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Martim Sousa Tavares é filho de Laurinda Alves e Miguel de Sousa Tavares. Formado em Ciências Musicais e Direção de Orquestra, estudou em Lisboa, Chicago, Milão. Fundou e dirige a Orquestra Sem Fronteiras, com a qual ganhou o Prêmio Carlos Magno, e dirige também a Orquestra do Algarve. É diretor do Festival de Sintra e é, sobretudo, um incansável divulgador da música, onde cruza artes e ideias nos palcos, na televisão, na rádio, em podcasts, conferências, etc. E escreveu um livro maravilhoso, publicado em 2024. Martim Sousa Tavares, se eu tivesse que definir esta espécie de polivalência, como é que eu o faria?

Olá, Maria João. Eu acho que faria da forma que tendemos a definir as pessoas que fazem bem muita coisa, que são polímatas, por oposição àqueles que fazem mal muita coisa, que são diletantes. E, portanto, entre os dois, eu prefiro ser o primeiro. Mas eu não posso dizer que sou, só os outros é que o podem dizer sobre mim.

Mas então eu digo.

Não me ficaria bem.

Não, mas então fica-me bem a mim dizer, porque é exatamente aquilo que, como jornalista e agora como sua entrevistadora, eu acho que você é. Claro que há uma ligação entre tudo aquilo que eu acabei de mencionar, divulgar a música, regê-la, tocá-la, também é pianista. Mas penso eu que terá que haver momentos preferenciais especiais. Por exemplo, estar diante de uma orquestra prestes a operar o milagre que a música pode ser, não é um desses momentos preferenciais?

Eu acho que sim. Até diria mais do que o antes, pra mim é mesmo o durante, porque o maestro é um artista de palco, mas é talvez o único que trabalha sempre de costas pro público. Portanto, numa relação protegida, digamos. Eu não estou a dar a cara, estou a dar as costas e, portanto, eu quando estou a dirigir a orquestra, não tenho o público à minha frente. Normalmente. Há umas salas agora que têm o público também nos lugares do coro, que eu detesto. Detesto, porque é uma coisa que me distrai.

Não é uma coisa nem outra.

Exatamente. Eu gosto de olhar pros meus músicos e, portanto, pra mim, isso é que é o momento preferencial. Esse é que é o verdadeiro momento em que o milagre acontece.

Acontece.

E depois quando acaba, acabou-se o milagre. As palmas e virar-me pro público, aí volta à realidade.

E aí é o momento o quê? É o epílogo, é a despedida daquele que foi o momento preferencial?

Sim, eu acho que é também a consagração de que aquilo foi uma coisa bela, portanto, as pessoas aplaudem como manifestação de agradecimento pela beleza que lhes foi proporcionada. E isso faz parte. Dizer que não gosta de aplausos, seria uma mentira, porque nós fazemos isto pras pessoas.

Claro.

Portanto, nós precisamos de saber se elas gostaram ou não. Se bem que eu digo isto, mas eu nos meus concertos, como a Maria João sabe, já viu um agora recentemente, eu falo muito com o público, eu não viro as costas. Mas o momento de fazer música, esse sim, é uma coisa entre mim e a música, que eu partilho com as pessoas, mas é entre mim e a música.

Claro. Martim, de fato, eu ia lhe falar nisso. É engraçado que você antecipou o meu próprio instinto da pergunta. Eu fiquei muito surpreendida, porque você falou quatro ou cinco vezes com o público, mas fê-lo, isto não tem a mais pequena lisonja, foi exatamente o que eu observei. Fê-lo com a mesma maestria com que estava a reger. Essa fluidez e esse encanto que pôs no diálogo com o público é completamente espontâneo, acontece-lhe naturalmente ou tem vindo a ser apurado?

Vai sendo apurado. E eu acho engraçado, a Maria João está a falar de um concerto que eu dirigi na Culturgest em janeiro. Eu estava tão doente nesse dia, que o concerto do dia seguinte teve que ser cancelado, porque eu já não conseguia sair da cama. Portanto, o que a Maria João viu, na verdade, eu estava longe de estar no meu melhor.

Então imagino que será o melhor.

Estava com um febrão, com a voz muito apanhada. Ali estava em gestão de crise e a escolher muito bem o que eu ia dizer e tudo mais. Portanto, até não sinto que estava no meu melhor. Mas isto pra dizer que, mesmo estando no meu pior, eu acho fundamental não descartar esse lado da mediação, de dar a mão ao público e mostrar um caminho.

Através da palavra, do verbo e não já da música.

Exatamente, e até através da subjetividade das minhas ideias, porque o que eu digo ao público não é que o Mozart nasceu em 1756. Isso não importa, isso é factual, enciclopédico, são informações frias que não acrescentam a ninguém. O que eu disse ali era tudo subjetivo. É: para mim, esta peça é fascinante por causa disto e isto. E este é o caminho que eu faço. Se quiserem, venham comigo. E eu acho que isso é muito mais interessante, porque abre às pessoas uma porta para algo que não estava aberto à partida. As pessoas quando vão a um concerto, têm que fazer o seu próprio caminho.

Entregues a elas próprias.

Exatamente, o que também tem o seu lugar. Eu não impeço esse caminho. Eu só ofereço outro, se quiserem. E eu acho que isso pode ser muito enriquecedor. Muitas vezes uma boa experiência é uma experiência mediada. É como quando vamos a um bom restaurante, uma coisa é porem os pratos na mesa, outra coisa basta o chef vir dizer: "Olhe, estou vos a dar um feijão verde que vem daqui".

"Apanhei ele de manhã, não sei onde".

Exatamente, e as pessoas dão mais valor a isso.

E fez sempre isso ou descobriu isso?

Fui fazendo quase sempre. Não fazia no início por timidez e porque o modelo não é este. Portanto, nos meus estudos, ninguém me ensinava a falar com o público, ensinavam-me a dirigir orquestras. Eu é que fui ganhando uma à-foi-tez Por exemplo, na Gulbenkian, eu comecei por fazer guias de audição. Na verdade, o meu primeiro emprego foi na Gulbenkian a sentar as pessoas, o público.

Isso eu lembro.

Assistente de sala. Mas depois disso, a segunda fase foi fazer guias de audição, que são no Auditório dois. Tenho ali um piano, tenho um projetor e falo das peças que as pessoas vão ouvir depois. Mas eu não sou responsável por dirigir essas peças, ainda. Eu só estou a preparar a experiência. Depois entrei na terceira fase, que foi ir dirigir a Orquestra Gulbenkian e dizerem-me: "Está aqui um microfone, por favor, fale". E aí eu posso falar daquilo que vou fazer, porque eu é que falo e eu é que dirijo. Eu é que escolhi as peças. Portanto, aqui o círculo fica perfeito e eu acho que o próprio público agradece. Foi a instituição que me pediu para falar, eu não pedi a ninguém: "Dêem-me um microfone".

Sim.

Eles é que quiseram. E eu acho que isso é muito interessante e demonstra que, de facto, há procura por este formato. O músico entrar mudo e sair calado pode continuar a ser feito, mas não tem que ser a regra.

O divulgar a música, dirigir, estudar, falar com pessoas, exige um rigor quase ditatorial do tempo e até da sua forma mentis, de como é que eu vou ser capaz de fazer isto tudo bem feito, esta simultaneidade. Você defende-se a si próprio ou consegue isso tudo com essa espécie de serenidade que nós lhe conhecemos, um tom de voz que raramente se altera, uma delicadeza que nós percebemos que é sua e que você usa no contato com os outros.

Sim, eu acho que a minha abordagem, e falo disto muitas vezes, porque tenho muita procura para falar sobre liderança. Há duas formas de trabalho diferentes que eu fui observando nos meus colegas, nos meus mentores, que é: há aqueles que querem ser responsáveis pelo resultado e aqueles que querem ter o controle do processo. E muitas vezes a pessoa não pode ter as duas coisas. Se quer controlar o processo, controlar exatamente o que é que cada músico está a fazer, não vai ter clarividência. Perdeu-se em tantas batalhas que não vai conseguir governar o todo. Para governar o todo é preciso largar, abrir mão do pequeno, das pequenas coisas. É preciso conseguir dar uma direção macro e fazer com que todos venham comigo. Mal ou bem, eu não consigo nunca 100% daquilo que imaginei, mas consigo 95. Se eu quiser controlar cada pequena coisa, esse é o caminho da ditadura. É querer carregar em todos os botões, fechar todas as torneiras. Isto tem que ser exatamente como eu quero.

E ser em todos nós.

Exatamente. E aí eu não consigo controlar o resultado. Por absurdo que pareça, esse é o pior caminho para o fazer. E portanto, eu acho que tenho, de facto, essa abordagem serena, mesmo perante momentos difíceis, de não querer nunca controlar o processo. Prefiro ser responsável pelo resultado final, porque essa é a minha função. Enquanto líder de orquestras, as pessoas não lhes interessa saber como é que foi o ensaio, interessa-lhes o concerto e, portanto, eu aponto ao concerto, não aponto ao controle dos ensaios.

Claro. O Martim falou de conferências onde é convidado para falar, cujo tema central e único é a liderança. Tenho tantas coisas para lhe perguntar. Em breves momentos. É porque você teve que ter sinalizado alguma coisa para ser convidado para falar de liderança.

Sim.

Entretanto, sinalizou ao longo da sua vida e isso é muito interessante. Gosta desses momentos também?

Gosto. Eles fazem muito sentido na minha vida, porque é um momento em que eu consigo ter um encontro com um público, que não é o público do concerto. Eles não me vieram ver a dirigir uma orquestra. São pessoas que estão em um ambiente de trabalho, equipas multidisciplinares, podem ser empresas, podem ser organizações públicas, já tive de tudo, que querem saber como é que as orquestras funcionam. E a orquestra é uma metáfora excelente, porque estamos a falar de grupos de pessoas altamente qualificadas, com funções muito diferentes. Um violinista não é um flautista, não é um harpista. Portanto, como é que pessoas com essas especificidades conseguem integrar-se num todo, que tem que ser a soma de todas as partes. E como é que o maestro dá a isso uma direção? Porque é interessante, o maestro não toca todos os instrumentos. O CEO de uma empresa também não tem que tocar todos os instrumentos da empresa. E, portanto, onde é que isto nos coloca? Numa ideia de integração, das coisas funcionarem em prol de um bem comum. Depois, a orquestra tem outra coisa incrível que é: nós trabalhamos para o cliente, o público, em tempo real. Nós estamos a entregar o resultado à frente do público. Nós não temos hipótese.

De emendar.

Exatamente. É aquilo que se fizer. Nós trabalhamos sob pressão, a pressão dos resultados, a pressão da excelência. E por isso, tudo isto são lições muito interessantes de como é que a orquestra faz a sua vida, sobretudo se pensar que tudo acontece em palco sem que seja dita uma única palavra. Portanto, estamos ao nível da linguagem não verbal, de mecanismos de transferência de informação muitíssimo eficazes.

De gesto, de olhar.

Sim, de multitasking, dos músicos estarem a tocar o seu instrumento e ao mesmo tempo a ouvir os outros, que é uma coisa fundamental. Ninguém pode trabalhar só no seu pequeno.

No casulo.

Exato, temos que nos integrar. E portanto, a orquestra é uma metáfora fascinante, porque estamos a falar de música, estamos a falar de beleza. É fascinante ver as orquestras a trabalhar. Eu mostro muitos exemplos e faz muito sentido para as pessoas. Eu adoro ver isto a funcionar.

Por falar em talento, em tudo aquilo que é música, é cultura, é liderança. Você é filho da Laurinda Alves e do Miguel Sousa Tavares e neto de Francisco Sousa Tavares e Sofia de Mello Breyner Andresen. Mais não se pode dizer Vamos falar de legados, que é uma coisa a que eu acho que se atribui, infelizmente, pouca importância, ao menos com o que ela, no meu ver, poderia ter. Nós somos, de algum modo, responsáveis pelos legados que recebemos. Temos que ter o valor, o empenho de os continuar, temos que os honrar ou o quê?

Eu acho que o filho de padeiro não tem que ser padeiro, portanto não há uma obrigação.

Mas o meu legado, deixe-me só dizer, o meu legado era lato sensu. Foi um privilégio do que se recebeu.

Exatamente, o que eu quero dizer é: se o filho do padeiro quiser ser padeiro, vai ter que ser muito bom padeiro. Essa é que é a questão pra mim, porque sobretudo se tem uma tradição com cartas dadas, com excelência, tudo isso, se quiser ir por aí, então sim, tem um peso grande que carrega aos ombros. E nesse aspecto, pode até ser uma coisa incapacitante da função da padaria. E, portanto, se calhar, esse filho de três gerações de excelentes padeiros vai ser pasteleiro, por exemplo. E eu sinto um bocadinho isso. Eu não fui exatamente pras artes da palavra, da escrita, embora já seja culpado de ter escrito um livro.

Escreveu um maravilhoso livro, já leem.

Mas sinto que ao enveredar pelas artes, aí sim, sinto, sobretudo no confronto com a minha avó, sinto que pra já não valho nem metade do valor que ela tinha e, portanto, isso também me serena, de certa forma.

Mas também não temos, eu sou tão contra isso, desculpe agora esta minha interrupção. Não há que fazer contas, ninguém põe numa balança um prato você ou sua avó.

A questão é que é uma vida inteira que a pessoa leva a dizerem: "Este é o neto do não sei quem, este é o filho do não sei quem". Portanto, a pessoa não consegue.

Esquecemos esse peso.

No meu caso, há uma coisa engraçada que me acontece até hoje, que é as pessoas chamarem-me Miguel. Acontece-me todos os dias da minha vida, as pessoas chamarem-me Miguel. O apelido chega antes do nome próprio.

Claro.

E, portanto, primeiro que eu tenha conseguido uma vitória na minha vida, que é as pessoas dizerem ao meu pai: "Você é o pai do Martim", não é? Que é o que toda a vida me disseram a mim ao contrário: "Você é o filho do Miguel", não é? E agora acontece o contrário. E eu acho isto uma coisa quase de justiça divina. E quando ele me disse isso, que aconteceu no Algarve, porque a minha ligação à Orquestra do Algarve fez de mim, de certa forma, uma figura do panorama cultural algarvio, e portanto, toco em todas as cidades. E acho que no mercado de peixes disseram-lhe: "Você é o..." E ele à espera que digam Miguel Sousa Tavares, "Não, é o pai do Martim". E eu aqui disse: "Fez-se justiça, finalmente. A balança começou a se equilibrar".

Veja lá se consegue dizer o que é que foi essencial ter trazido de casa dos seus avós e daquela maravilhosa casa da Travessa das Mônicas, que eu tão bem conheci, dos seus pais tão singulares, tão diferentes um do outro. Eu vou perguntar assim: teria sido o mesmo se não tivesse havido este legado, este caldo de cultura, esta infância, esta adolescência?

Não, estaria a mentir se dissesse que sim. Uma das coisas que mais me impressiona, no caso, uma vez mais, dos meus avós, é o rigor com que faziam as coisas, porque era um tempo em que para se fazer aquilo que eles fizeram, iam pagar um preço muito caro. E decidir fazê-lo, à mesma, é preciso muita coragem e é preciso uma confiança de que se vai fazer muitíssimo bem. Há um livro do meu avô, que tem um título incrível, chamado "Combate Desigual", um livro dos anos 60 que foi apreendido pela PIDE logo à saída da tipografia. Salvaram-se muito poucos exemplares.

É um título magnífico.

É incrível, e eu acho que a coragem que era precisa para fazer aquele livro, sabendo que podia pagar por ele com a vida, que o livro seria apreendido e tudo mais, então se é pra fazer, vai ter que ser mesmo muito bom, vai ter que suportar o teste do tempo. E eu acho que essa é a primeira grande lição, que é nós estamos a medirnos contra o tempo, com T maiúsculo. Não estamos necessariamente entre os nossos pares, entre aqueles que são do nosso tempo, mas estamos a produzir para este tempo abstrato. E a minha avó é prova disso. O que ela escreveu não envelheceu nem um dia. Passarão outras gerações.

Conversava muito com eles?

Bem, o meu avô já não o conhecia, ele morreu quando eu era mesmo muito pequeno. A minha avó conhecia, claro, tinha 13 quando ela morreu, mas não foi uma relação, eu não estava a falar com a autora, não estava a falar com a poeta, estava a falar com a minha avó.

E a outra avó que muitas histórias lhe contou, a mãe da sua mãe.

E que ainda está viva, exatamente.

E que ainda está viva e que está nos a ouvir com certeza agora. E que contava histórias numa outra entrevista que eu lembro-me que o Martim me disse também da influência dela.

São fundamentais, pra mim, os dois lados dos avós, porque tenho esses dois avós paternos com perfil muito exposto e muito combativos e tudo mais, e os outros dois, de um lado mais anônimo da vida, são de uma pequena aldeia da Beira Alta, mas a minha avó, por exemplo, foi das primeiras educadoras a especializar-se em crianças com deficiência em Portugal. E isto também era um ato de coragem, também era um ato de democracia e uma forma de se atravessar e de ativismo. E, portanto, do lado destes avós maternos, eu aprendi sobretudo a bondade, esta entrega, a bondade, a intimidade, de uma forma que do lado do meu pai era muito diferente.

Como era o lado do seu pai?

Este lado mais combativo da missão pública, de dar o peito às balas. E no caso dos meus avós maternos, não, é a bondade, os laços anônimos que se criam, ajudar uma pessoa e ninguém tem que saber disso, a verdadeira caridade, a verdadeira beneficência. É isso mesmo, ninguém tem que saber.

A verdadeira capacidade de serviço, de ir ter com o outro, pensar no outro anonimamente. É formidável isso. Vamos fazer aqui um curtíssimo intervalo. Esperem por nós pra seguir o Martim Sousa Tavares nesta sua viagem por ele próprio. Voltamos já. Estávamos a falar de legados, mas houve certamente algo que trouxe de casa, das duas casas, da casa da mãe e da casa do pai, e da casa dos avós maternos e paternos. Estávamos a falar do culto da bondade e da generosidade para com o outro, mas também do talento, da capacidade de ter talento em situações difíceis, da responsabilidade de ter que ter talento em situações difíceis. Mas eu agora queria uma pergunta um bocadinho mais concreta, se for possível. Uma resposta, um bocadinho. É possível, ou alguma vez refletiu sobre isso, o que é que herdou concretamente da sua mãe, Laurinda Alves, e do seu pai, o Miguel Sousa Tavares? De um e de outro. São tão distintos.

São.

Personalidades tão diversas.

É engraçado porque havia uma fase da minha vida em que me diziam que eu era muito parecido com o meu pai e agora estou na fase em que dizem que sou muito parecido com a minha mãe. Do lado do meu pai, eu acho que o meu pai pode ser uma pessoa muito desembestada. Tem uma ideia obstinada e o mundo pode estar contra ele, e ele vai com essa ideia.

Temos muitos exemplos disso.

Exatamente. E isso pra mim é uma aprendizagem, de que é possível viver assim, no sentido que se acreditarmos em alguma coisa, e mesmo que chovam flechas e pedras de todo lado, não temos que vergar por causa disso. E portanto, eu lembro-me dele se meter em várias polémicas e toda a gente estar contra ele e ele não vergar. E portanto, isso é uma aprendizagem, que eu não conhecia mais ninguém dessa forma.

E um legado, uma aprendizagem que se transformou num legado.

Exatamente. E que me dá muita confiança de sentir que se eu acreditar que estou a fazer a coisa certa e que este é o caminho por onde tenho de ir, então eu vou, e sei que posso ir. Do lado da minha mãe, há esta herança direta dos meus avós, que é mesmo uma ramificação de um tronco maior, desta bondade de sentir que temos que ter um propósito naquilo que fazemos.

Martim, como é que se dirige um festival? Porque no seu caso, o de Sintra, que já dirige há três anos e que vai agora começar já em junho. Cada festival tem que ter uma idiossincrasia própria, não é igual a outro. A que é que se atende na direção? A que é que teve que atender na direção deste específico Festival de Sintra? Partindo de que critério ou que requisitos é que este festival lhe pede?

É um privilégio, porque o Festival de Sintra eu acho que é o mais mágico festival de música clássica que temos em Portugal. Para já, é o mais antigo de todos. É o mais histórico. É um festival que tem raízes na Marquesa de Cadaval, portanto começa nessa Sintra palaciana de grandes elites culturais. A Marquesa de Cadaval recebia em sua casa a jovem Maria João Pires.

E os melhores internacionais.

Exatamente, o jovem Daniel Barenboim, a jovem Martha Argerich. Portanto, o festival tem esse começo muito forte.

E esse cunho, é uma assinatura.

Exatamente. E portanto, isso é uma fasquia que não pode perder. E na verdade, o festival sempre foi forte nos pianistas e, portanto, eu gosto de continuar essa tradição. E tivemos o András Schiff o ano passado. Enfim, vamos andar nessa craveira.

Vamos ter, diga lá um ou dois.

Mas Maria João Pires, por exemplo, vem eu acho que fazer se calhar dos últimos, certamente os últimos recitais a solo da sua vida, vai ser ali no Festival de Sintra, onde ela já tocou 14 vezes. Portanto, também há uma relação que importa salvar. Mas depois Sintra tem uma outra coisa mágica, que é: há muitas Sintras. Podemos pensar na Sintra palaciana, a tal Sintra do século XIX, daquelas quintas maravilhosas espalhadas pela serra, e portanto exploramos essas quintas, mas há a Sintra da natureza, do parque natural, da Serra de Sintra, que é uma coisa extraordinária, que por sua vez tem conotações fascinantes com o oculto, com o misticismo, tudo isso.

Sim, Regaleira, por exemplo.

Por exemplo, sim, aquele poço iniciado. Portanto, também isso se presta a muita coisa. Depois há a Sintra do mar, que tem uma ligação com o oceano, o ponto mais ocidental da Europa, o Cabo da Roca, tudo isso. Exatamente, e portanto com esta ideia de expansão atlântica. E depois há ainda a Sintra, que é o dormitório de Lisboa, onde vivem 400 mil pessoas numa relação com a cidade e, portanto, são pessoas que têm direito também a ter cultura e a ter acesso a estes concertos. E portanto, eu penso em tudo isto. Penso na Marquesa de Cadaval, mas penso também nas pessoas que vivem em Mira Sintra, por exemplo.

Claro, exatamente.

Que têm que ter alguma coisa.

E que você sabe que estarão lá.

Exatamente. Por isso o meu lema pra o Festival de Sintra, desde o primeiro dia, é: eu quero que o Festival de Sintra tenha um programa, que quem abrir aquela brochura, seja quem for, eu tenha a certeza que vai encontrar pelo menos uma coisa que lhe interessa.

Que lhe interessa.

E portanto, ele tem que ser muito bom, mas tem que ser mesmo ecletico, porque é um festival que é todo pago pela Câmara de Sintra. Portanto, é um festival que tem que ser de serviço público. Não pode ser pra um nicho, não pode ser pra uma elite, tem que ser, de fato, pra todos.

Serviço público.

Exatamente.

Quer levantar um bocadinho, abrir um bocadinho esse programa aqui pra nós?

Sim, posso lhe dizer.

Além da Maria João Pires, que é um.

Por exemplo, uma das coisas que eu decidi fazer no Festival de Sintra em 2023, e tem sido um sucesso, são os duelos de pianistas, que é um formato que parece uma provocação. Pôr um pianista a tocar contra outro, mas isso é o quê? Mas que tem uma tradição antiquíssima na história da música. O Mozart fez um duelo formidável contra o Clementi, o Beethoven fez um duelo formidável contra o Seibel, o Liszt fez um duelo formidável contra o Talberg. Isto fazia parte da cultura de salão e os artistas davam o seu melhor.

E o que é que quer dizer exatamente um duelo?

Cada um toca quatro vezes, mas intercaladas. Um responde ao outro, é uma picardia. E depois o público aplaude e quem tiver mais aplauso, ganhou. Isto não é um duelo até à morte, não é um duelo até sangrar, é um duelo para honrar as musas.

Exatamente.

Mas o que nós fazemos é medimos. Temos lá uma pessoa a cronometrar o aplauso de cada um e depois no fim fazemos o somatório. E claro que ganham ambos e o duelo termina com eles a tocar a quatro mãos, porque são amigos. Mas quando eu fiz isto, pensei: "Isto é uma coisa arriscadíssima". Então pedi a um colega musicólogo, que é o diretor do Museu Nacional da Música, para fazer uma palestra sobre os duelos, para se perceber que eu não enlouqueci. Isto é uma coisa histórica. E aquilo estava esgotadíssimo. No ano seguinte tivemos que ir para um espaço maior, igualmente esgotado, mas já não foi preciso fazer a palestra, porque as pessoas já iam e agora vai ser a mesma coisa. Eu sei que assim que abrir a bilheteira para o duelo, vai ser um português contra um americano. E eu estou curioso de ver se vamos ser bairristas e aplaudir mais o nosso, que é o Daniel Bernardes, ou o americano, que é um norte-americano chamado Dan Tepfer, que são ambos geniais e veremos qual dos dois leva a palma. Mas vamos ter concertos com solistas, vamos ter concertos ao nascer do sol, que é uma coisa também no meio da serra de Sintra.

Já tinha tido, já no ano passado.

Porque o festival apanha o solstício de verão, dia 21 de junho, dia mais comprido do ano. Eu acho que é maravilhoso nós saudarmos esse dia estando no nascer do sol, até porque quando imaginamos o sol na serra de Sintra, imaginamos o pôr do sol, que é no mar. O nascer do sol é nas costas do mar. É virado mais pra Sintra saloia e por isso é um desafio giro encontrar lugares na serra de Sintra com uma grande vista, não para o mar, para poente, mas para nascente. E encontrámos, lá vamos ter o nosso concerto, que é um concerto para intrépidos, porque aquilo começa com uma caminhada. O ponto de encontro é às 04h45 da manhã. Nós damos as coordenadas, as pessoas aparecem lá, também está sempre esgotado este concerto, e as pessoas fazem um trilho com lanternas de mineiro na cabeça.

Jovens ou várias gerações?

Tudo. E depois chegam ao sítio que nós definimos e lá o concerto está montado no meio da serra, é mesmo no meio da natureza, e há umas mantas e servimos bebidas quentes e tudo. E depois é um concerto único. Se quiser às 04h45 da manhã estar. Ninguém pode dizer que já tem coisas marcadas nessa hora.

Pois não. Ninguém pode vir com essa desculpa. Você mudou-se agora para Évora, foi uma mudança não direi de um dia para o outro, mas quase. Foi por quê? Ia a passar em Évora e viu uma casa?

Não. Eu vou a Évora desde sempre na minha vida. O meu pai tem uma casa no Alentejo, no distrito de Évora, não é no concelho de Évora, mas vai-se a Évora para as extravagâncias. Quer comprar uma mozarela, tem que ir a Évora. Quer comprar uma granola. Hoje em dia se calhar já não, mas nos anos 90 era assim. E Évora pra mim sempre foi uma cidade que me dava uma imensa felicidade, porque é uma cidade muito bonita, uma cidade serena. A medida é perfeitamente humana, todo aquele centro histórico é património mundial, é património da UNESCO, está defendido, não se pode mudar uma pedra de uma fachada de uma casa. Não é o mesmo tipo de património, não é Veneza, em que cada casa é um palácio. Évora é uma beleza mais circunspecta. São casas igualmente antigas, igualmente nobres também, mas diferentes. É a cal branca, é aquele rodapé amarelo, é aquele céu azul em cima. E isso sempre me fez muito feliz e sereno.

Já estava em si a ideia de um dia se descobrisse uma casa.

Exatamente. E eu já andava à procura, mas é de um motivo, ou melhor, de um enquadramento que me permitisse sair de Lisboa. E a verdade é que a partir do momento em que eu trabalho, eu trabalho no país inteiro, mesmo. Não há dois dias que eu esteja no mesmo sítio.

Tem a orquestra de Idanha-a-Nova.

Exatamente, outra no Algarve, o Festival de Sintra em Sintra e trabalho em todo o país, mesmo, faço concertos, palestras, toco, dirijo e escrevo música pra aqui, pra ali.

Portanto, fazia Lisboa como Évora.

Exatamente. Já quando vivia em Lisboa, passava aqui pouco tempo. Vou para uma cidade que me faz feliz porque é bonita. E não me arrependo nem um minuto. Na verdade, já tinha tentado antes na minha vida e não consegui, só consegui agora.

E consegue, por exemplo, o luxo, digamos, neste caso, de estar três dias lá seguidos?

Consigo. Por acaso, o dia em que estamos hoje a gravar marca o fim de um período de cinco ou seis dias seguidos em que eu estive em Évora, estamos na segunda semana de março. Consegui estar lá quase uma semana inteira e é maravilhoso. É uma cidade maravilhosa. Deu pra passear no campo, deu pra ir aos restaurantes que ainda não conhecia. De vez em quando dá-me assim umas fomes absurdas de ensopado de borrego, por exemplo. Só um ensopado de borrego é que mata uma fome, e poder satisfazer esses desejos e flanar, que é uma coisa que eu adoro. Sair com o meu cão a passear por aquelas ruas e perder-me e reencontrar-me, e vou parar ao Aqueduto, e vou parar ao Templo de Diana, e vou parar ao Palácio dos Marqueses de Cadaval e é incrível.

E tem ideias nesses percursos solitários com o seu cão?

Tenho imensas, é o momento das epifanias.

É ou não é?

Completamente. Aliás, há vários percursos que acabam por serem cortados porque eu tenho que ir rapidamente pra casa concretizar uma ideia antes que me esqueça.

Pois, claro. Devia de andar com um papelinho.

Sim, às vezes gravo notas, gravo a minha própria voz, mas há momentos em que a ideia vem tão viçosa que a pessoa tem que ir concretizá-la.

Viçosa, exatamente. Falámos há bocadinho do momento inicial quando entra em palco e fica diante de duas orquestras, no seu caso, a do Algarve e a de Idanha-a-Nova.

Chama-se Orquestra Sem Fronteiras.

Pronto, estava a escapar-me o nome. Ou de uma outra. A partir daí, é tudo consigo. Já há pouco abordámos esse momento, mas eu gostava de saber se é um momento que pode ser sobretudo parecido com um desafio Eu desafio a si como um risco, isto é comigo, ou também com uma imensa solidão, exatamente por ser consigo. Ou uma mistura disso tudo.

Poderia ser solitário, eu acho que consigo evitar que seja.

Mas podia ser, percebe o que eu quero dizer?

Completamente. Tenho vários colegas cujas carreiras acompanho, sobretudo à distância, e a quem pergunto como é, para saber se a vida deles é muito diferente da minha. E falam-me disso, da imensa solidão dos hotéis, dos transferes e dos aeroportos. Colegas que têm sobretudo carreiras verdadeiramente internacionais. A pessoa hoje está na Alemanha, amanhã está na Austrália. Não dá para desenvolver uma relação com aquelas orquestras, com aquelas pessoas, porque é mesmo toca e foge.

Exatamente.

Também foi uma escolha minha redimensionar a minha carreira. Eu trabalho de forma muito volátil em Portugal, mas Portugal não é o mundo. Portugal é Portugal e se eu vou a Braga quatro vezes por ano, quer dizer que eu de três em três meses estou ali. Eu tenho uma relação com aquelas pessoas, o restaurante, o café, o hotel, etc.

O hotel, o pequeno-almoço.

Exatamente. Por isso eu consigo já ter amigos por todo lado e aproveito sempre para ter vida social.

É muita riqueza. Mas de qualquer maneira tem convites para o estrangeiro, de vez em quando vai.

Tenho. Mas é uma escolha. Quando eu decidi voltar para Portugal, foi uma escolha muito radical.

Fez uma escolha. Optou.

Eu sinto que neste momento eu estou casado com Portugal e eu tenho uma missão a cumprir em Portugal e sinto que chegará o dia em que eu sinto que já fiz suficiente em Portugal, posso agora pensar em mim e sair daqui e concorrer a empregos fora de Portugal, outras orquestras, outros voos. Por agora, sinto-me um artista português.

Aparentemente, quem o conhece ou quem o observe gosta quase tanto ou tanto de divulgar a música e de cruzar as artes e as ideias, enquanto nesse mister de divulgador e misturar personagens, e faz isso na rádio e televisão, etc. Faz parte do músico que é querer ampliar isso? Levar a música também através da palavra, através das ideias do seu curiosíssimo programa na RTP.

Tudo são formas de passar a mesma mensagem, mas às vezes a mensagem vai líquida, outras vezes vai em estado gasoso, outras vezes vai em estado sólido, outras vezes vai congelada, mas é sempre o mesmo conteúdo nutritivo. Eu sinto isso. Tudo são caminhos para chegar a mim e àquilo que eu tenho para dar, que é no fundo a beleza, a beleza da arte, a beleza da música.

No fundo é o quê? O que é que tem para dar?

É isso. Eu sou uma porta aberta para a beleza. Não é a mim que têm que chegar, é àquilo aonde eu levo. Ou seja, eu não sou o destino final, eu não sou a paragem terminal, não é isso. Quem leu o meu livro sabe isso, quem vê o meu podcast sabe isso. Eu estou sempre a distribuir jogo. Eu quero é sinalizar a beleza e dizer: venham através de mim para chegarem ali.

Eu levo-vos pela mão.

Exatamente. O que me interessa é: venham comigo e eu vou vos mostrar o que é o Réquiem de Mozart, ou vou vos mostrar uma tela do Amadeo, ou vou vos mostrar uma fachada que nunca tinham imaginado numa cidade que conhecem da vida toda, mas nunca tinham olhado para aquilo daquela forma.

Aliás, isso está no seu livro.

Sim, a famosa janela do Caravaggio.

Já ao livro, mas como falou de Mozart, eu quero perguntar uma coisa: dirigir uma cantata de Bach ou a grande missa de Mozart, não sei, é quatrocentos e...

Ui.

Não, é porque eu quis me lembrar esta capa.

Uma das minhas cantatas de Bach preferida, por acaso, é a 404, mas são todas incríveis.

São todas incríveis, mas eu queria saber se é quase tocar aquilo que nos transcende. Nós sabemos que há sempre qualquer coisa que nos transcende. Eu queria saber se dirigir uma cantata de Bach pode ser ir mais além da nossa condição humana. É falar com Deus ou ele a falar consigo.

Posso dizer que sim. Por acaso, o próximo concerto que vou fazer tem uma cantata de Bach no programa.

Onde é?

No próximo dia 5 de abril, em Celorico da Beira, Orquestra Sem Fronteiras. Mas é um programa que já fiz aqui na temporada de música em São Roque em novembro passado e vai passar também online. Nós gravámos esse concerto. E é engraçado até porque é uma mesma cantata de Bach, que eu já tinha dirigido, que é a número 53, que é absolutamente sublime, e eu dirigi-a em novembro passado. Ela há de passar agora na televisão, em breve, provavelmente esta Páscoa, depois em abril vamos reencontrar com ela. E sinto sempre que é um patamar que está nos píncaros e eu ando aqui nesta vida mundana, mas sei que aquilo está lá. E no momento de eu voltar a estudar aquela peça, eu ascendo àquele lugar absolutamente incrível.

E quando está a regê-la, ascendeu.

É assim, é incrível. Aliás, esta cantata, especificamente, se nos estiverem a ouvir e tiverem curiosidade, por favor, ouçam o início da cantata número 53, que chama-se "Widerstehe doch der Sünde", "Fiquem firmes contra o pecado". E o que o Bach faz, se eu tivesse um piano, tinha todo o gosto em mostrar isto à Mari João, gosto muito de fazer estas demonstrações. O que ele faz é uma música que ascende.

Ascende.

Ascende. E há uma nota que nunca muda, que é a nota mais grave, e ele vai acrescentando outras por cima disso, e nós sentimos que vamos fazendo uma escada que vai até ao céu, e é quando chegamos a esse céu, é que a voz começa a cantar. Nós fazemos essa ascensão. E eu lembro-me de estar a dirigir esta peça na Igreja de São Roque, em novembro passado, estou virado para o altar e tudo isso, e juro que senti que estava a subir, literalmente, estava a aproximar-me daquela imagem.

Ia chegar a falar com Deus.

Completamente. Se aquilo não é o toque de Deus, eu não sei o que mais pode ser.

O que mais pode ser.

Tem que ser atirado ao chão, então, tipo São Paulo.

São Paulo é uma figura também extraordinaríssima. É pena não ter uma cantata. Martim, estamos, que pena, a acabar. Eu gostava tanto de continuar isto. Um minuto para você próprio me falar do seu extraordinário livro. Eu tenho medo de dizer mal, o nome é tão genial que eu tenho medo de dizer mal.

O título chama-se "Falar piano e tocar francês" , é o contrário da frase feita.

Claro.

Que é uma frase que toda mundo conhece, que era o quê? Era a receita para uma educação burguesa completa, sobretudo das meninas bem nascidas.

Não, claro!

Se elas ficassem piano e falassem francês.

Mas agora vamos ao livro.

E eu acho que eu desconstruí essa ideia, porque eu acho que nunca podemos ter uma receita completa. Nós nunca podemos estar satisfeitos com aquilo que sabemos e aquilo que já vimos. E não me interessa nada a menina que toca piano e fala francês. Interessa-me virar isso do avesso. E o livro é uma tentativa de abrir 500 portas para arte, beleza, lugares, sítios, estados de espírito e tudo mais, sempre onde a beleza está nas suas muitas facetas, e dizer às pessoas: "Vão por aí, metam-se por essa estrada e vão por aí fora". Com o entusiasmo que eu tenho. É um livro narrado na primeira pessoa, coisas que eu próprio vivi e que subscrevo.

Martim Sousa Tavares, não sei como lhe hei de agradecer.

Ora essa.

Gostei tanto de falar consigo, gosto sempre, mas conversamos muito bem.

Ouça o início da cantata número 53.

Vou ouvir.

Vai ver que sente essa ascensão. É incrível.

Muito obrigada, Martim.

Obrigado, Mari João.