e Mário Henrique Leiria, que apesar de não ter tido nada a ver com ele, também aqui é dado como cabecilha da operação. De resto, muda tudo. Com eles estariam Renato Ribeiro, um dos surrealistas que se levantaram para fazer a apologia da homossexualidade no célebre jantar de apoio a Raul Leal no Café Gelo, de que falámos no primeiro episódio, e Manuel de Castro, o poeta poliglota e alcoólico, que de facto foi um dos primeiros a alinhar na Papagaio. É o escritor Vergílio Martinho, que Carlos Loures encontra por acaso no Castilheiro, numa manhã de agosto de 1962, que lhe conta a história, garantindo que também não participou. Segundo esta versão, quando chegam aos portões do Rádio Clube Português, os operacionais dão de caras com uma multidão. As instalações da emissora ficam num terreno com 33 mil metros quadrados, onde há espaço não apenas pra rádio, mas também para uma série de campos e um ringue. E naquela noite de quarta-feira, há um jogo de hóquei. Surpreendidos, os operacionais a mando de Mário Henrique Leiria, não abortam imediatamente a missão. Uns querem avançar mesmo assim, outros sugerem adiar uma semana. No fim, ganha a prudência e ganha o polícia gratificado, contratado pra garantir a segurança de público e atletas, que têm uma noite sossegada. Na quarta-feira seguinte, porém, não há repetição do golpe. Já há demasiado falatório nos cafés. E alguns deles não são frequentados apenas por artistas, mas por agentes da PIDE, que lhes dão voz de prisão. "Os guerrilheiros surrealistas foram todos dentro", escreve Carlos Loures. A versão do poeta acaba com a libertação dos operacionais, que durante os interrogatórios levam os agentes da polícia política às lágrimas de tanto rir e são punidos com umas quantas chapadas e outras tantas ameaças. "Como ninguém leva a tentativa de golpe a sério", escreve Carlos Loures, a PIDE nem sequer chega a abrir processo. Esta parte é fácil de desmontar. São várias as centenas de páginas nos arquivos da Torre do Tombo, que deitam por terra esta segunda versão. Mas como em todos os mitos, também aqui há um fundo de verdade. Realmente, mesmo antes de acontecer, a operação já era tudo menos secreta. Gavroche está com um problema. Tem poucos homens de confiança. Quer dizer, só tem mesmo dois. Um é o pintor Benjamim Marques, o outro é António José Forte. O poeta António Barona conheceu-o bem, apesar de não ter feito parte da Operação Papagaio.
O Forte era um homem, como agora se diz, estruturalmente honesto, isso não há dúvida nenhuma. Tinha uma convicção de esquerda inabalável. Suponho que ele nunca pertenceu ao Partido Comunista, mas identificava-se bastante com a revolução comunista. Pronto, e quanto a mim, era tão honesto que levava a sua honestidade ao ponto de desconfiar também do comunismo propriamente dito.
Mas os outros homens que vão entrar no plano só ali chegaram por uma de três razões: porque têm carta de condução, porque têm uma pistola ou, no pior dos casos, porque as pessoas contactadas antes deles não quiseram participar. Ou até quiseram, mas acabaram por desistir. A dada altura, o desespero é tanto que Benjamim Marques começa a tentar aliciar pessoas que nem sequer conhece. Gavroche só há a descobrir depois. Mas é essa falta de critério que vai fazer com que, ainda antes da data marcada, já se fale nos cafés de Lisboa da Operação Papagaio, que deveria ser um segredo bem guardado. Uma dessas pessoas recebe o nome de código Júnior. É o operacional que Benjamim consegue recrutar à última hora. Gavroche nunca chega a saber o nome verdadeiro, mas percebe rapidamente que o homem não é de confiança. O maior problema de Júnior é que não consegue ficar de boca calada. Trabalha no República. A fazer o quê? Gavroche nunca saberá. E o República é justamente o jornal onde escreve Adriano de Carvalho, jornalista e habitué do Gelo, com propensão para o alcoolismo. Quando Benjamim Marques lhe pergunta se quer entrar numa operação anti-Salazar, Adriano de Carvalho diz logo que sim. Mas alguns dias depois, quando já está ao corrente do plano, volta atrás. Não tem confiança nos outros homens. Está fora. E é aí que entra Júnior, que também aceita, para logo depois se arrepender. Mas neste caso, sem sequer informar os outros operacionais. São dois enormes erros de casting. E tudo por causa das namoradas. Adriano tem uma noiva que é amiga da noiva de Júnior. Ao que tudo indica, uma delas, ou terão sido as duas, vai ser a fonte original dos boatos postos a circular em Lisboa. Gavroche e Benjamim estão furiosos. Procuram Júnior e Adriano para lhes pedirem satisfações, mas a única coisa que conseguem é vê-los atirar as culpas de um lado para o outro. Júnior aponta o dedo ao colega do República. Foi a noiva de Adriano que contou tudo à noiva dele, que nem sequer sabia que ele estava metido numa operação anti-regime. Tem a certeza que foi ela que espalhou a história Mas Adriano tem uma versão diferente. Diz que o Júnior e tal é que andou a armar-se em herói, ia exibir a pistola à noiva. A boataria só poderia vir daí. Certo é que a história já se espalhou por todo lado. Diz-se nos cafés que os surrealistas andam a brincar aos cowboys.
Já ouvi falar na Operação Papagaio, embora tenha pouco conhecimento efetivo do que ela foi. Conheço um texto do Luís Pacheco, chamado exatamente "Operação Papagaio", em que ele fala de uma ocupação de uma rádio, creio que o Rádio Clube Português, uma emissora, e em que estaria prevista, portanto, uma emissão pirata, declarando o fim do fascismo, expectando ou esperando um contágio, a partir daí, uma revolução que se pudesse desencadear a partir de uma notícia desse tipo.
António Cândido Franco é biógrafo de Luís Pacheco. Conhece a Operação Papagaio através da versão do editor e escritor. E diz que, tendo em conta o contexto dos artistas envolvidos, o plano faz todo o sentido.
Tendo em atenção o quadro em que estas pessoas se formaram, que é o quadro do surrealismo, num certo sentido, e também o quadro, eu diria, de uma esquerda já não republicana, de uma esquerda radical. E tendo em atenção também a evolução que o regime teve desde 45, fechando-se cada vez mais, procurando sobreviver e procurando afinar os seus instrumentos de repressão, não admira nada que uma geração tão ativa, tão dinâmica como esta, possa ter encarado uma ação direta com estas características.
Mas a versão de Luís Pacheco, seis páginas no livro "Prazo de Validade", publicado em 1998, também não conta a história toda da Operação Papagaio. Em 1959, a editora Contraponto de Pacheco funciona praticamente nas mesas do Gelo. Mas o plano é congeminado, sobretudo, no Royal, café-restaurante do galego Pepe Blanco, dono de uma garrafeira admirável que os surrealistas secam em dois tempos. Por isso, também Luís Pacheco relata apenas aquilo que ouviu contar. Apresenta o plano como arrebatador, eufórico e alucinado, e escreve: "Como num passe de mágica, acho que esperavam que por esse país fora, o Portugal profundo, multidões saíssem pra rua em fúria, armadas de cacetes, enxadas, chuços e calhaus, por sessas de democracia." Eram tempos loucos. E Luís Pacheco era o mais louco de todos. Foi preso várias vezes por causa dos livros que escrevia e editava, mas também por ser um libertino, cometer atentados ao pudor e manter relações sexuais com raparigas menores. Carlos Alberto Machado é ator e editor. Quando chega ao grupo dos surrealistas, tem apenas 15 anos, mas rapidamente alinha com os mais velhos na vida noturna de Lisboa. E está no café Monte Carlo, no Saldanha, na memorável noite de 1971, em que Luís Pacheco resolve inventar que morreu.
O Pacheco vivia em Queluz. Mandou dizer por alguém que tinha morrido. Estava a malta no Monte Carlo. O Monte Carlo fechava relativamente cedo, às duas da manhã. E a uma hora dessas, foi toda a gente, os poucos que tinham carro, uns táxis, eles não sei como foram à casa dele levar. E ele estava à porta a fazer manguites à malta. Essa é a verdadeira, porque eu fui. Inventou a morte dele. Portanto, podia sim inventar tudinho e mais um par de botas.
E realmente podia. Mas no caso da Operação Papagaio, pelo menos Luís Pacheco não terá inventado assim tanto. Muitas das coisas que escreve são verdadeiras, mas também tem muitos erros. Pacheco conta que quando chegaram ao Rádio Clube, os conspiradores depararam-se com um obstáculo inesperado, uma multidão a assistir a um jogo de hóquei. E descreve o que se passou a seguir. Gerou-se uma discussão no interior dos automóveis. Que fazer? Aquilo não fora previsto. Aquilo assim podia dar pra torto. Não estavam mentalizados pra violências. Foram a votos e ganharam os indecisos e os pusilânimes. Voltaram pra trás. Argumento peso: "Vimos cá amanhã. Amanhã também é dia." Das quatro versões que foram surgindo ao longo de décadas, a mais fidedigna é mesmo a última, de Luís Filipe Costa, nome de código Luciano. Mas há uma razão pra isso. Luís Filipe Costa, o primo de Gavroche, participou ativamente na operação. Já depois do 25 de abril, Luís Filipe Costa escreveu um texto num jornal onde dá a sua versão dos acontecimentos. O jornalista recorda uma obscura operação em que participou pra tomar de assalto o Rádio Clube Portuguê, a que chamou Operação Papagaio Desesperado. Descreve o golpe aventureirista, como lhe chama, que anos antes tinha sido levado a cabo por um grupo de revolucionários. E cita nomes. Com eles estavam o primo Gavroche, António José Forte, Benjamim Marques, Virgílio Martinho e um senhor que se recusa sequer a nomear. Diz apenas que nessa altura esse senhor milita num partido da chamada esquerda festiva ou esquerda alegre. E acusa: se a Operação Papagaio não correu como esperado, foi porque esse senhor falhou Esse senhor era Artílio Batista. Na altura em que o texto foi escrito, em 1978, o serralheiro que morava no Barreiro era militante do PRP, o Partido Revolucionário do Proletariado. Era também membro fundador das Brigadas Revolucionárias de Carlos Antunes e Isabel do Carmo. Ainda antes da revolução, em 1971, tinha sido ele a fabricar e a pôr a bomba que detonou na base da NATO, na Fonte da Telha, e apresentou ao país esta organização armada. A culpa dos problemas na Operação Papagaio não foi toda de Artílio Batista. Mas Luís Filipe Costa tinha razão num ponto. As coisas realmente não iam correr bem. Como vimos, à volta da Operação Papagaio, há muitos rumores, muitos exageros e muitas mentiras. Existe uma razão pra isso. É que nos últimos 64 anos, a verdade esteve perdida nas catacumbas dos arquivos da PIDE. São centenas de páginas de relatórios e interrogatórios que nunca foram lidos, até agora, e que contam todos os detalhes do plano que queria derrubar Salazar. Primeiro, tinha sido preciso escolher o dia certo pra agir. Não é por acaso que a Operação Papagaio é marcada pra uma quarta-feira à noite. O objetivo é aproveitar a hora do jantar e o dia de folga do jornalista António Barão, um dos membros do grupo, que em todas as outras noites da semana trabalha até tarde na agência de notícias ANI. Os detalhes são ultimados uma semana antes, em casa de um amigo de Gavroche, que também tem um nome surrealista, Doroteu Flecha. Antigo corredor de automóveis, na altura vendedor da Citroën, Doroteu Flecha empresta a chave de casa sem saber o que ali se vai passar. Ao longo de três horas, Gavroche, Forte, Benjamim, Artílio e um dos homens do serralheiro decidem como vai ser feito o assalto ao Rádio Clube Português. Vão precisar de dois carros pra transportar 11 operacionais, cinco do grupo de Gavroche e seis do grupo de Artílio. O próprio Gavroche, que mora na parede e pode ser facilmente reconhecido, não participa e tem de se mostrar num sítio público à hora da operação pra garantir que não é implicado depois. Um dos homens do grupo de Artílio tem carro próprio, portanto, fica só a faltar um automóvel. Há de ser alugado pelo pifarista, o único com carta de condução, usando parte do dinheiro entregue pelos militares da Trafaria. As armas vão ser distribuídas no próprio dia da operação e só deverão ser disparadas em último caso. À saída do Rádio Clube Português, têm de ser todas entregues a Maria Eduarda, que vai estar num carro à espera. Há mais. Durante o assalto, ninguém pode falar. A comunicação entre os operacionais vai ser feita a toques de apito. Cada um deles é responsável por fazer a sua própria mascarilha preta, que não deverá tirar em nenhuma ocasião. E os grupos só avançam com ordem de Benjamim Marques. Às 10 da noite, o pintor e ilustrador vai telefonar para Luís Filipe Costa a partir do Café São Jorge, no Largo de Carcavelos. Se o primo de Gavroche der luz verde, começa o ataque ao Rádio Clube Português. É o fim de tarde de uma segunda-feira de setembro de 1959, a segunda-feira antes da Operação Papagaio. Como combinado, o grupo volta a reunir-se, agora no armazém de perfumes do pai de Gavroche, só mesmo pra garantir que está tudo a postos. Gavroche é o primeiro a chegar. Depois vão aparecendo os outros. Forte, Benjamim e até Maria Eduarda. Mas os minutos passam e não há sinal de Artílio. Gavroche tenta ligar pra casa no Barreiro. Ninguém atende. Decidem esperar mais algum tempo, pode estar só atrasado. Até que se torna evidente. O serralheiro, que tinha ligado nessa mesma manhã a garantir que não ia abandonar o barco, apesar de metade do grupo que tinha juntado ter feito, não vai aparecer. Gavroche tá no limite. E ainda nem sequer ouviu tudo. Benjamim tem um recado do poeta Manuel de Castro. Diz que não concorda com as condições de fuga. Ou o deixam ficar com a arma depois do assalto, ou também desiste do plano. António José Forte aproveita a deixa. Começa por dizer que, sem segurança adequada, nem ele vai à parede e, no fim, sugere adiar toda a operação. Gavroche explode. Não vai permitir que as exigências absurdas de um elemento ponham em risco o grupo todo e insiste que o plano se mantém. O pifarista vai estar à porta do Rádio Clube Português com uma pasta pra recolher todas as armas à medida que os operacionais abandonem o edifício. Depois, o mesmo pifarista vai encontrar-se com Maria Eduarda, que há de estar à espera na estrada que liga a estação de comboios de Carcavelos à Marginal Ela fica a guardar as armas. O pifarista e o resto dos operacionais fogem, com a certeza de que se forem interceptados por barreiras policiais no caminho, não vão ser incriminados, precisamente porque estão desarmados. Quanto à ideia de Forte, que acha que o melhor será adiar a operação, é Maria Eduarda quem fala. Lembra que já há demasiada gente na cidade a par do plano, que se não avançarem, será uma questão de tempo até que a coisa comece a transpirar. Sem Artilho para desempatar, são dois contra dois. Chegar a um consenso parece impossível. Mas essa é uma história para o próximo episódio. No próximo episódio. Se tudo correr como previsto, o telefone há de tocar pouco depois das 10 h. Luiz Felipe vai atender e dizer que a costa está livre e a operação pode avançar. Há uma bomba ligada à máquina. Não pise, que a partir daqui há minas. Vocês façam o que entenderem. Eu vou pra casa. Se não quiser ficar preso durante anos, o capitão tem que fugir. É hora de Gabe Roche ir ao presídio da Trafaria. Tem de falar. Cara a cara. "Operação Papagaio" é uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Miguel Guilherme, e tem banda sonora original de Rita Red Shoes. O guião é de Tânia Pereirinha. As entrevistas são de Tânia Pereirinha e João Santos Duarte. A sonoplastia é de Diogo Casinha. O design gráfico é de Miguel Ferraz Cabral. A edição é de João Santos Duarte. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Podcast Plus, O Observador. É mais do que um podcast.
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