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Joana Carneiro é filha de Roberto Carneiro e de Maria Rosário Amaro da Costa. Numa casa onde quase todos os seus oito irmãos aprenderam música, ela não só não destoou, como fez da música uma história e um destino, ou seja, tratou-se de uma vocação. Mas muito cedo o seu talento foi notado aqui e fora de portas. Os convites sempre se sucederam num carrossel que a fez, e faz, viver muitas semanas entre aviões, palcos e hotéis, o que é tanto mais extraordinário quanto teve quatro filhos em 15 meses. Após os três primeiros, nasceu outro. Apesar de uma família subitamente tão alargada, a música manteve o seu lugar de eleição e, quando pode, a maestrina Joana Carneiro regressa aos palcos. Hoje é também conselheira de Estado, desde 2024, por escolha do Presidente da República. Mas Joana não se atrapalha. Quando não pode estar presente, junta-se ao Palácio de Belém por interposto ecrã, como já tem sucedido várias vezes. Joana Carneiro, muito obrigada por ter vindo. É um prazer falar consigo. Já não é a primeira vez que a gente se encontra diante de um microfone ou de uma câmera. E com essa agenda à obra, ter vindo. Eu gostava de começar pela única maneira que sei de começar, que é: não sei por onde começar, neste sentido, tantas são as portas que você me abre. Vou começar por esta. Quem é que primeiro deu por isso, que entre os nove irmãos relativamente próximos e que aprendiam música e tocavam nos aniversários e nos Natais, que você era talvez a mais dotada?
Olá, Marijosá, muito obrigada. Sim.
Deixe-me só terminar. Foi o professor, foram os seus pais, foi algum amigo de casa, destes que eu sei que ouviam o clã Carneiro tocar música? Quem é que foi?
Olá, Marijosá, mais uma vez, e olá a todos os que nos ouvem. É muito bom falar consigo outra vez. Sem dúvida que esta vocação nasceu dentro da família. Foi notada na família, talvez desde cedo, porque tocávamos juntos. Eu tinha uma maneira de estar, mesmo na escola de música, muito extrovertida. Tinha muito à vontade, a tocar em público, a tocar em orquestra, a cantar no coro. E sempre houve uma alegria muito grande em tocar música, em cantar, quer seja em casa, quer seja fora de casa. Eu acho que também o facto de fazer parte de uma família que investiu também na música fora da parte académica, sempre frequentámos as salas de espetáculo em Lisboa, tanto o Gulbenkian como o São Carlos, à Aula Magna íamos muitas vezes, o Coliseu, faziam-se muitos concertos aí. E eu também dançava. Eu fiz ballet durante oito anos e há qualquer coisa entre o gesto, entre a expressão do corpo e a música-
E o reger.
...que me captou a atenção. E embora eu creia que existisse sempre essa vocação para me expressar de alguma maneira através da música, eu acho que o facto de eu ter dito aos nove anos que gostava de fazer o que aquele senhor estava a fazer, o maestro, fez com que os meus pais abraçassem com muita naturalidade essa expressão muito simples aos nove anos e que fizessem tudo para semear aquilo que fosse necessário para que eu um dia pudesse seguir esse caminho.
Você acha que percebeu que aos nove anos podia estar a ser interpelada mesmo, a sério, pela música, ou depois, mais tarde, quando decidiu fazer disso a sua vida, lembrou-se que aos nove anos já tinha dito: "Eu queria fazer o mesmo que aquele senhor que está ali dentro da orquestra"?
Eu acho que esse momento foi muito importante.
Foi um momento fundador, talvez.
Sim, foi um momento fundador. E depois, não só os meus pais acharam muito bem, como eu recebi a minha primeira batuta nesse Natal. Também é outro momento importante. O meu padrinho, em conjugação com os meus pais, chegaram à conclusão que seria um presente muito bonito para me dar.
Nesse ano dos nove anos.
Nesse ano dos nove anos. E então, haver esta naturalidade para esta interpelação, digamos assim, eu acho que é muito bonito. Eu, durante a minha adolescência, falava com alguma recorrência desta possível vocação, mas eu nunca tinha experimentado dirigir uma orquestra. E aos 18 anos, quando voltei a falar disto e entrei no curso superior de direção de orquestra e dirigi uma orquestra pela primeira vez, aí percebi que não era só um sonho, mas que poderia ser uma realidade. E esses dois momentos foram muito importantes, não só porque-
Foram uma espécie de balizas.
Sim, eu tive a possibilidade de escolher, porque sabia o que era um maestro, não só pela minha prática académica, mas também pela prática familiar de frequentar concertos. Depois, pude também escolher, porque havia um curso de direção de orquestra em Portugal que eu pude experimentar, e pude experimentar dirigir uma orquestra aos 18 anos, e também porque nunca ninguém à minha volta me disse que não era possível. Pelo contrário, achavam muito bem e acharam que foi tão natural eu fazer isso como continuar o meu percurso académico para, como eu fiz, entrar no curso de Medicina da Faculdade de Medicina de Lisboa. E aos 18 anos, quando entrei nos dois cursos e dirigi uma orquestra pela primeira vez, percebi que seria esse o caminho. E infelizmente, tive que deixar a Medicina com muita pena minha, mas percebi que Eu tinha sido chamada para um caminho e hoje, passados tantos anos, tenho a sensação de que eu faço exatamente aquilo para que nasci, que é uma dádiva.
Quem é que gostava mais em casa de música? O pai e a mãe da mesma maneira, ou talvez o pai, até por tradições familiares de música na família dele?
Eu acho que os meus pais, os dois à sua maneira, tinham um grande interesse pela música e que isso fosse transmitido aos seus filhos. O meu pai, pelo fato do seu pai ter sido músico e a minha avó, eu lembro-me de cantar muito e cantava em família. E o meu pai estudou piano e conta que até queria ter escolhido a vida de músico, mas que não foi possível.
Lembro-me de ter lido isso.
A família teve ali um impacto não tão positivo como foi no meu caso, e por isso não seguiu música. Mas eu lembro-me de ouvir os meus pais tocar a quatro mãos piano muitas vezes.
Os quatro?
Muitas vezes, os meus pais, os dois ao piano a tocar a quatro mãos.
Portanto, a sua mãe aprendeu piano para isso.
A minha mãe também aprendeu piano. E a minha mãe também tinha aqui uma grande força. Por quê? Porque a minha mãe encontrou uma escola e houve também uma insistência muito grande por parte da minha mãe e em grande parte, fundamentalmente por parte da minha mãe, para que os nove filhos frequentassem o curso de conservatório durante os 12 anos letivos normais. E esta força, esta presença constante, mesmo a logística, porque requer uma logística, eu acho que veio muito dos meus pais.
Foi um legado.
E muito da minha mãe, naturalmente.
Claro, que era a mãe que levava, trazia, organizava as agendas, todos os horários de aulas.
E que estava presente em todos os recitais. E isso é muito importante. Esses momentos todos são muito importantes.
Estão todos gravados no seu coração, não estão?
Alguns, sim, sem dúvida.
Uma vez confessou, e agora vou citá-la: "Há uma luz eterna que nos gera, é para ela que tendemos". Eu queria saber se a luz foi essa música para que você tendeu, ou a luz pode também ser a do transcendente, a de uma inspiração que pode vir de Deus, se quiser.
Essa citação, penso que para mim, pelo menos, está enquadrada naquela que é uma canção de Mahler, que está até na segunda sinfonia de Mahler, que é a sinfonia da ressurreição.
Eu ouvi-a, desculpa agora este desabafo pessoal, que não tem interesse nenhum, mas é uma coincidência. Ouvi-a agora em Madrid, neste mês de março, de uma forma absolutamente extraordinária.
Sim. E então essa noção de luz primordial foi um bocadinho dada pela narrativa da segunda sinfonia de Mahler, que fala sobre a vida terrestre, os constrangimentos, as coisas boas da vida terrestre, e como há uma luz que vem de antes e pra qual tendemos, e tudo aquilo que passamos na vida é muito importante, mas temos sempre a esperança de encontrar essa luz. E depois vem a ressurreição. Portanto, a narrativa existe na segunda sinfonia de Mahler e no centro está esta canção, que é Urlicht, que fala dessa luz primordial. Eu acredito que sim, e acredito que há qualquer coisa na música que para mim é único como ser humano e a minha experiência, tal como o Papa Bento XVI nos falou, há qualquer coisa na música que nos faz imediatamente sair do plano, que é aquele da rotina, do terreno, e que é inexplicável. Podemos dizer Deus, podemos dizer o eterno, podemos dizer que é o contacto com o sobrenatural, com o espiritual, com o divino, com a criação, mas há qualquer coisa que a música e a arte em geral, nos transporta e que a beleza nos transporta para tal. E eu creio que essa luz é qualquer coisa que me atrai muito naquilo que eu faço. E até do ponto de vista da prática musical é importante, porque bem vemos nós, os músicos de orquestra, temos todas as nossas experiências pessoais, temos a nossa rotina, o nosso dia a dia, os nossos constrangimentos, as nossas coisas boas também. E naquele momento em que estamos a fazer música juntos, em que estamos a dirigir um concerto, há uma força, eu chamo muitas vezes uma autorregulação, que nos faz, independentemente daquilo que passamos na nossa vida, bom e mau, nos faz fazer qualquer coisa de belo. E qualquer coisa que, embora seja o culminar e a agregação de muitas coisas físicas, vem de uma inspiração que não é física e tende pra qualquer coisa que não é físico. E eu acredito que isso é uma experiência única que está associada à música feita em conjunto e que eu tenho a sorte de fazer, independentemente do que se passe na minha vida, bom ou mau. É sempre beleza e todos nós, naquele momento, queremos criar beleza. É qualquer coisa de único. Para mim, será essa luz primordial e também desse ponto de vista, pode ser visto como uma forma de contacto com o divino, para mim com Deus, muitas vezes é um lugar de oração, mas nesse sentido, no sentido de um contacto imediato com qualquer coisa que nos transcende e que nos faz refletir sobre a vida. Portanto, não é o transcendente, também é o transcendente num sentido mais abstrato, mas sempre no sentido de como é que eu, como ser humano, expresso um sentimento e a minha espiritualidade e quem eu sou como pessoa e como é que isso me vai fazer enriquecer essa espiritualidade e a participação na criação.
Que bonito, Joana. Há pouco falou que se lembrava dos seus pais a tocarem a quatro mãos ao piano, e ocorreu-me perguntar-lhe Vocês aprenderam todos piano. A Joana toca ainda hoje algum instrumento para além da regência das orquestras?
Toco muito e gosto muito que me diga para além da regência das orquestras, porque os maestros perguntam-nos o que é que vocês tocam e nós dizemos: "Nós tocamos a orquestra". E é muito bonito dizer isso, obrigada. Mas é bonito e é raro ouvirmos que é o nosso instrumento. No currículo dos conservatórios, pelo menos quando eu estudei, para quem não escolhia piano como instrumento obrigatório, era também obrigatório estudar piano pelo menos três anos. Portanto, o meu instrumento primeiro foi a viola de arco, mas fez parte do meu currículo três anos de piano, que eu depois alarguei para cinco, e todos nós tocamos piano ou como instrumento principal ou como instrumento secundário.
Mas a Joana, por exemplo, tem certamente um piano em casa ou não?
Sim, ainda toco piano.
Toca piano, chega e de vez em quando toca.
Sim, quase todos os dias.
E os seus filhos gostam de ouvir?
Gostam de me ouvir e gostam muito de tocar também.
E tocar, já estão os três gémeos mais velhos a aprender piano.
E o mais pequenino também. Tocam piano. Eu tive a sorte de encontrar uma professora excepcional. Neste momento estudam em casa, porque nós temos uma vida que é por vezes inconstante, às vezes viajamos, e consegui encontrar uma professora que lhes ensina tanto a parte mais teórica do solfejo, da aprendizagem da linguagem musical, como também ensina piano individualmente. E eles têm um gosto, eu creio que muito graças a esta professora e também porque a música faz parte do dia a dia deles, e eles estudam muitas vezes, improvisam, ouvem-me a tocar também, mas o piano, embora o meu instrumento original seja a viola de arco, o piano tem para mim-
É um traço de união, não é?
É um traço de união e eu consigo muitas vezes ler partituras ao piano de uma forma imediata, que a viola de arco não me permite.
Joana, quatro filhos em 15 meses é formidável e raríssimo. Gostava que se lembrasse agora em voz alta um bocadinho do que é que foi quando soube que os três primeiros, não o seu primeiro filho, seriam três filhos. Como é que isso foi? E a chegada à casa e a vida?
Eles foram recebidos com uma enorme alegria, até porque foi o culminar de um caminho que não foi fácil para o meu marido e para mim, e foram recebidos com muita alegria. Quando nasceram, houve ali momento difícil, porque estiveram internados dois meses na neonatologia de Santa Maria.
Nasceram antes dos nove meses.
Nasceram às 30 semanas, mas com uma equipa espetacular, formidável em Santa Maria, que não só tratou deles, mas também tratou de nós pais e nos ajudou muito. E vieram para casa e felizmente são crianças saudáveis. E passados quatro, cinco meses, consegui começar a trabalhar e muito porque tenho ao meu lado uma pessoa, o meu marido, também ele cirurgião.
E com uma vida muito exigente.
Com uma vida muito exigente, cirurgião, mas que me dá um apoio enorme e acredita que eu tenho uma voz importante na música, tenho qualquer coisa para dar ao mundo através da música e às vezes mais do que eu, nunca desiste de mim e desta minha vocação musical. Portanto, é uma combinação de coisas, o meu amor pela música, mas também ter uma pessoa ao meu lado que acredita que eu tenho qualquer coisa para fazer ainda e muito mais para dar no mundo da música e sem essa força seria muito mais difícil.
Mais difícil. E deve ter sido uma mistura muito difícil e ao mesmo tempo deslumbrante ver crescer três filhos ao mesmo tempo. Diferentes, com certeza, porque os bebês são diferentes, as crianças são diferentes umas das outras. Deve ter sido muito bonito.
Claro que é. Todos os dias é uma experiência maravilhosa ver o que eles descobrem. E depois, eu costumo dizer, é muito interessante, eles estão na mesma escola, estão em turmas diferentes, têm os mesmos estímulos, mas são pessoas diferentes. E depois, passado um ano, tivemos a sorte de nos sair a lotaria pela quarta vez, que veio mais uma criança que também está a descobrir, ao mesmo tempo que os irmãos, tudo isso. Portanto, isso é uma grande alegria e estou muito grata.
Joana, vamos fazer aqui um pequeno intervalo. Voltamos já a seguir, esperem por nós. Joana, estávamos a falar dessa maravilhosa aventura de ter tido três bebês de uma vez e logo os primeiros, e depois um quarto filho. Portanto, hoje em dia são dois meninos e duas meninas, uma coisa encantadora, mas eu julgo saber que a Joana muitas vezes se faz acompanhar nos seus concertos no estrangeiro pelos bebês, pelos quatro. Agora com escolas talvez já não, mas ao princípio, como é que era? Iam de fato quatro crianças?
Íamos o meu marido, eu, muitas vezes mais, pelo menos um adulto, muitas vezes uma avó. Íamos com quatro cadeiras, quatro ovos, quatro camas de bebê.
Nos aviões.
Com tudo atrás. Sempre foi assim.
Quantas vezes foram? Punha no contrato?
Não. Não colocava, embora algumas orquestras, vou-lhe dar um exemplo. O meu filho João nasceu em 2018, em maio, o mais novo, e eu comecei a ensaiar na Ópera de Estocolmo, uma Carmen, em Em novembro e eu disse-lhes que era realmente complicado, se calhar não podia fazer esse projeto porque ia ter um bebê e estava a amamentar exclusivamente. E nesse caso, a Ópera de Estocolmo não só arranjou casa para a minha família toda, mais toda a ajuda, como arranjou um assistente e disseram-me: "Sempre que precisar de alimentar o seu filho ou de estar com os trigêmeos, pode sair, não precisa de nos dizer nada, apenas tem que dar indicação ao seu assistente, não precisa justificar". E tinham uma pessoa para cuidar do bebê enquanto eu fazia as récitas. É raro isso acontecer, mas as orquestras em geral têm muita abertura e mudámos um bocadinho a negociação, em vez de eles marcarem os hotéis e as viagens, eu faço isso, e encontramos aqui um acordo. Portanto, a logística fica toda a meu cargo, porque também é nosso entendimento que não é responsabilidade das orquestras.
Claro. As orquestras são seis ou sete pessoas.
Mas em geral, têm uma abertura muito grande e eu lembro-me muitas vezes deste exemplo da Ópera de Estocolmo, que realmente criaram todas as condições para que eu conseguisse fazer o meu trabalho.
E quantas vezes acha que fez isso? Dezenas de vezes?
Dezenas.
Ai, dezenas?
Nós entre dezembro e abril de 2025 fizemos sete viagens.
Tinham eles que idade?
Sim, agora com oito anos e seis anos. Às vezes é só o fim de semana, eles vão ter comigo ao fim de semana, outras vezes nas férias da Páscoa.
E ficam na sala a vê-la.
Aos concertos também, aos ensaios não. Mas aos concertos sim. Mas lá está, tem que haver aqui uma grande logística familiar e tem que haver uma grande vontade de estarmos juntos o máximo de tempo possível.
Pois claro, mas o que é extraordinário é você fazer isso, é conseguir concretizar uma logística e uma organização destas. Olhe, o seu currículo impressiona indiscutivelmente, porque começou cedo na regência, cedo na direção da orquestra, cedo a ser convidada a dirigir em vários lugares, Estados Unidos, na Europa, no norte da Europa, como agora falou de Estocolmo. O atuar lá fora influenciou-a no seu modo de entender melhor o que é transmitir a música, aprendeu, cresceu artisticamente?
Para mim, muito. E eu tantas vezes dirijo a mesma obra em várias orquestras diferentes. E não só é interessante perceber como orquestras diferentes tocam a mesma peça, como as próprias orquestras funcionam de maneira diferente, como as pessoas são diferentes, como tantas vezes são o reflexo de uma cultura mais alargada, não só da música, mas também da sociedade em que estão inseridos. E tenho aprendido muito acerca disso. É natural que um maestro como eu, e há tantos outros que viajam pelo mundo fora, é natural que passados tantos anos, décadas de estar a trabalhar com tantas orquestras, nos deixemos questionar porque é que determinadas orquestras nos parecem mais felizes que outras, porque é que conseguimos chegar a resultados mais facilmente com uma orquestra do que outras.
E o que é?
Nem sempre tem a ver com questões técnicas, porque eu acredito que nós vivemos numa altura de enorme sofisticação musical. Os músicos são excelentes hoje, as orquestras são muito boas a nível nacional, a nível internacional. E então há muito mais fatores além da capacidade técnica de uma orquestra que podem influenciar o resultado. Normalmente tem a ver com as condições das orquestras, as condições em que os músicos trabalham e muitas vezes os países em que estão, a estabilidade que existe num país. Eu encontro as orquestras, digamos, de uma forma muito infantil, quase mais felizes no norte da Europa, por exemplo. As orquestras em que eu sinto que os músicos sentem mais flexibilidade, é fácil os músicos trabalharem com orquestras diferentes, e isso é estimulado pelas orquestras. Um violinista pode trabalhar uma semana num sítio, outra semana noutro, e isso é visto como muito positivo.
Em vez de ser um estorvo ou uma maçada.
E também há uma influência mais do ponto de vista artístico, da programação, da visão da própria orquestra, uma responsabilização.
A Joana tem um agente?
Sim, há muitos anos. É o mesmo agente há muitos anos.
De que nacionalidade?
Eu sempre fui agenciada pela IMG Artists, que tem sede em Londres e em Nova York. Eu tive a mesma agente inglesa durante 23 anos. Ela, depois do Covid, decidiu ser professora de inglês, infelizmente já não é. E agora há cinco anos tenho uma agente que vem da Sérvia, mas que trabalha pra IMG Artists.
E depois, como é que funciona com uma agente? Ela vai informando dos contratos que tem e a Joana escolhe?
Sim. São feitos convites. Neste momento, eu diria que há uma grande porcentagem que digo que não, pelos meus constrangimentos. Não é possível eu viajar 30 semanas num ano, por exemplo, neste momento. Neste momento da minha carreira, eu tenho a sorte de trabalhar e fazer projetos muito interessantes e muito bons, com músicos excelentes, mas eu antes de ter os meus filhos, eu era maestrina titular de duas orquestras, uma na Califórnia e outra em Portugal. Neste momento é impossível eu ter a disponibilidade pessoal para estar, ter a carga. Não é só dirigir os concertos, quando se é maestrina titular, tem-se a seu cargo a visão artística e global de uma instituição. Claro que em parceria com os administradores e com a direção artística, mas é preciso uma disponibilidade para se estar, para escutar, para observar, que neste momento, para mim, é um bocadinho mais difícil. Portanto, neste momento, eu tenho a sorte de ter uma atividade musical muito interessante, mas neste momento mais como maestrina convidada, e eu acho que é aquilo que é realista para mim neste momento.
E dessas múltiplas exibições fora de Portugal, reteve o fulgor, o génio, o fôlego de algum músico, em especial de algum maestro a quem voluntariamente e imediatamente achasse que era um génio ou que podia ser um sobredotado?
Sim, muitas vezes. Eu até diria que para mim, ter sido assistente do maestro Esa-Pekka Salonen em Los Angeles durante quatro anos, entre 2005 e 2009, foi a minha última grande escola, digamos assim, antes de ir pro mundo sozinha. E aí o maestro Esa-Pekka Salonen estava 15 semanas por ano, 12, dependendo dos anos, mas depois nas outras semanas todas passavam grandes maestros pela orquestra, que eu ouvia, via e assistia. E via muita excelência, assistia uma grandeza e uma riqueza e uma excelência a todos os níveis, não só da organização, mas de todos os artistas que passaram. Para mim isso foi muito inspirador e a isso recorro em momentos de maior hesitação, no sentido de: quais são os exemplos para os quais eu quero tender? E lembro-me de pessoas como o Esa-Pekka Salonen, artistas completos como ele, não só excelente maestro, como excelente programador, excelente diretor artístico. Quando estou em momentos de maior dúvida, também do ponto de vista artístico, até com algum desconforto físico, porque ser maestro também tem muito físico, de expressão. Gosto muito de ver o maestro Zubin Mehta, acho que poucos maestros tocam a orquestra com a naturalidade que ele toca. Carlo Maria Giulini, Simon Rattle e da minha geração, Kirill Petrenko, sem dúvida que é uma das maiores inspirações. Mas o Kirill Petrenko, que neste momento está à frente da Orquestra Filarmônica de Berlim, para mim é uma grande inspiração de seriedade, de procura da verdade, de uma entrega à música ao mesmo tempo muito simples, muito honesta, muito profunda e claro, excelente.
Estava a lembrar-me do que me disse dos seus pais, só pra voltarmos só mais uma vez. Nada na sua vida é indissociável do principal legado que lhe deram, que foi a música. Ao proporcionar a educação musical, levarem-nos a ver espetáculos, a si e aos seus irmãos. Dá com certeza muita importância. Eu, jornalista aqui agora a falar consigo, dou a maior das importâncias à parte do legado, aquilo que nós recebemos, aquilo que temos ou não de continuar, aquilo que pode ser uma responsabilidade para nós, a importância de um legado. Pensa nisso às vezes? Assim de uma forma breve.
Sim.
Porque já falámos dos pais.
Sim, penso nisso. E claro que em diferentes fases da nossa vida pensamos de forma diferente. Como é que nós nos posicionamos em relação a isso? No princípio da minha carreira, também estava numa fase em que estava a tentar procurar raízes e tentar corresponder, digamos assim, e ainda tenho esse sentido de responsabilidade. Acho que houve um investimento não só dos meus pais, mas do meu país em mim, das orquestras portuguesas, e eu creio que tenho uma responsabilidade muito grande em corresponder a esse carinho. E eu acho que isso é muito importante. Mas eu acho que num sentido mais global, a forma como eu olho pra mim e pra esse legado, eu acho que o exemplo que os meus pais nos deram, de trabalho e de entrega e de colocar ao serviço dos que estão à sua volta os dons que receberam, eu acho que esse é o maior legado.
Herávamos dos talentos.
Exato. Nós temos a possibilidade de, quer seja através da música, quer seja na vocação da nossa família, de tornar os nossos dons frutíferos. Eu acho que esse é o maior legado.
E partilháveis.
E com alegria. Isso é outra coisa.
E com alegria. Joana, falou aí de Portugal e eu também vinha agora do estrangeiro pro nosso país. Já dirigiu várias orquestras nos melhores palcos: São Carlos, Gulbenkian, Culturgest, Coliseu. Como é que isso se ia desenrolando ou se vai desenrolando com a carreira internacional? É uma questão de pura organização?
É uma questão de pura organização e eu todos os anos tenho a felicidade de dirigir em Portugal. Pra mim é fundamental.
Quando é que agora a podemos ver proximamente?
Agora ainda durante 2025, ainda trabalho com a Orquestra Metropolitana, Orquestra Sinfônica Portuguesa, e na temporada de 25, 26, com a Orquestra da Casa da Música e com a Orquestra Gulbenkian.
Sim. E sem ser agora em Portugal, qual é o seu próximo palco europeu ou internacional?
Palco europeu, eu vou estar em Espanha, em algumas cidades, em Castilla y León, em Murcia, e depois vou a Nova York, ao Festival Lincoln Center, ainda no verão, a trabalhar com a Baltimore Symphony. Também vou estar na Suécia, vou trabalhar com a Orquestra BBC em Londres ainda este ano. Enfim, não me lembro de todos os concertos, pra ser sincera, pra além desses concertos em Portugal que eu referi, mas também vou estar na Holanda, na Escócia, penso eu. Enfim, é difícil lembrar-me de todos.
Não, é difícil, mas já tivemos aí um leque.
São estes.
Já abrimos um leque português e internacional. Como é que a Joana olha pra si? Consegue definir-se a reger? Consegue olhar pra si?
Com dificuldade. Já falámos um bocadinho, não com os microfones ligados, sobre a dificuldade que temos em nos ver, a nós próprios. Sim, eu acho que é muito importante essa auto-observação como maestro. E não só eu ver-me a mim própria, como ter a capacidade de, pela reação das orquestras, perceber aquilo que nós estamos a fazer, se resulta, se não resulta. E eu vejo, eu acho que com um misto de confiança, mas ao mesmo tempo de desconfiança, no sentido de que tenho tanto para trabalhar e um constante escrutínio no sentido de que isto não resultou, esta peça não resultou ou resultou melhor ou resultou pior, e tentar perceber por quê. E isso tem que ser constante, porque uma carreira faz-se de semana a semana, manter um standard que nunca pode ser abaixo daquilo que nós consideramos bom ou muito bom. E para manter esse standard pessoal, uma pessoa tem que ter uma capacidade de auto-observação objetiva.
Objetiva, sim, e forte.
Ao mesmo tempo, manter confiança no seu trabalho, mas ao mesmo tempo ter uma certa naturalidade em receber feedback, quer seja direto ou indireto dos outros.
Consegue eleger um dos seus, infelizmente, já estamos quase a acabar, um dos seus melhores momentos, aquele em que sentiu que se podia quase ter cruzado com a perfeição ou mesmo tocado a perfeição?
É muito difícil, acho que muito difícil, mas eu costumo dizer que há a Joana antes da Jornada Mundial da Juventude e a Joana depois da Jornada Mundial da Juventude.
Era a minha próxima pergunta.
Falava da luz para a qual tendemos. Eu acho que depois dessa graça que me foi dada, depois dessa oportunidade, eu acho que muito pouco pode ser dito. Portanto, claro que todos os concertos são muito importantes, mas para mim como pessoa e como uma pessoa que tem uma espiritualidade, como todos nós, mas que é pública. Sou católica, sou praticante e ter a oportunidade de servir dessa maneira e sobretudo através daquilo que eu faço, servir dessa forma, eu acho que poucas experiências poderão ser tão completas como essa. E acho que não voltarei a ter uma oportunidade como essa.
Joana, e foi uma orquestra que, de uma forma breve, que foram juntando elementos. Não era uma orquestra que existisse já, existiu para aqueles momentos.
Sim, foi formada com músicos que se inscreveram e o coro também, mas foi um processo de dois anos e meio. Eu só cheguei nos últimos seis meses, mas houve uma equipe formidável que geriu tudo isto muito bem.
E o que o santo padre lhe disse?
Eu não me lembro muito bem. Da vez que eu conheci o Papa Bento XVI, tive a sorte de conhecer quando veio a Lisboa, mas foram momentos muito breves e só a sorte de estar na sua presença e ainda mais tão perto, não me lembro.
Não, e tocar a orquestra para ele.
Eu acho é que, sobretudo, participar de uma forma tão ativa, tão profunda nessa oração. Para mim, é uma oportunidade que eu não consigo explicar passado tanto tempo.
Com certeza. Portanto, o melhor momento. Eu tive uma intuição, um pressentimento que ia desaguar às jornadas e era, de facto, a próxima pergunta. E agora para acabarmos, um minuto e 30 para você me dizer que não pode responder, mas alguma coisa pode responder, com certeza, que é: não lhe peço para espreitar pelo buraco da fechadura ou para ser indiscreta, mas foi convidada para pertencer ao Conselho de Estado, a convite especial e pessoal do Presidente da República. O que é ser conselheira de Estado?
É uma grande responsabilidade e é uma grande honra. O senhor presidente convidou-me.
Ficou surpresa?
Foi uma grande surpresa e encaro esse cargo com a maior seriedade e com o maior sentido de serviço. Se o senhor presidente considerou que eu podia contribuir como cidadã de alguma forma.
Disse-lhe logo que sim?
Nessa conversa, respondi logo que sim. Tivemos uma conversa.
Ele telefonou-lhe?
Primeiro recebi um telefonema para pedir para ir ao Palácio de Belém para ter uma reunião com o senhor presidente e conversamos. O senhor presidente explicou-me mais ou menos o que pretendia e tenho tentado corresponder da melhor maneira. É um cargo que eu encaro com a maior seriedade. Estou atenta.
Tem que se preparar.
Tenho que preparar para cada Conselho de Estado, mas também penso que isso criou em mim uma vontade de observar também o mundo que nos rodeia de uma forma mais especial e ainda mais atenta. Fazendo parte do Conselho de Estado, eu creio que isso é muito importante, ter uma atenção especial, diária, para aquilo que se passa à nossa volta, em Portugal e no estrangeiro.
E quando intervém, uma vez que é suposto que todos os conselheiros e conselheiras de Estado intervenham, a flix, 10 segundos. Quer dizer, ao princípio ficava tímida?
Como sabia que ia intervir, eu preparo-me sempre. São intervenções preparadas sempre. Nós sabemos quais são os temas e são intervenções preparadas. Portanto, tento sempre preparar-me da melhor forma que consigo, com o conhecimento e com a experiência de vida que tenho, que é o que eu posso fazer.
Muito bem. Joana, foi um prazer enorme e uma alegria enorme falar consigo e desejo o melhor na música e em casa.
Obrigada.