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Operação Stop, Rádio Observador. Vamos falar do mundo do automóvel e para isso temos já o nosso Alfredo Lavrador. Alfredo, bem-vindo.
Obrigado, Miguel. É sempre um prazer.
É sempre um prazer, claro. E neste domingo de manhã temos um tema que vem de uma dúvida de um ouvinte. Vamos falar aqui sobre os combustíveis simples, se valem ou não valem a pena, se são uma boa aposta, se são uma má aposta. Fomos questionados sobre isto no nosso e-mail do ouvinte da Rádio Observador e, portanto, vamos falar disto. Há muitos condutores a optarem por gasóleo ou gasolina simples, apenas porque são uns cêntimos mais baratos do que os combustíveis similares aditivados. Esta é uma opção que faz sentido, Alfredo?
Sabes, Miguel, os preços dos combustíveis variam muito, pelo que se a única coisa que preocupa os condutores é exclusivamente o preço do combustível, há muitas mais variáveis a ter em conta. Como tu sabes, o preço dos combustíveis é mais elevado nas autoestradas do que nas estradas normais ou até nas cidades. É mais elevado junto aos centros das cidades, ou seja, há muitas variáveis. Agora, um facto que é indiscutível é que efetivamente os combustíveis simples são mais baratos do que os aditivados, que habitualmente são apelidados de especiais. Quando apareceu a gasolina e o gasóleo simples, eu cheguei a fazer alguns comparativos com combustíveis aditivados contra os simples, e a realidade é esta: eu nunca consegui encontrar uma redução de consumo que fosse evidente, ou seja, que fosse superior à margem de erro do teste. E em relação ao outro pormenor, que é anunciado como uma vantagem dos combustíveis aditivados, que se prende com a melhor manutenção do motor, como se aquilo fosse um spa, enquanto o combustível simples fosse um daqueles campos de trabalho escravo durante a guerra. A realidade é que isso também não é muito plausível, porque para tirar isso a limpo, tens que fazer um teste laboratorial que implica esforçar o motor durante mais de 100 mil quilómetros, no mínimo, com dois modelos idênticos, cada um deles com combustíveis diferentes.
Ok.
Eu nunca fiz isso, mas também te digo que não acredito que produzisse grandes diferenças.
Ok, mas então temos que olhar para essas diferenças. Quais são as diferenças entre os combustíveis simples e os combustíveis aditivados?
Menores do que aquelas que estás a pensar. Vamos lá ver. Existe uma instituição chamada ERSE, Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos, que define o que é combustível, como é que devem ser feitos e quais os parâmetros que devem cumprir.
Ok.
De maneira que não há em Portugal, e nos outros países também não, combustíveis não aditivados. Aquela ideia de que o combustível simples não é aditivado e o combustível aditivado é aquele que tem ali uma caixinha de goodies, surpresas, bombons, para fazer com que se vá ao motor prudente, aquilo é uma loucura.
Certo.
Parece uma festa. Isso não é bem assim. Os combustíveis simples também são aditivados. Só que os combustíveis aditivados têm mais uma série de aditivos que nunca são definidos. Imagina que vais tomar um iogurte, tu olhas e sabes o que aquilo tem lá dentro. A gasolina não é bem assim. A gasolina não, o gasóleo nem coisa semelhante.
Ok.
Não estou a dizer que não têm mais aditivos, que obviamente terão, mas são aditivos que estão para além daquilo que o motor necessita para estar bem cuidado, bem lavado por dentro. Quando digo lavado, não estás a imaginar assim um esfregão.
Sim, uma máquina de lavar a trabalhar.
Uma coisa no duche, mas é o que se chama.
Ok.
Para evitar acumulações de detritos que depois gerem pontos quentes na câmara de combustão e autoignições, e por aí fora. Para evitar tudo isso, os combustíveis têm que ter determinadas características. E tanto o combustível simples como o combustível aditivado cumprem essas funções. De outra forma, não poderiam ser comercializados em Portugal.
Muito bem.
Mas aquilo que se preocupa é saber se os aditivados podem te dar mais potência ou mais economia, dificilmente.
Ok, pois era isso que eu ia.
Não há nada que seja indiscutível.
De facto, ficamos aqui a perceber então que os combustíveis simples já têm aditivos e os aditivados são mais aditivados que os simples, é isso?
Mas olha, Miguel, há aditivos que a menos que gostes de enfiar o nariz no depósito.
É só para cheiro.
Exatamente. A sério, há aromáticos, para que aquilo passe bem. Nunca tentei beber uma caipirinha com sabor, com cheiro a gasolina super.
Mas então vamos lá ao que estavas a referir. Nós já percebemos que os combustíveis simples são de facto mais baratos, e também não é preciso muita inteligência para perceber isso, mas garantem um consumo inferior?
Os combustíveis simples, não, são mais baratos. O que habitualmente é anunciado, e algumas gasolineiras fazem frequentemente, é que anunciam menores consumos com combustíveis aditivados. E eu acho que não é fácil que isso aconteça. Como te disse, já fiz esse tipo de trabalhos e a diferença é mínima e às vezes nem sequer favorece os combustíveis aditivados. Mas nós aqui, como sabes, temos a mente aberta para abraçar desafios e se alguma gasolineira nos quiser desafiar a comprovar que estamos errados, que efetivamente há vantagem, cá estamos nós para perdermos umas horas largas a medir consumos, mas tudo vem da ciência. Não te preocupes. Mas não deverá acontecer. Há formas mais simples e mais baratas de conseguir essas reduções no consumo.
Sim, eu acho que o que motiva mais questões em relação a isto é aquela máxima do "o que é barato sai caro". E muitas vezes pensamos nisto, que é a saúde da mecânica, que de certa forma acaba por preocupar os condutores e acaba por ser muito falado também pelos construtores e também pelas gasolineiras em relação a estes combustíveis simples. Afinal, os combustíveis simples cuidam melhor ou pior do motor, do catalisador, do filtro de partículas? Como é que isto acontece? Afinal, o que é que temos em relação a este aspecto?
Olha, como os dois tipos de combustível têm na sua constituição os aditivos de que necessitam para que tudo funcione bem, não me parece que vás encontrar aí grandes diferenças. Sobretudo porque faz muito pior ao motor, degrada muito mais o motor e os catalisadores e o filtro de partículas, que precisa de estar muito quente para incinerar todas aquelas poeiras que estão lá dentro, certas coisas que a maior parte dos condutores fazem regularmente, como por exemplo, arrancar. O carro fica durante a noite, sobretudo de inverno, com temperaturas muito baixas, e eles metem o motor a trabalhar e desatam a acelerar como se estivessem a fazer um arranque no Autódromo do Estoril, e os motores detestam ser apertados, esmifrados a frio. Outra coisa que todos nós fazemos, e nem sequer é uma opção, depende do sítio onde cada um vive, há muitos condutores que fazem viagens muito curtas, caso da escola dos putos, seguido para o escritório. Saem para ir às compras e voltam, a 1 km de distância, do supermercado. Ou seja, esses curtos trajetos são péssimos, porque, mais uma vez, o filtro de partículas precisa de aquecer consideravelmente para começar a incinerar. E se isso não acontecer, vai entupir. E o filtro de partículas é uma coisa extremamente cara, de maneira que não é bom.
Muito bem, portanto, a utilização acaba por ser pior do que esta questão dos combustíveis.
A utilização acaba por ser mais importante do que o tipo de combustível.
Mas se as vantagens não são muitas, o que é que os condutores podem fazer para poupar e aumentar aquilo que é a longevidade da mecânica?
A longevidade da mecânica é mudar o óleo atempadamente. Tu podes pensar: "Eu mudei o óleo, mas entretanto fiz 100 km, porque entretanto fui de férias ou fui trabalhar para o estrangeiro e o meu carro não andou". O problema não é esse, o problema é que o óleo de lubrificação é higroscópico, ou seja, absorve humidade e no processo degrada-se com o passar do tempo, o que significa que apesar de só teres feito 100 km, o teu óleo ficou no carro durante aquele ano que estiveste fora, ou seis meses, ou seja, na prática envelheceu e degradou-se e não te garante o tipo de proteção ao motor que devia garantir. Agora, no capítulo da poupança, se os condutores quiserem efetivamente poupar, se for uma preocupação que têm, se for essa uma das preocupações que têm, consumir combustíveis simples faz todo sentido. Mas se calhar ainda é mais importante, por exemplo, utilizar a pressão correta nos pneus. Um pneu com a pressão indicada pelo fabricante. E se houver uma janela, um intervalo de pressão, se optarem pela pressão mais elevada, que é admitida pelo fabricante, ou seja, nada de andar com os pneus que parecem uns balões, o consumo desce consideravelmente face ao mesmo pneu que tenha a pressão ligeiramente mais baixa. E tu sabes, todos os estudos apontam, nós já falámos também aqui na "Operação Stop", para que a esmagadora maioria dos condutores utilize pressões muito baixas nos pneus. Depois outra coisa, outro truque, que não é truque nenhum, que pode ajudar a poupar consideravelmente, são os cupons de desconto dos supermercados, por exemplo. Parece ridículo, mas eles oferecem-te 10% a 15% de desconto por litro. Ou seja, estamos a falar literalmente de 10% a 15% de uma redução no consumo, o que não é fácil de conseguir com qualquer tipo de combustível. E depois há outra pequena, sempre pormenor, que os condutores não gostam muito que se lhes recorde, que é o tipo de condução, ou seja, uma condução mais descontraída, mais afastada do carro da frente, para evitar as travagens e consequentes acelerações, traduz-se também num ganho muito importante de consumo. E não necessariamente chegas mais tarde. Aliás, não chegas mais tarde.
Sim. Há muitas questões então para lá daquilo que é a utilização de combustíveis simples ou não.
Se tem de se poupar, vá em frente, não perde nada com isso. Os combustíveis aditivados eventualmente serão melhores, mas não ao ponto de fazer a diferença. Ou seja, é como tu utilizares um creme muito bom e um creme não tão bom. Mas não é isso que faz a diferença.
Ok.
Agora há outros pormenores relacionados com a condução, pressão dos pneus, etc. Esses sim, fazem muita diferença.
Ficam as explicações do Alfredo Lavrador nesta edição da "Operação Stop", aqui uma dúvida de um ouvinte sobre a utilização de combustíveis simples, se valem ou não a pena. Recordo que quaisquer dúvidas de ouvintes podem ser enviadas para ouvinte@observador.pt. Nós tentamos explicar todas as dúvidas que possam surgir. Está feita mais uma "Operação Stop", Alfredo. Até para a semana.
Até para a semana.