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Salvador Patrício Gouveia é filho de António Patrício Gouveia, já falecido, e de Margarida Lacerda. Estudou Ciência Política, tem um PAS na Universidade Católica e trabalha em estudos de mercado numa empresa da qual foi fundador. Mas o que o distingue verdadeiramente e faz dele um caso interessante, é a diversidade dos seus interesses, alguns vocacionais, e a forma muito criativa e ousada como lida com eles, fazendo-os render e brilhar, nalguns casos. Atualmente, é presidente do conselho de administração do Museu do Caramulo, mas está simultaneamente envolvido com outros projetos museológicos dessa vila. E há ainda a música, a história ou a direção de jornais digitais dedicados aos meios automóveis históricos. Não é dizer pouco. Bom dia, Salvador Gouveia. Observando o seu currículo, veem-se tantas áreas de natureza diversa, que é difícil ter a certeza de com quem eu vou falar. Presidente da administração do Museu do Caramulo, tentou da maior coleção privada de carros antigos, empresário, estudioso de história, colecionador nato, músico, jornalista. De tudo isto, há alguma coisa que seja vocacional?
Olá, Marijó, antes de mais é um prazer enorme estar aqui. Respondendo à sua pergunta, eu acho que tudo o que mais ou menos disse é vocacional, porque tudo o que está aí, nada tem a ver com a minha formação de origem.
Pois, que foi Ciência Política.
Foi Ciência Política. Portanto, tudo isso são paixões que eu fui seguindo e que depois elas se foram consolidando, ganhando força e até se profissionalizando. Cada uma delas é uma paixão que eu tenho e que, como eu não gosto de ter só uma paixão, eu gosto de estar em todas, tenho que ir gerindo um bocadinho este tempo e dando um bocadinho o corpo ao manifesto, aos vários manifestos.
Já lá vamos, claro. O que exigem. Não é cansativo tanta paixão? Ou não pode ser perturbador do modo de lidar, não? Ou há um bocado de tempo, de alma e de espaço para cada uma?
Eu gostava que fosse assim tão organizado como pareceu na sua expressão, mas não. É um bocadinho confuso, todas elas cruzam, muitas delas estão inter-relacionadas.
E coincidentes.
E coincidentes, e portanto, é um bocadinho como a necessidade vai chamando e nós vamos respondendo. Mas também é isso que eu acho que dá muita cor ao meu dia a dia. Não há dois dias iguais e ao longo do dia as coisas vão aparecendo e vou mudando sempre de chapéu, entre aspas, o que me dá um prazer enorme, porque eu nunca fui muito de uma tarefa ou só de uma área ou só de um setor.
Seria muito monocórdico para o seu caráter e para a sua personalidade. E disso tudo, das paixões e das atividades, há alguma coisa de prioritária, ou seja, há uma principal atividade profissional sua no seu dia a dia?
Há, é o Museu do Caramulo. O Museu do Caramulo é, no fundo, onde começa muitas dessas áreas, outras estão um bocadinho independentes, como por exemplo, a empresa de estudos de mercado, onde hoje em dia sou apenas não-executivo, mas o Museu do Caramulo é a gênese de muitas delas. Muitas delas nasceram no Museu do Caramulo e depois foi-se diversificando nessas áreas, por exemplo, a parte mídia, o Jornal dos Clássicos, do qual eu sou diretor, é um braço do Museu do Caramulo. O jornal já existia, nós acabamos por ficar com ele, porque eu sempre tive esta mania ou paixão pelos mídia, não me pergunte por quê, porque há pessoas que gostam de futebol e de outras coisas. Eu sempre adorei mídia e tive uma atração muito grande por toda a área de mídia.
Mas nunca a ponto de dizer: "Eu vou ser jornalista", porque havia o Caramulo. Já lá vamos.
Nunca a ponto de ser jornalista, mas, por exemplo, quando eu tinha 17 anos, tive uma revista de música, ou seja, eu gostava tanto de mídia que conforme estava mais numa área do que noutra, gostava de estar envolvido nessa área, em mídia.
E comunicar. Salvador, portanto, no fundo, estamos a chegar ao Museu do Caramulo, que eu conheço e que me impressionou muitíssimo. E essa atividade principal coincide, felizmente para si, com o seu maior interesse e gosto pessoal, ou não?
Exatamente. Coincide. Coincide não só nos temas do museu.
Os temas que quiser.
Os temas das coleções, da coleção de arte, da coleção de automóveis, da coleção de brinquedos, que ainda está lá. E ao mesmo tempo também o próprio museu em si, ou seja, a própria obra, o próprio potencial que o museu tem. Por um lado, o museu foi feito pela minha família, eu desde miúdo que estou.
É um legado materno.
Já desde miúdo que estou ligado ao museu e sempre tive esta paixão por aquela instituição, mas depois também tenho a paixão por o que aquela instituição guarda lá dentro e pelo potencial e o orgulho que tenho naquela instituição de querê-la levar mais longe.
Claro. Salvador, tudo isso que me conta e que eu já referi que vem do legado materno da sua mãe, Margarida Lacerda, e já vamos voltar a ele, mas eu gostaria, porém, agora de lembrar o seu pai, António Patrício Gouveia, alguém muito respeitado e apreciado, que era um patriota e um servidor público e que morreu com Francisco Sá Carneiro, de quem era chefe de gabinete, em 1979 e 80, no trágico acidente de Camarate. Como é que foi crescer ouvindo falar publicamente do seu pai sem sequer tê-lo conhecido? Porque quando, normalmente, há a infelicidade de morrer um pai ou uma mãe, não se ouve depois publicamente falar dele. É um desgosto que se guarda em família, entre os amigos mais próximos. Não foi uma prova duríssima, logo na infância e na adolescência, ouvir falar do seu pai pela sua mãe, pela sua família e ao mesmo tempo publicamente?
Foi e é ainda.
E é ainda?
Ainda é. Aliás, é mais hoje em dia do que antigamente, até, que é uma coisa muito curiosa, porque nós achamos sempre que o tempo cura tudo.
É mentira. Eu sempre permiti que é mentira.
Eu sinto mais falta do meu pai aos 48 anos do que quando tinha, se calhar, oito ou nove anos, em que aquilo era a realidade, era assim, eu não me lembrava de outra realidade. Eu tenho três recordações com o meu pai, não mais. Mas no fundo, sempre tinha sido assim. E conforme o tempo vai andando pra frente, e talvez também pelo processo, como o processo de Camarate se arrastou, com 10 comissões de inquérito, que é uma coisa absolutamente inédita.
10 comissões de inquérito. E foi violento, foi pesado, foi duro.
Foi violento e houve sempre uma negação da verdade, que é uma coisa que custou muito a nós. Claro que as pessoas, enfim, apenas um pequeno grupo de pessoas são familiares das vítimas, mas para essas que sempre souberam que era um atentado, até ao ponto de termos contactos diretos com as pessoas que participaram no atentado, portanto, para nós não havia qualquer dúvida.
Não há qualquer dúvida.
Não há qualquer dúvida, e a décima comissão de inquérito decretou exatamente que era um atentado, mas demorou 10 comissões de inquérito até chegar a essa conclusão. E custava muito ver esta resistência, às vezes até no público, dizer que era uma conspiração, que quando havia eleições lá voltava o tema de Camarate, quando, na verdade, é um tema que pra nós é completamente claro, hoje em dia é completamente claro, mas na história, para muitas pessoas ainda está como um acidente, porque acham que, se calhar, dava jeito ao PSD ou porque havia outras razões demais. Hoje em dia já toda a gente está identificada, os próprios já se identificaram, eu cheguei a trocar mensagens com a pessoa que pôs a bomba no avião. Portanto, chegámos a esse ponto.
Guardou essas mensagens?
Eles saíram da sombra porque a partir dos 15 anos em que Camarate-
Não, se você guardou essas mensagens.
Tenho as mensagens. A partir dos 15 anos de Camarate, em que o processo prescreve, essas pessoas saíram da sombra e começaram a auto acusar-se, a dizer: "Realmente participei, fui enganado, não sabia quem é que lá ia no avião". E portanto, com estes factos todos, hoje em dia ainda nos custa que haja pessoas que digam: "Não, foi um acidente" e neguem essa teoria.
Acho que já pouca gente diz.
Já pouca gente, mas ainda há quem diga.
Não, mas há quem diga e há o bastante.
E depois, obviamente, este processo todo demorou anos e anos.
Portanto, o seu pai faz-lhe falta porque o processo arrastou-se.
O processo arrastou-se porque era uma pessoa extraordinária, que eu gostaria muito de ter conhecido. Gostaria muito de lhe ter mostrado também tudo o que eu sou e o que eu fiz, e os meus irmãos, penso que toda a gente gostaria de ter esse orgulho, do conhecer e viver com ele.
Que idade é que tinha quando ele morreu?
Eu tinha três anos e meio.
Disse-me há pouco. Já voltamos ao que me estava a dizer. É só porque vem muito a propósito agora. Se tinha três anos, disse-me que tinha três recordações do seu pai.
Três recordações.
Quais são?
Olha, uma, basicamente, ele fazia uma brincadeira que era estar na casa de banho e enchia-se de espuma e depois assustava-me a mim e ao meu irmão e nós tapávamos com uma toalha. Essa lembro-me de fazer várias vezes. Outra na sala, lembro-me de estar com ele na sala. E outra à porta do meu quarto em que ele se baixa, e eu era muito pequenino, fiquei super impressionado, ele tirar uma caneta dentro do bolso do casaco. De onde é que veio esta caneta? Portanto, são os únicos três momentos que me lembro dele. Depois, obviamente, tenho alguns vídeos, no nosso tempo ainda se faziam alguns filmes sem som, e depois fotografias, mas basicamente é isso. E todos aqueles relatos e depoimentos que nós vamos ouvindo das pessoas que o ouvem, que o conheciam, e também aqueles depoimentos públicos.
Todos esses relatos, no sentido em que eu frisei aqui, que era um grande servidor público e uma pessoa apreciadíssima, não só pelo círculo de amigos e familiar, mas publicamente.
Sim, e com dimensões muito diferentes. Aliás, o presidente da República fez isso nos 70 anos, quando lhe atribuiu a Grã-Cruz.
É verdade, eu estava lá.
Na parte, obviamente, cristã, na parte de solidariedade, na parte de justiça, na parte de ética, na parte do humor, por exemplo, era uma pessoa com muito humor.
Exatamente.
E de vez em quando há umas pessoas que estão comigo e dizem: "Ao rires te pareces mesmo o teu pai". É engraçado, porque eu nunca ouvi a voz do meu pai, nem sei como é que ele se ria. De vez em quando vou tendo estas pistas e vou montando um puzzle. Por um lado, enche-nos a alma percebermos que não é só a família que diz bem, como é seria natural de qualquer família, realmente haver esse reconhecimento público. E nós seguimos sempre com uma grande referência e muitas vezes eu penso, quando estou em situações um bocadinho mais chatas, o que é que o meu pai faria neste momento? Como é que o meu pai decidiria? Há uma frase que o presidente da República disse-
O atual?
O atual, na evocação dos seus 70 anos, porque aliás, eram muito amigos.
Eram muito amigos.
Eram muito amigos e no meio do discurso às tantas disse: "Nunca angustiado". Era uma coisa que ele dizia. No meio das crises políticas, daqueles stresses, mas ele chegava à casa, nunca estava angustiado, nunca deixava que isso o afetasse. E realmente mostra uma força e uma calma interior que eu próprio gostaria de ter.
Apesar de não o ter conhecido, consegue dizer com que marca paternal é que você foi crescendo, com que mapa de valores? Claro, com os da sua mãe, evidentemente, mas a mãe falava do pai, dos valores do pai, dizia: "Vocês lembrem-se disto na vossa educação, no vosso amadurecimento, no vosso crescimento". Havia, por exemplo, o gosto pela intervenção política ativa foi direto pra sua tia Teresa Patrício Gouveia, hoje uma senadora da nossa democracia, com excelente governo. Você também se interessa por política, mas não a fez interventivamente. Que mapa de valores, qual foi a marca do seu pai com a qual você cresceu? Com o exemplo, com tudo o que ouvia falar dele.
De todos os exemplos, eu diria que era a ética, era a pessoa mais correta do mundo. Jamais atropelaria alguém, jamais faria alguma coisa só para proveito próprio. Era uma pessoa realmente mesmo dedicada às causas e acima de tudo dedicada à família, que era a sua primeira causa de todas. Era mesmo a sua primeira causa. E depois o país e a dedicação total que tinha ao partido e, no fundo, a querer mudar O que era Portugal nessa altura.
E com uma estreita ligação a Francisco Sá Carneiro. Isso testemunhei eu das inúmeras vezes em que me cruzei com eles, ou nas entrevistas, no trabalho de casa que tinha que fazer para escrever. Lembro-me muito bem da enorme cumplicidade, mas era uma cumplicidade quase externa entre Francisco Sá Carneiro e ele. Foi uma imagem com a qual eu fiquei sempre.
Era, e aliás, é engraçado dizer também que o próprio Francisco Sá Carneiro filho, via no meu pai tipo um irmão mais velho.
Havia.
Mostrava realmente essa ligação muito emocional entre os dois.
Ainda bem que lembra isso, porque o próprio Francisco Sá Carneiro filho, ao qual eu já fiz também uma longuíssima entrevista onde falámos muito do pai dele, falava do seu pai como do irmão mais velho e do que tinha até inclusivamente guardado dele como exemplo e como orientação de vida. Lembro-me muito bem disso. Bem, a política não o interpelou diretamente a si, mas sei que você se interessa muito por ela e tanto que foi Ciências Políticas que estudou, mas não deu o passo que deu, por exemplo, a Teresa, sua tia. Por quê? Porque não, porque havia outras coisas?
Porque eu tenho uma atração por política, porque sou uma pessoa minimamente consciente e percebo que todos temos uma responsabilidade com o país e com nós próprios.
E temos. Há aquela frase fantástica: "Não perguntem sempre o que é que os presidentes podem fazer por vocês e os governos, perguntem antes o que é que vocês podem fazer pelo vosso país".
E, portanto, eu na altura não era para ir para Ciência Política, era para ir para arqueólogo, na verdade. Uma história engraçada, meu avô passou a vida inteira a dizer que nós tínhamos que fazer aquilo que gostávamos, isso é que era importante. Quando eu anunciei ao meu avô que ia ser arqueólogo, ele desmaiando.
O avô Lacerda ou o avô Patrício?
O avô Afonso Patrício de Gouveia. E então eu tive uma conversa com um grande arqueólogo, que era o Carlos Penalva, que me mostrou um cenário perfeitamente negro do que seria a minha vida quando fosse arqueólogo. E eu acabei por pensar, se calhar, então ir para História, depois de História passei para Ciência Política, também tinha um bocadinho de História, era um curso que estava a começar, achei engraçado, já sabendo que não era, obviamente, para ser político.
Claro.
O que me chamava nessa altura, já desde os 15, 16, 17 anos, era o empreendedorismo. Era fazer coisas, era ter uma banda, era ter uma empresa, era ter uma revista.
Uma banda de música.
Uma banda de música, que era o que eu tinha, no fundo, já nessa altura, em simultâneo. E portanto, o curso foi um curso muito interessante na perspectiva acadêmica, mas nunca tive qualquer intenção sequer de sair dali e ir dar aulas ou ser político. E depois a vida, no fundo, tomou o seu rumo inesperado. Eu estudei de 96 a 2000 e no ano 2000 nós lançámos a empresa Netsonda, já com um professor do meu curso, ele próprio juntou-se à caravana e a partir daí a empresa começou a crescer. Eu fui atrás dela. Se tivesse perguntado em 1999 se eu ia trabalhar em estudos de mercado, eu nem sabia o que se queria dizer.
Claro.
E portanto, foi um bocadinho esse o rumo que a coisa tomou nos anos seguintes.
Sim, mas não tem nenhuma nostalgia de não ter feito ou intervindo ativamente na política.
Não, mas eu fui fazendo coisas. Eu participei no referendo contra a regionalização, eu participei em momentos esporádicos em que me associava a uma entidade ou outra, mas nunca tive a atração.
Do que se chama fazer política.
Não, de estar num partido, por exemplo, que é uma coisa, obviamente, que a minha família esteve toda, meu pai, minha tia e o meu tio, e toda a gente, de ter essa vida partidária.
E tem uma prima direita já com atividade.
Exatamente, minha prima e afilhada, muito orgulhosamente, que já está a dar os seus passos.
Teresa também.
Teresa Patrícia Gouveia também. Mas nunca tive, até porque achei que isso era um bocadinho redutor depois do meu espaço de manobra, de poder pensar diferente ou ter esse distanciamento. E eu sei, hoje em dia eu tenho um distanciamento e uma isenção para poder olhar para as ideias e para os partidos sem estar forçado a um clubismo, como acontece com as pessoas que estão nos partidos.
E uma camisola. E tem a noção, antes de na segunda parte entrarmos para a parte leão daquilo que eu tenho talvez mais curiosidade, que é todo o projeto museológico ligado com o Caramulo e essa herança do lado materno. Mas queria lhe perguntar se você não sente, com a riqueza de experiências que tem estado a relatar e a maneira como as vive e a curiosidade que sente e que permanece viva por todas elas, que de algum modo é um privilegiado ou teve a sorte de ter os dons que lhe possibilitam corresponder a todos esses interesses e solicitações.
Eu tenho total noção e digo a mim próprio diariamente, e estou a ser totalmente honesto, que sou a pessoa mais privilegiada do mundo, porque tenho uma ótima família, para começar. Venho de uma ótima família, tenho uma ótima família.
Quantos filhos?
Tenho três filhos. Duas filhas e um rapaz, com o nome do meu pai. Tenho uma mulher absolutamente maravilhosa. Tenho, não vou chamar dons, mas estas capacidades que me deram e faço aquilo que eu adoro. Eu sou a pessoa mais realizada do mundo. Eu acho que nem o Ronaldo é tão realizado profissionalmente.
Nem o Ronaldo.
Eu tenho quase estresse de tanto entusiasmo que tenho do trabalho para sair da cama e ir fazer coisas. Eu sou claramente um privilegiado para fazer aquilo que eu adoro e ter os resultados que vêm desse trabalho.
Desse mesmo.
Resultados, o sucesso e tudo isso. Conseguir ver isso tudo implementado de forma positiva.
Que bom. Salvador, vou lhe pedir só para fazermos aqui uma minusculíssima pausa. Esperem por nós, voltamos já já a seguir. Voltando ao Caramulo e às raízes familiares da sua mãe, você no Museu do Caramulo assume diversas funções: fundraising, produção de exposições e eventos. Parando nas exposições, o que você considerava que o habilitava a meter ombros, a trabalhar ativamente com arte, por exemplo, e com arte de diversas proveniências, séculos, origens, etc? É evidente que se rodeou de pessoas que sabiam mais que o Salvador, mas havia também uma parte que podia ser o gosto e a aprendizagem que vieram de casa.
Com certeza, e a história toda da família ligada ao colecionismo.
Agora vamos falar nisso. Vamos falar do legado da parte da sua mãe, Margarida Lacerda, e dos seus tios, João Lacerda.
E a Bela Lacerda.
E a Bela Lacerda. Exatamente. Para contextualizarmos por que você de repente está na administração de um museu, temos que voltar para trás.
Sim, o Museu do Caramulo foi fundado em 1953, como evolução ao fim da Estância Sanatorial. A Estância Sanatorial do Caramulo foi fundada em 1920 pelo meu bisavô, Jerónimo de Lacerda, porque havia a tuberculose e realmente era um problema grande em Portugal. Foi a maior estância da península Ibérica, com 2200 camas e 19 sanatórios. E depois quando a tuberculose passou a ser tratada em casa, começou a entrar em declínio e entretanto o meu bisavô morre em 1945, e o Caramulo fica um bocadinho sem rumo. E então a Bela Lacerda, o meu tio-avô, que era um colecionador e drava arte e também deputado.
Deputado, também?
Foi talvez até o mais novo deputado, à altura, da Assembleia Nacional. Primeiro ele começa com uma exposição temporária, só para perceber como é que aquilo funcionava, trouxe algumas peças locais de arte, depois como qualquer pessoa que monta uma exposição temporária, ficou com imensa pena quando teve que a desmontar, e disse: "Temos que ter um museu". E faz um museu.
E era um colecionador não só de arte portuguesa.
Colecionava tudo. E então faz esse pequeno museu e depois diz: "Não, realmente nós temos que ter um museu mesmo, feito a sério". E então começa a obra para fazer aquele que veio a ser o segundo edifício de propósito para um museu e o primeiro privado em Portugal. O primeiro era o Museu José Malhoa e o Museu do Caramulo foi o segundo edifício feito de propósito, com o arquiteto Coralberto Cruz, que beneficiamos nós dele ter ido à América, pago pelo Estado para estudar o que se fazia de museus na América para fazer um museu cá, que depois nunca aconteceu, mas fez o nosso.
Fez o vosso.
Assim nasce o Museu do Caramulo, que era um museu de arte, porque era o que a Bela Lacerda tinha visionado para esse museu. Depois, a Bela Lacerda morre em 1957, num acidente trágico.
Muito novo, que idade é que tinha?
Tinha 36 anos.
Já tinha feito um museu.
Já tinha juntado tudo. Já tinha juntado 500 peças, desde o Picasso, ao Dalí, ao Veras da Silva, de um Tigre Egito até à modernidade, na altura, que era onde se funde estes artistas. E o meu avô assume o sonho do seu irmão, quando o museu nem sequer estava pronto. E em 59 abre um museu e o meu avô tinha outra paixão, que era os automóveis. Ele corria, deixou de correr, começou um dia a colecionar automóveis um pouco por instinto e no dia da inauguração, em 59, as salas de baixo estavam vazias e ele guardou lá os carros, mas guardou só mesmo para estar na garagem, não era para mostrar a ninguém.
Mas agora explique os carros, não podemos passar assim tão de ânimo leve, porque os carros são extraordinários. Pouca gente os tem no mundo como vocês no Caramulo. Só queria perguntar uma coisa: fala um bocadinho dos carros. Carros eram bons na parte de baixo do museu.
O meu avô pôs os carros embaixo e o Américo Tomás, o presidente da República na altura, alguém que se agredou que havia também ali uns carros. Temos que perceber que eram uns carros que, se calhar, não havia o conceito do carro antigo ou clássico. Eram uns carros velhos. Começou a pedir para ver, depois ele não quis, mas estava lá outra vez, mas isto é um museu de arte. Tanto insistiu, era o presidente da República, tinha que se mostrar. E quando mostrou eu disse: "Olha, mas isto é extraordinário, devia abrir isto também ao público". E assim nasce a coleção dos automóveis, inesperada com a coleção de arte, que se complementam, mas que não estava no plano inicial.
Quantos são hoje?
Hoje em dia, no total, o museu deve ter mais de 100, 150 automóveis.
Mas na altura?
Na altura eram muito menos, porque era a coleção privada do meu avô. O que é que acontece? Quando esta coleção se torna pública e presente no museu, o meu avô começa a colecionar de forma diferente, começa a colecionar os automóveis que não eram bem o seu gosto, mas que ele percebeu que eram importantes para ter esta variedade, esta diversidade da coleção. E em 1970, faz um edifício novo ao lado, muito maior, já só para vasta coleção, que é a coleção mais popular do Museu do Caramulo, ao que as pessoas associam o Caramulo é automóveis, mas que foi a segunda coleção a chegar ao Museu do Caramulo e nós não queremos descartar em nada a coleção de arte, que tem 500 peças, como eu disse, desde as tapeçarias manuelinas a primeiras encomendas de porcelana. Cobre um bocadinho todas as disciplinas da arte.
Eu gostei tanto do Museu do Caramulo, Salvador, não é por estar aqui, mas gostei tanto. Achei uma coisa tão bem feita, tão bem conservada e agora com as obras da ampliação que houve e tudo.
É porque é um museu movido a paixão, porque quem lá trabalha, não só a família, mas também toda a equipa.
O seu irmão, aliás, eu estou só a falar consigo, mas os seus irmãos participam.
Exatamente.
E sobretudo o seu irmão Tiago.
O meu irmão Tiago, a minha irmã Madalena, ajudando-nos muito na parte de arte, é administradora do CCB, mas ajudando-nos muito na parte de arte, que é a sua formação. E o meu primo João Lacerda também faz parte da direção e depois outras pessoas. Hoje em dia até já temos pessoas não da família. Um caso muito curioso, chama-se Pedro Pais Cardoso. Veio dar ao museu como voluntário, hoje em dia está na administração.
Que interessante.
São pessoas que o museu atrai pela sua paixão e que depois se juntam a esta luta coletiva que nós temos.
Enraízam-se lá.
Exatamente.
Salvador Gouveia, diga-me uma coisa. O Caramulo, a gente acha que é longe, apesar de haver autoestradas hoje, muito fora de Lisboa, descentralizado. Tem muitos visitantes, como é a vida do próprio museu?
A vida de museu é muito intensa. Há amigos meus que acham que quando eu vou para o Caramulo, vou para a terra, acalmo-me. Eu entro lá e é como se entrasse em warp speed, o tempo acelera três vezes. Nós, porque temos tanta coisa a decorrer neste momento com o plano estratégico que temos.
Por exemplo. Então, o plano estratégico, o que é? Vamos pôr ordem na conversa.
Nós definimos o plano estratégico, alinhado com a autarquia de Tondela, de transformar o Caramulo num polo de museus, ou seja, uma vila de museus. Nós, neste momento, temos o Museu do Caramulo.
Nós, Patrício Gouveia.
Nós, sim, a família. O Museu do Caramulo, a direção do Museu do Caramulo. Portanto, temos o Museu do Caramulo, que são dois edifícios. Temos o Caramulo Experience Center, que abriu em 2022 também, quando reabilitamos o museu, quando inauguramos o museu reabilitado. Estamos, neste momento, a fazer obras em três pavilhões novos, são as reservas para abrir ao público, são os pavilhões Lacerda, como a gente lhes chama. Temos o Museu da Estância Senatorial, um museu alusivo exatamente à história da Estância Senatorial, que está em obras, é um museu que é um conceito nosso, que depois foi desenvolvido pela autarquia, portanto, esse museu eu espero que venha a abrir brevemente. E depois teremos o Museu das Marcas, que já abriu digitalmente, o museudasmarcas.pt.
E artes gráficas.
Artes gráficas, publicidade, tudo o que é packaging, design, publicidade.
E que você colecionou também, você pessoalmente.
Exatamente. Mas também com outros acervos que têm vindo dar ao Museu do Caramulo, nomeadamente, por exemplo, todo o arquivo da Litografia Portugal.
Têm muitas ofertas de acervos.
Temos. Nestas coleções mais pequenas temos estado a ter muitas ofertas e temos também estimulado essas doações e que a sociedade civil se junte e se veja representada também com as suas pequenas doações, que vão contando uma história coletiva. Melhor não haver 200 museus pequeninos, mais vale haver um bom museu que concentre e conte essa história.
Então quantos polos passará a ter o projeto museológico da Vila do Caramulo? Quantos polos de diferentes naturezas?
No nosso plano, este que eu lhe disse, mais um museu do brinquedo que estamos a planear agora uma candidatura.
Do qual você também é colecionador.
Exatamente. E o hangar, que é uma extensão do Museu dos Automóveis, que será um museu novo, e a Casa Museu Abel Lacerda, que é uma coisa um pouco mais para a frente, mas que esperamos também a vir a juntar este portfólio.
É fácil, é impossível, com a burocracia sufocante que há em Portugal, os obstáculos que se levantam mesmo a quem obviamente está a fazer uma coisa que serve a comunidade, pouca atenção, pouco gosto pelo mérito, não encontram muita dificuldade.
Encontramos imensa dificuldade, como encontra qualquer pessoa. Eu vou lhe dar um exemplo: nós temos uma placa na A25, daquelas castanhas, a dizer "Visite o Museu do Caramulo". Demorou sete anos até essa placa ser implementada, desde que decidimos que a queríamos ter.
Não acredito. Sete anos para pôr uma placa?
Sete anos. Entre a burocracia, entre pedidos. Em Portugal, qualquer pessoa que queira fazer, posso lhe dar o exemplo de um grande amigo meu que fez o hotel das Amoreiras. É o que eu digo sempre, ou nós queremos fazer muito uma coisa, ou se queremos só fazer mais ou menos, não vamos conseguir, porque é tão difícil, há tantos entraves, tantas dificuldades, tantas invejas, tanta burocracia, que ou nós acreditamos naquilo piamente, com espírito de missão, e depois quando vamos a meio, também já é tarde demais para nos arrependermos e temos que ir até ao fim, ou se nós soubermos no princípio a dificuldade que vamos ter, as pessoas atiram logo a toalha ao chão, porque realmente é um país que só dificulta qualquer iniciativa privada. Agora, só voltando atrás ao que eu estava a dizer dos visitantes do museu. Nós, no ano passado, tivemos o melhor ano de sempre em mais de 70 anos. Entre os dois museus, tivemos 60 mil visitantes, mais 40 mil que vêm ao festival, é o maior festival motorizado em Portugal. Esta é, no fundo, a nossa recompensa. Sentimos que somos relevantes e que as pessoas vão de propósito ao Caramulo, porque ele não é no caminho de nada.
Quantos tiveram?
60 mil. Entre os dois museus, tivemos 60 mil visitantes, que é um número muito invejável, mesmo até para um museu em Lisboa. E assumindo que é um museu privado, que tem um bilhete, que a pessoa tem que ir até ao Caramulo só de propósito para ver aquilo, isso enche-nos a alma para fazer muito mais.
E o financiamento?
O financiamento.
De repente, um projeto com essa ambição e vastidão, uma pessoa tem que se interrogar.
E com este investimento.
Exatamente, e com esse investimento, como é? O que é que alimenta esse investimento?
É igual, é criatividade e esforço. É criatividade e esforço e irmos atrás das oportunidades.
Mas da criatividade e de esforço não nascem euros.
Nascem.
Não, eu percebo o que é que quer dizer.
Ou seja, é um goodwill que nós temos, é, no fundo, como diz o ditado brasileiro: "Ou você faz poeira ou você come poeira". E nós fazemos muita poeira e portanto as marcas, as empresas, os mecenas, os participantes, vêm aí se querem fazer parte.
E estão disponíveis para tomar.
Estão disponíveis para ajudar. Quando o projeto é interessante, é credível e acontece. A execução, como dizia o ministro da Economia numa conferência recentemente no Museu do Caramulo, num dos nossos eventos, a confiança vem da execução.
A confiança vem da execução.
Isso é que passa a nossa credibilidade para poder pedir mais e fazer mais. E depois também os eventos que nós fazemos, que hoje em dia é um dos grandes ganha-pão do Museu do Caramulo. Fazemos um conjunto de eventos organizados por nós há alguns anos.
O nós é sempre o núcleo familiar.
Exatamente, sempre.
Agora, há pessoas fora da vossa família na administração do museu.
Há, como eu disse há bocadinho.
Não, eu sei, visitei um caso.
A direção em si, não. A direção realmente são os "talibãs", entre aspas, do Caramulo, são mesmo família.
Não gosto nada desse termo.
Depois, há muitas pessoas que Que têm essa ligação emocional ao Caramulo, que nós apreciamos muito e até ficamos emocionados, porque elas não tiveram a infância no Caramulo que nós tivemos, não foram indo dotrinadas como nós, mas sentem essa paixão ou pelas coleções, ou pelos eventos, ou pelo próprio museu, e são uma equipe absolutamente imprescindível quando nós montamos estas atividades extra, estes eventos, em que a equipe tem que crescer muito, tem que se esticar muito, e temos toda esta gente que se junta a nós, e que é uma família, hoje em dia, praticamente.
Quando eu há bocadinho citei que uma das suas atividades era o fundraising, era exatamente relacionado quando eu perguntei dos patrocínios. É você que se encarrega especialmente de conversar com pessoas?
Hoje ligamos a todos. Eu faço um pouquinho mais, mas vamos todos. É quase uma obrigação inata de que toda a gente na direção e até fora, se vê que há uma oportunidade, se vê que há uma marca, se vê que há um patrocinador, é esgotar todas as possibilidades. No fundo, é isso que nós fazemos, é viramos todas as pedras e esgotamos todas as possibilidades. Não deixamos nada para trás, por mais rebuscado que seja, porque já muitas vezes, em situações rebuscadas, saíram oportunidades.
Claro. Salvador, e há pouco, quando eu lhe perguntava como você também tem a ver com a parte expositiva, não dos carros, mas da arte. Sente-se habilitado? Por exemplo, como é que faz? Compramos esta peça, não compramos aquela peça, pedem a especialistas, ouvem, têm conselheiros?
Temos sempre conselheiros. Nesse caso, até temos um conselho consultivo. Se nos querem doar uma peça, seja arte, seja automóveis, temos um conselho consultivo em que mostramos a eles e decidimos todos juntos. Não é vinculativo, mas eles dizem se faz sentido, se integra, se não se integra, pra não ser só um gosto pessoal a prevalecer nesse momento. Porque esses gostos pessoais, se calhar daqui a 10 ou 20 anos ficam desatualizados. Nos rodeamos das melhores pessoas pra nos ajudar a tomar essas decisões um pouquinho mais especializadas.
Tudo isso vem do lado da sua mãe, do lado Lacerda da família, e no fundo, não estamos senão a falar de um legado, e da importância e da responsabilidade desse legado. Foi esse o ponto de partida: manter, respeitar e ampliar.
Sim, porque nós somos a quarta geração. A geração do meu avô já fez isso em relação ao meu bisavô, reconvertendo o Caramulo pra parte da cultura e do turismo. A geração abaixo também continuou a defender e a desenvolver essa área, e nós somos a quarta geração e queremos levar isso muito mais longe. Até porque isto depende dos ciclos e das pessoas que estão disponíveis, do contexto político e econômico, e nós, neste momento, consideramos que estamos num bom momento pra que se possa levar este plano à frente. Há 20 anos, se calhar, não seria possível. Tendo nós a vontade de desenvolver e estando as ferramentas disponíveis, e tenho que dizer aqui também, já não temos 20 anos, temos 40, 50. Estamos na fase da vida em que temos uma capacidade de realismo e de execução muito maior do que 30 anos atrás, teríamos também uma ideia pro Caramulo, mas seria muito mais difícil de implementar. Agora é o momento-chave pra se implementar essa estratégia para os próximos 30 anos.
E acelerá-la, até.
E acelerá-la. Claro que nunca sabemos quando é que alguém vai puxar a ficha.
Não, claro. Olhe, nós podemos ainda falar de si como empresário. Você já falou da sua empresa de estudos de mercado, onde nunca lhe ocorreria, talvez dois meses antes, estar. Abordamos de passagem o jornalista digital ligado aos automóveis, mas eu queria parar um pouquinho nestes últimos minutos na sua música, porque você fez música, tinha uma banda, tocou fora do país, gravou discos. É tão engraçado isso. Vamos lá. Música, maestro.
A música é a minha primeira paixão, a minha paixão mais contínua. É uma paixão única, é uma coisa que eu vivo de forma mais individual, ao contrário de todas as outras paixões, dos automóveis, do museu, da empresa.
Tem que ser partilhada e tratada assim.
Mas é uma paixão que eu tenho desde miúdo, muito pequenino. E depois a questão da banda também foi uma coisa muito importante pra mim, porque eu sempre gostei de fazer coisas em grupo. Nunca fui muito de estar só.
Individualista.
Sim, nunca fui individualista, nunca seria um artista individualista. Na mesma questão da empresa, em que eu tenho a sorte de ter os mesmos sócios há mais de 30 anos. Os mesmos sócios!
Sim, isso fala por si.
Isso foi um dos fatores também de sucesso.
Quando é que criou a banda? Que idade é que tinha?
A banda apareceu, não sei. Comecei a banda muito a brincar. Depois aquilo se foi ganhando.
Como é que se chamava a banda?
A banda chamava-se Ethereal Grief.
Chamava-se como?
Ethereal, etéreo, Grief.
Ah, sei.
E começou em 91.
E existe hoje?
91, 92. Depois gravamos uma demo em 94, depois gravamos um disco em 98. Gravamos um disco antes, que não foi publicado, que deve ser publicado agora. Estamos a planear um disco em vinil duplo, com músicas nunca lançadas agora, que é uma coisa muito engraçada.
Quando é que saem?
A banda já deixou de existir.
Não, mas eram.
Na altura, éramos quatro. Quatro, cinco, às vezes.
Que gênero de música seria?
Era música pesada, era música heavy metal, que era o que nós ouvíamos, e que é o que eu gosto ainda hoje de ouvir, que é o que me dá energia pro dia.
Começa o dia a ouvir heavy metal.
Logo. Eu não bebo café, o meu café é pôr música pesada e energiza-me, e a partir daí ganho o meu ritmo e vou ininterruptamente ouvindo música até o fim do dia. Só paro pra fazer chamadas.
E quando tocavam lá fora, em que sítios era? Chegaram a ter uma reputação que justificasse um convite internacional?
Sim, em 94 gravamos uma demo tape, na altura que era o que havia, uma cassete. Fomos considerados a banda revelação nesse ano do estilo em Portugal. Demos aquelas entrevistas todas, participamos em festivais e depois conseguimos fazer umas datas em Inglaterra. Temos que pensar que nos anos 90 não havia internet. As coisas não aconteciam à velocidade que acontecem hoje em dia, tudo por carta. Por carta, vem pra cá, dois meses depois respondem, depois alguém, se calhar, por fax. Aliás, a confirmação que nós íamos tocar em Inglaterra era por fax.
Há pessoas que não sabem o que estamos a dizer quando dizemos a palavra fax, que era um modo de comunicar.
Sim, que havia que imprimir, era uma impressora que imprimia uma mensagem. Nós ficamos super entusiasmados quando vimos a confirmação chegar por fax a dizer que havia uma data marcada em Inglaterra pra irmos tocar.
E tocaram onde?
Tocamos em Londres e em
Noutra cidade.
Norwich e duas outras vezes em Londres.
Mas fora de Portugal foi só Inglaterra?
Foi só Inglaterra.
E porque é que nunca lhe ocorreu reavivar a banda com alguns?
Depois tive outras bandas.
Hoje, ao vivo, e darem um espetáculo. Vai sair um disco.
É isso que será. Vamos ter que dar um espetáculo. Provavelmente vamos ter que dar um espetáculo. Depois, obviamente, o curso começou, comecei a trabalhar noutras coisas, fui trabalhar com uma editora de música.
E trabalha com uma editora de música?
Na altura, eu próprio trabalhei na BMG e depois estava a tirar o curso e às tantas aquilo já não dava para fazer tudo ao mesmo tempo e a coisa ficou um bocadinho para trás. A paixão nunca, mas a banda ficou um bocadinho para trás, mas a vontade de tocar bateria e de continuar a tocar com amigos continuou.
E você tocava o quê?
Eu tocava a bateria.
Bateria. Dez segundos para você me dizer o seguinte: eu não me levanto deste estúdio, nem o deixo levantar, sem me prometer que vão mesmo fazer um espetáculo ao vivo.
Está prometido.
Quando? Ainda em 25?
Temos que pôr o disco a fora e mal o disco saia nós vamos ter que tocar para o promover.
Vão ter que tocar, mas tudo em 25, tudo este ano.
Eu espero que sim.
Eu também espero. Salvador Patrício Gouveia, foi um enorme prazer conversar consigo e muitos parabéns por tanta atividade tão bem conseguida.
Muito obrigado.
Foi um gosto.
Foi uma honra.