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Está no ar mais uma edição de "Operação Stop" na Rádio Observador. Falamos do mundo automóvel, a nossa seção auto, e contamos sempre com a ajuda do Alfredo Lavrador. Alfredo, mais um domingo, bem-vindo.
Obrigado, Miguel. Cá estamos nós.
Hoje vamos para uma guerra. Parece que se está a preparar mesmo uma guerra entre os países europeus que querem abrir as portas dos incentivos à compra de veículos elétricos aos construtores chineses, mas contra outros que pretendem ajudar apenas os fabricantes europeus. Temos aqui, de facto, uma guerra. O que está em causa?
Olha, tens toda a razão, Miguel. Há efetivamente uma guerra, não tão grave quanto a outra guerra que nos preocupa ali mais para os lados da Ucrânia.
Sim.
Mas há efetivamente aí uma disputa em torno dos automóveis chineses. Os automóveis chineses começaram a chegar à Europa com preços mais competitivos do que os praticados pelos concorrentes europeus. E os nossos fabricantes, os fabricantes europeus, quando digo nossos é no sentido de europeus, não meus e teus, nem dos nossos ouvintes, já estão a trabalhar para, a partir de 2025, há uma série de projetos, começarem a colocar no mercado elétricos igualmente baratos, até mais baratos que estes chineses, a partir de 25 mil €. E é uma grande diferença, uma vez que o preço agora mais baixo rondou os 40 mil €. Baixar de 40 para 25 é uma redução considerável. O carro também será um bocado mais pequeno, mas também é um carro mais moderno, logo, não se perde tudo. E quando digo agora custa 40 mil €, estou a deixar de fora o Dacia Spring, que é proposto por 22 mil €. Mas atenção, apesar de ser Dacia, que é uma marca do grupo Renault, na prática, o Dacia Spring vem da China, porque só com aqueles ordenados chorudos é que é possível fazer um carro tão barato assim. Os construtores europeus alegam que o Estado chinês subsidia os seus veículos. Sabes que há marcas independentes, há marcas privadas na China, mas o grosso e as maiores são estatais, pertencem ao Estado chinês. E logo, são subsidiadas, o que lhes confere uma vantagem que não está acessível aos concorrentes europeus, uma vez que os subsídios estatais não são permitidos na Europa. Os alemães não podem subsidiar as marcas alemãs, nem os franceses as francesas, e por aí fora. Os chineses podem fazer aquilo que bem entenderem, uma vez que não pertencem à União Europeia, obviamente. A guerra que mencionas começou quando a França anunciou que não queria que os carros elétricos chineses, que vêm aí, efetivamente, já começaram a chegar à Europa, já têm algum peso, pudessem usufruir dos incentivos, que são frutos e impostos pagos pelos seus contribuintes, reservando esses incentivos apenas para os veículos produzidos na Europa, independentemente do construtor ser europeu, americano, chinês até. Por outro lado, a Alemanha ripostou dizendo que: "Não, senhor, não vamos tocar nos carros chineses, não vamos bulicar os carros chineses". E aqui fez um grande favor ao Estado chinês e como a Alemanha é o maior contribuidor da União Europeia, acabou por pressionar a Europa a aceitar os carros chineses. Ou seja, a guerra é um bocado esta. Por isso, depois da pessoa, é uma guerra entre França e Alemanha.
Sim, mas a União Europeia está a colocar-se do lado dos construtores chineses ou pretende apenas que os construtores europeus tenham acesso a carros elétricos mais baratos?
Lamentavelmente, a posição da União Europeia não tem nada a ver com carros de bateria mais baratos para o utilizador, mas apenas com os interesses da indústria automóvel dos diferentes países. Como te disse, na prática, a União Europeia está a colocar-se ao lado dos interesses dos fabricantes chineses e é exclusivamente por pressão da Alemanha, como te disse há pouco. Uma vez que todas as marcas têm lá fábricas, mas as marcas alemãs têm muitos interesses na China. Fizeram grandes investimentos e dependem das vendas na China para conseguirem a sua rentabilidade. A França, por outro lado, não depende tanto do mercado chinês, já lá teve fábricas e até correram mal. E o que pretendem é apenas defender algo com que todos nós concordamos, que é as fábricas e os postos de trabalho de quem trabalha. Nota que não é só em França. As marcas francesas, nomeadamente o grupo Renault e o grupo Stellantis, têm fábricas em Espanha, na Roménia e noutros locais. Logo, eles têm interesse em defender as fábricas localizadas na Europa e os trabalhadores que trabalham nessas mesmas fábricas.
Temos aqui dois países como França e Alemanha, dois dos maiores países europeus, a terem uma posição bastante diferente nesta matéria. Por que isso acontece? É só esta questão do mercado, das fábricas que a Alemanha tem na China também? O que está por trás de tudo isto?
Não só é uma questão estratégica, como é também uma questão de visão, no caso, a curto prazo para os alemães e a prazo mais alargado para os franceses. Assim que se começou a falar em medidas para travar a importação de carros chineses, a China começou logo a ameaçar retaliar contra os construtores que têm interesses lá, construtores e os países que têm interesses na China, ameaçando dificultar a vida à venda dos seus veículos Isso sucede que as marcas alemãs, como estávamos a falar, sobretudo as mais luxuosas, a BMW, Mercedes, Bentley e a Porsche, dependem muito dos condutores chineses. A China não é propriamente um país conhecido por se viver muito bem. Por uma vez que há muitas pessoas que vivem mal, a esmagadora maioria, mas as poucas pessoas que vivem bem, vivem muito bem. E como são mil e tal milhões, é fácil encontrar candidatos a comprar carros de luxo, topo de gama, potente, etc. E esses mesmos clientes preferem os carros alemães, porque como carro topo de gama são os melhores, são os mais conceituados. E os construtores alemães não querem perder esse mercado e pressionaram o seu país, a Alemanha, para defender os seus interesses, temendo a retaliação dos chineses, que não era propriamente um cenário pouco viável, era mais uma garantia.
Mas com tantas visões, tantos cenários diferentes, não faria mais sentido aplicar aos fabricantes chineses que querem vender na Europa as mesmas regras que eles exigem aos construtores estrangeiros que pretendem vender no mercado chinês?
Meu caro Miguel, tu é que devias estar a liderar as negociações com os chineses.
Sabes, eu não percebo nada de carros nem de diplomacia, mas vou atirando umas coisas.
Acertaste na mosca. O problema é mesmo esse. Vamos lá ver, só para os nossos ouvintes estarem a par. Qualquer marca, mas qualquer uma, da Mercedes à Volkswagen, à Fiat, à Peugeot, à Renault, por aí fora, mesmo as marcas americanas, quando desejam vender na China, uns milhares de unidades deixam vender, sem grandes ondas. Mas depois quando querem vender em massa, as regras são basicamente estas: tens que montar uma fábrica na China, o que só te é permitido se tiveres um parceiro local a quem tu ofereças, na prática é oferecer metade da fábrica, 50% do capital e 50% do controle da fábrica. E é oferecer porque quando tu constróis uma fábrica, é claro que há as máquinas e a tecnologia e aquelas coisas todas. A própria linha de montagem, os robôs, aquilo tudo. Mas há outra componente que é o terreno, as vias de acesso, a linha de caminho de ferro para levar as peças e o aço para a fábrica e tirar os carros da fábrica em direção a um porto de mar que sirva para exportar. Portanto, na prática, como esses grupos que eles se obrigam a ter como sócios são estatais, o Estado dá-te o terreno, constrói-te o edifício e as vias de acesso. Tu constróis a fábrica e entretanto cedes ao teu parceiro chinês a tua tecnologia, porque dentro da fábrica e controlando 50%, fica a saber tudo aquilo que tu sabes. Essa é a realidade e a tua proposta que acabaste aqui de avançar em direto na Rádio Observador deveria igualmente ser aplicada na Europa. Não em termos tecnológicos, efetivamente os europeus não precisam da tecnologia dos chineses, pelo menos neste capítulo, noutros haverá que precisam, mas no automóvel não. E era obrigá-los a dizer: "Querem vender na Europa? Ótimo, portas abertas, contanto que cumpram as mesmas regras que obrigam os europeus e os americanos quando querem investir na China, que é construem uma fábrica, contratam trabalhadores europeus, nada daquela história de mandar chineses, como fazem pra Angola, por exemplo, para que eles trabalhem lá por tuta e meia, e pagam impostos num país europeu. E a partir daí vendam o que quiserem, pelo amor de Deus, estejam à vontade." Bastava que se aplicassem as mesmas regras na Europa que se aplicam no mercado chinês e amigos somos de antes.
Bem, vamos então à futurologia. Como é que isto vai acabar? E até mais importante do que isso, na verdade, os carros chineses são uma oportunidade para ter carros elétricos mais acessíveis? Como é que isto está?
O que é que vai acontecer é difícil prever, é mesmo quase impossível, porque depende de várias coisas. E nem é bom começarmos a pensar em Taiwan e nas concessões no Mar da China e por aí fora. Mas só em termos de indústria, quando começarem a existir despedimentos nas fábricas europeias, encerramento de linhas de montagem, acaba-se logo a brincadeira, porque efetivamente estás a imaginar um governo que de repente fique agarrado a 10, 20 mil, 40 mil empregados que passam a desempregados e perderam os impostos, porque obviamente os construtores europeus pagam impostos, porque a atividade é lucrativa, logo gera impostos. Será muito difícil ultrapassar essa dificuldade. E depois, o que é que as marcas europeias vão fazer? Para terem também capacidade de produzir carros baratos, vão construí-los na China. Não é novidade nenhuma, hoje já acontece. Por exemplo, vou dar um ou dois exemplos. O BMW iX3, que é aquele SUV elétrico baseado no X3, é feito na China e é exportado da China para toda a Europa. Os novos Minis elétricos são feitos na China. E por que é que são feitos na China? Não é para ficarem melhores, nem mais giros, é para serem mais competitivos, mais baratos. E esses carros vão ser vendidos na Europa. E o que vai acontecer é que quando as marcas tiverem necessidade, para ser competitivas na Europa, de fabricar mais barato, vão fazê-lo na China. E não é muito difícil perceber que os chineses vão obviamente ganhar com isso, mas os países europeus, eu estive aqui a pensar e não encontrei forma nenhuma disso ser favorável. De maneira que eu penso que é uma medida temporária e não vai durar muito tempo, porque as consequências vão ser graves e pouco agradáveis para o velho continente.
Muito bem, vamos ver o que é que o futuro nos dá.
Já agora, Miguel, se me permites. Entretanto, efetivamente, os carros chineses que vêm aí são mais baratos do que os carros europeus.
Nós já falámos isso num outro programa.
Exatamente.
De facto, basta não soltar os preços.
Exatamente. A diferença, porém, se fores ver, não é assim tão grande e muitos deles têm linhas, têm estéticas, que às tantas não se adaptam tão bem ao bom gosto europeu. Mas isso, lá está, bom gosto europeu é uma coisa muito relativa e cada um gosta do que gosta, logo, gosto não se discute.
O bom gosto depende de cada um.
Exatamente.
Está feita esta operação stop, estamos de regresso no próximo domingo. Alfredo, um abraço.
Abraço, Miguel.