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Este é um podcast da Rádio Observador. Pode ouvir a rádio também em 98.7, na Grande Lisboa, e 98.4, no Grande Porto.

Pet Radio, todas as sextas-feiras na Rádio Observador e também sempre que quiserem, disponível no nosso site e nas plataformas podcast. Nuno Paixão, muito boa tarde. Obrigado por teres vindo.

Boa tarde.

Tudo bem?

Tudo ótimo.

Vamos falar aqui de um tema que eu achei muito interessante e muito castiço que o tenhas sugerido, que é a importância do nome no nosso animal de estimação. Isto é para quê? Porque eles podem ter crises de identidade, não é?

Nós temos um grande problema com os animais, que é a comunicação com eles.

Claro.

Nós estamos habituados a ter uma comunicação demasiado verbal. Mas nós sabemos que o comportamento, a linguagem gestual, a nossa linguagem corporal também é extremamente importante. E na comunicação interespécies, essa comunicação é mais fundamental. E nós comunicamos muito com cães e gatos da forma mais corporal, mais gestual do que outra coisa qualquer.

Lá em casa, às vezes, basta apenas arregalar os olhos para a Misela perceber que está na hora.

Que sorte. Por quê? Não consegue?

Não.

Mas ela dá conta, ignora.

Então ignora. Olimpicamente ignorante. Eu fiquei curioso com isso, porque até que ponto é que essa nossa comunicação com os nossos animais é verbal? O que é que eles percebem? 10% do que nós dizemos?

Eles percebem intenções e percebem coisas que para a gente seja claro.

Mas o tom, se calhar?

O tom também entendem, mas coisas que tenham que ser claras. Eu quando digo o nome do meu cão, eu quero o quê? O que eu quero transmitir ao meu cão? Eu quero que ele olhe para mim, eu quero que ele venha a correr para mim, que isso pode ser um erro. Imaginem que estamos na rua e nós dizemos o nome do cão e ele vem a correr em direção a nós e vem um carro, por exemplo. Ou seja, o que nós queremos, isso tem que ser bem claro. Queremos gritar com eles, queremos chatearmo-nos e vamos dar um grito a dizer o nome e ele, meu Deus, vai se encolher todo? Nós queremos que o nome seja uma coisa agradável.

Não convém associarem o nome a uma coisa que lhes fizeram mal.

Exatamente. Portanto, a introdução do nome é fundamental. Primeiro, o António José Joaquim Manuel de Santa Ana, é complicado de dizer. Portanto, convém arranjar nomes.

Aristocracia, então, é melhor não.

Não. Podemos ter algumas sílabas mais tónicas. Quando a gente diz António, o Tó vai lá ficar.

Portanto, ele acha que se chama Tó.

Tó, exatamente. E vai ser mais fácil.

Aqui a questão é se a fonética é muito importante, que ele só apanha, se calhar, a sílaba tónica.

Exatamente. Por isso é que muitos dos nomes dos nossos animais acabam por ter diminutivos.

Claro. Eu ouvi dizer já várias vezes, não sei se isto é um mito, que o nome dos nossos animais de companhia deve ter o I.

É só porque o I é mais fácil da gente dizer. E eles ouvem-no mais facilmente, e então conseguem perceber que estamos a referir a eles.

É por isso que o teu é Fintas?

Não.

Calhou bem.

Calhou.

Mas se fosse Pintas, possivelmente também servia.

Há cães no bairro, quando vamos passear, há quem chame de Pintas, mas é Fintas, e é difícil explicar às vezes.

E Tintas também, ou Fitas também. Exatamente. Fitas, Tintas, Pintas. Mas o I está lá e chama a atenção, e é isso que nós queremos. Agora, o que eu quero? E uma das coisas, repreender o nosso cão com o nome é uma má jogada. Das duas, uma: ou já há uma boa comunicação e está bem estabelecido as regras da comunicação e o tom é mais importante do que o nome em si, mas isso implica haver uma consistência na comunicação, já haver alguma cumplicidade entre as pessoas, entre as pessoas e os animais.

Mas quando a gente o quer repreender, não pode dizer o nome, é isso?

Não convém. Convém dizer por que a gente está a repreender. E aí entra bem uma palavra de repreensão, que possa ser o não, tudo bem. Só que a palavra de repreensão também tem que ser bem introduzida. Ele tem que saber que aquele não é uma coisa que é mesmo para parar. E arranjar uma alternativa para a parte boa. E o nome não deve ser usado, porque a gente tanto usa: "Fintas, anda cá, Fintas, Pintinhas" ou "Fintas, está quieta!" E isso baralha um bocadinho. Ou já há alguma maturidade, já há alguma cumplicidade e algum desenvolvimento cognitivo na relação, ou então vai ser complicado de gerir. Por isso, o meu primeiro conselho sempre é: o nome serve para eles olharem para nós. Ou seja, eu quando digo o nome, eu não quero que venha a correr para mim, eu quero que olhe para mim e depois a partir daí a comunicação continua. A partir daí eu posso dar mais outra instrução, chamem-lhe o que quiserem.

Isto é como nos humanos, é em pequenino que se desenvolve a linguagem e a compreensão?

Sim, ajuda, é mais fácil. Agora, burros velhos também aprendem línguas.

Aliás, há cães que são adotados já com alguma idade e depois mudam de nome.

Sim, e mudam e aceitam.

Eu conheço casos desses e aceitam.

Aqui tudo também depende da forma como eles estão recetivos. Nós vamos ser muito sinceros. As personalidades dos nossos cães também são diferentes. Como é que foi criado? O passado. Se durante a infância sofreu mais ou se sofreu menos. Se é mais desconfiado, se não aceita tanto uma ligação, se tem tanta vontade de agradar que aceita tudo e acha que é tudo divertido. Portanto, há muitos cães que às vezes são adotados mais tarde, quando são mais velhotes, e que têm uma vontade tão grande de ser integrados, de serem aceites, de estarem naquela família, que vão tentar de tudo para agradar.

Esta é uma pergunta parva. Também se dá o caso de um cão que viveu em Inglaterra e depois vem para Portugal e percebe alguma coisa do que lhe dizem? Eles dão por ela dessa alteração de linguagem?

Então, por acaso até saiu, foi publicado um artigo há relativamente pouco tempo, que eu ainda não li todo, em que afirmavam que os cães conseguiam distinguir entre húngaro e castelhano, porque leram o Principezinho em húngaro, leram o Principezinho em castelhano, e os animais conseguiram distinguir que estavam duas línguas diferentes. Eu ainda não li o artigo, portanto, eu não vou estar ainda aqui a comentá-lo, mas sim, a comunicação fonética vai variar se é em inglês, se é em português. Às vezes nós, para facilitarmos, para não haver confusão na comunicação, nós até treinamos ou formamos, eu gosto mais da palavra formar, educar, os nossos cães com Palavras em inglês, por exemplo.

Isso acontece?

Acontece com muita frequência.

Eu às vezes falo espanhol com a minha cadela. Não sabem porque isso acontece, mas acontece.

Que raça que ela é?

Ela é cruzada de labrador.

Ok. Estava a pensar se havia algum antepassado.

Há treinadores que usam mesmo línguas diferentes. Por exemplo, já vi um treinador a falar inglês ou alemão.

Alemão percebo que tenha eficácia.

Mas por quê? Aquele ar autoritário, não é?

Lá está, isso também é outro conceito. Nós não temos que dar ordens autoritárias aos nossos cães. A gente pode comunicar com eles com um tom normalíssimo. Até porque o tom mais autoritário deve ser reservado para situações mais extremas, ou seja, quando a gente precisa mesmo que eles nos oiçam. Se a gente vulgarizar o grito, o falar mais alto, o tom mais autoritário, chega a um ponto em que: "Está bem, eu só vou me chatear quando me disseres quatro vezes seguidas, até às quatro vezes eu vou fazer o que quero."

Nuno, e em relação, deixa eu me introduzir aqui, os gatos.

Boa!

Sim.

Porque eu gostava de saber se os gatos reconhecem ou não o nome.

O meu não, eu acho que não. O meu é impossível que reconheça.

Eu acho que o meu não reconhece, mas estou aberto a mudar de opinião.

Depende, o que nós queremos? A palavra reconhecer é só eu sei que me chamo...

Léo.

Léo. Ou seja, se eu sei que eu me chamo Léo, qual é o objetivo de eu me chamar Léo? Por que eu vou me chamar Léo? O que eu ganho com isso?

Porque são gatos.

Tem que haver uma vantagem em eu me identificar com esse nome. De certeza absoluta que "Léo, e a seguir está a latinha aberta" ou "Léo, o biscoitinho que ele gosta", ou 'Léo, vamos brincar com a vara de pesca para brincar." Aí o Léo tem um objetivo. Mas o objetivo é, a partir do momento em que eu ouço o nome Léo, eu vou interagir e gosto dessa interação. Agora, se eu ouço a palavra Léo e a seguir vão

Barafestar contigo.

Barafestar comigo, eu não quero ouvir a palavra Léo, viro as costas e vou-me embora cada vez que ouço a palavra Léo. Portanto, tudo depende da consistência, tudo depende do que nós usamos a seguir.

No caso dos cães, também é mais fácil nós percebermos pela expressão corporal deles, pela expressão física, se eles entendem ou não.

Sim, é verdade. Nos felinos, nos gatos em geral, nós temos um problema: é que existem muitos felinos que são solitários. Ou seja, se a gente pensar num tigre, é um felino que é solitário, portanto, o seu comportamento é muito solitário. Depois, os nossos gatos urbanos, os nossos gatos domésticos, já começam a ter alguns comportamentos gregários, mas ainda existe um passado solitário. Portanto, há alguns que preferem viver sozinhos, mas no conforto das nossas casas.

Os papagaios são os que percebem melhor ou isso é mito?

Não diria que percebem melhor. Nós também menosprezamos um pouco a inteligência dos nossos psitacídeos em geral. Eles são extremamente inteligentes e sofrem pela privação de liberdade que têm. Agora, eles têm uma vantagem, têm uma articulação vocal que permite copiarem as nossas palavras, imitar as nossas palavras, e nós temos então esta arrogância de achar que estamos a comunicar verbalmente no mesmo idioma e com as mesmas palavras com eles, que eles também se esforçam por comunicar.

É que há papagaios que vão a tribunal, como testemunhas, de situações. Já li coisas deste gênero.

De duas pernas?

Já vi de coisas essas. Nuno, estávamos aqui a ficar sem tempo e eu queria muito falar ainda contigo.

Um dia podemos falar sobre testemunhos de cães em tribunal, porque há países no mundo em que isso é permitido. Podemos falar perfeitamente sobre isso.

Isso era ótimo. Mas queria aqui trazer também uma notícia que me emocionou muito e que tu me deste conta agora quando aqui chegaste, que é o desaparecimento do Magawa, presumo que seja assim que se pronuncia.

É uma fêmea.

Uma fêmea, um ratinho herói, que nos deixou por estes dias. E esta é uma história fantástica.

Sim, é um rato gigante africano. Ela nasceu e viveu o primeiro ano na Tanzânia. Há uma empresa, uma ONG belga que se dedica à desminagem pelo mundo. Existem milhões de minas ainda espalhadas pelo mundo, que são responsáveis por acidentes que causam amputações e causam grandes tristezas por todo o mundo, em pessoas mais incautas. E essa empresa começou a treinar, começou a formar estes ratos gigantes africanos.

Mas descobriu que eles tinham esta capacidade.

Sim, primeiro eles conseguem comunicar conosco facilmente. Segundo, têm um nível de inteligência muito próximo dos cães, da forma como nós, e aqui a inteligência é situacional, ou seja, não é inteligência medida em QI, em que ela consegue também detectar pelo olfato estas minas, consegue identificá-las, consegue transmitir que as identificou e pelo seu próprio peso, não a despoleta. E são muito rápidos. Reparem que, neste caso, este exemplo, conseguia fazer a busca no tamanho de um campo de tênis, que de uma forma geral um humano demoraria quatro dias, ela fazia em 20 minutos.

Uau! E estava reformada, gostei deste pormenor. Há um ano que estava reformada.

Porque não nos podemos esquecer que eles também perdem as suas capacidades físicas.

Claro.

As artroses também vêm, os problemas cardíacos também vêm, os problemas renais também vêm. A demência mental também vem. E parece, no CV, no currículo dela, que tinha percorrido o equivalente a 22 campos de futebol, em que foi ela que desminou todos estes campos.

Foi condecorada, até.

Foi condecorada, sim, senhor.

Que história belíssima.

Foi pela medalha de Santo Jorge, que é devota a animais, e que veio a ser demonstrado e provar que ela evitou a mutilação e evitou a morte de muita gente.

Esta história é belíssima, Magawa, um ratinho, uma fêmea, rato herói. É um rato grande, não é?

É um rato gigante de África.

É maior que uma ratazana?

É maior que uma ratazana, mas é mais fofinho.

É do tamanho de um coelho?

Sim, é do tamanho de um coelho, mas tem um ar fofinho.

Tem um ar fofinho, tem. Já estive a ver esta notícia, é incrível. Muito obrigado também por partilhares esta história da Magawa conosco. De hoje a uma semana, voltamos a falar com o Nuno Paixão no Pet Radio. Nuno, obrigado. Bom fim de semana.

Bom fim de semana para todos.

Rádio Observador