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Se quiser ouvir todos os episódios de seguida, basta ser assinante standard ou premium do Observador. Para assinar, vá a observador.pt/assinar. São 3h56 da madrugada de 25 de abril de 1974. Toca o telefone na casa dos Silva Pais, na Rua de Moçambique. Do outro lado é o Ministro do Exército, o general Andrade e Silva. Tem um recado para dar ao diretor da PIDE. Há forças com blindados a chegar ao Terreiro do Paço. Silva Pais não estava à espera do golpe naquele dia, vai assumir mais tarde. Demora a reagir. Leva mais de uma hora a ligar para o presidente do Conselho, Marcelo Caetano. Informa-o de que o caso é muito grave e que os revoltosos já ocuparam as principais emissoras de rádio e a televisão. Poucos minutos depois, o diretor da PIDE telefona novamente. Aconselha Marcelo Caetano a sair de casa o mais rapidamente possível e a refugiar-se no Largo do Carmo. "A GNR está fixe", diz. Sugere o mesmo ao Presidente da República, Américo Tomás, que decide não o fazer. Silva Pais vai para a sede da PIDE/DGS, na Rua António Maria Cardoso, em Lisboa, onde ao longo das horas seguintes se hão de refugiar largas dezenas de agentes da polícia política do regime. À medida que o tempo vai passando, são cada vez mais as pessoas, cada vez mais enfurecidas, a cercar o edifício. Mas quem está no interior não se rende, ao contrário do que está a acontecer no quartel do Carmo, de onde Marcelo Caetano acaba de ser levado numa Chaimite. Pouco depois do início da noite, pelas 20h15, ouvem-se tiros vindos da sede da PIDE. São disparados por agentes contra a população. Quando recebe ordens para ir para o local, o comandante Luís Costa Correia sabe que já há baixas civis, mas não faz ideia de que morreram quatro pessoas.

Quando lá chegámos, realmente, encontrámos uma maneira assustadora, porque a multidão tinha fugido, naturalmente, da zona, mas estava extremamente ainda desorientada.

Mais tarde, Silva Pais vai dizer à comissão de extinção da PIDE que só deu ordens para haver tiros para o ar caso os ânimos se exaltassem. E só para dispersar manifestantes. A polícia política, justificará, não dispunha de material para afastar multidões. Apesar de o edifício estar cercado, Silva Pais continua a resistir. O diretor da PIDE passa a noite no gabinete onde trabalha. Lá fora, os militares comandados por Costa Correia recebem ordens para aguardar. Não há condições para atacar durante a noite.

Ao fim dessa noite mal passada, digamos assim, enviámos um emissário, um agente que tinha sido capturado durante uma tentativa de fuga. Enviámos um emissário ao gabinete do diretor-geral, que era o major Silva Pais, procurando assegurar que eles não disparariam contra a nossa entrada. Fizemos esse acordo e preparámos para começar a entrar conjuntamente com um conjunto de uma dúzia de jornalistas, que eu achei que na ocasião era importante mostrar ao país o que estávamos a fazer, e tudo de maneira muito clara.

São 9h30 da manhã do dia 26 de abril, quando Fernando Silva Pais finalmente se rende.

Subimos a escada, entrámos lá no gabinete e o major Silva Pais dirigiu-se logo para mim e disse: "Olhe, senhor comandante, a Direção-Geral de Segurança está ao lado das Forças Armadas." Perguntei: "Então, meu major, se é assim, não sei o que é que aqueles três retratos ainda estão ali a fazer pendurados na parede." Eram os retratos do Almeida Américo Tomás, do professor Marcelo Caetano, Salazar, claro. E então ele: "Então, uma cadeira, uma cadeira, vamos já tirar, vamos já tirar." Eu disse: "Ó meu major, por favor, Deus, não vá fazer isso, é o diretor-geral, não vá fazer isso."

No final, não é Silva Pais quem retira os retratos da parede, mas colabora com os militares e faz questão de garantir que está com a revolução. As notícias demoram a chegar a Cuba. a Ani está em Havana sem saber ao certo o que se passa com a família em Portugal. A mãe escreve-lhe no fim de abril, mas sem acesso à mala diplomática e com o país em convulsão, a correspondência não é entregue com tanta rapidez. Pela carta, a Ani fica a saber que a mãe e o pai foram presos. Entretanto, ela foi libertada, mas ele não foi. E não será tão cedo. Para os militares que fazem o 25 de abril, a família Silva Pais é um dos símbolos da ditadura, com uma exceção. Ani é uma revolucionária como eles. Pela primeira vez em 12 anos, a filha do agora ex-diretor da PIDE vai voltar para Portugal para ajudar a fazer a revolução. Vai transformar-se numa espécie de ícone. Há quem diga que ela é uma deusa que todos param para ouvir. Todos, incluindo aqueles que vão decidir o futuro do pai. "Os Escândalos de uma Revolucionária" é uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos podcast plus do Observador. É narrada por mim, Bárbara Branco, com banda sonora original de Franky Chavez. Episódio quatro: uma deusa no 25 de Abril.

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Kia. Movement that inspires. É dia 27 de abril. Há centenas de pessoas em frente à casa da família Silva Pais. Muito barulho, muitas palavras de ordem. Os manifestantes ameaçam deitar fogo à casa e matar o diretor da PIDE. Um amigo telefona a oferecer refúgio numa quinta longe de Lisboa. Fernando Silva Pais recusa. Disse: "Não fujo. Não me pesa a consciência de nada e quero ficar junto dos meus subordinados", lembrará 10 anos mais tarde Armanda Palhota numa entrevista. Dois jipes com seis militares e um alferes chegam à Rua de Moçambique. Armanda Palhota, que escreveu diários a vida inteira, com pormenores e conversas privadas, entra em pânico. Não quer prejudicar o marido. Agarram dezenas de cadernos, cartas e documentos, aqueles que têm tempo de apanhar, e atiram-os para dentro da banheira, recorda Madalena Nita Palhota.

Sim, ela destruiu tudo que era antes do 25 de Abril, com medo de haver alguma coisa que ela dissesse que pudesse, de alguma maneira, prejudicar o meu tio. Ela meteu tudo na banheira e fez daquilo uma sopa de papel. Destruiu tudo.

A empregada avisa: há soldados aos gritos nas escadas e vêm armados com G3. Instantes depois, quando batem à porta, é Armanda Palhota quem abre. O oficial pergunta-lhe pelo marido. Armanda mente-lhe. Garante que ele não está em casa. O militar dá-lhe um minuto para que o diretor da PIDE se apresente. Pouco antes de terminar o prazo, aparece Silva Pais. Traz um frasco de comprimidos para dormir na mão. Entrega-se sem resistência. Na visão de Madalena Nita Palhota, o tio achava que apenas tinha cumprido regras enquanto funcionário do antigo regime e que isso seria tido em conta pelas novas autoridades.

Ele podia ter fugido. Não fugiu, não quis. Ele ficou em casa à espera que o fossem prender, porque ele foi avisado para fugir. Ele não quis fugir. Eu penso que ele achava que pelo fato dele nunca ter enriquecido à conta do regime, que isso seria o atuante. Estava a fazer o trabalho dele, aquilo que lhe tinham mandado fazer.

Os gritos na rua são ensurdecedores. "Morte à PIDE! Assassinos!" Receia-se um linchamento, o que leva o alferes a mandar desimpedir a rua. Fernando Silva Pais, Armanda e o cão Miki entram na Chaimite. Os manifestantes dão murros na viatura blindada. O animal salta, quer sair. Armanda atribuiu uma trombose que o cão teve mais tarde àquele momento. Armanda Palhota e Fernando Silva Pais são levados para o laboratório militar, uma unidade do exército em Lisboa. Têm soldados dia e noite do outro lado da porta. A mulher diz que ouve o gatilho das G3 a serem acionados como se fossem disparar. Não entende como é que o novo presidente da República, António de Spínola, que era amigo de Silva Pais, está a permitir tudo aquilo. Vê o marido a comer, sempre com um soldado à frente. Armanda Palhota está nervosa. Libertam-na passados quatro dias. Acha que se quiseram livrar dela por protestar tanto. Chamavam-lhe General, pelo porte e por ser filha de um general. O marido segue para o quartel da Pontinha. Silva Pais tem 68 anos e problemas de tensão arterial. Acordam-no de madrugada para interrogatórios. Chega a pedir-lhes: "Fuzilem-me. É o melhor que têm a fazer". Mais tarde, Silva Pais vai garantir no depoimento à comissão de extinção da PIDE que Spínola, depois de receber o poder de Marcelo Caetano, lhe deu 24 horas para fugir do país. Recusou. O historiador Duncan Simpson considera que Silva Pais acabou por se tornar a cara do regime e da necessidade de justiça Por ter sido um dos poucos que não deixou o país logo após a Revolução.

Há uma forte propensão a buscar algumas vítimas ou responsáveis individuais pelo que é, afinal, uma tragédia coletiva nacional. Isso é acentuado, no caso português, pelo fato de a maioria das figuras maiores do regime terem tido autorização para exilar-se para fora, o que faz com que ficava quase como possível vilão máximo e responsável máximo do que se passou, quase só podia cair neste Fernando Silva Pais, diretor da PIDE.

Ao contrário da mulher, Silva Pais não vai regressar a casa tão cedo. É transferido pra Trafaria e mais tarde pra prisão de Caxias. Armanda anota no diário. Só consegue falar com a filha ao telefone praticamente um mês depois da Revolução. São duas da madrugada de 19 de maio de 1974, quando a Ani liga. Está devastada com a prisão do pai. Cresceu em Lisboa como filha única. Apesar de não haver luxo, não faltava nada na casa da Rua de Moçambique. Ani vivia com a mãe, o pai e a avó materna, Madalena. Pouca gente entrava em casa. O espaço era reservado majoritariamente à família. E de vez em quando, a amigos mais próximos.

Era ali no antigo bairro das colônias, como se chamava aquilo, e a casa era pequena. Mas eu ficava lá sempre, vinha passar temporadas ou ali ou em São João do Estoril, onde eles tinham uma casa de verão, passava largas temporadas com eles.

A casa de verão permitia a Silva Pais passar férias em família sem estar longe do trabalho, porque quando se tornou diretor da PIDE, passou a ter de estar sempre presente, sempre disponível.

O meu tio normalmente não se conseguia deslocar muito daqui da zona. Quando era em São João do Estoril, não, porque eles ficavam três meses em São João do Estoril e o meu tio era como se estivesse em Lisboa, portanto, deslocava-se todos os dias, mesmo a trabalhar. E aí sim, ficávamos em família.

Apesar de Silva Pais ser uma figura central num regime que Ani criticava, pai e filha sempre tiveram uma ótima relação, mesmo depois de ela se juntar à Revolução Cubana.

Ficou em Cuba, afrontou o pai, de modo que o regime era fechado e, portanto, isso poderia, não sei se não prejudicou de alguma maneira o meu tio. Ani era uma miúda, era uma rapariga que gostava de se divertir. E que tinha ali uma relação complicada com a mãe. Ela adorava o pai, ela e o pai eram unha com carne.

Ani está preocupada com o pai. Envia-lhe cartas, telefona pra prisão e consegue falar com ele. Silva Pais é o preso número 420. É interrogado constantemente, muitas vezes sobre as circunstâncias do assassinato do general Humberto Delgado. O corpo do opositor de Salazar foi encontrado em abril de 1965, em Espanha, a 10 km da fronteira. O regime anunciou que Humberto Delgado tinha sido executado pelos próprios aliados comunistas, e o caso foi dado como encerrado. Com a Revolução, está a ser reaberto. Primeiro, foram os homens da Comissão de Extinção da PIDE a fazer perguntas. Depois, começam a aparecer os agentes da Judiciária. Silva Pais desabafa com Armanda. Diz-lhe que está preocupado com o inspetor António Rosa Casaco, um dos homens presentes no momento da morte de Humberto Delgado. Acusa-o de mentir e teme que arranje falsas testemunhas. Sozinha na Rua de Moçambique, Armanda está cada vez mais desesperada. A reforma que o marido recebia do exército foi cortada depois da Revolução. O dinheiro está a acabar. A situação é tão grave que Silva Pais chega a aconselhá-la a arranjar um emprego.

E nisso a Ani queixa-se muito, porque havia gente que tinha enriquecido à conta do regime, tinha fugido e estava a viver bem, e em compensação a mãe estava a passar mal, porque nem direito à reforma lhe davam. Ela levou muito tempo a conseguir receber a reforma do meu tio. E, portanto, ela viveu das poupanças que eles tinham no banco. Não sei quanto é que era, mas não era assim tanto como isso. Portanto, ela passou mal.

Os amigos desapareceram praticamente todos. Só Adelino da Silva Tinoco, um dos homens mais próximos de Silva Pais na PIDE, continua a visitá-la. Raymond, que entretanto foi colocado na embaixada da Suíça na Bolívia, também lhe escreve. Trata-a por querida dona Nita e manda um forte abraço ao Fernando. Oferece ajuda e sublinha: o sogro sempre foi um homem honesto e correto, por isso não tem dúvidas de que tudo vai melhorar. Armanda responde-lhe: está a sofrer até à loucura. Culpa Marcelo Caetano por ter um governo fraco e acusa Spínola de consentir que o marido tivesse sido preso por medo dos comunistas. Nas cartas, nem um, nem o outro fazem qualquer referência a Ani. A prima Madalena Nita Palhota diz que a situação é de tal forma complicada que a mãe, cunhada de Armanda, vem de Angola para ajudar. Meses depois, Ani também decide regressar. É a primeira vez que voa para Portugal desde que apanhou um avião com Raimundo e se mudou para Cuba. Essa viagem já foi há 12 anos. Agora está finalmente de volta a casa, mas não é para amparar a mãe. 29 de dezembro de 1974, Ani aterra em Lisboa, mesmo no fim do ano. No diário, Armanda anota uma frase que a filha lhe diz: "Quando um regime muda, é da história os outros serem presos". Ani acha que o pai vai apanhar muitos anos de cadeia e não se coíbe de o dizer à mãe. "Isto é o amparo, o moral que eu já esperava", escreve Armanda. No dia seguinte, Ani vai logo ver o pai, com a mãe. Apesar de Silva Pais só ter direito a uma visita de cada vez, Armanda pede esse favor especial, já que a filha acaba de chegar de Cuba. Numa carta que envia à mulher, Silva Pais recorda esse momento. Gostou de ver a filha e quer saber o que a Ani achou dele. Diz a Armanda que só não está muito mal por causa dela e agradece-lhe por isso. Reconhece o sacrifício e a devoção da mulher. Depois regressa à filha, agora bem mais relacionada com os novos poderes do que ele, e vitimiza-se. "Ela que diga agora a esses senhores que conhece se eu era esse indivíduo mau, essa fera que ignobilmente me têm chamado." Ani passa pouco tempo em casa com a mãe. Aproveita todos os minutos para viver a revolução que está nas ruas. Armanda não suporta a festa, nem que a filha idolatre os homens que puseram o marido na cadeia. "É uma doida degenerada", aponta no diário. Num desses dias, Ani entra em casa com o jornal nas mãos. Armanda rasga-o todo. Escreve no diário que é o jornal dos assassinos do República e que a filha não tem sentimentos. Sente que está melhor sozinha, que a Ani lhe dá cabo dos nervos, principalmente quando ouve as conversas que ela tem ao telefone, quando ela se ri, quando está contente, até quando brinca com o cão. Escreve que cada gesto dela é uma facada. Para Armanda, Ani está a agir como se não tivesse pena da mãe, como se o pai não estivesse na prisão. Na verdade, Ani está muito preocupada com o pai. Aliás, começa a ficar frustrada. Viajou para Lisboa para estar perto dele, mas quase não o consegue ver. Na prisão de Caxias, as visitas são controladas. No início de fevereiro de 1975, volta a Cuba, mas não consegue esquecer que o pai continua preso. José Paulo Fafe conhece a Ani justamente nesta época.

Ela sentia uma grande necessidade de não digo reabilitar o pai, porque ela não tinha essa intenção, mas de criar ao pai condições dignas, não para estar preso, obviamente, mas para sair. Ela queria muito que o pai fosse liberto. E isso é um tema recorrente nas conversas dela. Não escondia? Não, não escondia e dizia quem era a filha. A gente sabia que era a filha de Silva Pais, que era sempre uma coisa curiosa, esta mulher que vive em Cuba.

Ani quer fazer mais pelo pai, só não sabe como. A solução vem de uma dupla improvável. A filha do diretor da PIDE vai contar com a ajuda de um revolucionário português e de Fidel Castro. O primeiro aniversário do 25 de abril não é celebrado apenas em Portugal. Em Cuba também há festa e uma comitiva portuguesa viaja até o país a convite das autoridades.

Fomos recebidos com uma extraordinária simpatia.

O grupo é chefiado por Varela Gomes, o coronel próximo do PCP que lidera a quinta divisão, o órgão das Forças Armadas, que é considerado o motor da propaganda revolucionária. Varela Gomes aproveita para aprender com o exemplo cubano. Quer conhecer os métodos de formação ideológica das Forças Armadas e de organização das populações para tarefas de defesa revolucionária. Fidel Castro, Raul Castro e outras personalidades do regime cubano fazem questão de estar várias vezes com a comitiva portuguesa. São feitos acordos de cooperação e combina-se uma próxima visita, desta vez com Otelo Saraiva de Carvalho. Varela Gomes é apresentado a Ani e ainda em Havana faz-lhe uma proposta que vai mudar a vida dela nos próximos meses: ir para Portugal colaborar com a quinta divisão. Odete Santos Silva, amiga de Ani, recorda que o convite foi feito com o aval de Fidel Castro e acrescenta Esta não foi a primeira vez que o líder cubano se disponibilizou para ajudar a família Silva Pais. Assim que as notícias da revolução portuguesa chegaram a Havana, o próprio Fidel mandou dizer à Ani que os pais dela estavam convidados para se refugiarem na ilha. Mas nessa altura, o ex-diretor da PIDE já estava preso.

O coronel Varela Gomes e o Ramiro Correia, portanto, o chefe da Quinta Divisão, trazem a Ani para Portugal. Aliás, é ela que quer vir e o Fidel que a convida a vir tomar conta dos pais.

Rui Ferreira confirma que a Ani teve a liberdade de entrar e sair de Cuba as vezes que precisou, sempre com o apoio do regime.

Os cubanos nunca lhe puseram nenhum entrave. Ela entrava, saía do país quando queria.

Em Portugal, além de tentar ajudar o pai, Ani tem a oportunidade de viver uma segunda revolução. Manuel Begonha, que coordenou a Comissão Dinamizadora Central, um organismo integrado na Quinta Divisão, explica o que foi feito no pós 25 de Abril.

Sabíamos que o país, de um modo geral, estava relativamente mal informado sobre o que foi a revolução, que ocorreu em Lisboa. E, portanto, as pessoas não faziam ideia do que era o MFA, do que era o programa do MFA e que militares são estes. Então pensámos: o pessoal tem que ir pro terreno. Ou seja, temos que encontrar as zonas do país mais vulneráveis, mais pobres e em condições mais difíceis pra desenvolver as campanhas.

Ani é educada, culta e sabe falar várias línguas. Está há anos a trabalhar na equipe de serviços de tradutores e intérpretes do regime cubano e tem a confiança das mais altas entidades de Havana, o que faz com que seja escolhida pra fazer os trabalhos mais importantes, conta Rui Ferreira.

Ela chegou a ter passaporte diplomático cubano. Sim, porque como ela era tradutora oficial, ela ia nas delegações. A gente vê ela como tradutora portuguesa, mas o trabalho mais importante dela era tradutora de francês. Aquilo é uma empresa que tem uma série de tradutores e depois o governo requisita, mas ela era muito requisitada em francês. Ela chegou a ir até à Coreia do Norte com um grupo de tradutores cubanos pra uma conferência internacional a pedido dos coreanos do norte, porque os coreanos do norte não tinham tantos tradutores. Ela esteve em quase toda a Europa Oriental, em África, em Angola, em Moçambique. Ela falou uma vez que tinha ido ao Brasil, já depois da democracia no Brasil.

Tudo isto faz com que a Ani seja uma mais-valia pra os revolucionários portugueses.

A Ani tinha grandes capacidades como secretária, tradutora, e sabia tudo que era assessorar. Uma secretária clássica. E sabia línguas e, portanto, foi útil ao Varela Gomes e ele colocou-a a trabalhar com ele.

Ani habitua-se rapidamente à vida em Lisboa. Trabalha, passeia, lê os jornais, faz amigos. Todos conheciam a história da filha do ex-diretor da PIDE, mesmo antes dela regressar. Por isso, dá nas vistas quando se junta à Quinta Divisão.

Toda a gente começou a saber que ela era filha do Silva Pais, era a célebre Ani Silva Pais, porque já se sabia aqui em Portugal, já era conhecida aquela história. Por ela ser quem era, aquela mulher, e também por ser filha do Silva Pais, claro, havia uma certa curiosidade. A Ani era uma deusa. Quando a Ani aparecia, toda gente parava. Ela tinha um sorriso cativante, toda a gente parava pra meter com ela e falar com ela. Aquilo eram vários gabinetes, onde estavam militares. Eu tava sozinha com uma jovem, que era do exército, a Olga, mas primeiro fiquei muitos meses sozinha. E em cada gabinete estavam militares. Tudo aparecia junto dela. Ela ia direto ao meu gabinete, que ficava em frente à porta. Aquilo ficava cheio pra ouvi-la. Ouvi-la dizer as coisas mais banais, mas ficavam.

Ainda assim, Manuel Begonha garante que a filha de Silva Pais nunca foi usada como trunfo por parte dos novos homens no poder. Este já era um dos maiores receios quando se juntou à revolução cubana, e volta a ser tema em Portugal no pós 25 de abril.

Ela teve uma passagem muito discreta. Tanto quanto eu saiba, nada disso, por exemplo, entre aspas, foi explorado por nós ou por ela. Ninguém utilizou isso, até porque o Varela Gomes talvez não tivesse interessado em que se dissesse que ele tinha uma pessoa como ela a trabalhar. Podia ser uma acusação pouco lisonjeira pra quinta divisão se fosse explorada no mau sentido. Podiam pensar que ela veio de Cuba especialmente para nos doutrinar, como diziam, que nós aprendemos as campanhas com as que eles fizeram em Cuba.

Odete Santos Silva não trabalha na quinta divisão, mas noutro departamento, no mesmo edifício Ela e a Ani tornam-se amigas muito rapidamente. Têm três coisas em comum. Primeira: ambas querem ser mulheres livres e independentes.

Estava a viver uma coisa que nunca tinha feito. Ser eu própria, não estar a decidir para parecer bem à mãe ou ao pai ou ao marido. Decidir por conta própria. E eles afastaram-se, deixaram de me falar.

Segunda: ambas têm uma má relação com as mães.

A minha mãe, por incrível que pareça, não queria que eu me risse, não queria que eu falasse com as mãos, incomodava-a. Incomodava-a eu falar alto. Eu acho que em conversa com ela disse isso. E depois falámos o que é que incomodava na mãe, incomodava a beleza dela, o riso.

Terceira: têm ambas vidas amorosas complicadas. Odette é casada e tem um filho, mas está a viver um romance secreto e proibido com um capitão de Abril. A Ani identifica-se com ela e dá-lhe conselhos.

Eu acho que ela se apaixonou mais pela nossa história e eu aproveitei pouco a história dela. Eu era uma mulher com dúvidas. "O que é que eu estou a fazer? O que é que eu estou a fazer?" E ela dizia: "Eu conheço isso. Isso vai passar." Ela conhecia tudo. Os meus sentimentos, ela conhecia. "Já passei por isso. Eu conheço isso, isso vai passar".

Odette vai acabar por se divorciar e o capitão de Abril também. Anos mais tarde, casam-se. 50 anos depois, continuam juntos. Nesta segunda temporada em Portugal, a Ani já não fica a viver com a mãe. Vai lá apenas aos fins de semana. Está em casa de amigos ou na casa que a família tem em São João do Estoril. A mãe não se importa. Escreve no diário que até é melhor assim. Armanda continua a culpar Ani por estar ao lado das pessoas que prenderam o pai e recusa aceitar a ajuda da filha.

Ela ganhava um salário que tentava, por outras portas, que chegasse à mãe. Isso eu sei de certeza. Atribuíram-lhe um salário como tradutora na Quinta Divisão e ela fazia chegar isso à mãe, que a mãe não aceitava nada dela.

Sempre que pode, Ani visita o pai na cadeia. Odette Santos Silva recorda-se do dia em que a amiga voltou para o trabalho, a festejar o simples facto de ter podido abraçá-lo.

Lembro-me de uma vez: "Hoje deixaram-me abraçar o meu homem. Hoje deixaram-me abraçar ele". Várias vezes deixaram que ela o abraçasse.

Na tentativa de ajudar a família, Ani escreve à Comissão de Extinção da PIDE. Explica que a mãe tem uma conta bancária mínima no Banco Ultramarino, que na melhor das hipóteses, se esgotará no final do ano. E questiona o facto de não lhe estar a ser paga uma pensão a que o marido deveria ter direito. Ani envia várias cartas, umas datilografadas, outras escritas à mão. Numa delas, junta ao pedido de ajuda, um memorando em que recapitula a carreira profissional do pai, desde que em setembro de 1939 entrou na PSP de Santa Marta, em Lisboa. Tudo para reclamar o pagamento da referida pensão. Não recebe qualquer tipo de pensão, tendo direito à pensão de reserva, creio, desde que o marido, major Silva Pais, passou à reserva como major para entrar na Intendência-Geral dos Abastecimentos. Meses mais tarde, Ani volta a insistir. Nada mudou. O pai continua preso e as poupanças da mãe estão mesmo a chegar ao fim. Escreve diretamente ao capitão Sousa e Castro, membro do Conselho da Revolução, que ficou a liderar a Comissão de Extinção da PIDE. As cartas estão atualmente na Efémora, biblioteca e arquivo de José Pacheco Pereira. "Ontem falei ao telefone daqui da minha casa com a minha mãe e fiquei muito preocupada, pois ainda não lhe disseram nada sobre a pensão e ficará sem recursos aos fins de novembro. É uma situação horrível e queria pedir ao senhor capitão, que sempre foi tão amável comigo, que intercedesse por este assunto". Ani está desesperada. Se por um lado apela aos sentimentos do capitão de Abril, por outro não se coíbe de dizer aquilo que verdadeiramente pensa. Não percebe por que motivo o pai continua na cadeia, quando há notícias de tantos outros agentes da PIDE e homens ligados ao regime a serem libertados. "A minha mãe contou-me que tinham soltado muita gente. Então até parece que o meu pai, único ou quase o único fascista que não se enriqueceu porque acreditava no regime anterior, é que vai pagar por todos os outros?" Ani escreve que está muito surpreendida com a libertação provisória de alguns elementos da PIDE que tinham mais de 30 anos de serviço, enquanto o pai esteve apenas 12 anos na polícia política. Acha que a situação é especialmente revoltante, não só por isso, mas porque tanto quanto a Ani sabe, nenhum desses homens agora postos em liberdade, está doente, ao contrário do pai, que acaba de ser diagnosticado com um cancro. Aos 70 anos, Silva Pais está visivelmente mais magro e fraco. Está cada vez mais doente. Na cadeia, o ex-diretor da PIDE é visto por três especialistas entre janeiro e março de 1976. Primeiro pelo urologista do Forte Militar de Peniche, depois pelo cardiologista de Caxias e por um outro urologista da prisão hospital de São João de Deus. Todos reconhecem problemas de saúde a Silva Pais. Os relatórios médicos enviados pra Comissão de Extinção da PIDE apontam dois diagnósticos: cancro na próstata com indicação de operação e hipertensão arterial grave e impossível de controlar totalmente. A meio de abril, José Alves Cardoso, diretor clínico do Forte de Caxias, assina o relatório final. Determina que a doença cardiovascular é de mau prognóstico, agravada pela prisão e pela doença na próstata. A cirurgia tem sérios riscos e por isso só poderá ser realizada num hospital com assistência em cardiologia. E conclui ser de admitir a curto prazo uma situação aguda, porventura irreversível. Numa carta dirigida ao presidente da Comissão de Extinção da PIDE, o advogado de Silva Pais, Manuel Anselmo, junta o relatório médico para pedir a liberdade provisória do ex-diretor da Polícia Política. E usa a opinião de um dos gloriosos capitães do 25 de Abril pra tentar tirar Silva Pais da prisão. Trata-se de Sanches Osório, que esteve exilado após o 11 de março e se cruzou com Silva Pais na prisão, em outubro de 1975.

Eu era major de engenharia e o Silva Pais também. Portanto, estávamos bem os dois na mesma cela. Mas o Silva Pais já estava bastante doente, não falava, praticamente.

Ao todo, partilharam cela durante uma semana, o tempo que Sanches Osório passou em Caxias.

Era deste tamanho. Duas camas e um retângulo pra os dois. Era uma coisa decente pra político. Não é como agora, a penitenciária, que é uma coisa horrível.

Na carta enviada à Comissão de Extinção da PIDE, o advogado do ex-diretor da Polícia Política escreve que Sanches Osório ficou chocado com o estado de saúde do companheiro de cela. E cita o capitão de Abril, que terá chegado a dizer sobre a situação de Silva Pais, que não era ali que devia estar, mas sim num hospital. Mas esta tentativa também não vai ser bem-sucedida. Nem os contatos de Ani, nem os relatórios médicos, nem sequer a opinião de Sanches Osório. Nada disto vai fazer com que Silva Pais seja autorizado a sair em liberdade provisória. Pelo menos pra já.

Lar, amigo, o povo tá contigo!

Vive-se o chamado Verão Quente. Há sedes partidárias assaltadas, invadidas e destruídas, e jornais impedidos de serem vendidos. Estamos em pleno processo revolucionário. De um lado, o PCP tenta tomar o poder nas Forças Armadas, nas autarquias e no governo. Do outro, um grupo de militares alia-se a Mário Soares pra travar os comunistas. E consegue. Ani está preocupada com as mudanças políticas. A quinta divisão é extinta e fica sem trabalho. A 25 de novembro, a esquerda revolucionária é definitivamente derrotada. É nessa altura que a Ani pede à mãe que a avise de imediato se o pai for libertado. Se isso acontecer, é porque a direita voltou a tomar conta do país, e ela passa a estar em perigo em Portugal. No dia em que faz 40 anos, a 1 de dezembro de 1975, conta à mãe que foi aconselhada por amigos a regressar a Cuba. Armanda escreve no diário: "há medo na coisa". Mas Ani ainda não está pronta pra voltar. Fica mais uns meses. O receio faz com que passe mais tempo em casa da mãe, mas não a leva a comprar um bilhete de volta. Até que no dia 22 de abril de 1976, rebenta uma bomba na embaixada de Cuba, em Lisboa. Morrem duas pessoas. Ani já não tem condições pra ficar. Diz à mãe que estão pra acontecer coisas graves e que tem de sair do país. "Trata-se da minha vida." No dia 15 de junho, mãe e filha vão à prisão visitar Silva Pais. No dia seguinte, Ani regressa a Cuba. "Não sei se eu e ele a tornaremos a ver", escreve Armanda no diário. Na verdade, ambos vão voltar a estar com a filha, mas os anos seguintes não vão ser fáceis pra Ani. Vai continuar a tentar ajudar o pai, agora à distância. E vai apaixonar-se outra vez. José Manuel Abrantes Fernández é um dos homens do núcleo duro de Fidel Castro. Foi guarda-costas do líder da Revolução Cubana e membro da polícia política do regime. Agora é ministro e vai ser implicado num caso que envolve droga, fuzilamento, prisão E o narcotraficante mais conhecido do mundo: Pablo Escobar. Mas essa é uma história pro próximo episódio. No entanto, se for assinante standard ou premium d'O Observador, pode ouvir já todos os seis episódios. Se ainda não for, basta assinar em observador.pt/assinar. No próximo episódio.

Entre o Fidel e nós, só havia os guarda-costas. O Fidel, quando chegou ao lugar, vê ela e cumprimenta com a cabeça.

O meu pai disse: "Tens que fazer um favor, tu aguentas-te bem no inglês". O meu pai não falava inglês, falava mal, falava bem francês, era daquela geração. "E eu preciso de um tradutor e eu não aceito o tradutor que os cubanos querem pôr, que é a Ani". Porque ela defendia aquilo de uma forma exacerbada, às vezes até ridícula.

Ela não tinha limites na defesa da revolução cubana, era mais fidelista que o Fidel.

"Os Escândalos de uma Revolucionária" é uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus d'O Observador. É narrada por mim, Bárbara Branco, com banda sonora original de Franky Chavez. O guião e as entrevistas são de Inês André Figueiredo. A sonoplastia e o desenho de som são de Pedro Oliveira. O design gráfico é de Miguel Fraso Cabral. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Prainha. A coordenação é de Miguel Pinheiro e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos sons retirados do YouTube. Se tem alguma informação pra partilhar sobre este podcast, ou se conhece alguma história que acha que deve ser investigada, pode escrever para podcastplus@observador.pt.