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E já cá estamos para mais uma edição do Pet Radio com o médico veterinário Nuno Paixão. Olá, Nuno, bem-vindo, boa tarde.
Olá, boa tarde.
Nuno, hoje propões, com a chegada do verão, olhar para um tema que é sazonal. Se calhar, não é só sazonal, mas que de facto se fala um bocadinho mais nesta altura do ano, que é o abandono dos animais. Eu vou te confessar aqui uma coisa: isto ainda acontece? Depois de tantos anos, tantas campanhas, tantos outdoors. Eu lembro-me quando era mais miúdo o quão me incomodava este assunto e este tipo de apelos, porque já na altura tinha muita dificuldade em perceber quem é que tem um animal durante um ano ou durante muitos anos e depois chega esta altura e só porque tem que ir de férias, abandona o seu animal. Isto de facto ainda é um problema?
Ainda é um problema, por muito que me custe dizer isto. Reparem, nós desde 2014, que a Lei 69 criminalizou o abandono, ou seja, a gente sempre teve problemas de abandono. Em 2014 tornou-se um crime, e não é só no verão. O verão às vezes é uma desculpa para o abandono. As pessoas querem ir de férias, as pessoas não pensam quando fazem o seu orçamento de férias, não pensam se podem levar o seu animal ou não, se têm com quem o deixar ou deixar no hotel, porque quando se pensa no orçamento das férias, deve-se incluir já esse valor, ou pedir a um amigo para partilhar ou troca, ou seja, um vai de férias e o cão fica com ele e depois quando o outro vai de férias, o cão fica com o outro, ou o gato, ou o que seja. Vamos ser sinceros, o abandono de animais de companhia é um reflexo da sociedade. Infelizmente, continua-se a abandonar idosos nos hospitais também, continua-se a abandonar crianças, apesar de não ser tão comum, mas basta ouvirmos notícias destes dias. Há crianças abandonadas que vivem dentro das casas das pessoas, portanto, o abandono é uma cobardia, eu não posso dizer outra palavra. É uma cobardia, porque as pessoas até se convencem que na rua ele vai ter muito espaço. Ele na rua tem sempre alguém que lhe dê de comer. Pode ser que alguém o recolha. Reparem, às vezes abandonam-se gatos dentro de uma ao lado, aquela ideia idílica que a gente tinha antigamente das crianças que eram deixadas dentro de uma alcofinha, para que os outros tomem conta delas. E isto no século XXI continua a acontecer e é uma cobardia, porque nós estamos a deixar um ser que assumimos a responsabilidade dele, assumimos a responsabilidade de o proteger, assumimos a responsabilidade de lhe dar um mínimo de conforto, e o mínimo de conforto nos nossos animais nem passa por dar-lhes dinheiro propriamente dito. É óbvio que há sempre despesas e devemos ter isso em conta, porque a detenção responsável de um animal implica saber se temos meios para o ter e para o manter.
Nuno, parece-me que há aqui duas questões, porque as pessoas podem ter condições e depois deixar de ter condições. As condições mudam e queria te perguntar, porque estamos a falar de situações diferentes, por exemplo, o abandono sazonal antes das pessoas irem de férias e aquele abandono porque já não se quer ter ou porque já não se tem condições. Existem alternativas para as pessoas, por exemplo, poderem deixar os seus animais a baixo custo? Existe esse tipo de apoio por parte das organizações de proteção dos animais ou das câmaras municipais, por exemplo, para deixar um animal durante uma semana quando se vai de férias ou para entregar o animal quando se deixa de ter condições para se manter o animal?
Para tudo isso há sempre algumas soluções, apesar de não serem aquelas que a gente gostaria ou da forma como nós gostaríamos que elas fossem mais corretas. Eu gostaria muito que fosse possível a entrega voluntária de alguns animais, quando os seus tutores determinam ou percebem que agora já não têm condições. É uma entrega voluntária, legítima, consciente até. Hoje em dia há associações que ainda vão ajudando nesse sentido, há entidades que podem ajudar a tentar descobrir alguém que possa adotar esse animal. Mas há uma coisa que para mim me custa, que é: deveria haver um compromisso de honra, no mínimo, em como essa pessoa não vai ter outro animal. Porque infelizmente, há pessoas que entregam porque não gostam da cor, porque se mexe muito e então vão entregá-lo, mas depois passado um mês ou dois já estão a adquirir outro, a adotar outro. E isto é assustador, porque sim, é verdade, há pessoas que até legitimamente podem estar a passar por esse problema e deve haver mecanismos para as ajudar, mas depois há uma quantidade de pessoas que se aproveitam dessa situação para se livrar daquele animal, porque não tem a cor que ele gostaria na realidade e porque as fotografias no Instagram não ficam bem E esta superficialização, esta futilidade, infelizmente hoje em dia ainda existe, porque há muita gente que ainda olha para os animais como coisas, como algo que é útil naquele momento e que passado algum tempo, a gente descarta dele, a gente afasta-se disso. Isso também é assustador.
Nuno, eu queria só voltar aqui um bocadinho ainda a esta pergunta do Bruno, porque tenho sempre também a ideia de que os hotéis são caros, é um luxo, que é uma coisa para donos de animais com algumas posses. E eu tenho por acaso também essa curiosidade. Não há uma espécie de pousada da juventude um bocadinho mais barata para deixar os animais?
E também há casas familiares que aceitam, mas também não é assim tão barato quanto isso.
Pronto. Mas repare, nós aqui temos várias alternativas. Os hotéis é como tudo, é como todos os hotéis. Há hotéis caros e há hotéis baratos. Repare, se alguém tem dinheiro para ir de férias, também deve reservar uma parte desse orçamento das férias para poder pagar o hotel, as férias também do seu animal. São férias também. E repare, hoje em dia pode-se encontrar desde €5 por dia até 30 e tal euros por dia. Tudo vai depender das condições.
Com pensão completa, Nuno?
Com pensão completa.
Normalmente é sem a ração incluída.
Exato. Deve haver várias modalidades.
Há várias modalidades, mas aí há uma coisa importante que é para não mudar o tipo de ração, para não mudar a alimentação, que poderia ser prejudicial do ponto de vista da saúde do animal.
Sim, isso também faz sentido, claro.
Agora, claro, temos alternativas, eu volto a dizer, temos sempre um amigo que também tem um cão e que podemos trocar as férias e entregar um ao outro para passar férias. Há sempre algum familiar. Ou seja, quem realmente se preocupa, quem realmente quer, consegue arranjar uma alternativa. Há associações que, às vezes, quando não estão demasiado cheias, porque infelizmente a maior parte das associações estão cheias, estão cheias por causa do abandono. E para mim, um dos pontos fundamentais, e antes que a gente termine o nosso tempo e eu não consiga dizer, um dos pontos fundamentais é, hoje em dia, todos os nossos cães, os nossos gatos e os furões, todos os nossos cães e os nossos gatos têm que obrigatoriamente estar identificados com um microchip e registados numa base de dados concreta onde estão todos os dados necessários para contactar com esse detentor ou com esse tutor. Isso é fundamental. Mesmo os gatos, até ao fim do ano, todos vão ter que estar identificados obrigatoriamente por lei. E assim, quem realmente tem interesse em encontrar o seu animal, caso ele fuja, caso o perca, ele vai voltar a casa. Quem não pode manter por qualquer motivo, porque a vida mudou, vai se preocupar em tentar arranjar uma alternativa. Nem sempre é fácil, não é de um dia para o outro. Eu às vezes tenho pessoas que me contactam a dizerem assim: "Eu vou mudar de casa, vou para fora, vou para o estrangeiro e não tenho condições de ter mais o meu cão e eu gostava de arranjar um local onde ele pudesse ficar." Muito bem, então e quando é que vai embora? "Vou embora amanhã." Não é em 24 horas que nós vamos conseguir realojar estes animais.
Se planeamos as férias, também devíamos planear essa questão do alojamento. Nuno, muito rapidamente queria só também tocar contigo neste ponto. Se nos depararmos com um animal que foi abandonado, nós depois podemos contactar a GNR ou o Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente, que se foi o SEPNA, que supostamente é responsável por esta questão? Pergunto isto porque já aconteceu comigo. Encontrei um cão na praia, no Algarve, e contactei a GNR e a GNR não quis ir buscar o animal à praia. Tive que ser eu a levar o animal à GNR, porque não tinham ninguém disponível. Enfim, estava imenso calor, foi no pico do verão. As autoridades atuam mesmo em conformidade? Ou a situação pela qual eu passei não será a regra? Que perceção é que tens?
Eu vou transmitir mais um desejo. O desejo é que não, não seja a regra. Mas isso é um desejo. Na realidade, as nossas entidades têm os recursos que no país vão tendo. Eu até acredito, primeiro, se foi por má vontade, bem, isso reflete as nossas forças de segurança, refletem a sociedade que nós vivemos. E há pessoas que não têm a mesma sensibilidade, há pessoas que não pensam tanto nas coisas. Por outro lado, se não havia meios para deslocar, bem, infelizmente, às vezes nos acidentes, nos assaltos, também não há meios e ficamos pendurados, como já vários de nós acabamos por ficar em algumas situações. Por outro lado, sim, têm essa responsabilidade. Sim, as forças de segurança devem ter leitores de microchip para determinar e o abandono, sendo um crime, tem que ser investigado pelos órgãos de polícia criminal. Portanto, não cabe ao cidadão. E se eu vir algum carro, por exemplo, abandonar um cão, eu devo retirar a matrícula, tentar tirar as características das pessoas e do carro para poder entregar aos órgãos de polícia criminal, porque é um crime. Portanto, não faz sentido estar a ocorrer um crime, haver suspeitas de um crime e os órgãos de polícia criminal, que são responsáveis pela investigação do crime, dizerem: "Não, eu não vou porque não posso lá ir." Isso não faz sentido. Que me digam que não tenham meios? Bem, então temos que lutar pelos meios para que todos tenham. Agora, uma coisa é certa: é um crime, tem que ser os órgãos de polícia criminal a investigá-lo, não pode ser o comum dos cidadãos.
Completamente. Nuno Paixão, médico veterinário, está connosco todas as sextas-feiras no Pet Radio. Conselhos para os nossos melhores amigos. Hoje falamos da chegada do verão e do abandono de animais. Esta edição, assim como todas as outras, está disponível lá em observador.pt. Nuno, obrigado. Um abraço. Bom fim de semana.
Bom fim de semana e se alguém assistir a abandono, denuncie e recolha o máximo de informações possível.
Aí fica esse apelo. Bom fim de semana, Nuno.