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Isabel Moreira é filha de Mónica Lima Mayer e de Adriano Moreira. Nasceu no Rio de Janeiro, a 2 de abril de 1976, e como ela gosta de sublinhar, veio ao mundo no dia, mês e ano em que foi aprovada a Constituição em Portugal. Coincidência que nunca esquece. Licenciou-se em Direito na Faculdade de Direito de Lisboa. Na tese de mestrado, obteve 18 valores, por unanimidade, e também não esquece o por unanimidade. Lecionou Direito Constitucional, Direito Internacional Público, Direitos Fundamentais. Exerceu advocacia durante quatro anos, mas venceu a docência que passaria a servir em exclusivo. Foi assessora jurídica do então ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado. Isabel Moreira é atualmente deputada pelo PS e uma voz ouvida no Secretariado Nacional do partido, que ela integra. E escreve. Por gosto, diz ela. E tem obra publicada, acrescento eu, pensando que talvez nem todos o saibam quando a veem intervir no Parlamento, debater nos ecrãs ou defender causas com veemência. Olá, Isabel.

Olá.

Muito obrigada por estar aqui comigo.

Obrigada eu pelo convite, é um gosto.

Consigo tem de começar-se em casa, acho eu. Uma morada especialíssima, habitada por uma figura senhoril, como era o seu pai, professor Adriano Moreira, uma mãe muito presente e cinco irmãos. O que é que foi relevante ou mesmo essencial na sua infância e adolescência? O que é que a marcou? De que é que você se lembra com mais relevo?

Eu, antes de vir para aqui, estava a pensar, como já várias vezes me perguntaram questões sobre a minha família. Até fruto da época que estamos a viver e do trabalho que desenvolvo há muitos anos na Subcomissão para a Igualdade e Não Discriminação, ou na Primeira Comissão, que nos obriga a abordar temas muito difíceis, como jovens e crianças em risco, a violência doméstica, agora a delinquência juvenil, que está a aumentar muito, há uma coisa que eu tenho observado com especial atenção, que é o fato de ser muito determinante para o que se é em adulto, ter, ou não, uma infância segura e com amor e cuidado. E se há coisa que eu já salientaria sempre da minha infância e da vida em família na minha infância, hoje então saliento com uma gratidão enorme, que é um lugar que eu recordo de enorme amor, enorme segurança, enorme alegria, de proteção, de liberdade, de entreajuda, de barulho, do bom barulho.

Tem toda a razão. Há o bom barulho que é muito revelador.

Não é o barulho do medo, é o barulho da alegria. De uma coisa muito importante que é a partilha, porque quando somos seis irmãos, eu nunca tive um quarto só para mim. E portanto, quando se divide o quarto e divide-se roupa e divide-se brinquedos, tem que se ter cuidado com as coisas, a roupa passa, os livros escolares passam, portanto, escreve-se a lápis e apaga-se. Não se pode estragar as coisas. Negocia-se a hora de se apagar a luz, porque uma irmã quer ler até mais tarde, no outro dia, ao contrário.

Os banhos, quem toma primeiro os dois.

Os banhos é terrível. Eu tinha um truque, era dizer sempre últimas, que é para saltar ali na escadinha dos seis. E eu acho que se fica com, primeiro, uma base muito forte, porque mesmo que venhamos a sofrer golpes duros na vida, enfrenta-se muito melhor de outra maneira, se tivermos uma infância assim como deve ser. Isto é, não cabe às crianças pensarem ou resolverem problemas duros da vida, dos adultos, passarem para elas, violências dos adultos, testemunhar violências, passar fome.

Não cabe.

Não cabe às crianças. E nesse sentido, foi mesmo um lugar de enorme alegria e partilha. E era natural, não me passava pela cabeça ter uma bicicleta minha ou ter uma coisa que fosse só minha, ou não partilhar. E portanto, há características positivas minhas, como haverá certamente muitas negativas, que vieram disto.

Mas era exatamente por isso que eu a convidei, por saber do legado.

Que vieram de sermos muitos, de ter um pai e uma mãe muito presentes, apesar de um período bastante de ausência, em termos de horas, do meu pai, por ter uma vida política muito ativa, mas era um pai de muita ternura, de saber como ser com cada filho ou filha, porque cada filho ou filha é diferente e, portanto, com certeza tenho uma história diferente para contar da que cada um dos meus irmãos tem. E depois, coletivamente, temos uma outra história. Isso é muito interessante. Assim como acontece com os netos. E depois, o estar à mesa ou conversar-se muito, o rir, a minha mãe ser a pessoa mais engraçada que eu conheço. É hiperbólica, é muito divertida, muito corajosa A ideia da coragem ficou muito. E depois essa questão do amor pra mim é fundamental. Eu lembro sempre, por exemplo, muito pequenina, em ouvir aquele toque da escola, e eu pensar: "Do outro lado do portão está a minha mãe, com os braços". E eu acho que isso, depois, quando nós passamos por momentos duros, e eu passei por alguns, como tanta gente, se nós temos bases muito fortes de amor sobre o que vivemos-

Segue pra frente de outra maneira.

De outra maneira, porque eu tenho estudado muito esta área da violência doméstica, da violência juvenil, dos traumas que ficam. O que se vê de uma criança que testemunhou, por exemplo, violência doméstica, que testemunhou pais abusivos, que foi abusada em criança.

Sim, é quase indiscutível.

E até coisas muito menos violentas do que isto. Mas traumas de infância são os piores traumas de todos. E eu, além de não ter tido isso, tive o oposto em grande.

Olhe, o seu pai foi uma-

Acho que o amor, o maior legado foi o amor.

O seu pai foi uma presença marcante no antigo regime e depois voltou a sê-lo na democracia. Eu sei que conversavam imenso os dois. A curiosidade da sua filha Isabelle orientava-se mais pra quê? Era muito pra própria história do seu pai, pro acadêmico e político que ele foi, era também pra aprender, era pra ir aprendendo, ouvindo? O que é que retém agora você e o seu pai?

Eu e meu pai vivíamos o presente. Meu pai não era o Adriano Moreira, era o meu pai, em primeiro lugar.

Com certeza. Tenho isso presente. Mas alguma coisa escorreria do Adriano Moreira pra filha.

O fato de com seis anos estar a viver uma campanha eleitoral em que meu pai era presidente do CDS.

Olha, eu fiz essa campanha toda com o seu pai.

Eu interessei-me muito e quis saber o que era uma moção de censura.

Que idade é que tinha?

Seis. E percorria algumas etapas e assistia a comícios e achava aquilo bastante fascinante e queria perceber o que era isso do voto útil e fazia algumas perguntas. Mas a relação com meu pai foi, sobretudo, uma relação de enorme desafio intelectual, porque a minha casa era uma casa com muitos livros. Eu via que meu pai era uma pessoa que aparecia, eu lembro de ser pequenina, via que meu pai aparecia na televisão, por exemplo, e não percebia logo por quê.

Ia escrever nos jornais.

Ia escrever. E depois quando fui percebendo, via meu pai no Parlamento, e foi uma coisa que me interessou, mas durante muitos anos era, sobretudo, o afeto. Eu gostava muito de conversar com meu pai, era intuitivo, eu gostava muito do colo do meu pai. Eu gostava muito quando ele dizia: "Queres ir lanchar fora?" Era uma coisa que nós fazíamos muito, ou se muito almoçar fora ou jantar fora, nós íamos muito lanchar fora.

Ao fim de semana ou de vez em quando.

Não, mesmo durante a semana, ir a um café, por exemplo, eu gostava muito de ir a cafés com meu pai. Eu fazia uma pergunta sobre o que quer que seja, ele, de fato, tinha uma cultura invulgar.

Por isso é que eu falei do aprender também.

Do aprender. E eu gostava muito de ouvir falar sobre as origens dele e da aldeia e dos meus avós. Eu conhecia os meus avós, porque foram pais muito jovens. Portanto, também me interessava esse contraste do mundo rural.

Claro, e o mundo urbano.

E do mundo urbano. E, sobretudo, eu amava profundamente o meu pai e depois, à medida que fui crescendo, eu achei que o meu pai tinha sido bastante progressista enquanto ministro do Ultramar.

Do antigo regime.

Sobretudo com a revogação do estatuto de indianato, com a aprovação do Código de Trabalho Rural, com o fim das culturas obrigatórias. E interessei-me por ler os próprios diplomas em si. E acho que foi arrojado enquanto advogado, naquele momento em que foi preso e conheceu Mário Soares. E eu também conheci o Mário Soares em minha casa. Testemunhei histórias muito giras.

Nunca pensou escrever, só um ente para ele?

Não, porque o meu pai escreveu memórias e eu acho que escreveu...

Não, eu sei. Daqui a uns anos, coisas que tenham a ver especificamente consigo, claro, com o seu pai, mas consigo.

Mas eu acho que tive a sorte de conhecer políticos e amigos de meu pai, de esquerda e direita interessantíssimos, homens e mulheres, escritores, escritoras, de todos os quadrantes políticos. E depois aconteceu uma coisa que foi lenta, que foi eu descobrir-me a mim. E descobrir-me a mim significou, sobretudo, com o estudo do direito constitucional, como acho que já expliquei algumas vezes, eu perceber que eu estava muito próxima da social-democracia representada no Partido Socialista, portanto, eu descubro-me socialista, não por questões de direitos humanos, do tipo casamento entre pessoas do mesmo sexo, mas por questões do como é que se combate a desigualdade. E até me descobri nas conversas com meu pai, bastante próxima dele, e brincávamos com isso, porque ele, na democracia cristã ou na doutrina social da Igreja, em muitas coisas éramos muito menos distantes do que se pode parecer. E, sobretudo, o que eu descobri é que ele era muito mais novo do que alguns jovens que estão bastante velhos.

Isabelle, evidentemente que havia política em casa e debate político, conversas à roda da política, etc. Mas um dia a política bateu-lhe à porta ou foi você que bateu à porta dela? Como é que surgiu esta morada partidária? Já acabou de explicar que foi o PS pela razão que explicou. Mas foi a Isabelle que foi ter com o Ou foi alguma coisa ou alguém que foi ter consigo?

Eu fui ter com a política neste sentido. Quando uma pessoa se apaixona por direito constitucional, que foi o que me aconteceu logo no primeiro ano de direito, não se consegue ter uma leitura apolítica do direito constitucional, porque o direito constitucional é um direito extremamente político. E quando se tem uma leitura dos direitos sociais mais iluminada pela social-democracia, isso tem um peso político. Quando se tem uma revolta interior relativamente à desigualdade social, que é depois canalizada para um determinado sentido político, isso tem um reflexo na forma como lemos o direito constitucional. Isto já é em si um encontro interior com a política. Depois, com a militância da ativista, foi um acaso. Ou seja, quando duas mulheres pela primeira vez quiseram casar e ainda era legalmente proibido, o advogado perguntou-me, enquanto discente, se eu quereria escrever um parecer para o Tribunal Constitucional. E não me passou pela cabeça dizer que não. E quando escrevi e publiquei-o em livro, aquilo criou uma tal celeuma na faculdade, um choque, porque não havia nenhum livro a defender isso. Escrevi em conjunto com o professor Luís Duarte Almeida e com o professor Pampolha da Corte-Real, mas eu era a mais nova, era mulher.

Sim, claro.

Causou ali um espanto.

E era logo um tema.

E isso é que me causou fúria.

Um espanto furioso.

Porque ficarem indignadas com uma opinião acadêmica era uma coisa que eu não estava à espera tão tarde. Era apenas uma opinião, e os alunos depois que debatessem, quer dizer, era uma defesa de que era inconstitucional, como muitos anos antes alguém tinha defendido que era inconstitucional continuar-se a proibir o casamento entre negros e brancos. Quer dizer, para mim era apenas uma opinião. E o facto de aquilo ter causado tanta raiva e tanta celeuma na faculdade contra mim, algum bullying moral, etc. E eu ser convidada para debates e os debates serem tão acesos. Eu, como era muito acadêmica ainda, aquilo criou-me uma indignação enorme.

E que consequência teve essa?

A consequência é que eu estive na formação do Movimento pela Igualdade para pressionar o Partido Socialista a incluir no seu programa eleitoral o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Mas já estava no Partido Socialista?

Não, de forma alguma. Eu, como repito, o meu mundo era acadêmico, que não deixa de ter uma dimensão política, com certeza. Os debates que eu entrei na despenalização da IVG foram acadêmicos, ninguém deu por mim. Eu não concebia, na minha visão ingênua da liberdade de expressão, que um livro escrito por uma assistente da Faculdade de Direito, com um mestrado, com boa nota, que uma opinião jurídica fosse causar indignação, como se fosse um tema intocável, que tantos casamentos já podiam adotar, etc. E, portanto, eu percebi: caramba, eu só estou a defender que as pessoas possam aceder a um instituto jurídico laico, mas está tudo bem, defenda o contrário. E aquilo começou a incomodar-me, a mexer muito comigo, que outras pessoas não pudessem ter um direito que eu tinha. E comecei a estudar as estatísticas, enfim, os bullynings por aí fora, e a perceber que se o Estado desse esse sinal, enfim, muitas coisas seriam melhores. E então percebi que era uma coisa importante e resolvi entrar nesse movimento, largar a docência e entreguei-me de corpo e alma, e o PS reparou em mim nessa luta.

Quem, no PS?

O Sócrates.

Sim.

E é o Marcos Perestrello que me convida. Eu pensava que me estavam a chamar para fazer um parecer jurídico ou qualquer coisa do gênero.

Não era? Era para entrar.

Era para integrar as listas para a candidatura, no fundo, a dizer, em vez de estar sempre em reivindicações absolutamente legítimas para mudar a lei, venha fazer leis. E eu fiquei muito espantada, porque não me tinha ocorrido.

Mas gostou do convite?

Gostei.

Percebeu o contexto e gostou.

Percebi e achei que era um desafio muito interessante para quem dedicou tantos anos da sua vida ao direito constitucional e à ciência política e a explicar aos alunos como é que se faz a lei, o que é que é o direito parlamentar, integrar isso mesmo. E, portanto, demorei 24 horas a decidir e aqui estou.

Isabel, nós vamos ter que fazer aqui um muito pequeno intervalo. A Isabel vai esperar por mim e os ouvintes vão esperar por nós, e vamos continuar esta conversa tão interessante. É só um segundo. Isabel, a um primeiro olhar, e embora a Isabel tenha explicado muito bem que a doutrina social da Igreja e a democracia cristã nem sempre destoam de outras doutrinas, mas numa família conservadora, a escolha do Partido Socialista, não sei se causou espanto ou concordância, ou fosse que tipo de reação foi. O que eu lhe pergunto é:

Foi comprar uma garrafa de vinho tinto e beber uma saúde comigo, o meu pai.

Nesse dia.

Saudou, sim, muito. Ficou muito feliz.

Ficou muito feliz. Mas o que é que levou a si, agora pondo o pai e a mãe entre parêntesis, o que é que levou a si a escolher decididamente a esquerda e não a direita? Foi um convite, foi a coincidência de um convite? Não foi.

Eu entrei como deputada independente. Fiquei independente um ano.

Mas foi para ali que entrou. Portanto, foi a coincidência de um convite.

Não, eu já votava no Partido Socialista. Já tinha votado no Jorge Sampaio há muitos anos, muito nova, para presidente.

Exatamente. O que a interpelou de uma maneira decidida a que o voto, a sua pertença, a sua morada política, a sua vida política, fosse para a esquerda?

Em primeiro lugar, a partir do momento em que comecei a estudar mais a fundo, sobretudo no 12º, Filosofia, com uma pessoa que me marcou muito, que é o Rui Nunes, não o Rui Nunes da bioética, mas o Rui Nunes escritor. Mas depois, sobretudo, com a solidificação do Direito Constitucional no primeiro ano, eu percebi que eu tinha duas ânsias dentro de mim. Uma ânsia muito forte por uma liberdade que eu sentia que não era bem-vinda na direita e uma indignação com a desigualdade social, que eu via melhor resolvida, sem nenhuma superioridade moral.

E entretanto o seu pai era dirigente de um partido de direita.

Uma indignação relativamente à desigualdade social e até uma espécie de incômodo com o meu privilégio quando via colegas meus que não tinham acesso a livros com a facilidade que eu tinha, ou a comida, ou a roupa. Isso causava-me uma consciência do meu privilégio muito forte.

Achou a esquerda é que resolve isso?

Não, o que eu estava a dizer, precisamente, é que a minha indignação com a desigualdade social e o meu desconforto com o meu privilégio, seja social, seja relativo à minha orientação sexual, seja em relação à minha etnia, levou-me a, depois de estudar, não foi uma coisa de quem já nasce numa família de esquerda, é quase que intuitivo.

E por isso é que te estou a perguntar.

Levou-me a estudar precisamente porque me calhou gostar de Direito e calhou gostar muito de Direito Constitucional, levou-me a acreditar que, sem superioridade moral nenhuma, eu acredito e acreditei cedo. Cedo, não, tarde. Aliás, tarde, não foi aos 15, foi aos 18, 19, que a área política que tinha as melhores respostas para isto, para os problemas da maioria da população e não de uma parte mais pequena, era a esquerda democrática. E portanto, comecei a votar no Partido Socialista. Aí até já vinha de antes, a minha adesão a determinados artistas e a determinados livros, tinha a ver com uma espécie de ânsia pela minha própria libertação individual e de adesão a tudo o que fossem movimentos libertários, a minha repugnância por tudo o que sejam restrições a liberdades individuais, desde que elas não incomodem terceiros. E portanto, como constitucionalista, até tudo o que seja movimentos libertários, como foram os movimentos abolicionistas relativamente ao racismo e depois relativamente às mulheres, eu não via qualquer razão. Não que isso para mim fosse a luta principal, mas foi depois uma luta que me definiu muito, porque eu estive envolvida nesses processos legislativos, mas que eu achava que ia ser muito fácil, na minha ingenuidade. Eu por acaso comecei, por ser conhecida, quando impugnei com outras pessoas os orçamentos de Passos Coelho, quando cortaram dois subsídios de férias e dois subsídios de Natal. E eu sou uma das pessoas que redige aqueles processos junto do Tribunal Constitucional e nem sequer o PCP aderiu ao início porque achavam que não íamos conseguir. E nessa altura, foi o meu grande primeiro ato político. E isso, para mim, era aquilo que me definia, se quiser, de uma forma mais visceral, em termos de esquerda, era eu ter achado não só grave politicamente, mas inconstitucional, em termos de medida sacrificial, escolher aquele grupo mais restrito, tão fragilizado. E a verdade é que o Tribunal Constitucional nos deu razão. E eu achava, do ponto de vista da libertação, que aquilo que eu tinha estudado relativamente à etnia ou às mulheres, deveria fazer o seu caminho relativamente às pessoas homossexuais. Não imaginava que ia ser uma luta tão acesa, o casamento, a adoção, a procriação medicamente assistida.

Mas isso podia imaginar.

Mas lá está, como vê, eu era muito ingênua, porque eu era acadêmica. Está a ver? Eu quando entro, eu penso. Para mim era tão impressionante imaginar que a proibição do casamento entre brancos e negros só tinha terminado em 1968 nos Estados Unidos e teve que ter sido por uma decisão do Supremo, que eu achava que explicar isto era bastante.

Mas deixe-me fazer.

Está a ver? E portanto, é aí que eu decido que é esse o meu caminho. O meu pai também cedo percebeu como é que eu era, porque se eu tenho vários volumes da história da subjugação feminina, não foi porque os comprei, alguém mos deu.

Alguém lhos deu.

Foi ele.

Mas deixe-me só dizer-lhe uma coisa. É preciso que, sendo vocês unha com carne, passe a expressão popular, uns com os outros em casa e havendo esse ambiente que já descreveu aqui tão bem, mais que uma vez, também era preciso que houvesse um enorme grau de liberdade, também foi uma palavra que já invocou, mas eu agora acrescento outra, que é também uma enorme tolerância, uma total ausência de constrangimento deles e dos seus irmãos, da família chamada da casa, perante algumas tomadas de posição sua.

Sim, houve momentos difíceis, mas eu aqui estava a falar do meu pai. Eu tento não falar muito dos meus irmãos, porque acho que eles não gostam de ser chamados.

E não é só isso, é porque não é porta-voz deles, claro.

Exatamente. Houve momentos de surpresa, porque nós temos uma relação normal e quando estamos juntos, nem sequer falamos muito de política. Portanto, gostamos de falar de outros assuntos.

Naturalmente, já por alguma razão.

Não. Eu lembro-me, o meu pai já tinha uma vida tão absorvida pela política, que quando estávamos todos à mesa, não era assim uma coisa que viesse. Eu também quando estou nesta minha transformação interior, não me ocorre de repente à mesa dizer: "Já agora, eu queria dizer que voto PS". Não é uma coisa que me ocorra. Agora, houve momentos de tensão? Houve. Houve momentos que eu senti que podia ser desamada, não propriamente pela família.

Não, eu agora estou a falar da sua família só. Da sua mãe, por exemplo, e de cada uma forma tão conservadora.

Da minha mãe e do meu pai, nunca. E acho que a minha mãe é uma pessoa que, relativamente ao universo da família dela, que é bastante conservador, também pela via Pela vida rica que teve de cruzamento de pessoas no seu casamento. A minha mãe é uma pessoa que para a geração dela e para o meio familiar dela, pelo menos na relação que tem comigo, é uma pessoa muito aberta.

Mas eu falei em abertura e em tolerância.

Sim. O meu pai detestava a palavra tolerância. Era uma palavra que o indignava e ele dizia que as pessoas têm que respeitar-se e não tolerar-se, porque ele achava que se tolerava o que via, o que causava alguma repugnância. Ele isso até dizia que dispensava, e eu também dispenso. E ele achava que nós devíamos respeitar-nos uns aos outros. Isto assim contado, parece tudo muito fácil. Não foi fácil, claro que não foi fácil, num universo muito conservador. Quando eu falo num universo muito conservador, é o lado da família da minha mãe, porque o lado da família do meu pai é comunista como sabe. E foi uma alegria, até acharam que eu devia ter virado mais à esquerda. Houve momentos difíceis. E eu sempre tive medo do desamor. Por sorte, não aconteceu e hoje está tudo bem.

Sente que precisa de ser amada, compreendida?

Acho que toda a gente precisa de alguma legitimação e de amor. E eu sobretudo, tendo rompido brutalmente com o mundo, sobretudo conservador, eu sou ateia, são católicos, estou a falar mais nesse sentido. O ser PS é um bocado indiferente. Agora, o rejeitar completamente o universo católico, ser ateia, o ter defendido causas, mas naquela altura, não, eu fui bastante pioneira, pelo menos no universo.

Gosta que digam que é uma mulher de causas, uma ativista?

Gosto. Gosto, até porque eu acho que a política em si, toda ela é uma causa. Agora, o que eu sentia? Como eu tinha esse medo e fiquei bastante sozinha no meu universo familiar, e quando eu digo familiar é muito alargado. Os primos, as primas, com quem eu cresci. Claro que ter um pai tão legitimador e que diz que tem orgulho, que me ama incondicionalmente, que me empurra pra frente, que celebra, que não perde uma intervenção minha na televisão, que acha que eu tenho n qualidades, que me acolhe, que me abraça, que celebra tudo comigo.

Está a fazer um elogio muito bonito ao seu pai.

É uma coisa que não tem explicação. Quer dizer, sobretudo porque, como eu digo agora, ele tinha a idade que tinha, que eu nunca a vi. E depois também tem a ver com uma coisa um bocadinho pessoal, mas não tem mal nenhum dizer, porque eu já disse. Eu não tive uma história feliz em termo de presenças masculinas na minha vida.

Sim. Portanto, também houve um amparo emocional.

O meu pai foi a referência masculina estável, íntegra e inteira da minha vida e isso é inestimável. E o meu irmão Nuno também.

Ai, seu irmão Nuno, exatamente. Nunca teve medo de se enganar, por exemplo, dar consigo a pensar: "Eu se pudesse voltar atrás, talvez tivesse feito de outro modo, ido por outro modo, expressado de outro modo". Alguma vez tem medo?

Claro, nós melhoramos com o tempo, porque eu quando fui atirada para os debates, eu nunca tinha feito um debate na televisão. Eu era uma pessoa de entrar numa sala de aula, de passar muito tempo a ler e a escrever, de ter estado num escritório com processos, de ter estado a assessorar. Eu não tinha sido feita pra aquilo, portanto, num primeiro debate, eu falei muito alto, porque como me interrompiam muito, eu achava que se não falasse alto, não era ouvida. Eu não sabia que quem tinha o microfone podia estar a gritar no público, que não havia problema nenhum. E portanto, eu acho que há imensas coisas que eu teria feito de outra maneira, com outra estratégia de apresentação de argumentos, mas isso acho que acontece a toda a gente com a vida e depois nós vamos acertando, limando arestas, melhorando a forma como apresentamos argumentos, amadurecendo. E depois a vida obriga-nos a ser mais resistente, porque depois já houve uma grande transformação.

É uma resistente. Estou a falar com uma resistente.

Eu acho que tenho sido, acho que aconteceram coisas muito duras na minha vida e acho que, pra além disso, a política transformou-se numa arena mais dura.

Do que era? Do que já foi?

Muito mais. O Parlamento era um palco de enorme respeito, com diferenças muito grandes ideológicas, mas eu variadíssimas vezes sentei-me à mesa com deputados, desde o CDS ao PCP, e gostava de imensas pessoas de todos os partidos. Despedi-me de vários deputados, ouvindo discurso de despedida e com palmas de todos. Ainda agora, há uns tempos, dediquei umas últimas palavras ao José Soeiro e a minha intervenção teve que ser interrompida por causa dos gritos de protestos do Chega. Quer dizer, era impensável, era a última vez que ele lá estava ao fim de tantos anos.

Mas diga-me quando é que isso estragou?

Quando o Chega foi eleito.

É quando acha que se estragou esse ambiente?

Porque acho que o Chega veio pra fazer isso, dizer que é antissistema quando faz parte do sistema, mas depois uma vez lá dentro, minar a democracia, como está acontecendo nos Estados Unidos agora e como vemos. Nós víamos, por exemplo, o último dia de deputado Paulo Portas, o que é que acontecia? Cada partido fazia uma intervenção, como fez, no caso, o Jorge Lacão do PS, mas todos fazíamos e no fim todos batíamos palma. Era uma coisa bonita, de respeito, e havia discordância, às vezes com assertividade, mas não havia ofensa.

E agora há?

Agora é horrível. Não se ganhou nada com aquilo.

Apesar de já tendo vindo à baila isto que eu vou perguntar, de diversas formas nas suas respostas, o que é que de muito grande ou de muito interpelativo lhe trouxe a política?

A política deu-me um sentido de vida. Deu-me um sentido de vida porque eu gosto muito de dar aulas. A advocacia sabia-me a pouco, porque cada caso é uma pessoa. E, em princípio, quem tem uma grande paixão por direito público, sobretudo por direito constitucional, é porque se interessa pela cidade, interessa-se pelo todo, interessa-se pelo outro com O grande. E quando se tem esta inquietação permanente relativa aos problemas de todos, à desigualdade e à possibilidade de fazer alguma coisa que tenha impacto no maior número de pessoas possível, mesmo que muitas delas não sejam notícia, como por exemplo, pequenas alterações que digam respeito a vítimas de tráfico sexual. Até porque são coisas que se faz com muita discrição.

Claro, ou com mais discrição.

Por causa dos criminosos, coisas que têm a ver, por exemplo, com a questão dos internamentos compulsivos, que foi uma grande alteração que eu estive muito envolvida e que me dá uma alegria enorme, porque no fundo, as pessoas estavam com uma pena de prisão perpétua por questões psiquiátricas.

Mas o que eu estou a perceber é que, no fundo, as grandes alegrias ou aquilo que você sente, consegui ou colaborei para, tomei parte nisto, vieram daquilo que se chama causas. Mas isto não é pejorativo, é o que é.

Repara, causa é sempre a justiça. Porque se nós, lendo relatórios internacionais, percebemos que em Portugal há pessoas que estão condenadas a uma pena de prisão de 70 anos, alguma coisa está errada e temos que mudar isso. E conseguir fazer todo esse trabalho e fazer uma reforma como deve ser, em termos daquilo que era o internamento compulsivo, é uma coisa muito boa. Ou se se consegue, de facto, mudar o paradigma daquilo que se chamava a família e se consegue ter a família no plural, e que as pessoas passam a ser felizes sendo casadas, homem e mulher, mulher e mulher, homem e homem, com as famílias no plural, e sobretudo as crianças, fruto dessas relações, que é o mais importante, verem seus direitos reconhecidos, isso é uma reforma civilizacional, é uma coisa muito importante. Podem concordar ou não, mas eu acho que há um antes e depois de eu e outras pessoas termos participado nesses processos. E eu acho que isso é muito importante, como outros movimentos que nos antecederam, relativamente ao reconhecimento das pessoas negras.

Isabel, ainda queria aqui fazer mais duas ou três perguntas e já estamos a voar. Isto é uma resposta curtinha, mas a que horas é que você pensa, pondera, conclui, decide? Tem que estar sozinha nesta tarefa do elaborar ou preparar uma decisão, ou em equipe?

As duas coisas, normalmente muito cedo e em equipe.

Em equipe. E uma não vai sem a outra?

Uma não vai sem a outra. Entre as 05h30 e 08h30 estou sozinha a pensar, sim.

Acorda tão cedo?

Acordo.

Acorda tão cedo.

Acordo.

Sim. Por quê? Porque gosta? Porque precisa do tempo?

Não, é instintivo, porque tenho uma cabeça demasiado agitada e acordo.

Isabel, teve com certeza que largar várias coisas para se dedicar, vários outros possíveis caminhos para se dedicar, melhor dizendo, quase em full time, ao andamento do país através do PS, do Parlamento, etc. Mas eu estou a lembrar-me que foi assessora jurídica do então ministro Luís Amado, ministro dos Negócios Estrangeiros, durante três anos, e que apreciou muitíssimo. E, portanto, eu gostava de a ouvir um minuto.

Gostei muito porque foi uma oportunidade de pôr em prática direito internacional público. Estive em alturas decisivas, os famosos voos da CIA que deram uma celeuma enorme e eu limitava-me a aplicar o direito, a verificar se o Estado português tinha agido de forma ilegal para a ação ou para omissão e não estava também habituada ao furor jornalístico. Fomos o primeiro país a oferecer-nos para receber presos de Guantánamo, portanto, problemas interessantíssimos. Para mim foi um desafio jurídico enorme e tive a possibilidade de trabalhar com um dos meus melhores amigos, que então na altura ficou para sempre, quase inseparáveis, o depois embaixador de Portugal em Cabo Verde, Paulo Lourenço, que morreu há menos de um ano. E também na Rede Aga Khan para o Desenvolvimento, que foi uma experiência absolutamente maravilhosa, que na verdade foi o último sítio onde trabalhei e rescindi o contrato para ser deputada.

E ainda vê de vez em quando o Luís Amado?

Não, por acaso é raro. Vi agora nas cerimônias fúnebres do Príncipe Aga Khan.

E era ótimo trabalhar com o Luís Amado?

Era um ótimo ministro, com imenso sentido de Estado. Quando se tinha de investigar alguma coisa, como foi a questão dos voos da CIA, não fazia qualquer diferenciação entre governos do PS ou outros.

Sim, claro.

Absolutamente imparcial e com enorme sentido de Estado.

Acho que ele faz um bocado de falta ao atual momento político. Eu teria gostado de o ver agora mais ativo e interventivo. Agora, para acabarmos, se eu disser intensa, dramática, corajosa, trabalhadora, exagerada, reconhece-se nestes adjetivos ou não?

Exagerada acho que não sou, porque depende. A não ser que eu esteja a representar, porque eu às vezes gosto de representar. E portanto, aí posso exagerar, mas é de propósito.

Esteve a representar aqui?

Não, eu aqui foi umas aulinhas de teatro.

Sim, mas aqui não esteve. Mas intensa, sim.

Intensa, sou.

Corajosa também.

Sim, acho que sim.

Corajosa também. Trabalhadora?

Sou muito trabalhadora.

Nem falar. É interessante que você é prova de que foi transportadora de um legado. Não foi?

Eu espero que sim.

E sente que está à altura daquilo que lhe foi transmitido desde sempre.

Eu acho que nunca tive nenhuma pressão para comparações. Acho que, sobretudo, a coisa que o meu pai mais quis foi que o amássemos tanto como ele amou o pai dele e os pais dele. Com certeza amei e o amo tanto, senão mais. Portanto, está feito.

Senão mais. Isabel Moreira, gostei muito, agradeço-lhe imenso ter estado aqui neste podcast e espero que a gente se veja em breve.

Igualmente, obrigada pelo convite. Foi um gosto.