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Patrícia Vasconcelos é filha de António Pedro Vasconcelos, já falecido, e de Maria Helena Guerra. Não se sabe se é mais enérgica que criativa, se mais eficiente que competente, é certamente tudo isto, tal como nos exibe um forte currículo com a imagem como instrumento do cinema, da televisão, do documentário, do telefilme. É uma especialista respeitadíssima em casting. Trabalhou com grandes nomes do cinema nacional e internacional, fundou uma escola de atores. Se tudo isto mostra qualidade, não se estranha, porém. Filha de peixe, sabe nadar e Patrícia teve como pai, António Pedro Vasconcelos, alguém que marcou o cinema português. Mas falta ainda o que ela chama o projeto da sua vida. Chama-se Mansarda, mas disso merece falar ela mais do que eu. É só esperar mais um bocadinho. Olá, Patrícia.

Olá, Maria José.

Muito obrigada por ter vindo.

Obrigada eu pelo convite.

Vou gostar imenso de falar consigo. O que é que pode explicar um currículo como o seu? O ser ativa, enérgica, curiosa, muito eficiente, ou há aí uma boa parte da herança paterna, como eu disse, filha de peixe, sabe nadar?

Sabe que eu brincava sempre muito com meu pai, que era do signo Peixes e eu sou do signo Aquário, e brincava sempre muito com ele a dizer assim: "Ó pai, tu estás dentro de mim".

Pois, exatamente.

Eu achava graça. E que me guiou e foi o meu grande mentor e acho que continua a ser. Algures vou lhe mandando guidance e ele vai me ajudando. Mas a herança maior que eu tenho do meu pai, para lhe responder a essa pergunta, eu acho que é sobretudo a curiosidade. E a curiosidade, no fundo, é aquilo que nos leva depois a poder andar.

Acho que é quase tudo, tem razão.

E é aquilo que nos leva a querer descobrir mais coisas. A curiosidade para mim-

E avançar.

E avançar, claro. E portanto, eu acho que esta coisa de eu fazer muitas coisas, sendo que hoje em dia já aprendi a dizer que não, mas eu acho que é isso, este meu vasto currículo, que eu não tenho a noção dele, porque para mim é o amanhã.

É claro. É o que se vai fazendo.

Sim, se me perguntar quantos filmes eu fiz, eu não sei.

Quantos somos?

Não, ou quantos filmes eu fiz, eu não tenho a mínima noção de quantos filmes eu fiz.

O que eu li são dezenas e dezenas. Mas foi trabalho, sim?

Sim, claro, que eu adoro.

Patrícia, mas há currículos que se têm e que se podem ter e os que se vão fazendo. E lendo o seu, e estávamos um pouco também a falar nisso, isto é uma continuação do que estávamos a dizer, fica-se com a certeza que a Patrícia criou, produziu o seu próprio currículo, teve uma grande intervenção nele. Isto parece um disparate, porque evidentemente que os currículos são feitos pelos seus autores e pelas pessoas que os fazem. Mas aqui houve uma parte pessoal muito empenhada, muito comprometida.

Sem dúvida. Para já, porque quando eu decidi em 88 e depois lancei-me em 89, depois de ter trabalhado com meu pai num dos filmes dele, que era o "Aqui d'El Rei", e que descobri esta minha paixão sobre o cinema, sobre o casting, na verdade, eu decidi lançar uma profissão que não existia, uma função, vamos chamar assim, que não existia em Portugal. Portanto, só isso já foi um bocadinho uma luta de convencer os meus futuros-

O universo do cinema, sim.

Que era um instrumento fundamental que não existia até aqui. E portanto, só isso foi uma luta para provar que de facto fazia a diferença de haver alguém.

Uma luta com assinatura.

Sim, com assinatura. E depois, na verdade, eu sempre fui bater à porta das pessoas com quem eu queria mesmo trabalhar.

Por exemplo.

Sei lá, imagine, estou a tentar lembrar, de repente, um realizador, mas agora não me ocorre nenhum. Mas quando eu fiz os telefilmes da SIC, que foi uma época incrível da minha vida, porque o Emídio Rangel deu-me carta branca para eu inventar montes de coisas.

Tinha um nome?

Aquilo chamava-se, era mesmo os 10 telefilmes da SIC.

Exatamente, eu tinha ideia disso.

E então era trabalhar com realizadores muito diferentes. O Tiago Guedes era um deles no início.

O Tiago Guedes.

O Tiago Guedes, que hoje em dia é um muito reputado realizador. Reputadíssimo.

Sou uma fã dele.

Na altura estava a começar. E enfim, portanto, há toda uma série de realizadores que quando eu admiro o trabalho, na verdade, mando uma mensagem, que é uma coisa que eu herdei muito do meu pai, felicito pelo trabalho que vi e disponibilizo-me para ajudar no futuro, caso queiram.

E portanto, deixava um sinal, como uma pessoa que vai desenhando um caminho com as pedrinhas. Há bocadinho falou aí que evidentemente herdou do seu pai a paixão do cinema, mas é muito interessante porque não foi para a realização, embora já lá vamos, tenha feito alguma coisa aí, mas foi sobretudo pelo casting. É muito interessante porque o cinema foi o ponto de partida e o de chegada, mas centrado no casting, porque era importante que passasse a haver em Portugal a noção do valor que pode ter o acerto de um determinado ator com um determinado personagem. Foi isso que a moveu?

Aquilo que me moveu foi eu descobrir o quanto era um trabalho criativo e que era fundamental que a escolha dos atores era uma parte, eu acredito, grande do sucesso do filme.

Do resultado final.

Sim, e eu observadora como sou, e curiosa, lá está, acho que consigo perceber muito bem o que é a história que o realizador quer contar e o meu contributo, o meu dálhe da minha criatividade, imaginar que o fulano A, B ou C pode ser aquilo que vai dar corpo àquele personagem, é mesmo um trabalho que me fascina. E sou literalmente, mesmo quase 40 anos depois, muito apaixonada pelo meu trabalho.

Há pouco disse-me que tinha sido no final dos anos 80 que se lançou nisso, porque viveu 12 anos fora de Portugal, entre os 10 e os 22, não foi?

Entre os 10 e os 22 anos estive fora, sim.

Em que países esteve?

Primeiro, com 10 anos, fui pra antiga Jugoslávia. Sou, mais uma vez, uma privilegiada, porque tive dois Pais fantásticos.

O seu pai e o marido da sua mãe.

Sim, o Ava Guerra.

Que era embaixador.

Que era embaixador e que na verdade foi quem me criou no dia a dia. Era um homem absolutamente extraordinário, que foi um embaixador político.

E depois da Jugoslávia.

E depois da Jugoslávia, estivemos lá oito anos, fomos para o Zaire, hoje em dia acho que Congo Belga. Na verdade, são países que hoje em dia já não existem como eram à nascença. E foi uma vida muito rica, porque me abriu montes de horizontes.

Basta a diferença entre as zonas geográficas, por exemplo, onde esteve.

Sim, as culturas.

As culturas, exatamente.

Eu sinto-me uma cidadã do mundo.

Claro.

Eu não me sinto portuguesa. Sinto-me portuguesa porque sinto que tenho-

Porque é daqui!

Porque sou daqui, sim. Mas sinto-me sobretudo uma mente muito aberta, disponível e cidadã do mundo, curiosa.

Há bocado estava a dizer que era curiosa, mas é além disso, disponível. Você é disponível para o que vier, se alguma coisa lhe sinalizar um caminho, uma ideia, uma inspiração, você está naturalmente disponível, não é?

Completamente. A coisa que eu acho que se calhar mais gosto de fazer no meu dia a dia é observar. E observar e estar atenta. Eu gosto de estar atenta ao outro, na verdade. Eu sou fascinada por pessoas. E o meu pai-

Eu também.

E cada vez mais, porque cada pessoa tem um encanto.

Claro. Cada pessoa é qualquer coisa.

Sim, e mesmo quando eu vejo pessoas agressivas, fico sempre a pensar: "Coitada desta pessoa, deve estar a sofrer qualquer coisa para estar neste estado".

Para estar alterada ou fora dela.

E sinto compaixão. O meu pai tinha esta coisa extraordinária, que era falava com toda a gente e mais alguma, de qualquer quadrante, não era nada esnobe. Extraordinário. E isso passou-me muito, não só da gentileza, como da disponibilidade, como a Maria João estava a falar, da disponibilidade perante o outro, da escuta.

Da atenção.

Da atenção, sim.

E portanto, também é uma herança dele.

Também, sem dúvida.

Você ser uma observadora nata.

Sim, sem dúvida.

Patrícia, então vamos começar pela sua primeira criação, que foi arrojadamente lançar-se num casting director. O que é que achava que a habilitava para isso? No fundo, era observação, era ter visto seu pai, era estar familiarizada com o meio, podia ser a escultura, a pintura ou o bailado, mas era o cinema. Portanto, sentia-se naturalmente, não se assustou, sentiu-se naturalmente habilitada?

Sim, porque isto nasceu de uma observação. Nasceu de um episódio que eu vi, de um episódio concreto, que aconteceu num filme do meu pai, que eu estava no guarda-roupa e era responsável por um determinado segmento do guarda-roupa, de vestir os atores, e assisti a um episódio de um ator, que na verdade não era um ator, era um figurante que tinham contratado para fazer um trabalho de ator que ele não tinha capacidade.

E você apercebeu-se.

E eu apercebi-me disso, porque estava a ver que a equipa estava a ficar cansada, que toda a gente estava a ficar cansada, que tinham que repetir muitas vezes, ele se enganava. E a certa altura, lembro-me de falar com uma colega minha, em francês, porque a equipa era quase toda francesa, e eu disse: "De quem é a responsabilidade desta pessoa estar aqui?" E ela respondeu-me: "Ah, le casting". E eu: "Le casting?" Nunca na vida tinha ouvido falar essa palavra. E aquilo bateu-me e pensei assim: "Eu acho que identifico o problema. Eu acho que estou a identificar o problema. Eu acho que isto tem mesmo a ver com uma escolha da pessoa. Portanto, tem que haver alguém responsável por esta pessoa estar aqui. E essa pessoa, pelos vistos, se calhar, aqui não existiu. Meteram aqui qualquer um". E foi isso que me despertou.

Foi a primeira inspiração.

Foi. E portanto, depois fui estudar um bocadinho, não há um estudo sobre casting.

Poxa, eu ia perguntar onde é que foi estudar.

Porque depois, por circunstâncias da vida, fui viver um bocadinho para Paris e decidi ir para uma biblioteca da FEMIS, que era a escola de cinema, e pedi para me imprimirem tudo o que houvesse de recortes sobre a palavra casting.

Claro.

E então fui para casa com um dossier, que ainda hoje tenho, e fui ler para tentar perceber o que era isto desta profissão.

E depois o que reteve ou o que aprendeu, se quiser, casou naturalmente com aquilo que você já tinha de interesse em trabalhar nisso.

Porque eu sabia que era isso que eu queria fazer na vida.

Pois, que interessante.

Eu tinha encontrado o meu lugar.

O caminho, o lugar. É melhor lugar, tem razão, é melhor lugar do que interessante. E correu bem, começou por correr bem?

Começou por ser difícil Porque como os meus clientes realizadores iriam sempre ser pessoas ligadas ao cinema, eram pessoas que me conheciam desde criança. Primeiro, que me dessem credibilidade, foi um bocadinho difícil. Na verdade, o primeiro filme com que eu trabalhei foi um filme francês, não me lembro do nome, mas era uma coprodução que vinha cá filmar a Portugal, era o António da Cunha Telles que era o produtor. E precisavam de alguém que falasse francês e que conhecesse minimamente os atores. Portanto, "Esta rapariga é desenrascada".

Claro.

E portanto, bora dar este trabalho.

E correu bem.

E correu lindamente. E a partir daí, voltando um bocadinho aos telefilmes, a vantagem disso foi que o facto de me terem dado carta-branca para eu inventar, apostar em novas caras, deu-me imensa credibilidade. Ou seja, de repente é: "Esta pessoa nós não conhecíamos". E você a conhecia por quê? Porque era o seu meio? Porque era o cinema? Não, porque vou ao cinema, vou ao teatro, vou bater à porta das escolas.

Trabalhou para isso?

Claro. E dava aula já numa escola de manequins, onde tinha, por exemplo, o Diogo Morgado como aluno, a Maria João Bastos como aluna, o Ricardo Pereira como aluno, e eu conseguia perceber o talento que estava ali.

Claro. Sim, e a espécie de talento, se quiser, mais virado para a comicidade, mais para o drama.

Precisamente, depois onde encaixar.

Onde encaixar. É o tal acerto que eu falava há bocadinho, o acerto da escolha entre um ator e o personagem que ele tem que interpretar. É muito interessante.

Mas mesmo hoje em dia, mesmo em relação a políticos e outros setores, utiliza-se a palavra de um mal casting.

É verdade. Diz-se um erro de casting na política. Passou a ser uma coisa vulgarizada, faz parte da nossa linguagem. É muito interessante. Você quando está, por exemplo, a ver uma entrevista política ou um documentário, uma reportagem que envolva políticos, percebe que isto é um erro de casting? Este tipo neste lugar ou esta senhora naquele lugar.

Sinceramente, sim. Mas acho que já é um defeito profissional.

Não é um defeito. É o hábito.

Por que se diz defeito? Que engraçado, por que é pela negativa? Por que se diz pela negativa que é um defeito?

Mas não é nada seu.

Não, mas é engraçado porque é uma frase feita, não é?

É uma frase feita. Mas eu diria mais depressa, o erro é mais bem visto do que defeito, porque de facto há pessoas que são erradas para aquilo que são chamadas a fazer.

Mas aí entra o ego da pessoa que aceita.

Sim, exatamente. Que aceita, exatamente. Temos um minuto até chegarmos ao intervalo e eu queria que no minuto você me dissesse: o cinema é. É o quê?

Cinema é magia. Eu acho que a primeira coisa é o cinema é magia, o cinema é entertainment. Acho que é isso que é importante. Fascina-me a capacidade de conseguir contar uma história, e que nos agarra ao celular.

Mas é a base de um bom filme, ou não? Eu não diria a base.

Fazer viajar.

É o motor.

Fazer-nos viajar. Depois de termos estado uma hora, duas ou três a ver um filme, você levar qualquer coisa. Conseguir ainda falar sobre aquilo que viu. E essa capacidade pode ser para sonhar, ou pode ser para refletir.

É sair com a sensação de que nos contaram uma boa história.

E que aprendi mais qualquer coisa.

E que retive e que levo para casa mais qualquer coisa. Patrícia, vamos fazer aqui a tal pequena pausa que eu anunciei. Esperem por nós, voltamos já já a seguir. Estávamos a falar daquilo que a Patrícia acha que se traz de um bom filme, contaram-nos uma boa história e nós aprendemos ou retivemos qualquer coisa. Eu agora vou lhe perguntar a si, dos grandes nomes com quem trabalhou, nacionais e internacionais, a começar pelo seu pai, António Pedro Vasconcelos, o que é que reteve? E tinha também a noção, por exemplo, que ia progredindo nesse reter e nessa aprendizagem. Tinha a sensação que era um caminho que ia fazendo?

Completamente. E cada projeto, cada realizador com quem se trabalha, se tiver a humildade de ouvir e, de facto, de dizer "eu estou aqui para servir". Ou seja, eu na verdade ajudo um realizador nas escolhas que ele vai fazer. Eu sou uma mera...

Um instrumento.

Sim, no sentido em que eu dou-lhe ideias e ele é que depois as escolhe.

Ele decide.

E ele decide, claro, porque é ele que assina.

Claro.

Há realizadores que me marcaram imenso O Raul Ruiz marcou-me muito. O Cacá Diegues, brasileiro, marcou-me imenso. A humildade dessas pessoas, a criatividade, a segurança nas escolhas, o rigor, a delicadeza, que são coisas que eu gosto e que para mim são fundamentais, porque o meu pai sempre foi uma pessoa muito delicada, muito educada e muito carinhosa, e eu não admito o contrário.

Claro.

E realizadores portugueses com quem eu adoro.

Se deu particularmente bem.

São muitos. Há uma nova geração também muito interessante. Há relativamente pouco tempo, o Rui Pedro Sousa, que é um jovem realizador que queria absolutamente trabalhar comigo, eu não o conhecia de lado nenhum, para fazer um filme chamado "A Revolução Sem Sangue", que estreou há pouco tempo.

E gostou?

Gostei muito.

Marcou-a?

Marcou-me pela disponibilidade, sendo um jovem realizador que ainda não tinha feito nenhuma longa-metragem, e a escuta, ou seja, de ouvir a minha opinião, sendo que a minha opinião é só a minha opinião e depois, como eu estava a dizer, a última escolha é dele.

Claro.

Mas a escuta criativa, porque é um trabalho criativo que se vai fazendo.

Que se vai fazendo, exatamente. Mas tem a noção que essa criatividade pode transbordar, ser empolgante e empolgada, e outras vezes ficar um bocadinho aquém daquilo que esperava. A criatividade, o espírito sopra de vez em quando.

Sem dúvida. Uma pessoa que me marcou muito também, com quem eu adorei trabalhar, foi o Marco Martins, de quem me tornei amiga e fizemos os dois primeiros filmes dele juntos, o "Alice" e o "Como Desenhar o Círculo Perfeito". E é fascinante trabalhar com um homem tão criativo. E isso, na verdade, é aquilo que me move. Eu agora estou a trabalhar outra vez com o Ruben Alves, que é outro realizador que eu adoro.

Gosta imenso.

E adoro o universo dele. É uma pessoa muito especial na minha vida. E tem que ser prazeroso. Se não for prazeroso, já tive muitos momentos que não foram e faz parte. Terei outros, com certeza, para a frente. Já me defendo, se calhar, de uma forma diferente.

A vida são marés altas e marés baixas.

Sem dúvida. Se não fossem, era estranho.

Claro. Olhe, um dia, agora vamos concretizar outro dos seus atributos, foi tentada pela realização e escolheu talvez um génio, não sei, o Raul Solnado, que eu era muito fã, mas eu era fã do Raul Solnado, e isto é uma pergunta que envolve, peço desculpa de eu me estar a citar agora, a falar de mim, mas eu apreciava tanto o Raul Solnado em cima de um palco, quanto fora dele. Humanamente, era uma pessoa formidável.

Formidável. O Raul Solnado era amigo lá de casa quando eu era miúda, porque era muito amigo da minha mãe e do Álvaro Guerra. E portanto eu toda a vida convivi muito com ele.

Até que um dia ele lembrou-se.

Não, e depois o que é muito engraçado é que ele depois, anos mais tarde, veio a criar uma escola, uma pequena escola, na Guilherme Cossoulho, que na verdade é o teatro onde ele começou.

Exatamente.

E dava aulas. E cada vez que encontrava um novo talento, isto já com 70 e tal anos, ligava-me a dizer: "Patrícia, descobri um rapaz fantástico".

Que interessante.

E eu, na verdade, também dava-lhe papéis nos filmes, que ele estava já um bocadinho esquecido. E não havia um trabalho de casting, ninguém fazia esse trabalho.

Claro.

E então eu dava-lhe papéis. Renasceu um bocadinho no cinema, em filmes com o meu pai. Lembrei dele, assim como tantos outros atores mais velhos, a Mariema, a Adelaide João, sei lá, podia citar imensos.

E a Mariema era uma atriz fantástica. E a Adelaide João também era uma atriz fantástica. Nós agora estamos a falar de pessoas que dizem muito pouco às novas gerações, mas ainda bem que falamos, porque marcaram tanto teatro.

Tão bom. Que saudades que eu tenho dessas pessoas.

Também, que saudades que eu tenho.

É verdade. E o que é que aconteceu?

Um dia quis fazer uma...

Não, o Raul, um dia, estávamos os dois a conversar, porque éramos muito amigos, e eu disse-lhe: "Olha, sabes o que é que eu gostava um dia de fazer? Um documentário sobre a tua vida". E ele virou-se para mim com o humor que lhe assistia e disse: "Olha, é mesmo já agora após meus 80 anos". Eu disse: "Calma, Raul, é só a working progress".

É uma coisa working progress.

E ele disse: "Não, és tu que vais fazer, porque não há ninguém que me conheça tão bem como tu". Aquelas coisas de sedutor.

Sedutor, mas provavelmente era uma grande verdade.

E eu era muito amiga também já da Leonor Xavier, que tinha sido mulher dele. Tanta falta que ela nos faz. E de repente juntou-se ali uma vontade enorme e começámos a desenvolver isso. A RTP envolveu-se e pronto. Mas ele, como era um grande malandro, morreu uma semana antes de começarmos a filmar.

Eu sei.

E eu fiquei sem coragem de fazer. E desisti. Mas um dia eu estava deitada na minha caminha a sonhar e de repente acordo, assim de rompante, porque o Raul tinha vindo aos meus sonhos a dizer assim: "É que tu nem penses abandonar".

Não é nada a ser desistir.

Não é isso, é porque eu sei lá quem é que depois vai fazer um documento. Só tu sabes o que eu queria que fosse contado. E dá-me um grande raspanete no meio do meu sonho, e conclusão, eu pensei: "Eu vou ter que fazer". E conhecendo o Raul, tudo aquilo que nós queríamos falar já está dito em entrevistas. E, portanto, vais te fechar no arquivo da RTP durante meses e vais encontrar a forma.

Fazer um puzzle.

Fazer um puzzle, mas consegui fazer um puzzle sendo ele o narrador. Ele é o narrador da sua própria história.

Pois. Eu lembro-me de ter achado muito engenhoso. Engenhoso, agora não, é um elogio que eu estou a fazer. Aquilo estava cheio de engenho e arte.

Sabendo agora a história, sem ele, eu fiz tudo sem ele. Mas tenho uma coisa para divulgar, se calhar, em primeira mão.

Então, que bom!

É verdade, por acaso agora que pegou nesse assunto, é que eu nunca tinha tido veleidade para realizar nada em ficção. Mas há dois anos atrás tive uma ideia.

Que é o que você tem para ninguém contar.

Exato. Isso é uma coisa, é verdade, essa minha criatividade, a minha cabeça é o meu maior bem, se puder haver um seguro.

Sim, exato.

Mas tive uma ideia de uma história para contar e decidi rodear-me das pessoas que eu queria, o Rui Cardoso Martins a escrever comigo, a Maria João Meyer, minha grande amiga como produtora, o Rui Poças, que é um grande diretor de fotografia. Enfim, e decidi aventurar-me e ganhei o subsídio e vou fazer a minha primeira curta-metragem.

Bravo! E tem nome, tem história?

Tem, eu lhe posso dizer em dois segundos. Chama-se "Ressonância" e é uma história de uma senhora velhinha, reformada. Não interessa o que ela foi, senão é muito longo, mas que sofre de uma enormíssima solidão. E a forma que ela encontra para combater a solidão é inventar pequenas maleitas para andar de médico em médico, porque a única coisa que ela quer é o toque e a atenção.

Sim, portanto, isso fala sair de casa, entrar num sítio onde está gente, falar com pessoas, ouvir pessoas.

Não, ir ao médico mesmo. Ela inventa pequenas maleitas e anda de médico em médico, porque ela foi médica.

Sim.

Portanto, ela sabe que não está propriamente a fazer nada de muito mal, mas é a forma que ela tem de combater a solidão. E isso, na verdade, veio-me do Raul, porque o Raul contou-me uma história.

Parecido.

Sim, ele dizia que um dos grandes momentos de felicidade dele era quando ele ia ao médico, porque o médico estava a olhar-lhe nos olhos.

Estava lhe a dar atenção àquilo que o fazia sofrer ou àquilo que o preocupava.

Ele só queria atenção.

Não, claro.

E aquilo sempre me ficou marcado na minha memória e pensei: "Eu um dia vou fazer qualquer coisa sobre isso".

E quando é que vai começar a filmar?

Em janeiro.

Em janeiro. Bravo, Patrícia, muitos parabéns. Quem é a atriz?

É a Betty Faria.

Ah, muito bom. A Betty Faria. Mas está cá? Vem a Brasil?

Virá. Repare, eu se calhar até estou a desvendar coisas demais.

Não, não está nada.

Mas no sentido em que foi escrito para ela.

E ela disse logo que sim. É uma grande atriz.

Nós somos muito amigas. Tornámo-nos muito amigas num projeto que ela veio cá fazer a Portugal e estou muito entusiasmada, e estamos ambas muito entusiasmadas.

Eu vou dar uma espreitadela quando começarem a filmar. Estive em tantas filmagens do seu pai, tantas não, mas algumas, no "Aqui d'El Rei", noutras, e em outros realizadores. Houve uma parte da minha vida em que eu fiz e que estar no set, eu gostei muito.

É tão bom.

É bom.

Portanto, agora vai ser uma grande aventura.

É a tal magia. Dou-lhe os parabéns por essa aventura. Agora temos que falar antes de chegarmos à mansarda, para você explicar o que é a mansarda e eu bater-lhe palmas. Queria só perguntar o seguinte: também tem uma escola de atores, que não é nada a mesma coisa que casting. Você, nessa escola, ensina ou dirige só a escola e chama outras pessoas para determinadas alíneas? Como é que é a estrutura?

Criei a escola porque na altura, quando eu ia às escolas que existiam de formação de atores, percebia que não havia nenhuma técnica para saber estar em frente a uma câmera. E então decidi criar esta escola que faz agora 25 anos, que é incrível. Incrível, 25 anos, que tem sobretudo o ensinamento de saber estar em frente a uma câmera. Portanto, é uma escola de formação de atores, mas especializada em cinema e televisão, ou seja, técnicas para cinema e televisão. Dito isto, é um projeto, obviamente, que eu desenvolvi da minha cabeça e que criei durante muitos anos com a minha amiga e atriz Elsa Valentim. Hoje em dia sou só eu que dirijo a escola e ela é professora como tantos outros. Eu também dou aulas.

Quantos são os professores?

São muitos.

E corre bem.

Ah, lindamente.

Corre lindamente, é fluido.

Lindamente. Muito trabalho, como é óbvio, também não sei.

Tudo dá trabalho.

Claro, sobretudo para fazer bem feito e com rigor. Mas eu dou aulas daquilo que são as saídas profissionais, como se promover num casting, como ir a um casting, como fazer um casting. Portanto, eu dou aulas no fim. Quer dizer, estou lá, obviamente, sou a coordenadora geral.

Vai lá todos os dias?

Claro, sim.

É a base do seu trabalho.

É a base do meu trabalho, sim.

É a base é a escola de atores. E é dali que depois parte.

Não, e depois quando estou a fazer casting, obviamente, não estou lá. O segredo para mim é sempre saber delegar e ter uma boa equipa E, portanto, eu rodeio-me de uma equipa.

Não é nada centralizadora.

Não. Eu adoro delegar. As pessoas têm que crescer.

E a que horas é que pensa? Porque já me falou aqui duas vezes de vir ter em sonhos consigo.

Sim.

Portanto, a noite é uma coisa que lhe é fértil também.

Não sei se é só a noite.

Não digo que seja só a noite, mas como citou duas inspirações que teve.

Sim, nos sonhos. É engraçado isso. Eu acho que eu preciso de tempo pra mim.

E tem?

Tenho. Eu sou sempre a minha prioridade.

Sim.

Eu tenho que cuidar de mim primeiro, porque se eu não cuidar de mim...

Dito assim parece egoísta e você não é nada egoísta.

Não, mas no sentido em que se eu não cuidar de mim, se eu não estiver bem, eu atiro coisas más para cima dos outros.

Exatamente, claro.

E, portanto, eu sou a minha prioridade, eu tenho que ser a minha melhor amiga. E cuido muito de mim, sim, apesar de, de fato, eu acho que sou muito generosa, mas eu tenho que cuidar de mim.

Não, claro, que é pra poder cuidar dos outros.

Sim, exatamente.

Exatamente. A escola de atores é, portanto, a grande base, o casting também, mas você criou, ainda sobre o cinema, o casting, o teatro e os atores, criou uma coisa chamada Passaporte Lisboa. E eu queria saber o que é que significa o Passaporte Lisboa, em poucas palavras.

Em poucas palavras, o Passaporte, mais uma vez, foi uma ideia que eu tive de pensar por que será que até um determinado momento, algures no início do século, só se iam descobrindo atores pelo mundo, pela Europa fora, até Espanha. Porque havia o Joaquim de Almeida e a Maria Medeiros, que foram eles que foram ter a outros países para apresentar as suas carreiras.

À França e à América.

Mas nunca vinham a Portugal procurar talento. E eu pensei: nós temos tanto talento em Portugal que não pode ficar confinado ao nosso país.

Exatamente.

Portanto, eu tenho que mostrar ao mundo o talento que nós temos.

Sim.

Portanto, em poucas palavras, é isto que eu lhe posso dizer. O circuito é feito ao contrário. Em vez de o ator ir bater à porta dos outros, sou eu que trago os casting directors pelo mundo fora.

E tem corrido bem.

Graças a Deus, ou graças a mim.

Graças aos dois.

Mas já vamos na 10ª edição. É muito.

É muito.

E com muito sucesso.

Muito bem. Aqui há uns anos, criou uma coisa chamada A Mansarda, da qual você diz que é o projeto da sua vida, e quando disse aí há pouco que era generosa, e eu sei que é, isto é acima de tudo, um projeto generoso.

Meu Deus, sim. E digo lhe, é o projeto mais difícil de montar. Eu nunca pensei na vida que fosse tão difícil. Já vai em quase 14 anos.

E vamos explicar o que é.

A Mansarda nasce de uma vontade de querer proporcionar uma velhice digna às pessoas que são parte integrante daquilo que é a minha área profissional. Portanto, as áreas criativas.

Exatamente.

Não é só os atores.

Não, é claro.

E eu acho que em Portugal não há essa cultura de preparar a velhice. A maior parte dessas pessoas, infelizmente, nem sequer vão ter direito a uma reforma e, portanto, se calhar vão ter uma velhice pouco digna. E isso custa-me muito. Portanto, primeiro, a ideia é criar uma casa onde as pessoas possam ter uma velhice digna e vamos ver se conseguimos.

Em que pé está?

Estamos num pé difícil, porque temos o terreno que nos foi cedido pela Câmara Municipal de Lisboa, no Restelo, e agora é a montagem financeira que, na verdade, é a parte mais difícil.

Sim, mas que está em curso ou ainda não começou?

Não, não está ainda sequer em construção.

Não, a montagem financeira está em curso.

Claro, mas é uma parte muito difícil, porque estávamos à espera de uns PRRs que não apareceram. O Covid mudou muita coisa na vida das pessoas e financeiramente também, ainda mais.

Mas é um projeto ao qual você está debruçada. Quer dizer, não larga.

Não largo o isco. Mas é um projeto muito difícil de implementar. É preciso muita vontade política pra que ele aconteça, porque se não houver apoio da Segurança Social, etc, vai ser muito difícil montar uma coisa de raiz, como o próprio Raul Solnado teve muitos anos, quase 25 anos, pra montar a Casa do Artista.

A Casa do Artista, que hoje em dia é uma realidade feliz e formidável.

Graças a Deus que existe.

Patrícia, está contente consigo própria?

Estou muito feliz e orgulhosa das pegadas que eu vou deixando pelo mundo.

O seu pai, provavelmente, no sítio onde está, ouviu agora essa coisa tão bonita e ficou comovido por ter aqui uma filha a expressar-se tão bem. Patrícia Vasconcelos, agradeço-lhe imenso. Gostei imenso de ficar a saber ainda mais sobre si. Muito obrigada por ter vindo.

Obrigada eu, Maria João. Muito obrigada.