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Está no ar a "Operação Stop" da Rádio Observador. Vamos falar do mundo automóvel e para isso já temos conosco o nosso grande especialista, Alfredo Lavrador. Alfredo, como é que estás? Mais um domingo, domingo de Páscoa.

Pois é. O dia ideal para falarmos de automóveis.

Claro que sim. Todos os dias são ideais para falar de automóveis.

Podemos embarrar uns automóveis por aí e fazer aquela coisa dos ovos, mas com quatro rodas.

Vamos falar de automóveis, não é por ser domingo de Páscoa que vamos deixar de fazer. E para esta semana eu tenho que dizer que fiquei surpreendido com a decisão da União Europeia em aceitar os combustíveis sintéticos como uma alternativa aos automóveis elétricos. E minha pergunta é: isto faz sentido como forma de proteger o ambiente? Que decisão é esta? Que explicação é que há aqui?

Em poucas palavras não é fácil. Mas vamos por partes. Os combustíveis sintéticos fazem todo sentido em termos absolutos, mas como substitutos dos combustíveis fósseis, sobretudo para os antigos veículos, todos aqueles que já estão em circulação. Para modelos novos, aqueles de que nós precisamos, nós enquanto sociedade, para reduzir as emissões poluentes nas cidades e as emissões de dióxido de carbono no planeta, não vão dar grande contributo. Os combustíveis sintéticos, como estavas a falar, que também são conhecidos como e-fuel, continuam a emitir CO₂ quando são queimados. O tal dióxido de carbono que os cientistas afirmam ser responsável pelas alterações climáticas. Como se isso não bastasse, a queima desses mesmos e-fuel emite NOx, os óxidos de azoto, que são comprovadamente cancerígenos e dão origem a chuvas ácidas. Como vês, não é propriamente uma coisa por aí além. Agora, são muito mais interessantes do que os combustíveis fósseis, aqueles derivados do petróleo. Por exemplo, era uma boa solução para produzir esses combustíveis sintéticos, para alimentar os motores dos cerca de 250 milhões de veículos que existem a circular na Europa ou de 1,4 mil milhões que existem a circular no mundo. Isso ajudaria bastante.

Então, mas quais são as vantagens dos combustíveis sintéticos quando são comparados com os tradicionais combustíveis fósseis, que são extraídos de petróleo?

Sim, há duas grandes vantagens do e-fuel face aos combustíveis fósseis, sendo que a primeira, e não é a menos importante, é que qualquer país os pode fabricar. Grosso modo, nós lá em casa com laboratóriozinho, cada vez que queremos atestar o carro, podemos juntar uns químicos e produzir gasolina sintética. Isto leva a que todos os países não produtores terminem com esta dependência dos países que tradicionalmente possuem petróleo e logo extraem-no do subsolo e enviam para Portugal, por exemplo. A segunda grande vantagem prende-se com o facto de os e-fuels serem produzidos com carbono capturado da atmosfera. Mas depois, esse combustível sintético ao ser queimado, esse carbono regressa à atmosfera, ou seja, os e-fuel não produzem mais carbono, mas tampouco reduzem. Para terminar, há aquela situação dos NOx que já falámos, uma vez que à semelhança dos combustíveis fósseis, os combustíveis sintéticos também produzem NOx, os óxidos de azoto, que já falámos há pouco e que são nefastos para a saúde.

Estou um pouco confuso.

Há vantagens, os combustíveis sintéticos não produzem hidrocarbonetos, não produzem partículas, que são cancerígenas também. Têm vantagens, mas é como tu teres um vício, teres uma doença grave e ao invés de te receitarem um medicamento para curar essa doença, apenas te davam qualquer coisa para não piorar.

Sim.

Não te resolvia propriamente o problema, porque continuavas a definhar e não te esperava nada de bom.

Mas qual é o interesse? Se os e-fuel não ajudam a reduzir a concentração de dióxido de carbono na atmosfera, ainda por cima emitem novos poluentes cancerígenos, qual é que é o interesse de aprovar os e-fuel? Aqui temos uma decisão da União Europeia.

Lembras quando éramos miúdos e os nossos pais nos diziam "porque sim"? Tinha o condão de nos desarmar, porque não havia volta a dar para uma resposta daquelas. A situação aqui é similar. A Alemanha é o maior contribuidor entre os países europeus e o seu governo decidiu que a passagem obrigatória para veículos elétricos em 2025 poderia prejudicar a sua indústria mais importante e mais forte, que é a indústria automóvel. Quando era necessário ratificar, tudo aquilo foi discutido, tudo aquilo foi aprovado teoricamente, mas depois cada país tinha que ratificar. E nesse momento eles decidiram que não havia ratificação nenhuma e que eles só o aprovariam caso a União Europeia aceitasse os e-fuel como uma alternativa aos veículos elétricos.

Ok.

E o resultado é este que tu tens agora.

Mas então o que este novo combustível vai fazer mudar na indústria automóvel? Deixar todos de investir nos veículos elétricos e apostar, em vez disso, em modelos com motores de combustão, mesmo que seja para estes combustíveis sintéticos?

É provável que mude muito pouco ou nada, exceção feita para determinados construtores. Que nem sequer são alemães. Por exemplo, Ferrari e Lamborghini fazem veículos em que o trunfo é efetivamente o motor, é a componente ruído, aquele roncar que até nos faz salivar. As pessoas gostam. Quem não gosta não saliva coisas de manhê. Os amantes de veículos desportivos adoram os motores. Eu sou um deles, mas não conta para nada, porque há muitos milhões no planeta. É apenas uma opinião. Mas o que te dizia era que há efetivamente construtores para quem o motor de combustão é determinante e os combustíveis sintéticos seriam uma forma de manter esses motores nobres em funcionamento. Porém, a realidade é que os veículos elétricos continuam a evoluir, já são facilmente mais potentes do que esses desportivos com motor de combustão, sejam eles com combustíveis sintéticos ou combustíveis fósseis, pelo que eu não estou a ver muitos clientes interessados em comprar uma Ferrari com motor de combustão, um V8 ou um V12 com 800 cavalos, em vez de comprar uma Ferrari similar, do mesmo construtor, um bocadinho mais pesada, admito, mas com 2000 cavalos. Ou seja, não é uma venda fácil tu explicares a alguém que aquele motor é efetivamente de combustão, mas tem menos de metade dos cavalos. Depois, por outro lado, existe cada vez mais clientes que querem um veículo equipado com motor que não seja poluente, que tenha alguma responsabilidade ambiental, o que também vai desequilibrar um bocado os pratos da balança.

Já estavas aqui a fazer um bocado dessa análise, porque era a minha questão. Qual é que pode ser, poderá vir a ser a posição do público, uma vez que, em última instância, claro, são eles que decidem o que querem comprar.

Exatamente. É que, em última instância, é o público que decide. E tu sabes que, por exemplo, quando apareceram os carros elétricos no mercado, eram caríssimos. Havia pouca oferta, poucas alternativas e ainda assim não faltavam os clientes que faziam questão e esperavam meses que chegasse o seu carro vindo não sei de onde, muitos deles dos Estados Unidos. Isso tem um peso e é o segmento que mais cresce, ao contrário dos outros segmentos em que os veículos são equipados com motores de combustão, que estão a descer continuamente. Atenção que eu estou a falar na Europa, nos principais mercados, na Europa, China e Estados Unidos. Logo, se o cliente não quiser, não há volta a dar-lhe. Por muito que os alemães queiram e tenham forçado a União Europeia a aprovar os combustíveis sintéticos, aquilo pode não chegar a descolar. Deviam, sim, aproveitá-los para o outro parque circulante. Aqueles tais 250 milhões de carros que circulam na Europa. Se consumissem combustíveis sintéticos, o nível de emissões baixaria consideravelmente.

Sim. Pronto, temos conversa feita, mas antes de terminar aqui o programa, temos que falar dos nossos Prêmios Auto, que estão quase a acabar, não é? É isso mesmo, o nosso concurso.

Esta é a última semana.

Pois, é isso. Estamos no fim, vamos ter saudades, mas ainda estamos em curso.

Depois arranjamos outro tema, não tem problema nenhum.

Claro que sim.

Para conversarmos.

Claro que sim. Mas diz-me lá, vamos para a última semana, que tem aqui veículos elétricos puxadinhos, não é?

Puxadinhos é dizeres tu, que és um querido. Estamos a falar de sete modelos elétricos, todos eles acima de 60 mil € e alguns deles bem acima de 60 mil €. De qualquer forma, estão longe de ser os veículos mais caros que participaram neste concurso, uma vez que havia alguns que eram acima dos 300. De qualquer forma, o esquema está bastante bem distribuído, uma vez que neste segmento há quatro representantes alemães, três representantes norte-americanos. Está dividido apenas por dois países. Dos Estados Unidos vem o Ford Mustang Mach-E e dois Tesla, o Model S Plaid e o Model X Plaid, ambos com 1020 cavalos, também são os mais potentes do concurso. De Alemanha vêm dois Mercedes, o EQB e o EQE, o BMW i7 e o Volkswagen ID. Buzz Pro, que é aquele que tu conheces como o Pão de Forma. Só que desta vez elétrico, mas mantém as mesmas características e quase as mesmas linhas. Se olhares para um e para outro, o novo vai-te fazer recordar o antigo.

Muito bem.

Os nossos leitores só têm que consultar o regulamento.

É isso.

E com uma curiosidade que introduzimos este ano, como sabes, que é quem votar nesta categoria, que é a nona, pode aproveitar o balanço e votar nas oito anteriores, uma vez que continuam abertas e à espera do seu voto. Se acertar nos nove vencedores e for o mais rápido, leva para casa aquele veículo, que é o Toyota Yaris, no valor de 16.687 €, o que, convenhamos, não é mau.

É impecável. É uma ótima prenda para a Páscoa, não é?

Exatamente. Esquece lá os ovos.

É, não temos ovos.

E este nem sequer engorda nem nada.

Não temos ovos, mas temos um carro para entregar no final dos nossos Prêmios Auto.

Olha, isso vai dar muito prazer entregar ao vencedor.

Sim, depois podemos avaliar ou não se é para conduzir a pisar ovos ou não, mas isso já será outra conversa.

Não, eu acredito que ele despacha-se bem.

Muito bem.

Que é económico, tem um motor híbrido.

Muito bem, está feita então a nossa operação stop. Marcamos encontro já para a próxima semana. Alfredo, um abraço e boa Páscoa.

Abraço. Igualmente pra ti.