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João Vieira de Almeida é filho de Vasco Vieira de Almeida e de Ana Maria Vieira de Almeida. O pai foi um grande advogado, que deixou marca e memória no país, fundando um escritório que hoje é uma marca internacional. Combateu pela democracia antes e depois de abril de 74, foi ministro em Portugal e Angola, entre muitas outras coisas que Vasco Vieira de Almeida fez. A mãe, já falecida, foi uma pedagoga e percursora de novos modelos de educação infantil e primária, que ela própria investigou e veio a pôr em prática no Colégio A Torre, por ela fundada em 1970. E o seu filho João, o herdeiro do episódio de hoje, nesta minha série de podcasts, é uma síntese excelente dos pais, sabendo muito bem o que tem feito com esse legado ao longo da sua vida. Obrigada, João, por estar aqui.
Obrigado eu, tenho imenso gosto.
A pergunta primeiríssima, porque não pode deixar de ser esta: como é que se transforma, que foi o que lhe aconteceu, no escritório fundado pelo seu pai? Ou como é que você transformou um pequeno escritório de advogados lisboeta, com seis advogados na altura, numa firma internacional com mais de 500 colaboradores, da qual hoje o João é o CEO? Pode perder tempo com a resposta.
Acho que não havia tempo suficiente pra contar a história toda. Eu acho que um bom resumo é: fez com muito trabalho. Fez com muito trabalho e, já que estou aqui essencialmente pra falar dos meus pais, fez-se muito com o apoio do meu pai, que foi um homem de uma generosidade extraordinária, porque confiou num grupo de pessoas bem mais novas, nas quais eu estava incluído, e sem nunca nos ter cortado as vasas, deixou-nos fazer o nosso caminho, sem ao mesmo tempo deixar, felizmente, de estar presente.
Sempre presente e ainda hoje está.
Sempre, e ainda está, felizmente.
Felizmente.
Foi uma inspiração, foi um exemplo, foi uma presença que sempre nos animou.
Inspiradora.
Sempre.
Você diz que está aqui para falar muito dos seus pais, claro que sim, mas sobretudo para falar de si, porque eu acho que faz a síntese magnificamente entre esse legado. Mas agora queria saber, quando você diz que foi com muito trabalho, mas num caminho, você tem a noção que avançou grão a grão, que o devagar se vai ao longe, ou conheceu mudanças, hesitações, intervalos, sobressaltos? Foi só muito trabalho ou foi uma caminhada acidentada?
Foi uma caminhada com acidentes. É óbvio que agora, como sempre, olhando pra trás, parece que foi tudo rapidíssimo.
E facílimo.
Parece que foi tudo facílimo e que aconteceu ontem, mas claro que não, como tudo na vida, deu trabalho, cometemos erros, tivemos que corrigir, andamos pra frente, pra trás, tivemos imensas hesitações, tivemos momentos de preocupação séria com o futuro e com as pessoas, mas foi um caminho espetacular, fantástico e que me deixa pessoalmente, sei que não é só a mim, muito realizado e muito feliz com aquilo que fomos capazes de fazer.
A partir de que momento dessa caminhada, que hoje tem o sucesso que tem, é que perceberam que estava ganho, que iam ganhar a aposta que tinham feito em alargar, em mudar algumas coisas, em melhorar outras, em escolher outras?
Eu acho que talvez quando começámos a fazer sócios mais novos, e encontrar espaço pra trabalhar a sucessão e pra ver um futuro na geração que vinha a seguir. E depois, num plano mais pessoal, quando preparei, depois concluí a minha sucessão. Eu hoje sou chairman, fui muitos anos managing partner, que é uma espécie de CEO, e houve um momento em que essa sucessão se concluiu, e eu aí percebi que tínhamos conseguido virar a página. E esse tinha sido sempre o meu sonho, era chegar um momento em que os mais novos nos substituiriam, porque o sonho foi sempre esse, era criar uma instituição que nos sobrevivesse.
Claro.
E acho que esse foi o momento.
É um grande desafio.
É um grande desafio.
E uma ótima recordação sua, das melhores da sua vida.
Das melhores da minha vida.
Esse ganho, esse terem conseguido.
Todo este percurso é uma história que me orgulha imenso e que, sobretudo, me deu imenso gosto.
Imenso gosto. E hoje em dia, qual é a sua atenção dada à VDA, Vieira de Almeida? A sua quantidade de trabalho continua a ser a mesma?
Continua a ser a minha vida. Eu hoje faço outras coisas.
Claro, mas é essa a decisão.
Mas é a minha vida. Eu continuo a ter algumas funções executivas de chairman, e uma delas é: sou eu que faço a gestão dos sócios.
Quantos são?
Somos quase 60. Portanto, imagine, tenho ali gente brilhante, uns egos enormes.
Sim, com uns egos enormes.
Umas sensibilidades imensas, umas diferenças idiossincráticas incríveis. E, portanto, gerir isso tudo dá-me imenso gosto.
Eu tenho um pouco de pena que agora estamos a falar de excelência, não só no seu caso, como da família de onde vem, mas sobretudo agora de gerações mais novas, com o elogio que faz a essa geração abaixo da sua Porque há muita tendência de se dizer entre nós: "Não sabem, são ignorantes ou têm que ir lá para fora quando são bons". Não têm! Vocês têm do melhor no vosso escritório.
Então, não, temos. E eu sou completamente contra essa generalização das gerações.
A generalização é um pouco também por causa dos salários, agora não vamos entrar por aí, mas com salários muito baixos, é natural e legítimo que os jovens procurem melhor.
Mas como sempre foi assim. Eu acho que as gerações enfrentam basicamente problemas semelhantes. As circunstâncias mudam, mas aquilo que são os anseios das pessoas não são muito diferentes. Quer dizer, as gerações mais novas gostam de um bom, como se diz agora, work-life balance. Nós se pudéssemos ter tido, também teríamos gostado. As circunstâncias é que mudaram. E eu não me revejo muito nesta coisa da categorização das pessoas por geração. Se pensar bem, quando apareceu a televisão, a geração mais nova ia se perder, porque iam ficar fixados à televisão. Agora o tema é com os telemóveis.
Exatamente.
Antes disso, tinha sido com a música, com o rock, quando apareceu o rock and roll, que era uma perdição. Portanto, eu evito muito fazer esse tipo de análise, porque acho que faz-me muito mais velho.
Pode ser demasiado. Sim. Faz-me enorme.
Põe-me na geração de cima. Portanto, eu relativizo bastante essas coisas.
Sim, agora só um pequenino parêntesis. Tudo isso é verdade, desde o rock passando para a televisão, o ecrã, que íamos ficar dependentes e depois isto e aquilo. Só que neste momento, há efetivamente uma dependência psíquica, quase, dos jovens com os telemóveis desde os três, quatro anos, e as redes sociais são, como você sabe, uma espécie de mar do mal, mais do que do bem. Com imensas vantagens, evidentemente.
Imensas vantagens e desvantagens. Eu acho que há uma responsabilidade enorme, sobretudo dos pais nisso. Eu ontem recebi num destes grupos de WhatsApp, porque nós falamos dos mais novos, mas nós também já temos graus de dependência significativa em relação aos telemóveis. E num destes grupos do WhatsApp, ontem recebi uma petição a favor de se legislar a proibição do acesso ao telemóvel ou às redes sociais, até aos 14 ou até aos 16. Mas eu acho que até aos 14 também. Acho que isto é um papel que tem que ser feito em casa, não é por haver uma lei que impede isso. Isso é como a proibição nos Estados Unidos, quer dizer, querer que as pessoas não bebam. Isso não é a solução para o problema. A solução começa com a responsabilização dos pais, a conscientização dos próprios, o envolvimento dos professores e das escolas. Aí, sim, acho que há um espaço para isso.
Os pais precisam ser amparados no seu julgamento e nas suas escolhas.
Como é óbvio. Agora, acho que não é uma lei que se vai riscar, acho que isso não é solução.
Voltando à VDA e sobretudo a si. Houve, há uma cultura da casa, evidentemente. Você já aqui, através das suas respostas, no fundo, já abordou. Mas eu gostaria que tentasse resumi-la neste sentido. Foi uma visão estratégica, foram boas escolhas, foram valores, foi vontade, foi determinação?
Foi uma mistura disso tudo e de uma coisa que também faz imensa falta na vida, que é um bocado de sorte. Quer dizer, e coisas que vão acontecendo e muitas vezes nem sequer são pensadas, mas tem que ver, obviamente, com isso tudo. Eu acho que a raiz está nos valores e numa certa forma de estar. E nós aí bebemos muito do exemplo do meu pai. O meu pai tem uma coisa fantástica que eu espero, pelo menos em certa medida, ter também herdado, é nunca se ter levado demasiado a sério. Quer dizer, nunca foi uma pessoa que se...
Também acho. Do que eu conheço, que é alguma coisa, concordo.
E isso permitiu criar um ambiente muito próprio no escritório. Nunca foi um escritório de doutores, dos senhores doutores. Foi sempre um escritório em que as pessoas foram muito próximas. E depois teve a ver com as circunstâncias, porque nós tínhamos só o meu pai, que era o advogado mais velho, e depois éramos todos, tínhamos todos 20 e tal anos, o que permitiu que criássemos entre nós laços de enorme cumplicidade indissolúveis, que se mantêm até hoje. O que verdadeiramente foi extraordinário e, quer dizer, no plano teórico, talvez não parecesse possível, é que nós conseguimos manter esse espírito à medida que fomos crescendo. Eu acho que é porque o ambiente era tão simpático, que quem chegava, aderia, e os poucos que não aderiram, acabaram por se ir embora. E, portanto, nós conseguimos ainda hoje ter, obviamente, que as coisas têm que ser adaptando, etc, mas ainda hoje temos aquilo que é o verdadeiro DNA.
DNA, sim.
Ainda lá está e ainda é esse, de uma grande cumplicidade, confiança entre as pessoas, proximidade e uma partilha de riscos e de responsabilidade entre todos. Isso funciona lindamente.
E o risco e a responsabilidade são duas palavras fantásticas, não são?
Fazem mais falta.
Fazem muita falta, mas só o que envolve o risco e a responsabilidade do risco e a responsabilidade do corpo.
Há uma aversão grande em Portugal.
Há, não há?
Enorme.
É tão impressionante a aversão ao risco. Vai-se andando.
É muito cultural.
É cultural, exatamente, por isso é que é inquietante.
É muito forte.
Não vamos entristecer aqui os dois. Queria só ainda, a propósito de tudo o que tem dito da VDA, mais da VDA do que de si, que eu tenho pena, mas agora vou chegar a si por causa dos prêmios que recebeu. O escritório enquanto tal, recebeu muitos prêmios ao longo destes anos, mas você próprio recebeu uma distinção internacional muito especial em 2018, em reconhecimento, cito: "Do seu estilo de liderança e capacidade para antecipar os desafios do setor". João, isto é uma grande frase sobre alguém.
Provavelmente, se tivesse sido outro a ganhar, teriam escrito a mesma frase.
Você acha que a frase estava feita e que só pôr fora?
Não faço ideia, mas eu não valorizo demais. Não estou aqui com falsas modéstias, porque não tenho nenhuma falsa modéstia. Eu dou-me lindamente com quem sou, com os limites que tenho.
Quais são os seus limites?
São os limites da minha inteligência.
Inerentes à existência humana.
Sim, os das minhas próprias capacidades intelectuais. Sei que profissionalmente tenho aquilo que se costuma chamar de sucesso. Eu defino muito mais pelo fato de me sentir realizado e feliz do que qualquer outra coisa. Prêmios, dinheiro. E por ter conseguido chegar onde um dia sonhei chegar, isso para mim é que é o sucesso. Mas conheço perfeitamente. Eu acho que recebi dos meus pais, agora pegando no tema dos meus pais, acho que recebi uma coisa ótima, que é uma boa dose de confiança. E não é confiança de achar que sou o melhor, é precisamente o contrário. É confiança de saber que não sou, mas viver lindamente com isso. Percebe? Não me acho nada melhor do que ninguém. Sei que tenho qualidades, tenho defeitos, como toda a gente.
Ser como é. Aproveitar aquilo que é.
E sentir-me confiante na minha pele, sabendo que não sou a última Coca-Cola do deserto.
Quantos é que vocês são? Você, sua irmã.
Tenho um irmão, somos dois irmãos, e depois uma irmã.
E uma irmã, exatamente.
Mais nova.
E o seu irmão está no escritório?
Não. O único que seguiu o ramo, fui eu.
E o seu irmão faz o quê?
O meu irmão faz negócios, está muito na área imobiliária, mas não só.
Sim, financeiro.
E a minha irmã fez uma escola, mas para miúdos mais novos, não sei como é que se chama, uma pré-escolar.
Sim, um pré-escolar. Então herdou um pouquinho da mãe.
Sim.
O ato pedagógico e de realizar e de investigar a educação, modelos alternativos, etc. Já lá vamos.
Mas é engraçado, nós fizemos escolhas completamente diferentes nas nossas vidas. Somos também pessoas intrinsecamente diferentes, somos bastante diferentes os três, mas muito unidos, muito amigos.
São uma tribo.
Somos um clã. Família é um clã.
E veem-se?
Vemos. Anteontem almoçamos. Sim, amanhã almoçamos. Amanhã meu pai faz anos e almoçamos amanhã com ele e nós todos.
Ainda bem que me diz. Sim.
E somos verdadeiramente um clã. Mas o que eu ia dizer é que é engraçado, isso também é um legado, que eu acho que diz muito dos meus pais, que é nós não só somos diferentes, como somos diferentes nas nossas escolhas também no plano intelectual, político, cívico, religioso. Nalgumas coisas estamos em campos opostos, mas somos muito amigos, respeitamo-nos muito e somos muito unidos.
E as discussões às vezes atingem altos níveis de literatura, de temperatura?
De temperatura. Não, até porque nós conhecemos bem as posições uns dos outros, portanto, respeitamo-nos, mas discutimos. E somos um clã também já com a geração que vem em seguir e com a outra, porque entretanto já vamos também com netos, não é?
Pois, você teve um primeiro neto.
Eu tenho um neto.
Com que idade?
Eu tive o neto há dois anos. O meu neto tem agora dois anos.
E é um avô babado, claro.
Veja lá, é incrível, porque eu gozava com os meus amigos e com toda a gente, achava que eram uns babaques.
Sim, embores macacos.
Achava que eram uns palermas. Eu estou completamente imbecilizado pelo meu neto.
Até passou a fazer um cadinho menos de alpinismo e menos de ver rugby, e menos por causa do neto.
Não, eu já estou a pensar em levá-lo às montanhas e pô-lo no rugby, claro.
E pô-lo no rugby, claro. Mas você continua a ver imenso, não é? O rugby é de facto uma...
Não, claro, o rugby é família, isso é de família também. A família toda, sim. Não há homem que não tenha jogado rugby.
O seu pai não era muito desportista.
Não era nada, nunca foi.
É um sobredotado no piano, na pintura.
Exatamente.
Mas desporto não era muito comum.
Não. O meu pai desafia a medicina e a ciência, porque nunca fez desporto nenhum, come tudo o que faz mal, tem 93 anos e está ótimo.
E está ótimo, que eu estive com ele há pouco tempo e sou uma grande fã do doutor Vasco Vieira de Almeida, senhor seu pai. João, vou lhe pedir para fazermos aqui um brevíssimo intervalo. Esperem por nós, voltamos já a seguir. Estávamos a falar da Do seu pai. E ainda antes de eu ir àquilo que eu chamo um legado, e já lhe explicarei por quê, queria ainda dizer uma coisa sobre o escritório, porque foi uma coisa que a mim me impressionou. Eu quando lá fui pela primeira vez, fiquei absolutamente deslumbrada e mesmo mais interpelada pela arquitetura, pelo bom gosto. Aquilo é maravilhoso. Foi uma opção vossa, evidentemente, aquele bom gosto e aquela forma arquitetônica, mas saiu mais da cabeça do seu pai, da sua, de um grupo, de uma equipe, de uma escolha de arquitetos?
Sim, eu não quero dizer, o primeiro mérito é dos arquitetos, como é óbvio, mas houve um trabalho muito grande, que foi feito sobretudo por uma pessoa que trabalha lá no escritório, que é a nossa diretora de relações institucionais, a Matilde Ortega Costa, e meu, portanto, nós dois fizemos ali um pandem, sempre em ligação com os arquitetos, pra tentar uma coisa, que eu acho que resultou muito bem, que foi a arquitetura, no fundo, traduzir aquilo que nós somos.
Era isso que eu queria. É que há, de fato, uma quase simbiose.
Isso.
Entre a casa, a cultura da casa, as pessoas que a habitam e a arquitetura.
Era essa a ideia. E eu acho que nós conseguimos isso bem. Hoje eu entro ali e sinto que aquilo é a nossa casa, aquilo é o nosso espelho, é o espelho daquilo que nós somos.
Alguma vez, quando se meteu nisso tudo, foi tocado ou interpelado por, entre aspas, ter que ser tão bom como o pai, não deixar o pai e a mãe ficarem mal, coisas assim. Às vezes não é fácil ser-se filho de.
Claro.
Pensou nisso?
Eu resolvi isso bem e bastante cedo, eu acho.
Ótimo.
Felizmente. Eu nunca me quis comparar ao meu pai, não por achar que nunca seria igual.
Seria como ele, mas porque não valia a pena.
Não valia a pena, exatamente, porque sobretudo eu não sou o meu pai. Eu sou eu, o meu pai é o meu pai. O meu pai é um homem absolutamente fora de série, é um sobredotado, como dizia há pouco. E eu sou eu. A única coisa em que isso talvez tenha refletido na nossa vida, foi talvez na vida profissional, evitamos estar os dois nos mesmos assuntos.
Nos mesmos assuntos. Sim.
Foi a única coisa.
Sim, isso também percebo. Entende que quando se é herdeiro de um legado familiar da dimensão do seu, com um pai e uma mãe que provaram tão bem pela vida afora, e o seu pai ainda prova, você, o João Vieira de Almeida, acha que há uma responsabilidade em continuá-lo, em fazê-lo render, como se fosse uma coisa da qual nós tivéssemos que cuidar muito bem?
Acho que sim, se estamos a falar de uma coisa que é o legado familiar.
Com tudo o que isso comporta.
Claro que sim. Tem a ver com os valores, com a nossa forma de estar, com a nossa ligação, com a nossa responsabilidade uns pelos outros, a responsabilidade para com a comunidade, etc.
Exatamente, sim.
Claro que sim. E é uma coisa que me motiva muito na minha vida, é precisamente trabalhar, entre aspas, pra isso, e manter a ligação. Felizmente, é uma coisa fantástica.
Então conte lá.
É que, de fato, isto é transgeracional. A ligação entre nós é fortíssima. Imagine quando há casamentos na família, acontece sempre, há um momento, e nós depois até acabamos por nos rir a seguir, em que estamos nós.
À parte.
À parte, estamos nós, a minha geração, a dos meus filhos e a do meu neto, e estamos todos a dançar uns com os outros e a rir uns com os outros, depois de repente lembramos: "Opa, espera aí, faltam os maridos e as mulheres". É fortíssima. E eu acho que isso é a coisa mais importante que nós temos nas nossas mãos, a coisa mais valiosa que temos, e pra mim é imprescindível nós preservarmos isso.
Você disse uma vez do seu pai, Vasco Vieira de Almeida, que não conhecia nenhum advogado que tivesse fundado um escritório, que lhe tivesse imprimido um caráter, o cujo deu origem a uma marca e que depois tenha deixado esse legado a quem inspirou, a quem ele próprio inspirou e formou. Foi o que se passou.
É verdade, foi aquilo que eu já disse.
Exatamente, foi isso.
Foi de uma generosidade extraordinária. Meu pai foi de uma generosidade extraordinária. Durante uns anos ele resistiu muito à ideia de ter sócios e de crescer, mas depois no dia em que decidiu e em que tomou essa decisão, e eu sei que ele a tomou a pensar em nós, em quem estava a seguir, teve a coragem de nos dar espaço para errar. Eu lembro muitas vezes, era uma frase famosa que nós dizíamos no escritório, citá-lo a ele, que ele dizia sempre: "Eu estou contra, mas vocês fazem o que quiserem".
Ai, que engraçado.
Sendo certo que meu pai sempre teve a humildade de depois vir dizer: "Tinha razão".
"Tinha razão". Sim.
Portanto, foi sempre extraordinário.
A sua mãe, Ana Vieira de Almeida, a quem chamavam Tana, lembro-me bem, foi muito amada por quem a conheceu e sobretudo foi muito reconhecida como uma pedagoga Em vulgar e que fundou uma escola também ela em vulgar, conforme eu recordei no início da nossa conversa. Mas o João uma vez descreveu de uma forma maravilhosa, dizendo que a escola que ela criara em 1970 era um espaço de liberdade e de criatividade, onde sonhos fantásticos e desenhos coloridos se cruzavam com a certeza matemática, a curiosidade científica, a história e a literatura em narrativas mágicas, onde o bem inevitavelmente triunfava sobre o mal. Esta escola era o retrato da sua mãe.
É, exatamente. Isso é uma descrição da escola, mas é também uma descrição dela.
Da sua mãe. Por isso é que eu digo que era-
Era uma pessoa, de facto, extraordinária, uma pessoa com uma espiritualidade enorme e muito focada nos outros, uma pessoa que inspirava calma, tranquilidade, que tinha esta visão holística do mundo, dos outros e era isso mesmo. Já não me lembrava.
Não, já não se lembrava do que tinha escrito. Sim.
Mas é uma boa descrição. Passo a volta ao elogio. De facto, é uma boa descrição daquilo que era a minha mãe e que era a escola.
Que era ela e que era a escola, exatamente.
Que ela imprimiu na escola.
A escola parecia um prolongamento dela.
Era, exatamente.
Um duplo dela, uma siamesa dela. E a si, João Vieira d'Almeida, filho do Vasco e da Tana, pai de três filhas e avô de um neto, CEO de uma grande firma de advogados. A si, o que é que o distingue?
A mim?
Sim.
Isto é uma pergunta...
Pois é, mas eu não posso só estar aqui a Não, o que é que acha que o distingue? Oiça.
Me distingue de-
Sim, o que é que acha que o distingue? Que características, que valores, que hábitos, que gostos?
Olha, isto é uma coisa que é engraçado, eu tenho sorte. Como é óbvio, não herdei só as coisas boas de um lado e de outro, mas há uma coisa que eu acho que vem mais do lado da minha mãe, que é eu adoro pessoas e adoro conhecer pessoas e tenho imenso gosto em desvendar o melhor das pessoas e procurar o melhor das pessoas. E acho que isso foi das coisas mais úteis pra minha vida, porque a minha vida foi sempre lidar com os outros.
Claro.
Enfim, não me distingue, porque muita gente será seguramente assim, mas eu acho que tive a sorte de viver num ambiente profissional onde isso-
Onde isso foi possível.
Não só foi possível, como acho que foi crítico. Acho que foi uma das alavancas importantes para esta cultura e também para o sucesso do escritório.
Temos estado a falar, sobretudo do escritório e de si dentro do escritório, mas você é um homem de amigos, segundo o meu trabalho de casa. É um homem de amigos, que gosta de estar com seus amigos.
Gosto.
Partilhar um bom jantar, um bom vinho.
Uma conversa, um passeio de moto, uma montanha.
Quem é que vai consigo pra montanha? Quer dizer, amigos ou pessoas profissionais?
Não, eu faço dois tipos de montanha. Eu faço umas montanhas em que vou sozinho ou com uma ou duas pessoas, mais exigentes, mas todos os anos faço uma coisa, que é: todos os anos vou ao Kilimanjaro, que é uma montanha mais acessível, mais simples, onde levo pessoas. Hoje em dia, levo pessoas que não conhecia de lado nenhum.
Mas como é que eles te descobriu? Como é que sabe que te encontram?
Elas é que me descobrem, porque as pessoas sabem que eu faço isto.
Ah, tá bem, e vêm ter consigo.
Escrevem e vêm ter comigo e arranjam números de telefone e uns chamam os outros.
E vêm quantos? Seis, 12, 20?
São 25, 30. Portanto, eu tenho a sorte, com esta idade, de fazer 25 novos amigos por ano.
Que idade tem?
Eu tenho 63.
Sim. João, e faz alpinismo há quanto tempo? Esses dias no Kilimanjaro é quanto tempo?
Não, isto é pouco tempo. Isto no Kilimanjaro é uma semana e depois normalmente tiro mais duas semanas por ano para fazer outras coisas. Porque a montanha também é um exercício muito interior, de paz e de busca interior e de fazer uma revisão da matéria dada, de estar comigo próprio, portanto, depois gosto de fazer umas coisas mais sossegadas.
E em Portugal, porque montanhas alpina, em todas?
Em Portugal, não. Em Portugal é raro.
Pois, eu também te posso dizer.
Em Portugal não há muita coisa.
Não, eu sei, por isso é que eu estava aqui a sorrir.
Mas já fui, já fiz o mundo inteiro.
Já fez o mundo inteiro?
Já, desde a América do Sul aos Himalaias, passando pela Antártida.
Que interessante, mas isso veio de onde, o alpinismo? Isso é que eu não estou a entender.
Foi um acaso.
Foi um acaso, claro.
Comecei e depois nunca mais parei.
Pela uma vez não veio de casa.
Não, de todo.
Por uma vez não veio de casa. Olhe, mas se eu olhar pra trás, e do que eu conheço, nem tudo foi fácil. Houve aí umas épocas mais sombrias, umas zonas mais sombrias, sobre as quais, aliás, você falou e escreveu. Quer falar disso?
Não tenho problema nenhum, se me quiser perguntar sobre isso. Aliás, falei nisso aqui também no próprio Observador.
Eu sei, por isso é que eu sei também.
Não, foi uma época bastante sombria. A vida tem momentos difíceis.
Com certeza. A vida maré baixa e maré alta.
Claro, esse não foi o primeiro nem o último, mas foi seguramente dos mais intensos.
Estamos a falar de uma depressão.
De uma depressão, sim. Clinicamente, foi uma-
Como é que se percebe que se tem uma, não querendo de maneira nenhuma, nem fazer agora um remake.
Não tenho problema nenhum de falar nisso. Só não gosto de aborrecer as pessoas que eu falo tanto disso. Às vezes tenho medo que aborreça.
Não aborrece nada as pessoas, nem me aborrece a mim.
Eu, no meu caso, foi muito fácil de perceber, porque foi muito físico, foi muito evidente. Teve uma tradução física. Comecei a chorar, ao fim de 10 minutos.
E as pessoas?
Não me assustei no sentido de ficar em pânico, porque percebi o que era, porque estava alertado para a hipótese. Enfim, eu sabia que corria esse risco. Portanto, o que me aconteceu foi que detectei imediatamente que provavelmente estava a entrar numa depressão, portanto procurei logo ajuda.
E porque é que sabia que corria esse risco?
Porque eu já fazia, felizmente, regularmente, ia ao psicólogo.
Está bem.
Tinha uma vida com imenso estresse, enorme estresse.
Ai, não se pode.
A minha vida familiar sofreu muito com isso. Portanto, eu depois separei-me, não estava com as minhas filhas, sofria horrores de culpa.
Momentos difíceis.
Momentos muito difíceis. Eventualmente, tive uma depressão. É uma doença.
Durou?
Durou meses e depois curou-se com ajuda médica e com os amigos e a família.
E esquece-se uma coisa dessas ou não?
Não.
Não. Não esquece.
Esquecer, não.
E teme-se que volte ou não?
Eu não vivo muito com esse medo, mas sei que é uma possibilidade, portanto vou estando atento, mas não é uma coisa que me perturbe o dia a dia.
Aparentemente não perturba nada. Nem estando consigo, nem falando, nem acompanhando o seu trabalho, nem sequer ocorre. Agora eu gostava um bocadinho que a gente falasse. Há pouco falámos de você ser um alpinista de alma e coração.
Alpinista amador.
Amador, está bem, com certeza, mas é de alma e coração. Falar de uma coisa que eu aprecio imenso, que é o ócio, que as nossas vidas não nos deixam dar valor, nem dar importância. Praticamos pouco e talvez façamos mal. Mas você preenche-o bem com o alpinismo, pelo menos uma vez por ano e depois outras vezes. Toca bateria, tem a tal paixão pelas pessoas, é um fã do rugby sem limites. É um bom uso do ócio, isto que eu acabo de dizer. Vamos à bateria. Ainda toca?
Ainda toco, agora já não toco tanto como dantes, porque achei que tinha que ceder o meu lugar na bateria da banda do escritório.
Sim. Há uma banda no escritório?
Há uma banda, que já tem muitos anos, a banda do escritório.
Como é que se chama? Chama-se a banda do escritório?
Não. Tem outro nome, que é assim um nome mais atrevido. Não vou dizer aqui.
Está bem. E era o baterista, vai ver.
Fui baterista durante anos e anos, mas depois houve um dia, há que não há muito tempo, que estava num ensaio e de repente eu olhei e comecei a achar que a soma da idade do resto da banda era capaz de ser menos do que a minha idade. Aí está, foi realizar que se calhar era a altura de me ir embora e hoje em dia há miúdos que tocam, mesmo advogados, que tocam maravilhosamente. Portanto, eu hoje fico a ouvir. Eles são muito simpáticos e normalmente convidam-me sempre a tocar uma música nos espetáculos.
Agora, esses espetáculos são com periodicidade, em que ocasiões?
A banda do escritório toca pelo menos duas, três vezes por ano, não é muito, mas eu também me vou divertindo com uns amigos assim velhotes.
Era isso que eu ia perguntar.
A última vez que toquei foi num casamento.
E correu bem?
Correu bem. Eu agora tenho uma filha que se vai casar este ano.
Sim. E vai tocar?
Não sei. Não posso revelar aqui, porque se tocar vai ser surpresa. Não é nada garantido.
Deus nos livre de revelar aqui uma surpresa para a sua filha. E a bateria veio de quê? Porque não era uma coisa que eu estivesse a ver em casa imediatamente, nem os seus irmãos, nem os pais, nem nada.
Não, sabe que o meu pai, como disse há pouco, é verdade, o meu pai é um músico, é um melómano sério, muito sério.
E compôs uma sinfonia, coisa que poucas pessoas sabem, que o Vasco Vieira d'Almeida compôs uma sinfonia.
Mas ele não sabe onde é que a pôs, também nunca mais se viu. E ele goza com ele próprio, diz sempre que aquilo também não valia nada. Mas a verdade, ele fez o conservatório inteiro de piano e é um melómano e muito sensível.
Eu lembro-me de uma vez o seu pai, com uma neta com três, quatro anos, num concerto noturno, um concerto à noite na Fundação Gulbenkian, com a neta sentada no joelho. E eu estava na fila à frente, por acaso, e ter dito ao Vasco, o Vieira d'Almeida: "Então e essa neta tão pequenina, e se ela chora?" "Não, não chora. Ela está a gostar imenso e vai gostar toda a vida ainda mais".
Mas isto para lhe dizer que o meu pai, quando eu disse: "Olhe, agora vou aprender bateria", que para o meu pai a bateria não é um instrumento, é assim uma coisa.
Não, pois claro.
Bateria é bater com os paus muito monta dele. Divertimos imenso, mas já me ouviu várias vezes. Mas eu, de facto, nunca tive. Eu aprendi piano quando era miúdo. Ainda me desenrasco, mas nunca deu para desenvolver muito.
Sim.
E depois já tinha uma certa idade e um dia apeteceu-me e fui aprender a tocar bateria e aquilo é um exercício ótimo para a cabeça.
E mesmo físico também.
Fisicamente, mas sobretudo para a cabeça, porque aquilo é matemático também. É fantástico. Portanto, adoro.
E tem tempo para estar consigo próprio. Há pouco disse que depois do alpinismo, também durante o ano ia.
Tenho, na montanha, sobretudo na montanha. Eu fiz ioga durante alguns anos, agora já não faço. Nessa altura, isso eram bons momentos, mas hoje em dia é essencialmente na montanha.
Na montanha. E precisa de estar consigo. Gosta? Aprecia?
Sim, é uma coisa que me faz bem. Acho que, pelo menos em teoria, nos faz bem a todos ou faria bem a todos.
E também herdou da cultura da casa a paixão pela literatura. Você disse que o pai lhe fez conhecer Bach, mas também Gramsci e outros autores.
O meu pai e minha mãe. É engraçado, eu hoje olhando para trás, vejo que recebi influência dos dois. A minha mãe pôs-me a ler coisas, imagine, "Chora Terra Bem-Amada", "O Leopardo".
"O Leopardo" é um dos melhores livros do mundo.
"As Memórias de Adriano". A minha mãe era desse lado. O meu pai era mais do lado da história, da filosofia, da política, Raymond Aron, Gramsci. Sempre me deu coisas para eu poder fazer o contraditório. De um lado era a minha mãe, e do outro lado o meu pai.
E isso ficou.
Isso ficou. Hoje eu li muito. Hoje leio menos.
Um pouquinho menos. Última pergunta, esta é que é mesmo a mais difícil. Mas pode espraiar-se, ainda tenho 60 segundos correndo imenso. O que é que pede à vida ou o que é que ainda pede?
O "ainda pede" pressupõe-
Você, uma pessoa que o ouça, parece que tem tudo. Falta alguma coisa? Este meu "ainda" é se falta.
Não, vamos lá ver. Eu sou uma pessoa muito realizada, sou uma pessoa muito feliz, muito privilegiada.
Não precisa de pedir mais.
Não, o privilégio deu-me amor, valores, educação, acesso e independência. Independência para fazer escolhas, para ser responsável pelas minhas escolhas.
Portanto, não falta nada.
Eu se morresse hoje, morro muito feliz. Só gostava era de ver o meu neto crescer.
João Vieira d'Armada, muito obrigada. Foi um grande, quero que saiba, e que os nossos ouvintes também saibam, foi um grande prazer ter conversado consigo hoje. Muito obrigada por ter vindo.
O prazer foi meu. Obrigado eu.