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Operação Stop na Rádio Observador. Mais um domingo, mais um dia para falar do mundo automóvel e, como sempre, contamos também com o nosso especialista Alfredo Lavrador. Bem-vindo!
Olá, Miguel. Obrigado.
Hoje vamos falar de baterias dos automóveis elétricos, mais das baterias. Alguns leitores questionaram-nos sobre qual a bateria que deveriam adquirir, aquela com maior tendência para arder em caso de acidentes ou outra que ofereça uma autonomia menos generosa. Como é que podemos responder a esta questão?
Olha, Miguel, não é fácil. Trata-se tudo de uma questão de química. Tradicionalmente, as baterias NMC oferecem maior densidade energética. Estamos a falar das baterias de níquel, manganês e cobalto, em que o manganês é um estabilizador, o níquel é o responsável pela transformação de energia e o cobalto também é fundamental para o funcionamento da bateria, mas é a coisa mais cara e ainda por cima, como sabes melhor que eu, é extraído do solo em países muito pobres, com mão de obra infantil e nenhum construtor esquece a pegada. Mas é fundamental. Quando aparece uma bateria que pode prescindir do cobalto, toda gente fica muito contente, duplamente. Primeiro, porque é muito caro e depois porque tem trabalho infantil associado à extração. Ninguém gosta disso. Mas voltando àquilo que interessa, as NMCs, as tais de níquel, manganês, cobalto, são as que têm maior densidade energética. De maneira que se tivesses que fazer uma bateria para dar a volta ao mundo, eu aconselhava teivamente uma destas. E entre estas, de NMC, as 811, e já te vou explicar o que é que isto quer dizer. A ti não, porque sabes, mas aos nossos ouvintes.
Sim, eu também preciso um bocadinho.
Tu estás a jogar, estás a esconder o jogo. As 811 são baterias que têm oito partes de níquel, que é aquilo que é fundamental para teres energia, uma parte de manganês, que é o tal estabilizador, e uma parte de cobalto. Não é que a bateria não funcione melhor com mais cobalto. O problema é que é caro e está associado àquele trabalho infantil. Mas essas baterias, as NMC 811, são as melhores, são aquelas que têm mais energia por unidade de peso ou de volume. As LFPs, que são umas baterias que apareceram mais recentemente e vieram da China, é uma criação chinesa, têm algumas vantagens. Para já vieram da China porque não têm tanto níquel e não têm decididamente cobalto, de maneira que tiveram que arranjar uma alternativa mais barata.
Sim.
A vantagem é que as LFPs são de lítio ferrofosfato. Basicamente têm lítio, não há baterias sem lítio, pelo menos por agora. Acho que estão todos a trabalhar arduamente nisso, mas ainda não conseguiram descobrir uma solução. As lítio ferrofosfato têm a vantagem de não arder em caso de curto-circuito ou de rutura em caso de acidente. Imagina aquela cena que já te aconteceu, certamente. Sobes um passeio para estacionar, porque em Lisboa e no Porto é fácil estacionar, e de repente medes mal a altura do passeio ou esqueces-te que o passeio é alto e desces o passeio de forma mais generosa, mais dinâmica, e levas aquela pancada seca por baixo. Isso no tempo dos carros a gasolina podia estragar o tubo de escape, podia fazer mais uma mossa por baixo da plataforma do carro, mas ficava um bocadinho por aí. Está claro que se te assustasse no cárter, tinhas que mandar arranjar, porque aquilo rangeava-te o cárter, perdias o óleo e até podias gretar o motor. Mas nas baterias é diferente. A pancada pode fraturar uma das caixas das baterias, que está cheia de eletrólito, portanto é um líquido à base de iões de lítio, que é aquilo que transfere a energia entre o cátodo e o ânodo. Se esse líquido sai da bateria, a bateria começa a aquecer quando é recarregada ou quando puxas energia dela e a temperatura sobe e é aquilo que os ingleses chamam, que é um termo muito sexy, que é o thermal runaway. O nome diz tudo. Aquilo começa a aquecer e nunca mais para. E a única forma de apagar uma bateria a arder é mergulhá-la dentro de um contentor de água, coisa que normalmente não está à mão.
Sim.
E isso é a grande chatice das nickel NMC.
Sim. Mas podemos afirmar então que isto é apenas uma questão de química ou estamos aqui a ter outros valores em conta?
Tens toda a razão. A química é aquilo que diferencia uma solução da outra. Mas como eu te disse, as LFPs são menos eficientes do que as NMC. Qual é a vantagem? É que são muito mais baratas e para além disso, têm outras vantagens, mas sobretudo não ardem de maneira nenhuma e são muito mais baratas. E é por isso que surgiram na China. Inicialmente, os chineses têm grandes problemas de poluição, já foi várias vezes noticiado na Rádio Observador. Havia cidades em que quase que havia acidentes porque tinham dificuldade em ver o carro do lado. Para lutar contra isso, eles dinamizaram, incentivaram a compra de carros elétricos e substituíram os autocarros a gás óleo Por autocarros elétricos. E como eram muitos autocarros, porque eles são 1200 milhões, era necessário arranjar uma solução barata, e as LFPs foram a solução encontrada, tanto mais que os autocarros podem carregar sempre mais baterias porque não têm problema de espaço.
Portanto, foi esta questão do custo que levou ao desenvolvimento das LFP? Até porque se as NMC têm maior densidade energética, são mais eficazes e melhores para autonomia, foi isso que levou ao desenvolvimento das LFP?
Inicialmente foi. As LFP, lítio ferrofosfato, nasceram por uma questão de preço. Contudo, conscientes de que para essas LFPs serem uma alternativa às NMC, era necessário, e parecemos aqui abusar das siglas, torná-las mais eficientes. Então toda a gente investiu imenso, sobretudo os chineses, mas na Europa e nos Estados Unidos também já se trabalha nisso. E na Coreia do Sul, que é um grande fabricante de baterias, aliás, é um dos maiores depois da China. As baterias tentaram evoluí-las e hoje em dia está uma ordem de grandezas: uma NMC 811, são as tais melhores, têm uma densidade energética na casa dos 260, 270 watts hora por quilo, mas LFP andam nos 160, ou seja, estão abaixo, mas há poucos anos estavam bem abaixo dos 100. Ou seja, tem havido uma evolução e elas são cada vez mais competitivas. Ainda estão por aí abaixo. Mas contudo, são sempre muito mais baratas e não ardem.
Agora, falando especificamente para quem quer adquirir um automóvel elétrico, há esta questão: vêm aí baterias melhores e mais baratas?
Sabes que não há faculdade, não há universidade por esse mundo fora, nos Estados Unidos, lamentavelmente na Europa não sei se é assim tanto, mas Estados Unidos e China está toda a gente empenhada no desenvolvimento de novas baterias. E é frequente ouvir-se falar, ainda agora apareceu uma bateria de sódio, que basicamente, como sabes, é sal, que é uma coisa que existe em quantidade, porque basta apanhar uma panela d'água do mar, pô-la ao lume e a água evapora e ficas com sal no fundo da panela. Ou seja, é algo fácil de conseguir. Não é um metal ou qualquer material que seja muito complexo de extrair do subsolo ou o que quer que seja. Agora, há efetivamente uma questão de que se fala muito e que há 10 anos que é prometida. Então os fabricantes chineses de baterias, que há muitos, já anunciaram várias vezes que conseguiram fazer uma bateria sólida, mas há 10 anos e ainda não vimos nenhuma. Mas está para breve. Ou seja, há vários indícios, estamos a falar de empresas cotadas em bolsa, não chinesas, claro, que recorrem a auditorias independentes. Porque disso depende o seu valor em bolsa e não podem enganar os acionistas. Quer dizer, não devem. Se quiser, pode, é claro. E então, as baterias têm vindo sempre a melhorar. As baterias de hoje são melhores do que as baterias de há cinco anos, mas tudo indica que vão continuar a melhorar até que se dê esse salto que toda a gente aguarda, que é as baterias sólidas ou até outras que entretanto hoje não se conheça, está quase a crescer, mas podem não as conhecer. Nós é que não, ainda, pelo menos. E as baterias vão, obviamente, continuar a melhorar.
Mas então as baterias sólidas, nesta altura são, podemos dizer, o Santo Graal dos acumuladores. Vão mesmo surgir? Vamos mesmo contar com elas?
Isso tem um cheirinho a "Os Saltadores da Arca Perdida", mas tudo indica que sim. Sabes que há uma cientista portuguesa, uma investigadora portuguesa, que juntamente com o criador das primeiras baterias de íons de lítio, e o Observador já noticiou isso, ou seja, podem ir à procura no Observador que está lá a notícia, criaram um protótipo funcional, ou seja, que provou que funcionava, de uma bateria sólida, em que, em vez do eletrólito líquido, aquele que em caso de uma pancada violenta pode originar uma fuga e a seguir um incêndio, tinha uma espécie de um vidro, através do qual se transferia a energia. Essas baterias seguiam as exigências tradicionais, ou seja, eram mais seguras e mais baratas, mas aparentemente até agora nunca foram produzidas. Provavelmente, porque, e isso acontece frequentemente na indústria, qualquer tipo de indústria, há soluções muito boas que depois se tornam difíceis ou impossíveis de industrializar. Provavelmente foi este o caso, mas que as baterias sólidas vão aparecer e aí a vantagem vai ser flagrante, tanto em termos de autonomia como em termos de rapidez de recarga, e isso vai acontecer. É só uma questão de dias. Não esperes de pé, espera sentado.
Sim, parece-me que é caso para isso. Angelo, o que nos dá esse futuro em relação às baterias? Tivemos aqui uma conversa sobre energia, sobre as baterias, neste episódio da "Operação Stop". Estamos de regresso na próxima semana, no próximo domingo. Alfredo, até lá, um abraço.
Está combinado, Miguel.