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O caminho está praticamente livre para um ataque ao avião. Depois da saída dos passageiros, as únicas pessoas entre o sequestrador e as forças especiais são agora os tripulantes. Os espanhóis estão prontos para entrar e pôr fim ao sequestro pela força. Na torre de controle, o embaixador português em Madrid está a fazer tudo para travar uma intervenção armada.
A nossa missão era convencer os espanhóis a não intervirem, mas a missão daquela tripulação e daquele comandante era muito mais difícil.
É um jogo de forças. Luís Filipe Castro Mendes, secretário da embaixada, sabe que o tempo começa a escassear. Dentro do avião, a tripulação segue as indicações que recebeu da torre de controle. Estão a tentar resolver o problema, mas ainda não comunicaram de que forma. Fora do Boeing 727, ninguém sabe do plano desenhado por José Correia Guedes. Um plano que estava a ser cumprido com sucesso até ao momento em que o Rui mudou de ideias. Estamos já na madrugada de 7 de maio de 1980. Em Portugal, a notícia está por todo lado e no Feijó, família e amigos procuram respostas para o que levou o Rui a desviar um avião da TAP. O copiloto prometeu ajuda judicial caso o pirata do ar decida entregar-se. Rui acedeu a libertar todos os passageiros, mas no momento em que ia entregar a arma, hesitou. E agora ameaça acabar com a própria vida. Há uma coisa que vos posso contar desde já. Este avião vai mesmo sair de Madrid ainda esta noite. Mas para isso acontecer, os espanhóis vão ter de cair numa mentira. Este é o "Piratinha do Ar", uma série para ouvir em seis episódios, faz parte dos Podcast+ do Observador. É narrada por mim, Margarida Vila Nova, e a banda sonora original é de David Fonseca. Episódio cinco: a grande mentira.
Esta é uma história real e é o conhecimento da história que guia a Honda em direção a um futuro melhor. Vamos continuar este percurso juntos, porque a Honda tem muito para contar, mas também tem muita vontade de ouvir. Nesta viagem, os Podcast+ do Observador têm o apoio da Honda Automóveis.
Rui está a chorar. Tem apenas 16 anos. Já passa das 3 h da manhã e vê-se noutro país. Está a centenas de quilómetros de casa dos pais e do quarto onde sempre dormiu. De repente, percebe a loucura em que se meteu. Está dentro do cockpit de um avião comercial, com uma arma na mão e sem qualquer escapatória. Apercebe-se de que não tem saída e que as coisas para ele vão acabar ali. O copiloto não quer acreditar que Rui está pronto para um desfecho dramático. José Correia Guedes também já está de lágrimas nos olhos.
Aí começo eu a chorar também. "Mas estás maluco, miúdo? Bonito, inteligente, com a vida inteira pela frente, estás a fazer um disparate, mas isto resolve-se, tretas, dá-me cá a porcaria da bala".
O Rui fez tudo o que lhe foi pedido, mas receia que José Correia Guedes não consiga cumprir com as promessas. O copiloto insiste. Não há nada que justifique aquele fim. É preciso enfrentar os problemas, mas tudo vai acabar por se resolver. O pirata continua nervoso. Está de lágrimas nos olhos. Sabe que aquele piloto fardado, que está à sua frente e que começou por lhe perguntar o nome quando tinha uma arma apontada, é a única pessoa com que pode contar agora. O piratinha resiste, mas escolhe confiar.
Resultou. Ele deu-me a bala que faltava, deu-me a arma e problema resolvido.
Vários meses de preparação e mais de seis horas de uma tensão crescente acabaram naquele momento. O Piratinha desiste. A Operação TAP chega ao fim com a vitória da tripulação. Rui já não está armado. Os passageiros estão todos fora do avião. José Correia Guedes acabou de prometer que tudo se vai resolver, mas sabe que se agora entregar o Rui aos espanhóis, vai quebrar essa promessa.
Nós sabemos bem que os espanhóis não são como nós, não são tão brandos e benignos como nós somos. E pensamos, se nós entregarmos o miúdo aqui, ele vai ficar preso para o resto da vida E ganho o livro de uns 20 anos de prisão, se não lhe fizerem pior.
Só há uma coisa a fazer. É arriscada, mas é a única hipótese de ajudar o Piratinha. José Correia Guedes e o comandante Coutinho Ramos assumem que é preciso enganar os espanhóis. É preciso uma grande mentira.
De maneira que vamos mentir. Vamos mentir, vamos tirar daqui o avião sob sequestro. Então pedimos aos espanhóis para nos meterem combustível, precisávamos de combustível para ir para qualquer lado. Isto era um voo doméstico com pouco combustível. Eles acederam. O que eles queriam era ver-nos pelas costas, o mais depressa possível. Lá fizemos as nossas contas, dissemos: "Metam não sei quantas toneladas, três toneladas, quatro toneladas." Eles ligaram os carros, encheram o combustível, tiraram a polícia dali de volta. Então e agora? Agora vamos descolar com destino desconhecido.
Os espanhóis acreditam mesmo que o sequestro continua e que foi o Rui a dar a ordem para saírem de Madrid. Estão há horas em alerta e a única coisa que querem é livrar-se disto rapidamente. Se o pirata do ar forçar o avião a aterrar noutro país, então deixa de ser um problema deles. Já não será necessário partirem para uma intervenção armada de consequências imprevisíveis. Despachar um avião sequestrado a troco de umas quantas toneladas de combustível era um grande negócio. O Boeing 727 da TAP está reabastecido e pronto para seguir viagem. No cockpit, os pilotos recebem a autorização da torre de controle para descolar. Rui está prestes a livrar-se de ficar detido em Espanha. O avião está novamente no ar. Agora, voa apenas com a tripulação e um único passageiro. Mas, tecnicamente, este voo ainda está sob sequestro. Está na altura de desfazer a grande mentira.
Logo a seguir à descolagem, então dissemos: "Olha, o sequestrador entregou-se e nós, já que estamos a voar, vamos aterrar em Lisboa. Boa viagem."
O Boeing 727 está quase a deixar o espaço aéreo espanhol. Na torre de controle, o embaixador João de Sá Coutinho e o secretário Luís Filipe Castro Mendes respiram finalmente de alívio.
Nós conseguimos realmente resolver o problema sem intervenção militar, sem chacina, sem matar o jovem. Duas coisas a sublinhar. Primeiro, a habilidade do embaixador em convencer as autoridades espanholas a não intervirem de maneira violenta, enfim, normal nestas situações, a não fazerem essa intervenção. E da parte do comandante do avião, a habilidade que ele teve também em convencer o miúdo a deixar as armas, deixar sair os passageiros.
A mensagem sai da torre de controle e chega também a Portugal. O governo é tranquilizado. O assunto está resolvido. Francisco Sá Carneiro desfaz o gabinete de crise. Sai acompanhado pelos ministros dos Transportes e dos Negócios Estrangeiros. Com a mão esquerda no bolso da gabardine e a mão direita a segurar uma pasta, o primeiro-ministro é entrevistado por uma equipa de reportagem da RTP, que aguardava por ele ao fundo das escadas do edifício. Antes de entrar no carro, Sá Carneiro comenta o fim do sequestro e tranquiliza o país.
Como sabem, os passageiros já saíram todos, mesmo o vice-cônsul da Suécia, que tinha ficado voluntariamente, também já saiu, de maneira que aguardamos agora o regresso do avião e esperamos que as coisas se passem bem.
Passa já das 05:00 do dia 7 de maio de 1980. Depois de cerca de uma hora de viagem, o avião aterra finalmente no aeroporto de Lisboa. As autoridades portuguesas já tinham tudo preparado.
À chegada a Lisboa, uma enorme aparada, porque isto é distante, longo. Cinco, seis horas, sete horas, já não sei. Já era noite alta quando aterramos.
Nas imediações, estão também vários jornalistas a acompanhar o momento. O avião está agora imobilizado na pista. As forças de segurança vão finalmente entrar a bordo.
Apareceu a polícia, entrou imediatamente no avião e eu cumpri o prometido. Tinha a arma comigo, tirei as balas e entreguei a arma descarregada. E o capitão da polícia, que eu por acaso conhecia do aeroporto, era oficial de segurança do aeroporto, perguntou-me: "Ó senhor fulano, as balas?" Não tinha, estava descarregada. Eu assim com um sorriso meio palerma. "Tem a certeza?" Tenho.
É a segunda vez que José Correia Guedes mente esta noite e a segunda vez para tentar salvar o Rui. O copiloto tem as balas guardadas no bolso. Entrega a arma descarregada, confiante de que isso pode jogar a favor do Piratinha. Está a cumprir aquilo que prometeu. O Rui é detido. Sai com a cabeça coberta por um casaco, é levado para dentro de um carro e segue diretamente para a Polícia Judiciária. Mas a noite ainda não chegou ao fim no aeroporto de Lisboa. É preciso esclarecer tudo o que se passou. Como é que este sequestro foi possível e como é que foi resolvido pela tripulação? A TAP e os responsáveis pela segurança procuram respostas.
A seguir a estas coisas, há sempre aquilo a que chamam de briefing de segurança. E são convocadas todas as autoridades relacionadas, quer com a companhia, quer com a segurança do aeroporto, diretor do aeroporto, presidente da companhia, comandante da polícia, comandante dos bombeiros, e dá-se este briefing. À volta de uma mesa, a tripulação e as chefias do outro lado. Muito bem, correu tudo muito bem, parabéns, problema resolvido.
Todos estão aliviados com o desfecho do sequestro. Mas José Correia Guedes sabe que tem um problema. O caso ainda não terminou. Afinal, ele ainda tem as balas que estavam dentro da arma do sequestrador.
E eu ponho as balas na mesa. "Põe aqui as balas. E agora?" Pensando eu ingenuamente que nós ficamos com isso, o problema está resolvido, não vamos pensar mais no assunto. Aquilo que eu ouvi foi: "José Guedes, você vai ter que ficar com as balas. Foi você que negociou, faça-lhes o que quiser".
O piloto não acredita no que está a ouvir. Esperava apoio ou até uma partilha de responsabilidades pelas ações que tomou, mas não é isso que acontece.
Faça o que quiser, mas isto é a prova provada que isto podia ter acabado muito mal, ou seja, que a arma estava carregada e que eu menti à polícia. Portanto, eu tenho aqui um problema.
Santos Martins, presidente da TAP, e os membros do gabinete de segurança de voo, dão uma conferência de imprensa e explicam o que se passou. Falam dos passos que foram seguidos para resolver o problema e elogiam o trabalho da tripulação, mas omitem o pormenor das balas. Na manhã seguinte, os jornais vão começar por escrever que a arma estava descarregada. Na verdade, José Correia Guedes está a ocultar provas de um crime, e isso pode virar-se contra ele. Ainda nesta noite, os jornalistas falam com os pais do Piratinha. A mãe, Idalina Rodrigues, surge perante as câmaras de televisão visivelmente perturbada. Ainda não conseguiu ver o filho e procura motivos para o que aconteceu. Mostra uma foto do Rui. Não percebe bem como é que ele conseguiu sequestrar um avião sozinho. Nada daquilo fazia sentido.
Ele tem agora 16 anos, não é?
Tem 16 anos.
Como é que isto aconteceu? Houve alguma coisa especial? Ele disse que ia fazer alguma coisa?
Eu não sei se ele foi mandado por alguém, se não foi, eu não posso dizer o porquê. Muito bem, era um miúdo que ia sempre pra casa a horas, nunca saía, nem aos domingos, nem aos sábados. Um miúdo muito aproveitado, a senhora nem calcula o que ele fazia lá em casa de serviços, trabalhos que até uma pessoa ficava admirada. E não sei porque foi isto, não sei. Não posso saber porque foi.
No Feijó, os amigos esperam o pior. Tem apenas 16 anos, mas percebem que o amigo está metido numa situação complicada. Renato Ventosa tem medo que a justiça seja dura com o Rui.
Perante aquilo que tinha acontecido, claramente tínhamos a perceção que ia ficar preso, porque o delito era gravíssimo. Um sequestro de um avião não é propriamente roubar um pacote de pastilhas ali no supermercado.
José Correia Guedes esquece por momentos o problema das balas no bolso. Há menos de 24 horas, tinha se despedido da mulher com um beijo. Mas o que era suposto ser mais um dia normal, acabou por se transformar num pesadelo. Já é de manhã quando chega à casa em Carcavelos. Reencontra-se finalmente com Lourdes, que tinha passado aquela noite sem dormir.
Minha mulher num sofrimento este tempo todo, como vocês imaginam. Estava a ser transmitido em direto pela rádio, colegas a telefonarem lá pra casa, a oferecerem-se pra ir pra lá, fazer-lhe companhia, ela com um bebê pequeno.
Já em casa, e em segurança, José acalma Lourdes. Mas o piloto sabe que tem ainda uma promessa por cumprir. Durante o voo de regresso a Lisboa, jurou ao Rui que assim que chegasse, iria ligar à mãe do jovem pirata. E foi o que fez, mas não esperava a reação que surgiu do outro lado.
E atendeu uma senhora do lado de lá. Isto é uma conversa de loucos, alta madrugada. "Olhe, meu nome é José Guedes, sou piloto da TAP e o seu filho acaba de me assaltar o avião e está preso". A senhora levou um choque, um murro no estômago, na cabeça, o que quer. A senhora entrou em choque, ainda me disse uns insultos, ainda largou pra lá uns insultos. "Está é bêbado", qualquer coisa assim, deste género.
Idalina Rodrigues já sabia o que se passava, mas nunca achou que um dos próprios pilotos daquele voo lhe ligasse pessoalmente e desligou-lhe o telefone na cara. Não sabia que tinha acabado de falar com o homem que salvou a vida do filho naquela noite. Quem não acompanhou o sequestro do avião da TAP em direto pela televisão ou pela rádio, acorda agora com a notícia em todos os jornais.
Novato pirata do ar pede 10 milhões de dólares.
A primeira noite fora de casa, o voo até Madrid.
Avião da TAP assaltado regressa a Lisboa. Jovem de 16 anos rende-se.
Era uma vez um pirata do ar. Em todo o país, não se fala de outra coisa. Os jornalistas investigam o caso, entrevistam familiares, vizinhos e amigos do Rui, na tentativa de procurar respostas para o que acaba de acontecer. Há até uma equipe de reportagem em Madrid. Aliás, durante o sequestro, com o avião ainda estacionado no aeroporto da capital espanhola, os repórteres da RTP chegam a ser detidos temporariamente por estarem a filmar sem autorização. Esses mesmos jornalistas acabam por fazer o voo de regresso a Portugal com os passageiros que dormiram o resto da noite no hotel junto ao aeroporto. O avião que os traz segue diretamente para Faro. Depois da adrenalina do sequestro, Pedro Ferraz recorda a sensação de voltar a entrar no avião poucas horas depois do susto.
De estar na volta do avião . Foi de alívio, claro, regressar a casa. Mas vamos lá ver se não acontece nada neste voo. É legítimo. Olha, aconteceu-nos naquele, este vai correr tranquilo, vamos lá ver. Foi tranquilo.
Estão cansados, mas não perdem o sentido de humor. Quando aterram em Faro, o aparato é grande. São recebidos como celebridades.
Estava muita gente à nossa espera, ainda me lembro. Fomos recebidos quase como heróis, o aeroporto estava cheio, familiares, amigos, era de toda a gente. Foi um acontecimento.
A aventura termina para todos estes passageiros. Abraçam os familiares e respondem à curiosidade dos repórteres. Viveram uma noite que nunca mais vão esquecer. Todos que estiveram a bordo do voo 131 da TAP estão por esta altura a chegar a casa. Todos, menos o Rui. Afinal, o que vai acontecer ao Piratinha? Ainda durante a madrugada, nas declarações que deu à RTP, o primeiro-ministro Sá Carneiro falou pela primeira vez sobre os próximos passos da Justiça.
A garantia de que será tratado de acordo com as condições, de acordo com a sua idade, com as circunstâncias e com toda a humanidade, mas também com a atuação necessária à prevenção de casos idênticos.
Se a lei fosse cumprida à risca, o Piratinha podia ficar detido muitos anos. Alda Pato, que na altura trabalhava como assessora da Direção-Geral da Aviação Civil, explicou tudo na televisão.
Eles queriam saber o que juridicamente podia acontecer a um rapaz de 16 anos que faz uma coisa daquelas. Disse que ele podia apanhar uma pena de cadeia, salvo erro, entre 16 e 20 anos. Nos crimes públicos, o fato de o ofendido querer perdoar é bastante irrelevante. A TAP poderia não pedir nenhuma indenização, poderia não exigir nada para si, mas a justiça deveria ser feita independentemente da TAP perdoar ou não perdoar.
É um assunto sério. Rui pode enfrentar 20 anos de prisão. O Piratinha está detido na Polícia Judiciária. É ouvido pela primeira vez pelas autoridades e neste dia 7 de maio, Rui responde perante o juiz de instrução criminal, Francisco Rocha Moreira. Explica que nunca tinha estado preso, nem nunca tinha sido julgado. E é a única coisa que consegue dizer. Rui ainda não tem advogado. Está acompanhado por um representante oficioso nomeado pelo Estado. Alega que está demasiado nervoso para falar sobre o que aconteceu. Mas o juiz faz questão de lhe mostrar que, mesmo que fique em silêncio, o processo vai avançar rapidamente. Comunica-lhe que vai ordenar à Polícia Judiciária que identifique e recolha os depoimentos do comandante, dos tripulantes e dos passageiros. Mais, decreta que seja feito um exame à arma apreendida. E pior, manda Rui para uma cela. O Piratinha foi detido em flagrante delito e devido à gravidade dos crimes, tem de ficar em prisão preventiva. Rui precisa urgentemente de um advogado.
Eu era um advogado modestíssimo em Vila Franca de Xira. A minha experiência era, portanto, a de um advogado de província. Eu representava a Câmara de Vila Franca de Xira, por exemplo. Tinha muitos processos de divórcio, de arrendamento, nomeadamente, processos em que os meus clientes trabalhavam na TAP. Por quê? Porque a então minha namorada, que mais tarde veio a ser a minha mulher, trabalhava na TAP, era assistente de bordo da TAP. Eu tinha apenas dois anos de advocacia, posto que os anteriores Quatro anos desde que me havia licenciado, eu desempenhei as funções de inspetor da Polícia Judiciária, num tempo, já muito distante, quando os inspetores eram agentes do Ministério Público.
Agostinho Pereira de Miranda, um jovem advogado que no dia 7 de maio acordou, como quase todos os portugueses, com a notícia de que um miúdo de 16 anos tinha desviado um avião da TAP. Só não esperava que naquele mesmo dia lhe viessem bater à porta.
Na altura, vinha a Lisboa uma vez por semana e calhou, curiosamente, que no dia a seguir ao do desvio do avião, era o dia em que eu estava em Lisboa durante a tarde e apareceu-me subitamente no escritório a mãe e o pai do que viria a ser designado pelo Piratinha, o Rui Rodrigues.
Alexandre e Dalina Rodrigues estavam desde o início da manhã à procura de um advogado. Foi-lhes recomendado o nome de Agostinho Pereira de Miranda por ter trabalhado na Polícia Judiciária e por ter sido advogado de vários trabalhadores da TAP. Querem muito contratá-lo, mas há um problema: não têm como pagar.
O que eu me lembro é duas pessoas totalmente destroçadas, diria mesmo em estado de choque com o que acabara de lhes acontecer naquelas 24 horas. Obviamente que a situação deles era, e a angústia, é que não tinham dinheiro para pagar ao advogado e eu disse-lhes de imediato que isso não era um problema, e que eu haveria de resolver a situação em concreto, numa base que hoje chamaríamos pro bono. Na altura, dizia-se pura e simplesmente representar o filho gratuitamente.
Agostinho não hesita. O dinheiro não é o mais importante. Aquele é exatamente o tipo de caso que lhe pode lançar a carreira.
Eu tive a perceção imediata que era alguma coisa histórica, porque a então minha namorada disse-me logo que nunca tinha havido uma situação de pirataria aérea com um rapaz tão novo. Hoje diríamos uma criança. Era um caso com um imenso potencial promocional. Eu, como tive uma vida em que tive de aproveitar todas as oportunidades, tinha um certo faro, se me é permitida a palavra, para as oportunidades com um potencial comercial, e eu vi ali essa possibilidade.
Pereira de Miranda não perde tempo. Sai do escritório e dirige-se à Polícia Judiciária para conhecer o seu novo cliente.
E encontrei o Rui Rodrigues com uma boa disposição e extremamente articulado. Foi fácil de compreender que era uma pessoa de inteligência acima da média e não foi nada difícil a nossa comunicação.
Nesta primeira conversa, o advogado ouve as explicações do Rui e começa logo a preparar a defesa. Por esta altura, depois de dormir umas horas, José Correia Guedes não tem ainda a noção do problema em que se meteu por querer ajudar o Piratinha. Mentiu às autoridades. Afirmou que a arma usada para cometer o desvio estava descarregada e ainda guardou as balas no bolso. Correia Guedes continua a achar que fez a coisa acertada. Foi essa intervenção que permitiu resolver todo aquele impasse e acabar com o sequestro. Mas quando vai finalmente falar com o pai, que era juiz do Supremo Tribunal de Justiça, o que recebe não é um aplauso, é uma reprimenda.
Claro que ele sabia que estava a acompanhar aquilo, o país inteiro estava a acompanhar esta história através da rádio. E no momento em que eu estava à espera que o meu pai ficasse orgulhoso do filho que tinha resolvido um problema enorme, acontece exatamente o contrário. Quando eu lhe contei a história das balas e da mentira, em que ele me diz: "Mas tu só fazes disparates". Eu sinto-me novamente com 14 anos, quando ele me dizia: "Tu só fazes disparates".
José Correia Guedes não se livra de um sermão do pai por ter escondido as balas. Ao fazê-lo, está a ocultar provas e pode ter de responder à Justiça por isso. Só há uma coisa a fazer.
"Pedes para falar com o inspetor que tem o caso, que está a tratar do caso, explica-lhes o que aconteceu e pode ser que tenhas sorte". Pode ser que tenhas sorte.
O piloto da TAP entra no carro e segue rapidamente para a Judiciária. Pede para falar com o inspetor responsável pelo caso e conta-lhe tudo. Só não estava à espera daquela reação.
O senhor começou a rir. Eu pensei: "Está a rir por quê?" "A gente já sabia tudo". Depois eu pensei: "Mas deve-lhe ter dado um par de estalos, ele contou tudinho e mais alguma coisa, a negociação toda". E eu perguntei: "Então já sabe que eu tenho as balas?" "Claro que sei. Dê cá as balas". "Tenho as balas". "Não se preocupe".
Este "não se preocupe" é muito português . Não se preocupe, isto está resolvido, não pense mais nisto.
José Correia Guedes fica mais aliviado. A 12 de maio, há um novo encontro com o juiz. Desta vez, o Rui fala. Afirma que o principal motivo para desviar o avião foi o mau ambiente vivido em casa. Explica que só queria chamar a atenção do pai. Perante o juiz, o Piratinha revela também que planeou esta operação durante vários meses. Conta ao detalhe tudo o que se passou durante o voo e as conversas que teve com a tripulação e com o embaixador português na torre de controle. Mas a investigação ainda está em curso. O Piratinha continua em prisão preventiva.
A lei impunha que para os crimes contra a aviação civil, a prisão preventiva não era suscetível de substituição pela prestação de caução. Eu entendia que, tendo Rui Rodrigues 16 anos, haveria, pelo menos, circunstâncias excepcionais que justificavam a redução extraordinária da pena e como consequência disso, a medida da pena que em rigor lhe caberia, seria muito menor, uma pena meramente correcional, isto é, de seis meses a dois anos, foi a minha tese.
Agostinho Pereira de Miranda avança com o recurso para que o Rui possa aguardar julgamento em liberdade. No meio disto tudo, há ainda muitas questões por responder. No início desta história, prometi que iria contar para que serviam os objetos que o Rui levava na mala. Está na altura de cumprir essa promessa. A 19 de maio, num terceiro encontro com o juiz, o Rui revela o que ainda faltava saber sobre o plano. Primeiro, explica que dias antes do desvio, disse ao pai que estava na altura de pagar o seguro do carro. Era o Rui que costumava tratar disso. O pai deu-lhe 7 mil escudos e foi com esse dinheiro que comprou o bilhete de avião. Quanto ao passaporte, conseguiu que o pai lhe assinasse a autorização ao misturar o documento com os outros papéis da escola. Para além do gravador, onde inicialmente ia escondida a arma, o Piratinha levava uma bússola. O objetivo era confirmar que o avião estava a seguir na rota correta e que os pilotos não o estavam a enganar. Já o fio de nylon tinha um objetivo curioso. No momento em que o governo português disponibilizasse o dinheiro do resgate, Rui ia atirar uma das pontas do fio de nylon pela janela do cockpit para depois puxar o saco com os 10 milhões de dólares em notas para dentro do avião. É aqui que revela também que a intenção seria fugir para a Suíça e depois levar a família para junto dele. O juiz não fica convencido com as explicações e mantém a decisão. O Rui vai continuar em prisão preventiva. Depois dos interrogatórios ao Piratinha, o juiz entende que além dele não estar arrependido, ainda se considera um herói. Os pais ficam em choque ao perceberem que o Rui não vai ser libertado tão cedo. E as coisas ainda vão piorar. Num dia estava a brincar com os amigos e a investigar os OVNIs, no outro, Rui está preso e arrisca uma pena de 20 anos de prisão. Aguarda julgamento sem saber ao certo o futuro. Continua nos calabouços da Polícia Judiciária, mas a 27 de maio de 1980, acaba por ser transferido para outro local.
Na altura chamava-se Estabelecimento Penitenciário de Lisboa e que é ainda hoje existente cadeia no Parque Eduardo VII, ao lado do Palácio da Justiça. Ele não teve nenhum privilégio. Aliás, o sistema prisional português ainda hoje é muito deficiente, como todos sabemos, mas naquela altura era um sistema muito próximo do que eu classificaria como miserável. E também porque entre os outros delinquentes, ele era visto, de certa maneira, como uma estrela. Ora, como todos sabemos, isso é muito perigoso.
A situação do Rui piorou muito. Está na maior cadeia de Portugal. A sua fama faz dele um alvo. E há uma última coisa de que não estava à espera. Todos os dias tem de se cruzar com um dos criminosos mais temidos do país. No próximo episódio, Rui não passa despercebido entre os prisioneiros.
O Pirata está aqui, o Pirata, mas há outros piratas piores que ele.
A situação do Piratinha agrava-se na cadeia.
Ele não estava nada calmo, pelo contrário, aliás, ele estava num processo de perturbação cada vez mais acentuado.
E o Rui pede para falar com o copiloto.
Vai falar com o rapaz, vai ver o que ele te quer dizer. Ele tem qualquer coisa para te dizer e nós queremos saber o que ele te quer dizer.
O Piratinha do Ar é uma série para ouvir em seis episódios e faz parte dos Podcast+ do Observador. É narrada por mim, Margarida Vila Nova, e tem banda sonora original de David Fonseca. O guião e as entrevistas são de Miguel Cordeiro. A edição é de João Santos Duarte. A sonoplastia é de Beatriz Martel Garcia. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos sons do arquivo da RTP. Podcast+ do Observador. É mais do que um podcast. Os Podcast+ do Observador têm o apoio da Honda Automóveis.
