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Este episódio contém descrições de violência que algumas pessoas podem considerar perturbadoras. Eram 10 da noite quando o hóspede do quarto 3405 fez o check-in no Hotel Intercontinental. Chegou cansado do voo, mas estava com dificuldades em adormecer por causa da diferença horária. Depois, por volta da 1 h da manhã, começou o barulho e percebeu que não ia mesmo conseguir descansar. Não compreende uma palavra, mas distingue pelo menos um par de vozes diferentes. Ao que tudo indica, serão dois homens furiosos a discutir numa língua que não consegue identificar. Por volta das duas e tal da madrugada, as vozes abrandam. O hóspede do quarto 3405 percebe que um dos homens saiu para o corredor. Ouve passos que se afastam. Faz-se finalmente silêncio e acaba por adormecer. Entre as 06h e as 11h da manhã, acorda várias vezes, sempre com a porta do quarto vizinho a abrir e a fechar. Passa o resto do dia no hotel a tentar descansar. Agora são 20h40 daquela sexta-feira, 7 de janeiro de 2011. É dos poucos hóspedes do 34º piso neste momento no hotel, diz-lhe o agente da Polícia de Nova Iorque que lhe bate à porta. Precisa de lhe fazer algumas perguntas. O hóspede do quarto 3405 explica que não conseguiu dormir quase nada durante a noite, por causa do jet lag e da discussão entre os dois homens. E revela que há algumas horas, durante a tarde, ouviu aquilo que lhe pareceu serem marteladas, mas não ligou, escreve o agente no relatório. Pensou que estava a haver obras naquele andar. É o décimo dia de Carlos Castro e Renato Seabra em Nova Iorque. São 9h23 quando saem do quarto 3416. As imagens captadas pelas câmaras de segurança do hotel mostram que o cronista social segue à frente e Renato uns três metros atrás. Pela primeira vez desde que chegaram, não vão trocar uma única palavra à mesa do pequeno-almoço. E Carlos Castro também não vai meter conversa com a empregada de mesa, que há de contar à polícia com detalhes, como naquela manhã os hóspedes portugueses estavam diferentes. "Nos dias anteriores, o senhor Castro normalmente tinha um sorriso no rosto, era um pouco mais falador comigo e naquele último dia notei que havia tensão entre os dois senhores", vai dizer em tribunal. Carlos Castro está sério e calado. Limita-se a fazer o pedido. Café com leite e uns ovos com torradas para ele, uma rabanada e um copo de leite para Renato. Comem em silêncio e depressa. Dentro de 21 minutos apenas, já estão novamente a caminho do quarto 3416. "Os Ficheiros do Caso Carlos Castro" é uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos podcast plus d'O Observador. É narrada por mim, Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Reisente. Episódio cinco: 52 chamadas não atendidas.
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Kia. Movement that inspires. Assim que entra no quarto, Carlos Castro pega no computador portátil e começa a tratar de tudo para alterar a viagem de volta a Lisboa. Antecipa o regresso para domingo. Daqui a dois dias. Está tão decidido que além de mudar os voos, também pede logo um transfer para o aeroporto. E num carro normal. Não quer mais limusines. A polícia de Nova Iorque vai confirmar todas estas alterações através dos e-mails enviados pra agência que tratou da viagem em PortugalE vai perceber, através dos depoimentos da melhor amiga do cronista social na cidade, até que ponto ele estava furioso com Renato Seabra. Ao longo da vida, Carlos Castro zangou-se várias vezes com Abel Dias. Aliás, em janeiro de 2011, é assim que estão, de relações cortadas. Diz que as fúrias do amigo eram célebres e temíveis.
Quando se zangava, passava a chamar palavrões, passava a dizer coisas que os outros não gostavam de ouvir.
À 12:17, quando liga a Vanda Pires, Carlos Castro está sozinho no quarto. Conta-lhe tudo o que aconteceu durante a noite. Diz-lhe também que durante a madrugada, Renato saiu do quarto. Seriam duas e tal da manhã quando resolveu ir ao ginásio do hotel. Agora voltou a desaparecer. Carlos não faz ideia de onde foi, se está algures no Intercontinental ou na rua. Só sabe que lhe pediu dinheiro. Carlos deu-lhe 100 dólares e ele saiu. Vanda percebe que o amigo não se sente seguro. Carlos não quer que Renato volte sozinho para Lisboa, mas também diz que não reconhece a pessoa com quem passou a noite a discutir. Parece que Renato tem dupla personalidade, desabafa. Não quer que ela o vá buscar para almoçar, nem muito menos refugiar-se na casa dela em Newark, mas Carlos Castro admite que está com medo. Não quer que Renato saiba que está a falar com ela e avisa a dada altura: se entretanto tiver de desligar a chamada à pressa, é porque ele voltou. É 12:40. Do interior do quarto 3416, não vem um único som. Ninguém abre a porta, ninguém pergunta quem é. A camareira já tinha tentado arrumar o 3416, mas seguiu para o quarto seguinte quando viu que o aviso "não incomodar" estava pendurado do lado de fora da porta. Agora já não está. Por isso volta a bater. Como ninguém responde, parte do princípio de que a suíte está vazia. A memória da fechadura eletrónica a que a segurança do hotel vai aceder, mostra que a porta é aberta com a chave-mestra, que dá acesso a todos os quartos naquele andar, exatamente às 12:41. Mal entra, vê um homem baixo, de cabelos brancos. Está de pé junto à janela, a olhar para a neve que entretanto começou a cair. Pergunta-lhe se pode arrumar o quarto e ele diz-lhe que sim. Fica ali no mesmo sítio, imóvel, a olhar lá para fora. Parece sereno. Há de recordar mais tarde à polícia, a mulher, imigrante nos Estados Unidos. O hóspede explicou-lhe até que não tencionava sair do quarto por causa do frio e da neve. Dez minutos depois, a camareira dá o trabalho por terminado. O quarto não estava propriamente desarrumado, por isso limitou-se a fazer a cama e a limpar a casa de banho. Despede-se antes de sair. Pergunta ao homem se está tudo bem e ele, sempre com o olhar fixo para lá da janela, volta a dizer-lhe que sim. É 12:50. É a última vez que Carlos Castro vai ser visto com vida por alguém que não Renato Seabra. As câmaras de vigilância do hotel mostram que, neste momento, ele já está dentro do elevador, a subir rumo ao 34º piso. Um minuto depois de a camareira sair, o jovem aspirante a modelo de Cantanhede vai voltar a entrar no quarto. Carlos Castro tem 65 anos. Quem o conhece garante que, apesar da personalidade irascível, está longe de ser uma pessoa violenta. Palmira Correia, além de ter sido colega dele durante décadas, é vizinha do cronista social. Sabe como ele se comporta em trabalho e em privado, qual é a atitude dele em festas e no dia a dia. Descreve um homem discreto e frágil. Medroso, até.
Ele era sempre muito emotivo, mas simultaneamente era muito frágil. Ele não era uma pessoa violenta. Até na sua presença nos sítios, ele era uma pessoa discreta, apagadinha. Não era uma pessoa como a Lili Caneca, chega e faz a festa. Não, ele era uma pessoa que estava lá no seu canto, discreto. Notava-se nele alguma fragilidade, medo de que alguém o pudesse confrontar. Eu acho que ele era até medroso, porque era pequeninoPorque tinha uma figura frágil. Se alguém o confrontasse, ele não tinha capacidade até física para enfrentar ninguém.
Vanda Pires também conhece Carlos Castro muito bem. Por isso mesmo, há de dizer às autoridades que não ficou nada descansada depois da conversa que teve naquela manhã com o amigo. Vanda está sozinha em casa. Não consegue deixar de pensar no que aconteceu na noite anterior ao jantar. Renato estava muito acelerado e a agir como se fosse louco. Vai revelar dentro de algumas horas ao detetive John Mongiello. Parecia outra pessoa. Não era o mesmo rapaz tímido, calado e educado, com quem dias antes tinha andado a passear entre Newark e Atlantic City. A conversa que teve nessa manhã ao telefone com Carlos Castro durou 14 minutos. Começou 12h17, terminou 12h31. Menos de uma hora depois, Vanda Pires volta a ligar para o telemóvel do amigo. Quer perceber se Renato já apareceu, se as coisas entretanto ficaram mais calmas. É 13h28. O telefone toca duas ou três vezes. Depois, tem a sensação de que a chamada é rejeitada. Deixa passar um minuto, resolve insistir. Liga outra vez à 13h29 e depois à 13h30 e logo a seguir à 13h31. As chamadas ficam todas registadas no telemóvel dela, que há de ser analisado e fotografado pela polícia. Ninguém atende. Está a ficar mesmo preocupada. À 13h39, decide tentar o telefone do quarto. Liga para o Intercontinental, pede para lhe passarem o hóspede Carlos Castro. Nada também. Não sabe o que pensar, mas tem a sensação de que algo de muito errado pode estar a acontecer dentro daquele quarto de hotel. O departamento de vendas do Hotel Intercontinental fica na cave do edifício, no piso menos um. O e-mail chega à hora de almoço, por isso a funcionária de serviço não o lê imediatamente. Foi enviado por uma agência de viagens portuguesa e pede que os documentos em anexo sejam impressos e entregues ao hóspede do 3416. Assim que abre a mensagem, a funcionária reconhece o número do quarto. Recorda-se bem do upgrade que foi concedido àqueles hóspedes e da explicação que a agência lhe deu para fazer esse pedido. É um dos nossos melhores clientes. Vai tratar do assunto imediatamente. Primeiro, imprime a documentação. É a informação do novo itinerário de viagem. Os senhores Carlos Castro e Renato Seabra partem do aeroporto de Newark já no próximo domingo. Depois, guarda tudo numa pasta de plástico azul e sobe até ao lobby. Precisa de um paquete que vá ao 34º piso fazer a entrega. Quando percebe que não há ninguém disponível, apanha o elevador de serviço e vai ela mesma deixar os bilhetes de avião no 3416. É 13h48. Hão de confirmar as câmaras de segurança instaladas dentro do elevador e fora dele, no corredor de acesso aos quartos. Neste preciso momento, em Newark, Vanda Pires acaba de voltar a marcar o número de Carlos Castro. Não há nenhum aviso pendurado na porta do quarto. A funcionária bate várias vezes. Ninguém responde e não ouve barulho absolutamente nenhum. Nem sequer o telemóvel a tocar. Significa que, por esta altura, e tantas chamadas perdidas depois, o Nokia de Carlos Castro já foi posto no silêncio. Neste preciso momento, tanto Carlos como Renato estão no interior do quarto. Esse facto há de ser confirmado com recurso às imagens de videovigilância do hotel. Como nenhum deles abre, a funcionária do departamento de vendas espalma a pasta e atira para o interior do quarto, por baixo da porta. A seguir, volta para o escritório na cave do edifício. Assim que vir os documentos, Renato Seabra saberá que Carlos Castro não estava a fazer bluff. O voo de regresso foi realmente antecipado para domingo, o que significará também que, assim que chegarem a Portugal, esta relação vai mesmo chegar ao fim.A mãe de Renato Seabra pensa que o filho está seguro com Carlos Castro, a tentar arranjar trabalho como modelo em Nova York. Acredita que mantêm uma relação estritamente profissional, que dormem, como é lógico, em camas separadas e que a designer Fátima Lopes, dona da agência com que Renato tem contrato de exclusividade, está a par da ajuda que o cronista social lhe está a dar.
Era óbvio que foi criado ali uma manobra para iludir a mãe, penso eu, a família dele. Na altura, eu disse que não sabia que eles se conheciam e penso que foi a irmã que me ligou a dizer: "Como assim? O Renato disse-nos ou eles disseram-nos que a Fátima sabia e estaria de acordo com aquele relacionamento". Eu não fazia a mínima ideia.
Odília Pereirinha fala todos os dias com o filho, justamente através do telemóvel do cronista social. Dentro de alguns dias, vai revelar publicamente que o vem achando estranho, pelo menos desde quarta-feira, o dia que Carlos, Renato e Vanda passaram em Atlantic City. Vai contar que o filho se queixou de não conseguir dormir e que atribuiu as insônias à comida americana. E vai revelar que Renato lhe disse que se sentia numa prisão, que tinha saudades dela e que queria voltar pra casa. A diferença horária de Nova York para Portugal é de cinco horas. No dia do crime, há de contar Odília Pereirinha aos jornalistas, Renato ligou-lhe consideravelmente mais cedo do que o costume. Eram 7h30 da manhã em Nova York, 12h30 em Lisboa, quando o telefone dela tocou. Do lado de lá, o filho repetiu as queixas dos últimos dois dias. Não tinha dormido bem e continuava farto da comida. Horas mais tarde, há de contar também a mãe de Renato, o filho ter-lhe-á voltado a ligar. Agora, e pela primeira vez em 10 dias de férias nos Estados Unidos, do telemóvel de uma desconhecida, a quem Renato teria pedido ajuda na rua. Nessa breve conversa, Renato teria repetido: mal conseguia respirar, sentia-se numa prisão, queria muito voltar pra casa. Teria dito à mãe: "Não te esqueças que te amo muito, que quero ir pra Portugal. Só junto de ti estou em segurança". Odília Pereirinha diz que pediu a Renato que voltasse pra casa, que usasse o dinheiro que tinha na conta bancária e que comprasse um bilhete só de ida pra Portugal. A seguir, garante que ligou a Carlos Castro e pediu-lhe satisfações. Perguntou-lhe o que tinha feito ao filho dela. Quando for tempo disso, não será apresentada em tribunal nenhuma prova destas alegadas chamadas telefônicas envolvendo a mãe de Renato Seabra. Vanda Pires começa a entrar em pânico. Já perdeu a conta às vezes que tentou ligar a Carlos Castro. Já passou a fase em que pensou que podia ser um problema do telemóvel dela. Nos últimos dias, tem tido dificuldades pra fazer algumas ligações. Foi por isso que ligou para o namorado. Pediu a Avelino Lima para tentar telefonar ao amigo, mas ele não teve mais sorte do que ela. Também já enviou duas mensagens pro número de Carlos. A primeira, às 13h32 da tarde: "Estás bem? Não atendes o telefone. Preciso de falar contigo". A segunda, às 14h30: "Liga-me, por favor. Vou ter contigo ao hotel. Não atendes o telefone. Estou a ficar preocupada". Até já lhe escreveu um e-mail: "Já liguei 11 vezes, mas não atendes. Estou preocupada. Liga-me, por favor". Não obteve nenhuma resposta. Passa das 16h15. É a 17ª chamada que Vanda Pires faz para o telemóvel de Carlos Castro, sendo que para o telefone fixo do quarto 3416 já ligou outras 10 vezes. A polícia de Nova York vai apurar que ao longo da tarde desta sexta-feira, Vanda Pires vai tentar ligar-lhe 52 vezes, 33 para o telemóvel e outras 19 para o quarto. Vanda Pires está tão preocupada que telefonou à filha e pediu-lhe que fosse com ela à cidade. Mónica conduz. Vanda continua a fazer chamadas sem parar. Demoram mais ou menos uma hora no caminho. E mesmo depois de chegarem ao hotel, Vanda continua a tentar. São 18h15. O relatório da médica legista há de determinar que Carlos Castro está morto há 45 minutos. Cruzam-se com o porteiro, que diz a Vanda que hoje ainda não viu o amigo dela. Primeiro, procuram no lobby, depois no restaurante. Não encontram Carlos Castro nem Renato Seabra em lado nenhumVanda esteve ali uma série de vezes ao longo dos últimos dias, mas nunca foi ao quarto do amigo. Não faz ideia sequer do piso em que fica. Está ali no lobby, desorientada, sem saber muito bem o que fazer. A filha, Mónica, conhece Carlos Castro desde miúda, mas como desta vez não chegou a encontrar-se com ele, também não foi apresentada a Renato Seabra. O que não significa que não seja capaz de o reconhecer. A mãe mostrou-lhe fotografias e ela pode jurar que é mesmo ele quem acaba de sair do elevador. Renato Seabra está impecavelmente vestido com um fato preto de corte italiano e sobretudo cinzento. Calça uns sapatos pretos e usa uma camisa branca e uma gravata roxa. O cabelo está penteado para trás com gel. Vanda Pires está tão aflita que nem estranha a roupa dele. Quer saber onde está o amigo. Pergunta-lhe se Carlos está bem. Quer saber onde vai Renato e qual é o número do quarto deles. E reclama. Está há horas a ligar. Por que não lhe atenderam o telefone? Renato parece surpreendido por vê-la ali. Há de descrever Vanda mais tarde. "Ficou em choque quando me viu", escreve o detetive John Mongiello no bloco de notas. Responde-lhe que Carlos está lá em cima, mas hesita quando ela insiste em perguntar-lhe qual é o número do quarto em que estão instalados. Depois de alguns segundos em silêncio, Renato diz-lhe: "É o 3416". A seguir, acrescenta: "Mas o Carlos nunca mais vai sair do quarto".
Recordo-me da Vanda ter dito que como não sabia deles e não tinha notícias deles, que foi à recepção do hotel e que foi tentar perceber o que estava a acontecer. É aí que se cruza com o Renato Seabra e que ele saiu de uma forma completamente natural, vestido, banho tomado. Foi isso aquilo que foi mais estranho no meio disto tudo.
Rodrigo Freixo foi um dos inúmeros jornalistas que, nos dias que se seguiram, reconstituíram o momento em que Renato Seabra saiu calmamente do Hotel Intercontinental, em Times Square. Assim que ouve o número do quarto, Mónica lança-se a correr para os elevadores. A mãe fica para trás a questionar Renato: "O que é que se passou? Porque é que estás a dizer isso? O que é que aconteceu?" Mas não consegue arrancar-lhe nem mais uma palavra. Depois de alguns segundos de impasse, Renato recomeça a andar e sai do hotel. Vanda ainda fica a vê-lo afastar-se. Depois, corre ao encontro da filha, que acaba de sair do elevador, mais uma vez no lobby. Com a aflição, Mónica subiu ao terceiro andar e percorreu o piso inteiro, mas não conseguiu encontrar nenhuma porta com um número de quatro dígitos. Achava que Carlos estava no terceiro piso, no quarto 416. O hotel tem seis elevadores para hóspedes, mas só quatro deles dão acesso ao penúltimo piso. A subida é rápida. Assim que as portas se abrem, Vanda e Mónica correm pelo corredor alcatifado e encontram sem dificuldade o 3416. Há um aviso pendurado na maçaneta: "Por favor, não incomodar". Mas isso não as detém. Batem à porta e chamam pelo nome do amigo. Carlos não abre, nem responde. Do interior não chega um único som. Voltam à receção. Explicam que estão preocupadas. Perguntam se a segurança pode ir até ao quarto certificar-se de que está tudo bem. Estão visivelmente transtornadas. Mas o segurança explica-lhes que não é assim que as coisas funcionam. Se há um aviso na porta, é porque os hóspedes não querem ser incomodados. Primeiro vai ter de ver as imagens de videovigilância do hotel para perceber há quanto tempo está ali aquele "não incomodar". Depois, vai ser preciso fazer as contas e esperar. A política do hotel obriga a aguardar 48 horas antes de abrir quaisquer portas de quartos de hóspedes que não queiram ser incomodados. Os 19 telefonemas em cinco horas para aquele quarto ajudam. O departamento de segurança do hotel resolve aceder ao pedido das duas portuguesas. Às vezes as pessoas esquecem-se de retirar os avisos. Em casos de emergência ou para confirmar se um hóspede está bem, as regras podem ser quebradas. Vai explicar em tribunal o diretor de segurança do hotel, sexta testemunha da acusação. O segurança bate três vezes. Como não tem resposta, decide usar a chave-mestra geral, que abre todas as portas do hotelSão 19h. Assim que entra e abre a porta, vê que a alcatifa está manchada de vermelho vivo e percebe imediatamente: é sangue. Muito sangue, no chão do quarto e em toda a casa de banho. Quando abre a porta para trás, percebe que a cama está desfeita, há toalhas espalhadas, vidros no chão e mais manchas de sangue. Continua na soleira da porta, não chega sequer a entrar no quarto. Na direção dele, para lá da cama e em frente à janela, está um corpo caído. Imóvel, nu, de barriga para cima, ensanguentado, desfigurado e mutilado. O corpo está azul, há de descrever o diretor de segurança do hotel quando ligar para o número de emergência, o 911. São 19h07. Mais ou menos à mesma hora, há de apurar a polícia nessa noite, Renato Seabra estava junto à Penn Station, a entrar num táxi rumo ao hospital. Hospital de Bellevue, fim da tarde de sábado, dia 8 de janeiro de 2011. O corpo de Carlos Castro foi encontrado há praticamente 24 horas, mas os detetives da Polícia de Nova York ainda não tiveram autorização para falar com Renato Seabra. O detetive Richard Tirelli está no hospital desde o meio-dia. Veio com dois colegas. Michael de Almeida, detetive da Divisão de Criminalidade Automóvel, é um deles. Não tem nada a ver com o caso, mas é filho de imigrantes portugueses e intérprete certificado pela polícia da cidade. Por isso foi chamado para traduzir a conversa com o suspeito. Passa das 18h quando a administração do hospital autoriza a entrada dos detetives na ala psiquiátrica. Renato Seabra está sozinho no quarto, deitado na cama. Não está algemado e, assegura o médico assistente, também não está nem medicado, nem sedado. Pode responder às perguntas da polícia com total lucidez. A dada altura, pode ler-se no relatório do detetive Tirelli, o português pede ao médico e ao administrador-chefe do hospital, que ainda estão no quarto, para ser deixado a sós com os polícias. O detetive Michael de Almeida pergunta a Renato em que língua prefere falar. Depois, em português, lê-lhe os direitos de Miranda, os avisos que a polícia americana tem obrigatoriamente de fazer a todos os suspeitos sob custódia. Renato responde. Não se importa de não ter um advogado presente. E sabe que pode permanecer calado, mas prefere falar. Quer contar-lhes como matou Carlos Castro. Renato Seabra está sentado numa cadeira de frente para Michael de Almeida. Está calmo, cooperante e confortável, vai descrever o detetive luso-descendente em tribunal. Durante as duas horas seguintes, revela tudo o que lhe aconteceu ao longo dos últimos três meses, desde o momento em que a mãe e a avó o levaram de carro para o Porto para se encontrar com Carlos Castro, até ao instante em que fechou a porta do quarto 3416 e pendurou o aviso "não incomodar", deixando o cronista social morto e mutilado lá dentro. Renato regressa ao dia anterior, 12h51. Assim que ele entra no quarto, Carlos diz-lhe que já tratou de tudo. Vão voltar para Portugal já depois de amanhã e não dentro de uma semana. Estão a discutir há horas, desde a noite anterior, porque Renato lhe disse que tinha dúvidas sobre a relação deles. Aliás, porque Renato lhe disse que tinha dúvidas sobre a própria sexualidade. "Acho que já não sou gay." Renato nem sequer acredita que a viagem tenha mesmo sido alterada. O mais certo é que Carlos esteja a inventar, mas pouca diferença faz. A discussão vai recomeçar. Renato está demasiado furioso. Dá-lhe uma bofetada. Depois, agarra Carlos por trás e prende-o pelo pescoço até o deixar estendido no chão. Precisa de impedir que o vírus da homossexualidade se espalhe pelo mundo, diz aos detetives. Já não é gay. Tem de acabar com o demónio. Se eu lhe cortar os testículos, tudo no mundo vai ficar bem. Nem se percebe se Carlos grita por ajuda ou se lhe pede que pare. Está concentrado naquilo que tem de fazer. As fotografias tiradas pela polícia na cena do crime vão mostrar que numa das secretárias do quarto, há caixas com frutos secos, doces e chocolates, copos baixos e de pé alto, uma garrafa de vinho tinto pequena e ao lado, um saca-rolhas clássico, todo em metal. Renato conta que agarra primeiro no saca-rolhas, esfaqueia Carlos Castro na cara e na zona das virilhas. A seguir, pega na garrafa de vinho, acerta com ela na cabeça do cronista social uma e outra e outra vez. E depois, volta à arma número um. Com o saca-rolhas, arranca-lhe os testículos. Com o monitor do computador do quarto de hotel, continua a bater-lhe violentamente na cabeça e no rosto. Quando abranda, percebe que Carlos ainda continua a respirar. Calça um par de ténis, uns Nike brancos, e salta-lhe repetidamente em cima da cabeça. Dá-lhe pontapés. Sente que deve ter passado uma hora desde que tudo começou. Não consegue ter a certeza do tempo. Ao que tudo indica, Carlos Castro morreu. Agora, Renato Seabra está calmo. Despe-se, pega num pedaço de vidro partido e pressiona-o contra a própria pele. Faz uns cortes nos pulsos. Mete-se no duche. Depois de tomar banho, veste o fato preto, põe a gravata. Penteia-se com gel e sai do quarto. Está aliviado por ter confessado tudo, diz Renato Seabra aos detetives, sentados num quarto privado na ala psiquiátrica do hospital de Bellevue. Richard Tirelli toma nota das palavras exatas que ele usa: "Porque vocês são a polícia e eu queria contar a minha história e tornar o mundo um lugar melhor". Renato Seabra confessou tudo. Aparentemente, o caso está resolvido. Mas há um problema. Aliás, três. O interrogatório não foi presenciado por terceiros, não foi gravado em áudio nem em vídeo. E o relatório oficial do detetive Tirelli só foi escrito horas depois, com base em notas manuscritas. Três meses depois, no dia 29 de abril de 2011, o advogado de defesa vai apresentar uma moção ao tribunal. David Tuger quer que a confissão de Renato Seabra seja considerada nula. Se o juiz aceitar, nada daquilo que os detetives dizem que Renato Seabra disse poderá ser usado em julgamento. Mas essa é uma história para o último episódio. O Observador tentou falar com o pai, a mãe, a irmã, com o antigo e o atual advogado e com o próprio Renato Seabra. Nenhum deles aceitou ser entrevistado. No próximo episódio.
Com o passar do tempo e tanto quanto o Renato sabia, a carreira dele estava na mesma, apesar de estar a cumprir a sua parte do acordo com o senhor Castro.
O Renato estava apático. Ele parecia que não estava lá. Era outra pessoa, era um estranho naquela sala, parecia que estava a viver noutro mundo.
Até hoje, gostava muito de perceber o que aconteceu.
"Os Ficheiros do Caso Carlos Castro" é uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. O guião e as entrevistas são de Tânia Pereirinha. A sonoplastia e o desenho de som são de Bernardo Almeida. O design gráfico é de Miguel Ferraz Cabral. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos sons retirados do YouTube. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast. Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da KIA.
