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Francisco Alegre Duarte, filho de Mafalda Durão Ferreira e de Manuel Alegre, é diplomata. Esteve em várias geografias, foi conselheiro diplomático de dois primeiros-ministros, António Guterres e António Costa, e é neste momento embaixador de Portugal em Luanda. E quando ali chegou, em março de 1922, era o mais jovem embaixador português desde sempre na capital angolana. Bem-vindo, senhor embaixador. Bem sei como lhe hei de agradecer, com o seu tempo tão contado, dar-nos estes momentos aqui em Lisboa. A diplomacia foi uma escolha, uma vocação? É que sendo filho de Manuel Alegre, tendo nascido e crescido num fortíssimo caldo de cultura política, a intervenção política, a atividade política, não foi o seu caminho. Repito a minha pergunta, que não é inverosímil: a diplomacia foi uma escolha não acolhida em casa?
Foi uma escolha bem acolhida em casa.
Não, não acolhida.
Não acolhida. Já tinha tido vários precedentes na família, tanto do lado do meu pai como da minha mãe. Vários casos de diplomatas. Um que eu conheci melhor, que era o meu tio Mário, irmão do meu avô Francisco Duarte, de quem herdei o nome, e que teve uma longa carreira diplomática e cuja figura me fascinou sempre.
Claro, pode ter sido a raiz.
Lembro-me de ver fotografias dele, por exemplo, como cônsul em Havana, tinha umas fotografias fantásticas que estavam lá em casa dele com o Hemingway na pesca ou a fazer tiro aos pratos.
Portanto, o auge de uma mitologia quase romântica.
Sim, mas não foi só por causa desses exemplos, também é uma forma de fazer política, é verdade.
Não, claro que sim.
É verdade que eu cresci rodeado de política, de alta política, meu pai teve uma atividade política muito intensa quando eu era jovem.
Exatamente, já lá vou. Mas deixe-me só lembrar que os seus pais, um e outro, são personalidades fortes, inteiras, que vieram da oposição ao antigo regime, se exilaram. Você, aliás, nasceu em Argel, onde eles se conheceram e constituíram família. E o seu pai foi um político socialista muito presente no país, além de um poeta e ficcionista com vasta obra publicada. O que o Francisco trouxe de tudo isto pra sua vida quando começou a voar sozinho? O que veio de casa?
Várias coisas, e de um lado e de outro. Minha mãe foi uma grande servidora do Estado, com uma longa carreira.
No serviço público.
No serviço público e no Ministério dos Negócios Estrangeiros e no apoio às comunidades portuguesas. E é uma pessoa que sabe muito de função pública, de administração pública, e que tem aquele sentido do serviço.
Do serviço, sim.
E continua a ser uma grande conselheira.
Pra outras gerações, sim.
Sim, pra mim.
E pra si, claro.
Do meu pai, sim, é evidente que...
Não se passa incólume.
Não, não se passa incólume. Não se passa incólume.
Sim.
Mas é uma coisa com a qual os meus irmãos e eu vivemos bem.
Vocês são três.
Somos três, somos dois rapazes e uma rapariga. Meu irmão é advogado, a minha irmã é cantautora.
É cantautora, sim, senhora.
Mas vivemos bem com isso. Acho que, de certa forma, fomos treinados para uma maior exposição, para uma maior exigência. E a carreira diplomática é uma carreira exigente.
Exigentíssima. Falou de exigência e com certeza que aprendeu ou herdou a exigência vivida pelos seus pais em casa. Mas do perfil político, da impressão digital deixada pelo seu pai na política, você retém alguma coisa em especial, alguma coisa que lhe agrade mais, alguma coisa que acha que herdou?
É o profundo instinto de liberdade e a relação com a verdade. Lembro-me sempre de ouvir o meu pai dizer, nomeadamente quando o Partido Socialista perdia as eleições, que é preciso humildade perante os factos.
Claro.
E essa lição da política, acho que também passa, ou pelo menos procuro que passe, pra minha atuação como diplomata.
Claro.
Ou seja, é preciso lidar com humildade, com a realidade dos factos, sem fugir à verdade, porque um diplomata, ao contrário do que se diz, um diplomata que mente não é um bom diplomata. Não é.
Eu sei o que se diz, mas também não devemos acreditar. É a minha irresistível fazer esta pergunta, que me acudeu agora. O que acha que hoje, dia 6 de março de 2025, o seu pai, se estivesse por aí, virado, o que diria politicamente deste momento especial que o país atravessa? Possibilidade de eleições, etc.
Não quero estar aqui a falar em nome do meu pai. Eu sei o que ele pensa, porque tenho falado com ele.
Exatamente. Eu sei que você, com certeza, tem falado com ele.
Sim, mas não vou fazer de porta-voz dele sobre a situação política atual. Aliás, não devo, porque sou diplomata no ativo também e, portanto, tenho esse dever de reserva.
Diplomatas nunca dizem tudo.
Não podem dizer tudo. Não devem mentir, mas não podem dizer tudo.
Sim. Mas seria engraçado, e eu até acho que o seu pai talvez achasse Pertinente esta minha pergunta de dever como membro do Partido Socialista, com um passado forte e pesado, o que ele diria hoje ao partido dele? Silêncio eloquente. Só mais um bocadinho dos legados da família pra eu lhe perguntar o seguinte: esses legados e essas heranças, ou o fato de se ter nascido numa família um pouquinho vulgar, pública, etc, podem ser pesados no sentido em que constituem uma responsabilidade acrescida, uma quase necessidade de: "Ai, eu tenho que estar à altura de". Sentiu isso alguma vez na sua vida?
Sim, foi assim que fomos educados e senti em várias vertentes. Mas há uma que eu acho que é profundamente democrática e igualitária, que é a do esporte. E nós fomos sempre encorajados a fazer esporte, e esporte de competição, e no esporte é difícil mentir-se em campo ou na competição.
Que esporte é que fazia?
No meu caso, joguei futebol e joguei rugby com meu irmão Afonso. Isto na vertente competição. Depois temos outras coisas que gostamos de fazer, como o surf. O meu irmão é um grande caçador.
Sai ao pai.
Sai ao meu avô.
Eu li no livro, ao seu avô, mas também ao seu pai.
Sim, meu pai é melhor pescador. Também gosto de pesca. Voltando a essa questão do esporte, no esporte não dá para dizer essas coisas.
É uma grande escola.
É uma grande escola e é uma escola de democracia também, de igualdade, porque não há favores, sobretudo quando se está a competir. Não conta de quem é que se é filho.
Sim. E você também é do Benfica?
Eu sou o primeiro benfiquista da família, e a culpa é do meu pai, porque o meu pai sempre foi da Académica de Coimbra. Começou a simpatizar com o Benfica quando estava no exílio, mas depois quando eu era pequenino, tínhamos lugares cativos no Benfica, no Estádio da Luz, no velho Estádio da Luz. E ao longo dos anos 80, quando o Benfica tinha aquela grande equipa com jogadores fundamentalmente vindos do Barreiro, víamos o Chalana e todos esses grandes craques, e ficou esse amor pelo Benfica, que hoje em dia já não é a mesma coisa.
O Benfica ou esse amor?
Não, o Benfica.
Ai, não me diga isso, que eu tenho a camisola do Benfica. Hoje não parece, porque tenho um casaco verde, mas tenho a camisola do Benfica vestida.
Gostava que os jogadores do Benfica hoje soubessem vestir a camisola como esses jogadores.
É verdade.
Gostava que eles soubessem vesti-la.
É verdade. Concordo absolutamente. Falou-me da exigência, falou-me da escola que pode ser o desporto transferido para o resto, para aquilo que nos é pedido na vida, o cumprimento dos deveres, o serviço, a exigência que temos que ter. Mas isso tudo entra no seu critério, no seu processo de decisão, nas suas escolhas como diplomata? Esses valores norteiam a sua atividade como diplomata?
Sim, e mesmo no aspecto da gestão dos recursos humanos. Eu hoje sou embaixador em Angola e tenho que gerir uma grande equipa para os parâmetros portugueses e procuro geri-la um pouco como quem gere uma equipa de rugby.
Ou seja?
Ou seja, com solidariedade, espírito de entreajuda, sacrifício e naquela lógica de que trabalhamos todos para servir o bem comum e para uma única camisola, que é a camisola de Portugal. Ou seja, não interessa se estamos ali em representação do Ministério da Defesa, da Administração Interna. Não pode haver lógica de capelinha. Trabalhamos todos para algo superior, algo que nos transcende, que é Portugal.
Claro. Vamos continuar em Luanda, concretamente, a capital angolana, para depois passarmos aos outros postos onde representou Portugal e às funções que exerceu junto a António Guterres e António Costa. Mas gostava que sobre Luanda e como falou da embaixada e na gestão de recursos humanos, o seu exército é de que tamanho?
São algumas dezenas. Depende, com o consulado também. Mas é um universo grande para os parâmetros portugueses.
Portugueses, exatamente. Várias dezenas, foi uma coisa que eu talvez nunca tenha visto, e andei muito pelo mundo. E já tinha estado em Luanda com o embaixador Francisco Ribeiro Telles.
Exatamente. Atual secretário-geral do Ministério das Relações Exteriores.
Exatamente. E António Costa um dia pediu, corria o ano de 2022, para ir para Angola. Como é que viu a possibilidade desse regresso a um sítio onde já tinha estado? Com entusiasmo, com energia, com ânimo ou com dúvida?
Com grande sentido de responsabilidade. Eu acho que um diplomata português, e logo um embaixador que iria para o seu primeiro posto como embaixador, não pode, não deve recusar um desafio como Luanda. E portanto, encarei com grande responsabilidade e também senti-me honrado com o convite, como é evidente.
posto como embaixador.
Foi.
E era o embaixador mais novo de Portugal sempre.
E nessa altura, sim, em Luanda. Fui para lá com 48 anos.
Com 48. Agora já-
51.
51, exatamente. Então 51, falta mais um ano ainda em Luanda.
Mas isso agora depende do governo português. Mas o tempo de rotação normal para um posto como Luanda, são três, quatro anos.
Sim. E talvez apanhe então os 50 anos da independência.
Vou apanhar. E já recebi a indicação que tenho que lá ficar pelo menos até o final deste ano, porque é um período importante, são os 50 anos da independência de Angola, é um marco muito importante. Já tivemos os 50 anos do 25 de Abril. Eu tenho insistido muito na importância desta celebração ser feita de uma forma interligada. Primeiro porque é historicamente verdade. E depois porque é uma forma de nós sublinharmos a maturidade, a igualdade e a fraternidade da nossa relação. De modo que da mesma maneira que foi importante que o presidente João Lourenço aqui estivesse para as comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, agora é fundamental que nós lá estejamos também representados ao mais alto nível.
Com o Presidente da República.
Que é o que irá acontecer, e com o governo. E também houve várias coisas que conseguimos fazer a reboque destas celebrações interligadas, que eu acho que têm uma grande carga simbólica. Como, por exemplo, a reabilitação dos talhões militares portugueses em Angola, que era uma coisa que estava parada e que foi um gesto de generosidade do governo angolano em vésperas de vinda a casa do presidente João Lourenço. Eu a primeira vez que fui àquele cemitério em Luanda, ao cemitério de Sant'Ana e vi aquelas centenas de campas abandonadas, aquilo causou-me uma profunda impressão. Era uma realidade que eu já conhecia da minha anterior passagem, mas fiz questão de voltar.
E ter uma iniciativa a seguir.
Sim, e de tentar puxar por este assunto. Há outro tema que também eu acho que é muito simbólico, que é o Museu da Luta de Libertação Nacional, que é uma obra que parte da reabilitação da Fortaleza de São Francisco do Penedo, que é uma das mais antigas fortalezas à entrada de Luanda, que já foi tudo, já foi uma fortaleza portuguesa, já foi um depósito de escravos, já foi uma prisão, onde aliás o meu pai esteve preso. De modo que isso também acresce, o fato de meu pai ter lá estado preso há cerca de 62 anos, quando participou, depois de lá ter combatido uma tentativa de golpe militar, depois foi entregue à PIDE e esteve preso na outra prisão de Luanda da PIDE, que era a de São Paulo.
Aliás, podemos só aqui abrir um parêntese para dizer que é uma excelente biografia que o seu pai fez, Manuel Alegre, no ano 2024.
Sim, e tem uma parte muito interessante sobre África e sobre a passagem por Angola.
Muito interessante.
Tanto a experiência da guerra como depois a da prisão.
E não imagina para mim, que o entrevistei na sequência da publicação do livro, ou seja, quando saiu o livro, o falar com ele sobre Angola e agora estar a falar consigo, o filho, e como embaixador em Luanda.
Ele tem uma ligação muito forte a Angola, por causa da experiência da guerra. E aliás, na minha anterior encarnação angolana, estive lá de 2009 a 2012, eu levei-o a N'da Moatongo, com o apoio então das autoridades, que foi o sítio da guerra. Ele esteve colocado em vários pontos de Angola, mas foi onde teve a experiência mais dura e onde, aliás, perdeu alguns companheiros.
Exatamente.
E fomos lá em peregrinação e foi muito bonito.
De certa forma, já respondeu um pouco a isto, mas podemos desenvolver. Como é que definiria o ponto da situação hoje das relações entre Portugal e Angola? Porque eu tenho um bocadinho uma dúvida se Portugal não devia acarinhar mais, interessar-se mais, falar mais, dar um valor mais continuado na sua relação com as Áfricas de expressão portuguesa, sobretudo Angola, que pode dar ideia a um português que ocorrem com mais intensidade quando há uma visita de Estado ou quando há uma data, mas nos intervalos disso tudo, não sei se há um interesse e uma atenção prolongados no tempo, contínuos.
Há uma relação muito densa a todos os níveis, incluindo económico, porque nós temos lá grandes empresas, temos mais de 1250 empresas lá, temos 5000 empresas a exportar para lá, temos um setor, que é o da construção civil, que tem uma presença lá predominante, ou seja, as nossas empresas, no seu conjunto, as de construção, faturam milhares de milhões de euros. E, portanto, é uma presença econômica muito forte, é uma relação em termos de cooperação a todos os níveis, também muito abrangente. Agora, também é verdade que ao longo dos últimos anos, e esta questão da experiência europeia e da política europeia capta muito o interesse.
Vamos desenvolver isso na segunda parte. Esperem por mim e pelo embaixador Francisco Alegre. Voltamos dentro de um segundo. Estava-me a dizer que a Europa tem tendência, ou que é natural que ocupe mais, ou que prenda, que interpele mais é isso.
Sim, interpela. Hoje a política europeia é uma continuação da política interna. E tem uma dinâmica, mais ainda com o que se tem vindo a acontecer agora na Ucrânia e agora com os Estados Unidos.
É omnipresente.
É omnipresente.
E é natural.
E açambarcadora da atenção.
Claro. Da atenção.
Mas isto não significa que Portugal, que Portugal continua a ter uma voz importante, mesmo na Europa, sobre estas questões, nomeadamente a relação com África, com o Brasil.
Claro. É mesmo Portugal quem pode ter.
Sim.
Exatamente. Dos 27 países. Estava há pouco a dizer-me que há uma presença económica fortíssima, e os portugueses sabem isso, mas eu também me lembro, que numa entrevista que deu recentemente, longa, agora em março de 2025, longa ao Jornal de Angola, que contou que o presidente João Lourenço o chamou e lhe pediu pra ser uma espécie de advogado, no sentido que as empresas portuguesas investissem mais e houvesse mais empresas, as que estão a investir ainda mais e novas. Houve, conseguiu, foi um bom advogado?
Isso foi logo no princípio, porque de fato houve uma série de anos, Angola teve mais de cinco anos de recessão econômica, depois veio o Covid, houve a chamada crise dos pagamentos e, portanto, houve muitas empresas portuguesas que saíram de Angola.
Mas aí foi um erro do governo angolano.
Houve uma conjugação de fatores. Angola tem ainda uma excessiva dependência do petróleo e, portanto, sempre que há variações no preço do petróleo, isso repercute-se na economia. Hoje, quer dizer, eu acho que continua a haver boas perspectivas. Estamos a atravessar um momento mais difícil em Angola, tem havido algumas dificuldades, há escassez de divisas.
Sim, há problemas no norte.
Não, estou a falar da parte econômica.
Ah, sim.
Da parte econômica. Mas há setores com grande potencial, como a agricultura, como o turismo e outros setores. E há também agora este projeto do Corredor do Lobito, que tem suscitado a atenção de todas as grandes potências.
Quer desenvolver só um pouco para os nossos-
O Corredor do Lobito é o antigo Corredor de Benguela, é a linha ferroviária que vai do Porto do Lobito até à região de Kolwezi, na República Democrática do Congo, e onde estão as minas de cobre, cobalto, e a República Democrática do Congo é também um dos países mais ricos do mundo em minerais.
Eu sei, mas agora também com os luandenses é que não está.
Como terras raras, etc. Todos esses minerais que são absolutamente críticos pra economia moderna, pra economia digital, ou seja, e pras baterias, pros telemóveis, pros computadores, tudo isso.
Pra vida hoje. Não pare de me contar um bocadinho de Luanda hoje, Angola hoje, o presidente João Lourenço, porque isso é interessante. E a vida partidária, por exemplo. Pode dizer que é totalmente normal?
Eu acho que ainda é um processo-
Normal, quer dizer, uma democracia estabilizada, parecida com a minha neste momento, com a nossa portuguesa neste momento. Não será o melhor exemplo de estabilidade, mas estou a falar de março de 2025. Como é que definiria o Parlamento angolano?
O Parlamento angolano foi eleito em eleições que foram reconhecidas.
Livres, é o que eu sei.
Incluindo por Portugal.
Sim.
Nós temos que respeitar a soberania de Angola, o seu processo, o seu percurso de consolidação democrática. Não acho que nos devamos colocar numa posição de-
Não, de crítica. Não, não era isso.
Os graus de exigência, os contextos, a região em que estamos.
É muito diferente.
É muito diferente.
A natureza é diferente.
É diferente. Não diria que podem ser comparáveis.
Comparáveis. Não devem ser. Eu reconheço isso.
É um percurso, é um caminho. Acho que Portugal deve estar disponível para ajudar na medida do que for considerado necessário e oportuno pelas autoridades angolanas, por exemplo, na questão das autarquias. Mas isso é uma questão que cabe aos angolanos decidirem e pilotarem. Não a nós. Quer dizer, Portugal construiu a sua própria democracia, não é?
Claro.
E é assim que, a meu ver, se consolida.
Tem a noção que os angolanos, pelo menos os luandenses, que é onde vive e onde está e exerce funções, sentem, apercebem-se que vivem em democracia, que votam, que têm os seus partidos, as suas preferências.
Eu acho que há um grande interesse, noto isso, por exemplo, nas redes sociais, onde há uma grande animação no debate. Acho que Angola tem um enorme desafio, que é a juventude da sua população.
Eu ia lhe falar disso. Como é que os jovens vivem a política.
A idade mediana em Angola hoje em dia ronda os 16 anos. É uma coisa impressionante.
Não é impressionante isso?
Eu quando passo muitos meses em Angola e venho a Portugal, tenho a sensação que sou-
Num asilo?
Isso.
Não queria dizer, mas...
E, portanto, isso é Representa enormes desafios, também grandes oportunidades. Agora, a maior parte destas pessoas, mais de metade da população angolana já nasceu e cresceu depois do fim da guerra civil. Portanto, tanta memória da guerra civil, como do próprio colonialismo, já são coisas que dizem pouco. Esta população jovem quer perspectivas, quer empregos, quer as coisas que os jovens de hoje, em qualquer parte do mundo, também querem.
Exatamente. Olhe, eu gostava de ouvir sobre as suas outras passagens em Timor, Nova York, Roma, etc. Mas antes tenho uma pergunta de um assunto que eu achei muito interessante. Numa recente votação nas Nações Unidas, uma grande parte das nações africanas, entre elas Angola, absteve-se numa muito polêmica votação de uma resolução assinada pelos Estados Unidos e pela Rússia, praticamente ilibando a Rússia da invasão da Ucrânia, etc. Isto é um facto relevante ou não? Tomou como relevante esta abstenção de Angola com outras nações? Não ficou surpreendido?
Não, não fiquei surpreendido. Eu acho que nós, na Europa e no Ocidente, que agora está partido, não nos apercebemos bem do ressentimento que existe contra esse dito Ocidente. Por uma coisa que nós ouvimos muito aos africanos, que é o fato de haver um double standards. De nós, por exemplo, reivindicarmos o respeito pelo direito internacional no tocante à questão da Ucrânia, mas depois, quando se fala do Médio Oriente, aí já tergiversamos. E portanto, isso é nos assacado, é nos apontado e todo o curso dos acontecimentos ao longo dos últimos anos tornou essa interlocução mais difícil, nomeadamente com os países africanos. Depois, é preciso ver, nomeadamente no caso de Angola, que as relações com a Rússia são antigas e são profundas. A União Soviética deu um tremendo apoio.
Mas podiam ter votado a favor, eu disse que se abstiveram. É política, é o jogo político.
É uma forma de gerir o equilíbrio. Eu acho que os próprios africanos também estão a tomar consciência que há muito já isso, e Angola é um caso paradigmático, e tem se destacado na sua ação diplomática, de mediação diplomática, de conflitos, nomeadamente nos Grandes Lagos, mas são nossos parceiros e aliados numa questão fundamental, que é a defesa do direito internacional e da Carta das Nações Unidas. Portanto, aquilo que aconteceu na Ucrânia, aquilo que tem acontecido no Médio Oriente. Agora, o que vemos acontecer ali na República Democrática do Congo, com estes avanços do Ruanda, anexando de facto partes do território do Congo, é qualquer coisa que não acontece por acaso. Tem a ver com este contexto de pressão e de ameaça sobre o direito internacional.
O Francisco Alegre Duarte esteve em posto em Timor, Nova York, Roma, não sei se foi por esta ordem, foi também assessor diplomático, já o dissemos aqui, de António Guterres e António Costa. Primeiros postos: o que é que retém mais de Timor, de Nova York e de Roma, três continentes, três postos de natureza tão diferente?
Telegraficamente, em Timor estive lá em 99 no referendo e foi uma experiência única, irrepetível, foi viver a história por dentro e foi tremendamente exigente. Vivi momentos de uma enorme intensidade, vi episódios de violência também de uma intensidade tremenda, vi muita gente a ser morta, de toda a maneira e feitio, e vi também o melhor e o pior dos homens. E a coragem, o sentido de honra ou a ausência de coragem e de sentido de honra não escolhem hierarquias.
Pois não. E trabalhou com quem? Estava com quem?
Estava numa missão de observadores nomeada pelo Estado português, que tinha várias componentes, uma componente diplomática.
Quanto tempo esteve?
Foram uns meses. Portanto, foi na sequência dos acordos de Nova York, 5 de Maio, e estive lá até à realização do referendo, depois começou a violência e ficámos depois refugiados na AMET até sermos evacuados. Depois estive também em Nova York. Como referiu, na altura as Nações Unidas funcionavam bem, incluindo o Conselho de Segurança.
Não é o caso agora.
Nova York, além de ser uma grande cidade.
Com que embaixador foi?
Com Santa Clara Gomes e depois João Salgueiro, que foi com quem eu trabalhei mais tempo. Tive alguns dossiês como novamente o de Timor e operações de paz, mas Nova York é acima de tudo, para um jovem diplomata, uma grande escola, porque na altura, os países mandavam para Nova York, normalmente, os seus melhores diplomatas.
Acha que aprendeu?
Aprendi muito vendo os outros a fazer. Não só fazendo, mas vendo os outros a fazer e vi diplomatas absolutamente brilhantes fossem eles franceses ou paquistaneses, de todas as nacionalidades, e fiquei também com uma ideia de quais as melhores diplomacias mundiais.
Qual acham?
Isso não quero ofender ninguém.
Senhor embaixador é um entrevistado difícil.
Vi alguns bons exemplos.
O seu pai, se estivesse aqui, tinha-me dito o que pensava deste momento. Você não diz o que é que ele pensaria. Agora pergunto-lhe quem são as grandes diplomacias, é uma pergunta muito interessante, que merece uma resposta muito interessante.
Há diplomacias com grande tradição. Olhe, gostei de ver trabalhar os paquistaneses, os egípcios, os turcos. Isto para fugirmos ao nosso universo europeu ocidental. Os russos são bons, os chineses são bons. Têm um grande critério na escolha, uma grande exigência. De modo que acho que foi uma boa escola.
Quanto tempo esteve?
Estive perto de quatro anos.
Bem bom, quatro anos novaiorquinos. E Roma foi com quem? Com que embaixador?
Roma, estive com o Manuel Lobo Antunes, que era o assessor diplomático do António Guterres. Eu era o diplomata júnior.
Está bem.
E fui trabalhar com o Manuel Lobo Antunes. Também tinha trabalhado com ele quando ele foi secretário de Estado dos Assuntos Europeus e fizemos a presidência portuguesa da União Europeia em 2007, Tratado de Lisboa.
Exatamente.
E foi bom, depois de três anos em Angola, eu acho que a Itália...
E de outros continentes, foi bom também esse regresso à Europa.
Sim, e Itália é um laboratório de Europa, é um laboratório político da Europa. Itália, além de ser um país maravilhoso, lindíssimo, em tudo que tem a ver com a política europeia, são sempre pioneiros. Isso foi assim com o fascismo, com o Mussolini. Foi assim com a construção europeia. Alguns dos grandes vultos da construção europeia são italianos. Foi também a demonstração que alguns partidos que nós damos como absolutamente históricos e enraizados, podem desaparecer, como aconteceu com a Democracia Cristã e com o Partido Comunista Italiano. Portanto, é a prova de que os partidos, mesmo quando estão profundamente enraizados, se podem tornar historicamente dispensáveis. Depois tivemos o advento do Berlusconi, do populismo midiático, do justicialismo, e agora temos também este governo, que é de certa forma, não sei bem como é que eu hei de descrever, mas é o resultado de todo este percurso.
Mas está perante uma mulher política interessante.
Sim.
Ela tem qualquer coisa de interessante, que eu própria ainda não me percebi bem se seria capaz de escrever sobre ou definir, mas é um caso, pelo menos. Não diria isto de Marine Le Pen, em nenhuma dúvida.
É, sem dúvida, uma política muito carismática e com grande capacidade de comunicação e muito italiana.
Muito italiana.
Muito italiana, muito de Roma, também.
E muito Roma, também, exatamente.
Mas pronto, tudo isto que aconteceu em Itália também não pode ser desligado, por exemplo, do impacto que tiveram as migrações em Itália, como noutros pontos da Europa. Mas enfim.
Pois, exatamente. Seria uma longa história e como os diplomatas não podem dizer tudo, mais vale eu não me aventurar com um assunto tão quente, tão polémico, que tem sido maltratado do ponto de vista político, acho eu. Olhe, o que é ser diplomata?
Isso é uma pergunta...
Eu sei. Estamos a acabar e eu quero acabar...
No meu caso, ser diplomata português é ser Portugal, é representar Portugal, é defender Portugal incondicionalmente. É preciso ter vocação, é preciso obviamente ser patriótico, é preciso ter esse sentido de exigência.
Mas havia e há um sentido patriótico fortíssimo. Não, em sua casa. Foi uma coisa que eu sempre notei.
Sim, é verdade.
É verdade. E o livro do seu pai, aliás, mostra isso em mais que uma ocasião.
Eu sinto-me bem na pele de diplomata, porque sinto que estou a servir o meu país. E isso dá-me uma grande satisfação pessoal.
Já lhe aconteceu situações, por exemplo, delicadíssimas? Só o que acabou de dizer de Timor, já é em si uma experiência que teve momentos, certamente...
Já, mas o problema é que não posso falar sobre elas, ainda. Mas sim, já tive problemas delicados e missões delicadas e negociações delicadas. E felizmente não foram notícia, porque foram resolvidas, porque foram desarmadilhadas. E essa é a função de um diplomata.
Claro. Mas nessas alturas, quando estava perante uma situação muito delicada, virava-se para o embaixador junto do qual trabalhava, virava-se para alguém, para alguma coisa ou tentava acima de tudo resolver sozinho?
Na medida do possível. Isso é uma questão de critério, depende da situação. Há casos em que é preciso as chamadas instruções, e é preciso que o poder político seja envolvido. Noutros casos, assumi eu
Claro, assumiu a responsabilidade do critério, da exigência, da credibilidade da sua decisão, etc. Já temos falado aqui do legado que recebeu dos seus pais, e ficou aliás muito bem explicado, mas há uma coisa que veio quase em linha reta ou mesmo em linha reta. Francisco Alegre Duarte também escreve, não poesia como o pai, que sobretudo é um poeta, mas escreve livros infantis. Como é que começou esta história de escrever histórias para crianças? Foi por causa dos seus quatro filhos? Foi porque gostava de escrever?
Começou com os meus dois filhos do meu primeiro casamento. Eu tive um divórcio, ia ficar longe deles, na altura ia para fora, e foi uma forma de estar próximo deles.
São gêmeos ou é uma ideia minha?
São gêmeos falsos, nascidos em Nova Iorque. Têm agora 20 anos, são o Pedro e o João.
E fazem o quê agora?
Estão na universidade. Um está para engenheiro informático, o outro está em Ciências da Música.
Aqui?
Aqui.
Há aí um músico e outro em Engenharia.
Exatamente.
Que interessante. E começou a escrever, mas já escreveu, que eu saiba, três, quatro, cinco, seis ou sete.
Sim, também já escrevi para os meus mais pequeninos. O último é com os meus mais pequeninos.
Está a escrever algo neste momento?
Agora não.
Agora não. Em 10 segundos, diga-me se passados os 50 anos da independência de Angola e este ano de 2025, gostava de um posto europeu.
Não necessariamente europeu. Agora gostava de talvez sair do trilho da lusofonia.
Claro.
E fazer uma coisa diferente, ter um desafio diferente pra mim e também pra minha família.
Francisco Alegre Duarte, foi um prazer falar com o filho de Manuel Alegre e Mafalda Mourão Ferreira, e com um embaixador tão bom. Muito obrigada.
Muito obrigado eu.