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Se quiser ouvir todos os episódios de seguida, basta ser assinante standard ou premium do Observador. Para assinar, vá a observador.pt/assinar. Depois de mais de um ano a viver em Lisboa, a Ani está de volta a Cuba. Com o fim do processo revolucionário, sente que já não é bem-vinda em Portugal. Vai continuar a tentar libertar o pai a partir de Havana. Retoma a vida praticamente onde a deixou. Regressa ao apartamento no Nuevo Vedado, recupera o trabalho como tradutora para o regime e revê os amigos. Mas também há uma novidade: vai voltar a apaixonar-se. José Manuel Abrantes Fernández é ministro do Interior, a pasta do governo de Fidel Castro que controla a segurança do Estado, a polícia, os sistemas de informação, a imigração, as fronteiras e as cadeias. O militar cubano é um dos homens de confiança de Fidel. Começou como chefe dos guarda-costas do líder cubano, fez parte da polícia política e nos últimos anos chegou ao governo. Não é de agora que conhece a Ani. José Manuel, ou Zé Manel, como é muitas vezes referido nas cartas entre ela e a mãe, já era um dos amigos da portuguesa quando ela chegou à Havana há mais de 10 anos. Fazia parte do grupo restrito de cubanos que a Ani convidava para a embaixada da Suíça, quando ainda lá vivia e era casada com Raymond Candau. Tal como René Vallejo, também Zé Manel é casado. Aliás, ao longo da vida, casa quatro vezes, nunca com a Ani. A relação que mantêm é mais casual e também não é exclusiva da parte dela. Ani e Zé Manel nunca chegam a morar juntos ou sequer a namorar oficialmente, mas ao longo de mais de uma década, vão ser um casal. No dia 14 de fevereiro de 1989, Dia dos Namorados, José Manel envia-lhe um ramo de gladiolus vermelhos para casa e a mãe de Ani, que está em Cuba de visita nessa altura, testemunha e anota o gesto no diário. Também nesse ano, em junho, faz ainda mais por Ani. Numa homenagem, atribui-lhe uma medalha por mérito profissional. Há de ser um dos últimos atos oficiais de José Manuel Abrantes Fernández, antes de ser demitido inesperadamente por Fidel. No dia 12 de junho de 1989, é preso em Havana o general Arnaldo Ochoa, veterano da Revolução e um dos poucos a serem distinguidos com o título de herói da República de Cuba, a mais alta condecoração militar do país. É só o início daquele que virá a revelar-se um dos maiores escândalos da liderança de Fidel Castro, que envolve um esquema com o maior narcotraficante do mundo, Pablo Escobar. Ochoa é suspeito de facilitar a entrada na ilha de várias toneladas de cocaína traficada a partir da Colômbia, com destino aos Estados Unidos. Vai ser acusado de alta traição, mas não vai cair sozinho. E José Manuel Abrantes Fernández, o namorado de Ani, é uma das pessoas que vai ser arrastada com ele. "Os Escândalos de uma Revolucionária" é uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos podcast plus do Observador. É narrada por mim, Bárbara Branco, com banda sonora original de Frankie Chavez. Episódio cinco: um negócio com Pablo Escobar.
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Kia. Movement that inspires. Mais de um ano antes, maio de 1988. O capitão cubano Jorge Martínez Valdés está numa viagem secreta à Colômbia. Não é uma figura central no regime de Fidel Castro, mas é a peça-chave de um esquema montado por um herói de guerra. O general Arnaldo Ochoa, veterano da Revolução Cubana E o coronel António de la Guardia, responsável pelo programa para contornar o embargo económico norte-americano, são os cérebros da operação. La Guardia faz parte de uma unidade secreta do Ministério do Interior de Cuba, que através de uma rede de contrabandistas norte-americanos, faz chegar à ilha artigos proibidos ao abrigo do embargo comercial dos Estados Unidos. São peças de computadores, equipamento médico e outros bens de alta tecnologia. Foi por causa desta experiência que Ochoa o recrutou para um novo negócio, que também vai incluir os Estados Unidos e contrabando ilegal, mas de droga, traficada a partir de Medellín para a Flórida, através de Cuba. Em nome de Ochoa, o capitão Jorge Martínez-Valdez tem encontro marcado com o maior traficante de droga do mundo. Líder do cartel de Medellín, Pablo Emilio Escobar Gaviria tem 39 anos e é conhecido como o rei da cocaína. É o 14° homem mais rico do mundo e uma espécie de inimigo público número um dos Estados Unidos. E desde o início do ano, está em guerra aberta contra o cartel de Cali. Foi a primeira vez que alguém desafiou a autoridade de Pablo Escobar, da pior forma possível. Os homens de Cali quebraram a regra mais sagrada da convivência entre narcotraficantes: não atacar as respectivas famílias. Na madrugada de 13 de janeiro, o cartel de Cali fez detonar um carro-bomba carregado de dinamite em frente à luxuosa torre de oito andares em Medellín, onde Escobar morava com a mulher, a mãe e os filhos. O impacto foi tão violento que provocou danos materiais ao longo de quatro quarteirões e a explosão abriu uma cratera de mais de dois metros de profundidade por seis metros de diâmetro. Três pessoas morreram e outras 10 ficaram feridas. Manuela, a filha de Pablo Escobar, tinha apenas três anos, estava a dormir no berço. Nunca mais recuperaria a audição do ouvido esquerdo. Desde então, os ataques entre os cartéis de Medellín e de Cali não têm parado. É nesta altura que o poderoso Pablo Escobar se reúne com Jorge Martínez-Valdez. O colombiano oferece $1200 por cada quilo de cocaína que chega aos Estados Unidos com a ajuda dos cubanos. A ideia é permitir que a droga seja deixada em território ou águas cubanas, pra depois ser transferida em lanchas rápidas pra Flórida. A droga vinda da Colômbia sai da costa norte de Cuba, das praias de Varadero, e segue até a costa leste dos Estados Unidos. Ao longo de pouco mais de um ano, o esquema engendrado por Arnaldo Ochoa e António de la Guardia leva a cabo 15 operações bem-sucedidas. A eficácia é tanta que a DEA, o organismo norte-americano de combate à droga, assinala um aumento do transbordo de cocaína vinda de Cuba e identifica Varadero como ponto de partida. Mas o que parecia ser um negócio em expansão, com ganhos de parte a parte, desmoronou-se no dia 12 de junho de 1989. Arnaldo Ochoa foi preso às 20h30 no Ministério das Forças Armadas Revolucionárias de Cuba. O mesmo aconteceu com António de la Guardia. No jornal oficial do regime, o Granma, saem notícias detalhadas sobre o caso. Os protagonistas são expostos. Escreve-se que o riquíssimo cartel colombiano, que minou sistemas judiciais e políticos em grande parte da América Latina, também conseguiu penetrar nas Forças Armadas cubanas e chegar até aos escalões superiores. Publicam-se números. Terão sido traficadas seis toneladas de cocaína e o esquema terá rendido $3,4 milhões aos responsáveis. As proporções do escândalo em Cuba são enormes, mas não se ficam por aqui. Há mais acusados e um deles é o último grande amor de Ani. Janeiro de 1979. Ani está na Avenida 23, em frente ao Hotel Havana Libre. Veio com colegas de trabalho. O amigo português Rui Ferreira também está presente, mas é praticamente ignorado. A prioridade de Ani é ouvir o líder cubano, que discursa em mais um comício. Já perdeu a conta às vezes que ouviu Fidel discursar. Passaram anos desde que se juntou à revolução, mas isso não é relevante. Ani assiste sempre com o mesmo entusiasmo. Ouve as palavras de Fidel com o deslumbramento da primeira vez. Está atento, como se não houvesse mais nada à volta
A gente estava na primeira fila. Quando eu digo na primeira fila, é que entre o Fidel e nós só havia os guarda-costas. Como se estivesse a ver a Virgem de Fátima em Fátima, as mãos na boca, não tirava os olhos de cima dele, aplaudia, não olhava para mim, e eu estava lá. Aquilo era uma admiração. E é verdade, o Fidel quando chegou ao lugar, passa os olhos pelas primeiras filas, vê a ela e cumprimenta com a cabeça.
Ani assiste ao discurso do líder comunista como se estivesse na missa. Olha para o líder cubano como se fosse Deus. E aquele cumprimento de Fidel é só mais uma prova de que a escolha que a Ani Silva Pais fez ao deixar a vida que tinha e adotar outros ideais, é reconhecida pelo regime. No final do comício, Rui acompanha a amiga até a paragem do autocarro. Antes de se despedirem, Ani pede-lhe que nunca se esqueça daquele dia. Foi nesse momento que o jornalista percebeu que para ela não havia nada acima da revolução. O grande problema de Ani, explica José Paulo Fafe, é que muitas vezes defendia mais os ideais da revolução do que os próprios cubanos.
Até a forma como ela via a revolução cubana, era de ser naïf à infinita potência. Ela defendia aquilo de uma forma exacerbada, às vezes até ridícula. Eu lembro que na altura até me picava com ela e picava muito, porque achava que aquilo era: "Só Ani, já chega". Ela não tinha limites na defesa da revolução cubana, era mais fidelista que o Fidel.
O empresário viveu em Havana depois do 25 de abril, quando o pai, José Fernandes Fafe, foi escolhido para ser o embaixador em Cuba. Na altura era adolescente. Cresceu com a Ani e recorda-se de ela almoçar ou jantar com a família quase todos os fins de semana. Ani é visita habitual da embaixada e tratada como mais um dos Fafe. Mas quando acha que pode estar a viver acima das possibilidades de um cubano, tenta impor limites. É justamente o que acontece quando Maria Virgínia, a mulher do embaixador, decide oferecer-lhe um ferro de engomar.
Eu lembro-me imenso da minha mãe ir à loja diplomática, havia dois supermercados, um mais de artigos de eletrodomésticos, xampus e outros mais de comida. Eu lembro-me perfeitamente disto, uma vez viu um ferro de engomar e disse: "Vou comprar isto para a Ani, que a Ani está sem ferro há dois anos". E o trabalhão que foi para a Ani aceitar o ferro, porque a Ani achava que não devia aceitar o ferro, que as pessoas do prédio onde ela vivia não tinham ferro de engomar. Ela era assim, aquilo era mesmo assim.
Depois de muita insistência, Ani leva mesmo o presente da amiga para casa, mas em vez de se limitar a passar as próprias roupas a ferro, resolve fundar uma espécie de cooperativa no prédio de apartamentos onde mora.
Daí a um mês, um mês e meio, a minha mãe dizia: "Já não tenho paciência para esta Ani". "Então por quê, mãe?" "Então não é que ela agora pôs o ferro à disposição do prédio?"
Para os padrões de Cuba, Ani tem um bom salário. Era merecido, diz José Paulo Fafe, que se recorda bem da forma como a portuguesa se destacava na equipa de serviços de tradutores e intérpretes.
Ela falava cinco ou seis línguas. Ela falava muito bem francês, falava muito bem inglês, falava italiano, falava alemão, falava espanhol, e português. Ela falava cinco ou seis línguas. Havia muito poucas tradutoras boas em Cuba, havia ela e a Ruleta Calçadilha, eram as duas.
É precisamente por se distinguir profissionalmente que Ani viaja tanto. À casa dos pais em Portugal vão chegando postais de todo o mundo. Manágua, Madrid, Nicósia, Limassol, Moscovo, Martinica, Harare. A ligação de Ani ao regime é tão grande que leva os próprios amigos portugueses a terem algumas cautelas. Abril de 1975. Kenneth Kaunda, presidente da Zâmbia, está de visita a Havana. Os dois países partilham interesses no apoio aos movimentos de libertação em África, nomeadamente em Angola. A guerra no território começou em 1961. O 25 de abril abriu caminho ao fim do conflito, mas Angola ainda não conseguiu a independência. Por isso, o presidente da Zâmbia quer encontrar-se com o embaixador português em Havana. Como é habitual, Ani é chamada pelos cubanos para fazer a tradução. É a escolha natural, ainda para mais havendo um português envolvido. Mas o embaixador José Fernandes Fafe recusa. É preciso arranjar outra solução, alguém em quem possa confiar a 100%. E opta pelo próprio filho adolescente.
O motorista foi-me buscar, eu pedi autorização para sair da escola. "O seu pai quer falar consigo." Foi o meu pai e disse: "Tens que fazer um favor, tu aguentas-te bem no inglês." "Arredava-me!" "O Kaunda chamou-me, o meu pai não falava inglês, falava mal, falava em francês, é daquela geração, e eu preciso de um tradutor e eu não aceito o tradutor que os cubanos querem pôr, que é a Ani." O meu pai sabia distinguir as coisas, amigo, amigo, mas calma, estamos na altura de Angola. E eu fui com 14 anos, miúdo, ainda fardado lá se calhar do colégio, já não me lembro, fui ao Country Club, às residências de protocolo cubanas, servir de intérprete do meu pai e o Kaunda, porque o meu pai não confiava nos intérpretes cubanos, no caso, na Ani.
Compreende-se que não confiasse. Ani era totalmente fiel à revolução. Nunca teve dúvidas. Até que no verão de 1989, percebe que algo estranho se está a passar no interior do regime.
Se inicia la sesión del juicio oral de la causa número dos de 1989 del Tribunal Militar Especial.
José Manuel Abrantes Fernandes é afastado do Ministério do Interior a 29 de junho de 1989, 17 dias depois de Ochoa e de Laguardia serem detidos por suspeitas de tráfico de droga com Pablo Escobar. José Manuel era o terceiro mais importante da hierarquia do governo, a seguir a Fidel Castro e ao irmão Raul Castro, ministro da Defesa.
De abuso en el cargo, negligencia en el servicio.
A edição do Granma do dia seguinte noticia que o ministro foi detido por negligência e corrupção.
Uso indebido de recursos financieros y materiales.
Não está a ser acusado de tráfico de droga ou de ter participado no negócio liderado por Ochoa. É acusado de negligência, fraqueza e compadrio, corrupção ou tolerância de práticas corruptas e ocultação e manipulação de informação relativa ao Estado. Um editorial assinado por Fidel Castro no jornal do regime justifica a prisão de José Manuel, crente de que o ministro tem de pagar por uma corrupção que não foi capaz de travar. António de la Guardia trabalhava no Ministério do Interior e o regime cubano considerou necessário condenar também os superiores dele, ainda que não tivessem estado diretamente envolvidos no negócio com Pablo Escobar. Ani está na Holanda, em mais uma viagem de trabalho, quando José Manuel é detido. Alguns dias depois, já em Madrid, onde está a aguardar voo de regresso a Havana, escreve à mãe. O postal tem data de 5 de julho. Nele, Ani assume-se um pouco triste com o que aconteceu, mas determinada a ajudar o namorado assim que voltar a casa. "Tenho de ter forças suficientes para, se possível, ajudar as minhas amizades. Sei bem o que sucedeu, o que desgraçadamente sucedeu e por quê. Mas vais ter grandes surpresas com a Helena Antónia." Helena Antónia é o nome de código que Ani usa na correspondência com a mãe para se referir a Fidel Castro. Antes de se despedir, tenta garantir-lhe que está bem, apesar de todas as circunstâncias. "Eu cavo andando como posso. Nem chorei, cabeça erguida e dignidade", escreve Ani, para depois rematar com uma nota sobre as colegas da equipa de serviços de tradutores e intérpretes. "As do meu escritório estão felicíssimas, têm ódio mortal ao Zé." Em Lisboa, quando lê as notícias e recebe os postais de Ani, Armanda nem quer acreditar que há mais uma prisão injusta a ensombrar a família. Está preocupada. Escreve no diário que é tudo contra a filha. E intui imediatamente que os privilégios que Ani teve até então, e de que ela própria beneficiou sempre que visitou a filha em Cuba, vão acabar. "As regalias que tinha, as amabilidades para mim quando lá ia, por ser mãe dela, tudo isso acabou, porque partia de um amigo dela que saiu do alto posto", desabafa no diário. Resta saber se é fuzilado.
A vincular-se ao mundo do narcotráfico. Positivo. Conscientemente. Positivo. Com a ordem de seu chefe. Positivo. O acusado Arnaldo Ochoa. Positivo.
Não é por acaso que Armanda Palhota teme pela vida de José Manuel. O processo que investiga a rede de tráfico de droga no poder cubano corre a uma velocidade estonteante e o julgamento do general Arnaldo Ochoa arranca menos de um mês após a detenção.
Silêncio na sala. Acusados, defensores, pôm-se de pé.
É 10 de julho, uma segunda-feira. Ao longo dos próximos dois dias, o herói da Revolução Cubana irá ouvir inúmeros depoimentos contra ele. Sempre, escreve a revista Time, com aparente desinteresse e desalento, de olhos postos no vazio e mãos a tatear o uniforme militar. O julgamento é parcialmente transmitido na televisão estatal. A jornalista da Times escreve que a reação de Ochoa é sempre a mesma, quando o tribunal composto por 47 generais e almirantes lhe elogia atos de bravura militar na Etiópia ou em Angola, e quando o acusa de alta traição e defende a condenação dele à morte. Arnaldo Ochoa simplesmente não reage. Permanece impassível.
De perder lo que más vale
Quando se levanta para depor, não nega nenhuma das acusações. "Traí o nosso país e a traição paga-se com a vida. Se vier a sentença de morte, que naturalmente pode significar o pelotão de fuzilamento, prometo-vos que os meus últimos pensamentos serão para Fidel e para esta grande revolução", diz perante o tribunal. Arnaldo Ochoa está pronto para morrer. Três dias depois do início do julgamento e horas após a sentença, o herói da República de Cuba e três antigos oficiais do exército, entre eles, Antonio de la Guardia e Jorge Martínez Valdés, são executados por um pelotão de fuzilamento em Havana. Em pouco tempo, Fidel Castro tinha feito uma limpeza no topo do regime. Num dos postais que enviou para Lisboa, logo depois do início do escândalo, a Ani avisou que a mãe ia ter grandes surpresas com a Helena Antónia, usando o nome de código que tinha inventado para se referir ao líder cubano. A maior surpresa viria agora. Nada era o que parecia. O caso Ochoa, que também ficou conhecido pelo nome Havana Gate, foi amplamente estudado ao longo dos últimos anos. E há uma conclusão praticamente unânime. Seria impossível existir tráfico de droga daquela dimensão a passar por Cuba, sem que Fidel Castro tivesse conhecimento. Além disso, o processo judicial esconderia uma luta nos bastidores do regime. Brian Latell, que foi durante anos o principal analista da CIA para a América Latina, chegou a essa conclusão no livro "Cuba sem Fidel". Considera que Castro desejava evitar que Arnaldo Ochoa, o mais popular comandante cubano das Forças Armadas, se tornasse um agregador para os críticos reformistas do regime. Outro defensor desta teoria é o historiador e jornalista britânico Richard Gott. Ele esteve na Bolívia em 1967, quando Che Guevara foi morto, e foi o único repórter chamado a identificar o corpo. No livro "Cuba, uma nova história", Richard Gott não tem dúvidas. Depois das reformas impostas por Gorbatchev na União Soviética, a relação com Cuba mudou. Fidel Castro recusava fazer reformas no país, o que não agradava os soviéticos. E Arnaldo Ochoa tornou-se uma preocupação. Era popular e um herói de guerra. E se alguma vez tivesse apoio externo, podia mesmo tornar-se o líder cubano dos novos tempos. Richard Gott nota uma coincidência: a detenção de Ochoa aconteceu apenas dois meses após a visita de Gorbatchev a Havana, e conclui: os principais crimes de Ochoa haviam sido questionar a autoridade dos irmãos Castro e pensar na possibilidade de desertar. Fidel chegou à conclusão de que Ochoa precisava ser condenado por um crime realmente hediondo, a fim de evitar qualquer reação indesejada da parte dos militares. Depois disto, já não havia ninguém para desafiar o poder daquele a que a Ani chamava Helena Antónia. O namorado de Ani, José Manuel Abrantes Fernandes, é arrastado no escândalo do general Ochoa. Os crimes de que vai ser acusado no outro processo são menos graves e a sentença também vai ser, mas o desfecho não será muito diferente. No dia 31 de agosto de 1989, é conhecida a decisão. O tribunal militar de três juízes considera-o culpado por abuso de autoridade no cargo, negligência no cumprimento das funções, uso indevido de fundos e recursos do Estado e ocultação de informação. O último grande amor de Ani é condenado a 20 anos de prisão. É transferido pra a cadeia de Guanajay. Menos de um ano e meio depois, no dia 21 de janeiro de 1991, Zé Manel estará morto
Só que a Annie já não verá isso acontecer. Mas essa é uma história para o último episódio. No entanto, se for assinante standard ou premium do Observador, pode ouvir já todos os seis episódios. Se ainda não for, basta assinar em observador.pt/assinar. No próximo episódio.
Eu fiquei cilindrado. Comecei a chorar, ela foi à cozinha, trouxe-me um copo de rum e disse: "Porta-te como um homenzinho".
Não acredito que fossem organizar uma tal operação sem que o Sarrazar tinha aprovado esta operação.
Ela sempre teve uma noção clara da doença que tinha. Ela deve ter visto, olhasse para o espelho e ver aquela imagem deteriorar-se. Acho que foi alguém da embaixada de Cuba que queria que ela embarcasse dois dias antes. Ela disse: "Não".
"Os escândalos de uma revolucionária" é uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos "Podcast Plus" do Observador. É narrada por mim, Bárbara Branco, com banda sonora original de Frankie Chaves. O guião e as entrevistas são de Inês André Figueiredo. A sonoplastia e o desenho de som são de Pedro Oliveira. O design gráfico é de Miguel Frazo Cabral. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos sons retirados do YouTube. Se tem alguma informação para partilhar sobre este podcast, ou se conhece alguma história que acha que deve ser investigada, pode escrever-nos para podcastplus@observador.pt.
