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"Operação Stop", Rádio Observador. Mais um domingo, vamos falar do mundo automóvel e para isso já temos conosco Alfredo Lavrador. Alfredo, muito bem-vindo.
Olá, Miguel, obrigado.
Hoje vamos até à China, não é? Ou a China é que vem até nós. É melhor dizer assim. A China que vem até nós, porque os tão prometidos carros elétricos chineses, que os construtores europeus admitiram temer por serem muito mais baratos, a verdade é que já começaram a chegar ao mercado português e portanto, estamos aqui neste momento, nesta altura, de saber se sempre são tão baratos quanto era previsto.
Olha, Miguel, o que te posso dizer é que se estavas à espera de estar por aí a correr em direção ao concessionário de uma marca chinesa mais próxima, à procura de uma pechincha, tipo Loja dos 300, é melhor pensar duas vezes e não vale a pena calçar já os tênis, porque são mais baratos, digamos, em relação aos concorrentes diretos europeus, mas não são muito mais baratos. Não estamos bem a falar do mesmo tipo de produto, tanto em termos estéticos, em relação ao gosto normal europeu. Sabes que há gostos para tudo. Mas há aquilo que é tradicionalmente o gosto europeu ou o estilo preferido pelos europeus. Proponho-te aqui uma visita rápida à oferta. Há essencialmente três marcas: a Aiways, que é uma marca que já chegou há mais de um ano e vende ainda só um modelo, apresentou agora o segundo, e depois há a BYD e a MG. Vamos começar pela Aiways, que propõe o U5, que é assim um SUV tipo Volkswagen ID.4. Tem o mesmo tipo de dimensões, é bem equipado, tem muito equipamento de série, mas é proposto por €43 mil. Ora, este valor coloca-o demasiado próximo do próprio Volkswagen ID.4 e até do Tesla Model Y, que é o elétrico que mais vende em Portugal e na Europa, por aí fora. Ou seja, estamos a falar de €2 mil em 43. Está longe de ser algo que leve as pessoas à loucura. E como te disse há pouco, estamos a falar de veículos bastante superiores. Ou seja, efetivamente, a proposta da Aiways é muito simpática e é efetivamente mais barata, mas está longe de ser aquela marca que vai roubar os clientes aos europeus de um momento para o outro. Os chineses gostam de nós dizermos BYD.
Ok. Como se fosse, por exemplo, BMW, ou seja, a partir da sigla, não é?
Exatamente. Mas como se lesse em inglês. Nós chamamos de BYD e a MG propõe os veículos mais acessíveis destas duas marcas, que são mais pequenos e mais baratos. Um é comercializado por um valor geralmente abaixo dos €30 mil, portanto já é um valor que está mais acessível para um maior número de condutores, e o outro por €33 mil. Mas também aqui, ainda que os preços sejam competitivos, não fazem aquela diferença que toda a gente temia. Eu falo dos construtores, porque sabes que para o consumidor, quanto mais barato, melhor. Pelo menos é aquilo que eu defendo e suponho que estás aí em sintonia comigo. Exatamente, é aquilo que interessa. Contando que tenham a mesma qualidade, senão também não vale a pena. Mas estes preços inferiores do BYD e do MG acabam por não fazer aquela diferença tão sumarenta em relação, por exemplo, e peguei só em duas marcas para te dar uma ideia, à concorrência da Peugeot e da Renault, não ultrapassando em muito os 10%. Mais uma vez, não é aquele diferencial que assustava, pelo menos que os construtores tradicionais grimiram durante algum tempo.
Sim, porque aqui a questão essencialmente é o diferencial. E olhando para isto, se o preço não é assim tão baixo quanto o anunciado, será que estas empresas estão a vender mais caro ou estamos aqui a falar dos europeus que decidiram responder e tornar-se também mais competitivos, ou seja, baixar os preços? O que é que temos aqui para esse diferencial?
Eu acho que as duas explicações para o fenómeno que tu avançaste podem ser válidas, mas quer se diga, a situação é muito mais simples e tem muito a ver com o marketing. Os europeus não reagiram minimamente, mantiveram os preços, os preços estão assim, quanto muito, até subiram ligeiramente. O que se passa é que os chineses quiseram defender a imagem da marca e chegar a um país com preços daqueles suicidas, extremamente baixos, que seriam ótimos para o comprador, acabavam por poderem ser associados a uma marca baratinha, percebes? Sem tecnologia, sem interesse, por aí fora. E então eles preferiram vender os carros um pouco mais caros, não muito longe dos concorrentes europeus e norte-americanos, mas evitar assim tornar o carro baratinho e sem interesse. Lembra daquele exemplo que a Samsung deu há uns tempos atrás, quando dizia que não gostaria de vender os telefones Topo de gama a mais de 1000 €. Mas se eu não fizer, as pessoas vão comprar os iPhones porque pensam que são melhores que os nossos. E então vai daí, tome lá o Samsung a mil e tal euros.
Então os chineses estão a vender os carros mais caros do que poderiam, na verdade, para não beliscar a imagem da marca, que poderia ficar conotada como um carro muito barato, mais fraco ou mais inferior aos restantes?
É um pouquinho. Porque se tu comparares os preços praticados na China, independentemente de não ser exatamente a mesma especificação de produto, se eles estivessem para aí virados, eu acredito, estou firmemente convencido, que poderiam ser mais baratos. Eles preferem que o carro seja visto como uma proposta respeitável e logo querem fugir daquela ideia de que é um carro da loja dos 300, porque também não é. Eu não acho que os carros estejam à altura nem em design, nem em qualidade, nem mesmo em equipamento face aos melhores concorrentes europeus, longe disso, mas são produtos interessantes e cuja imagem eles querem defender, não querem denegrir por pô-los demasiado baratos.
A verdade é que estes carros estão na Europa, estão já em Portugal. Qual é que será a resposta dos fabricantes europeus? Sabendo-se também que a indústria automóvel é extremamente importante para alguns países, Itália, Alemanha, França, Espanha.
É, sobretudo aquele que depende mais da indústria automóvel é a Alemanha.
Sim.
Mas em França, Itália e cada vez mais Espanha, eles estão a receber agora uns investimentos brutais para construir veículos elétricos e vão-se tornar cada vez mais num grande player a nível europeu. Esses países têm efetivamente que ter cuidado com a oferta chinesa, para garantir que os seus produtos são competitivos. Perguntavas-me tu pela resposta dos fabricantes europeus. Como o observador já avançou, vem aí uma série de produtos finalmente mais baratos, sem sacrificar nem a qualidade, nem a autonomia, nem a potência, nem o tipo de condução. E uma vez que no final de 2024 vai aparecer o Renault 5, o R5, que foi fabricado em Portugal, convendo te lembras, eras tu um miúdo. Desculpa lá a boca, mas não me contive.
Sem problema.
Mas tu lembras-te de ver os Renault 5, os persangues e os laureados. Era um carro extremamente popular, era feito em Setúbal, e esse carro vai chegar ao mercado à volta de 25 mil €, já com uma autonomia decente.
Sim.
E depois o grupo Volkswagen, em 2025, vai aparecer com propostas, nomeadamente o Volkswagen ID.2, um Cupra Ravel e um Skoda igualmente. Ou seja, de repente, no espaço inferior a um ano, vão aparecer quatro modelos, todos eles compactos, são modelos de quatro metros, não muito mais pequenos do que estas propostas da BYD e DMG mais acessíveis, que têm preços francamente competitivos. Aqui há uma coisa que eu não expliquei há pouco. Uma das vantagens dos chineses, porque eles produzem imenso para o país deles, é que eles substituem plataformas e substituem os modelos com uma rapidez incrível. E aí é uma grande vantagem face aos europeus. De modo que quando chegarem estas propostas de construtores europeus, não tenho qualquer dúvida que os chineses vão avançar com produtos, também eles mais pequenos e também eles com preços ligeiramente inferiores, suponho, a estes que eu acabei de mencionar. E isto é ótimo, porque a concorrência é aquilo que faz funcionar o mercado e faz baixar os preços e elevar a qualidade do produto. De maneira que venham elas.
Mas temos que olhar para aquilo que é concorrência cá, aquilo que é concorrência lá, neste caso na China. Achas que a Europa está a fornecer aos construtores chineses condições semelhantes às que a China também obrigou as marcas ocidentais que quiseram disputar as vendas na China, para discutirem o nosso mercado?
Olha, Miguel, aí lamentavelmente não. Vamos lá ver. Se tu fores um construtor e quiseres vender na China, se venderes 100 unidades, ou seja, se fores a Ferrari, que vende bastante mais de 100 unidades na China. É um dos principais mercados deles hoje em dia. Mas se for uma pouca quantidade, eles permitem que tu entres e montes só os concessionários em duas ou três das grandes cidades. Podes vender 100 unidades, 500 unidades, 1000 unidades, se quiseres. Se quiseres ir aí para a frente, ou seja, se quiseres vender como a Volkswagen, até a própria Tesla, a Ford, a GM, a Renault não vendeu muito para a China. Mas aí vais ter que instalar lá uma fábrica, vais ter que construir uma fábrica e oferecer 50% a um empresário chinês, que obviamente é alguém próximo do Estado, porque a maior parte das marcas chinesas são propriedade do Estado. E só assim é que consegues funcionar. Eu digo ao exterior, porque na prática, o construtor estrangeiro fornece a tecnologia de tudo, do carro, das baterias, disto e daquilo, e os chineses oferecem o terreno, as autoestradas de acesso e os caminhos de ferro para explorar o produto. De maneira que aquilo acaba por se equivaler a esse nível. E até agora, o que estamos a assistir, e nunca se falou da obrigatoriedade de investir no mercado europeu para poder vender na Europa, é que os construtores estão a chegar cá e estão a vender o seu produto sem aquele tipo de obrigações que sempre impuseram aos europeus e americanos, não foi específico para os europeus, para poderem disputar o mercado local. E isso efetivamente não faz sentido nenhum. Sei que há aí umas démarches e umas negociações, mas pelo menos ainda não transpareceu nada definitivo cá para fora. O que é pena.
Sim, percebo. Muito bem. Certo é que já temos carros chineses à venda também em Portugal. Já temos essas três marcas de que falámos aqui. Quanto à "Operação Stop", estamos de regresso já na próxima semana, no próximo domingo. Um abraço, Alfredo.
Abraço.