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Mais uma segunda-feira, mais uma dose de sugestões do Popup. Pedro Basteiro Mendes, deixa eu ver aqui as tuas coisas. Queres começar pelo livro? Pode ser?

Sim, posso. Tenho várias coisas, como diria outro.

Vamos a isso.

Primeiro, "The Devil's Climb", que eu descobri na Disney Plus. Eu sou um fã do Alex Honnold, que é aquele escalador. Não sei como se diz.

Já falamos aqui sobre ele.

O Pedro tem reservado um espaço todas as semanas pra falar do solo.

Eu acho que vamos vê-lo agarrado a um prédio.

Sendo que eu tenho imensas vertigens, nunca fiz escalada, nem nunca sequer acho que vi uma parede de escalada, portanto, só vejo a distância a que eu estou dessas coisas.

Mas por que te fascinam?

Não sei bem. Eu acho que o Alex Honnold me fascina.

Já fizeste, Maria?

Já.

Mas a que nível?

Com aqueles sapatos não sei o quê.

Quando tinha Educação Física na escola.

O que era?

Não, eu adorava. Eu estou a dizer "o que era", mas sem desprezo nenhum. Adorava aquilo. E a certa altura, não sei por quê, a escalada foi introduzida e fazíamos nos prédios, nos blocos da escola, que não era uma coisa altíssima.

Parece que nunca me aconteceu isso.

Sim.

Se calhar não tinha ficado com vertigens como tenho hoje.

Eu tenho imensas vertigens.

O cheiro era mais complicado, na verdade.

Chama-se "The Devil's Climb", é com o Alex Honnold e um amigo que também é escalador, alpinista, não sei qual é a palavra certa, eu gostava de saber. Climber, não é?

Pois.

Eles vão escalar uma coisa chamada o Polegar do Diabo, no Alasca.

Mas é uma rocha? É uma coisa natural?

Sim, é claro. Lembro que o Alex Honnold-

Não é uma cena construída pela Motengil.

Escalou o El Capitan sem cordas.

Sim.

Também é uma formação rochosa natural.

É sim, essa eu conheço.

E fez aquela coisa na Netflix, escalou uma coisa qualquer na Malásia.

Sim, o maior edifício da Malásia.

Lá está.

Portanto, "The Devil's Climb" na Disney Plus, recomendo vivamente, vê-se muito bem. O Alex Honnold não é especialmente simpático, mas é isso que o torna fascinante. Ele também entra naquele documentário que eu sugeri da HBO, do "The Dark Wizard".

Sim.

Em quatro partes, que é uma das melhores coisas que aconteceu este ano.

Ainda vamos em maio.

"The Salt Path", caminho.

Sim. Scandal, não é?

Sim. O escândalo "The Salt Path". O que é a "Salt Path"? É um romance memória, que saiu em 2019, um memoir, esta é a palavra. Saiu em 2019, foi uma grande sensação no Reino Unido. Vendeu, segundo o documentário, cerca de dois milhões de livros em todo o mundo, foi traduzido. É a história de uma senhora que fica sem casa por razões de desavenças com familiar e dinheiros. Fica sem casa, é despejada e tem que sair em dois dias, ou não sei o quê. E na mesma semana fica a saber que o marido tem uma doença terminal. E então numa espécie de reação de defesa, obviamente compreensível, decidem caminhar durante 1000 km pela costa inglesa. E é tudo incrível. O livro deu origem a um filme com Gillian Anderson, do "X-Files", que estreou ano passado, a história da caminhada e como é que caminharam. E foi incrível. Até que uma jornalista do The Observer, e é a protagonista deste documentário, recebe uma tip, uma informação, que diz que é tudo mentira. Ou é quase tudo mentira. Portanto, se calhar o marido não estava assim tão doente, se calhar ela ter ficado com a casa deve-se a outros arranjos, eu deixo ao critério das pessoas. O documentário não está incrivelmente bem feito, parece mais uma grande reportagem feita com ritmo sincopado, como se fosse um certo canal. Portanto, não tem aquela profundidade, aquele pathos, que nós estamos habituados nos bons documentários, mas a história é absolutamente fascinante e esta senhora que escreveu o livro, e que se calhar não diz ser quem é, etc, voltou a publicar mais livros. Aconselho vivamente na Sky Showtime. Em boa hora a ASA continua com a sua coleção, acho que é assim que se diz. Escolha da editora. Com este fenomenal "A Vida em Surdina", "Death Sentence", do incrível David Lodge, que talvez seja o meu escritor, se fosse pra uma ilha deserta seriam os livros do David Lodge que eu levaria. Gosto mesmo muito de David Lodge. E é um livro sobre um senhor que começa a ficar surdo, ou já está surdo e tem o aparelho, e tira o aparelho. E além de ser divertido e com muita humanidade, permitirá perceber como a audição é importante. Portanto, o David Lodge consegue neste livro, além de divertir, entreter, essas coisas todas, queremos saber o que vai acontecer, que eu acho que é sempre o melhor elogio que se pode fazer a um livro. A maneira como ele nos consegue relacionar com a questão da surdez, da perda da audição, é uma grande proeza. Eu desde que li este livro, já há uns anos, acho que eu vou ler outra vez assim a ranjo de tempo.

Ficaste a ouvir pior?

Não, não fiquei a ouvir pior, mas fiquei a compreender muito melhor a má vida ou a vida pior das pessoas que perdem a audição. "A Vida em Surdina" de David Lodge.

Muito bem. Maria Ramos Silva, tens aqui uma coisa que eu tenho alguma curiosidade, porque vamos falar um bocadinho de música, que é a Aldous Harding, que é uma artista que eu tanto admiro estupidamente, como às vezes ficoNão era bem isso que eu esperava.

Não?

Às vezes fico na dúvida.

Eu não desgosto.

Não, lá está! Eu consigo ir do oito ao 80.

Sim, mas percebo isso. Está ali entre Shonie's Extrema e

É uma boa forma de colocar a questão.

E o indie folk.

Mas tem um álbum novo, não é?

Tem, chama-se "Train on the Island". Eu acho que ouvindo um álbum novo de alguém que tu gostas minimamente é sempre uma razão, ainda por cima a cena neozelandesa.

É atendível.

Pronto.

E ela tem uma voz extraordinária.

Tem.

Logo por aí fica a ganhar.

Tem boas canções. Há coisas piores do que ouvir este álbum. Na verdade, foi lançado no dia oito pela 4AD e eu penso que ela esteve em cá, o Primavera, salvo erro.

Vou já confirmar aqui.

Depois se quiseres ir a uma sala mais próxima e em que as pessoas possam estar sentadas, também era uma boa ideia.

"Paredes de Coura".

É isso, é Paredes de Coura.

É isso mesmo.

É Paredes de Coura.

Não será Paredes de "Coura"? Nós aqui em Lisboa dizemos "Coura", não é?

Sim.

Mas é "Coura".

Eu acho que depende.

Acho que não depende, tem o U.

Sim.

Vou agora vir ao Mark Nerv.

Exato. É uma boa questão para o Mark.

Depende da região. Então e mais?

Olha, eu depois trago aqui alguns nomes de umas senhoras muito interessantes, como Amélia Rodrigues, Amaro Dias, Isaura Lisboa, a Bárbara Virgínia, que foram pioneiras do cinema português e que vão ter direito a um belíssimo ciclo na Cinemateca. São 18 sessões para ver até dia 30 de maio. E foram senhoras ali do início do século que fizeram coisas absolutamente extraordinárias, muito antes da geração conhecida do cinema novo. Portanto, se tiverem a oportunidade para ver alguma coisa em Lisboa, é fazerem o favor. E por fim, trago uma daquelas pepitas Netflix, já que estivemos a falar de Netflix.

Olha.

Eu acho que de vez em quando encontram-se coisas muito boas, na verdade, e portanto trago o, comecei a ver o "Legends" ou "Lendas", não sei se traduzem o título, se não. Eu acho que está mesmo como "Legends", não é?

Acho que está.

Pronto. Para já é uma coisa com o Steve Coogan e, portanto, tudo o que tem Steve Coogan eu irei sempre certamente ver.

E vale a pena?

Eu estou a gostar. Eu acho que só o arranque é absolutamente extraordinário, aquele processo de recrutamento. Isto, só para resumir aqui um pouco, é inspirado num caso, num contexto verídico, leva-nos aos anos 90, aquela era da senhora Thatcher e da entrada e contaminação, expansão de influência da heroína na sociedade britânica, e de repente é preciso há gente a morrer, há adolescentes a morrer.

É preciso pôr aquilo na ordem.

É preciso pôr aquilo na ordem.

Ora bem.

E é preciso ir falar com os senhores da Alfândega e dizer: "Olha, reorganizem-se com os poucos recursos que têm". É preciso recrutar gente competente que esteja disponível para fazer investigação e fazer um trabalho dificílimo, que é aquele papel de infiltrado, para se meterem mesmo nestas redes e tentar chegar ao foco do problema. Portanto, até ver, eu acho que é bastante recomendável, se puderem também.

Em Portugal é mesmo "Lendas".

É mesmo "Lendas".

É mesmo.

"Lendas" que no fundo é o papel que veste, o disfarce, por assim dizer.

Muito bem. Descobri uma coisa que já está disponível desde o ano passado na Sky Showtime, que é uma minissérie documental sobre o David Frost, que foi um apresentador, jornalista, entrevistador inglês, muito famoso, sobretudo entre finais de 60, década de 70.

Famosa entrevista ao Nixon.

Pronto, exato. O que esta série faz? Tenta explicar-nos mais, ensinar-nos mais sobre o David Frost, através dos entrevistados com quem ele falou várias vezes. O Nixon talvez seja um dos mais conhecidos. Sobretudo aquela série de sete ou oito entrevistas que ele faz depois de Nixon ter deixado a Casa Branca, e que no fim não o leva a assumir tudo, mas leva a uma espécie de ato de contrição, um bocadinho disfarçado. Mas tem entrevistas que ele teve, por exemplo, com os Beatles, mais especificamente com o John Lennon, entrevistas que ele teve com a Jane Fonda, umas entrevistas extraordinárias que ele faz ao Elton John, na fase mais complicada a nível pessoal dele. E depois mostra-nos melhor como é que ele funcionava, como é que ele fazia as entrevistas, como é que funcionava um bocadinho também o negócio da televisão. Por exemplo, esta coisa do Nixon, eu não fazia ideia, mas ele é que conseguiu a entrevista. Ele não estava associado a nenhuma televisão, nenhuma broadcaster quis comprar a entrevista, NBC, CBS. Portanto, ele teve que fazer acordos com as televisões regionais na América, 100 e não sei quantas televisões, negociar uma parcela da publicidade para tentar ganhar algum dinheiro. Foi muito engraçado.

Uma inspiração para um jornalista.

Exato. Ele era uma superestrela e ainda assim teve que-- e depois morreu dramaticamente a bordo de um cruzeiro.

Olha!

Onde foi convidado para ser um orador de qualquer coisa, no Mediterrâneo, teve um ataque cardíaco. Triste.

Os cruzeiros são perigosos.

Enfim. Chama-se "David Frost Versus", está na Sky Showtime e aconselho bastante. Depois, o dia 21, quinta-feira, Silvana Estrada atua ao vivo no Lav, Lisboa ao Vivo. Aconselho vivamente, se puderem ver. Ótimas cantigas, voz extraordinária e podem treinar a vossa latinidade, que é sempre bonito. E depois também um livro que se chama "Perdeu-se Relógio de Senhora", de Alice Brito, que tem o primeiro romance publicado na Companhia das Letras e ela tem outros romances anterioresEste "Perdeu-se relógio de senhora, vai buscar o título" é uma expressão que o PCP usava para publicar, por exemplo, nos jornais, quando alguém era apanhado pela PIDE, nomeadamente um homem. Portanto, era uma espécie de aviso.

Uma senha.

Um código, uma senha, etc. E ela conta a história de mulheres envolvidas nestas situações ali em volta de 74, portanto, antes e depois da revolução, mas escrito com tanta eloquência como graça. Acho que é um livro que está muito bem feito, tal como o Bruno Vieira Amaral está muito bem feito. Tu que queres falar-nos de uma série que tem cerca de 30 anos.

30 anos. É assim, eu gosto de chegar às séries quando já ninguém está a falar delas, já não estou preocupado com o ruído, já não me chateiam: "Então, mas o que é que achas?" Ninguém me vem perguntar.

Vamos fazer um jogo.

"Já viste? Já viste ou não viste?"

Qual é que achas que é a série que o Bruno vai falar? Pedro?

O Pedro já sabe.

Não sei qual é a plataforma.

Eu não disse.

"Twin Peaks"?

Estes tipos têm este intelectualismo maníaco de "Twin Peaks".

Não, que ele já viu.

"Twin Peaks" já vi e já revi. Não, é o "Homeland".

"Homeland". Estás a falar do "Homeland". Não é nada intelectual.

Não é?

Só tem 30 anos.

Não, algumas têm.

É que algumas têm.

Algumas têm. Mas em tempo de streaming, tem.

Estás a ver a primeira temporada?

Já vou na quarta. Já estou a ver a quarta temporada.

Ainda não te fartaste da Claire Danes?

Exato. Ela chora imenso.

Não, mas a personagem é assim.

Mas ela chora imenso em todas as personagens que faz.

Pois. Eu, aqui há uns tempos, quando vi aquela série, "The Beast in Me".

Olha.

Vi pessoas a dizer: "A Claire Danes está lá, naquele registo Carrie Mathison", e eu não percebi, claro, não apanhei.

É aquele cacho a tremer.

E, de facto, torna-se um bocadinho cansativo. Mas é um ótimo papel. Aliás, eu acho que beneficia muito a série da qualidade dos desempenhos.

Já estamos a falar do "Homeland" outra vez.

Do "Homeland".

A original é israelita.

Que tem duas temporadas apenas. Ao contrário da "Homeland".

E a primeira temporada tem a Morena Baccarin, que faz de mulher do Damian Lewis.

Ela aparece nas três primeiras temporadas, na terceira já aparece muito menos, para grande e enormíssimo prejuízo.

Da humanidade.

Eu estava a ver.

Parabéns.

Lembrei-me que ela entra no "Deadpool".

Pois é.

E já não tinha boa memória, mas é inacreditável. Como é que nunca ninguém pegou naquela mulher e a pôs a fazer um biopic da Audrey Hepburn?

Pronto.

Pronto, não dá para perceber.

Mas chega-te à frente.

Agora já é tarde demais.

Vou procurar. Como é que é o nome, Pedro?

Morena Baccarin. Que, atenção, é um fator de enorme distração.

Achas?

Não acho, estou a falar da minha experiência. É que cada vez que aquela mulher aparece, tudo dá a volta.

Ela é mais uma coisa de xerifes.

Não sei. A série em que estou a ver, qual é que é a história?

Uma coisa de xerifes.

Eu sei que isto pode ser muito ofensivo nos dias que correm, uma pessoa estar a concentrar-se na beleza estonteante de uma mulher, mas, de facto, aquilo é um fator de distração.

O nome completo dela é extraordinário. Desculpa. Morena Silva de Vaz Seta Baccarin.

Não, porque ela é filha de uma atriz brasileira e de um jornalista, os dois brasileiros, e foi viver para os Estados Unidos quando tinha 10 anos, para Nova Iorque. Enfim.

Serás julgado pelos teus pecados?

Para além da Morena Baccarin. Eu ainda fui à procura se ela aparece nas outras temporadas. Não aparece.

Agora imagina uma série com a Baccarin e a Cardellini. Olha o ar do Pedro.

Morena Cardellini.

Baccarin.

Será que vou pôr a Morena Baccarin no título deste segmento que nós estamos a gravar? Se calhar é melhor.

Ninguém sabe quem é a Morena Baccarin. Mas quem viu, não esquece.

Não sabia.

Julga este iluminado.

Não.

Eu acho que ela entrou no reboot do "V: Batalha Final". Houve um reboot.

Parece que sim, pelas minhas investigações. Não é que esteja muito interessado. Ir à procura do que ela fez.

Ela é ativista, ela escreveu uma opinião para a "Newsweek" sobre...

Se é ativista, hoje já vai.

Pronto, agora é que já estragaste tudo. Não, mas a série tem um bom ritmo. Eu não vou pôr a série ao nível da minha trindade.

Está muito longe de qualquer uma dessas coisas.

"Sopranos", "The Wire" e "Breaking Bad", mas acho que cumpre. Abaixo dessas, acho que cumpre. Estava no outro dia a falar.

Mas cumprir não é pouco?

É pouco em função do que as outras oferecem. Ou como se diz hoje, do que as outras entregam. Entrega menos, esta entrega menos.

É o deliver.

É, o deliver. Esta entrega menos.

É como as pessoas realizarem que, de repente...

Eu realizei que esta série entrega menos do que as outras.

No fim do dia.

No fim do dia.

A sério.

Muito bem.

E podíamos continuar nisto, não sei se podíamos ou não.

Não, mas atenção, queres falar do livro de Maria José Oliveira.

Maria José Oliveira, "Casa dos Mortos".

Que é uma reportagem transformada em livro.

É uma série de reportagens, ou uma grande reportagem publicada em vários capítulos, fascículos. Não é fascículo.

Dias, pode ser dias.

Dias, pronto. Foi publicado semanalmente no Público há uns meses e é sobre parte de uma descoberta um pouco acidental de um conjunto de documentos que estavam na Torre do Tombo, no arquivo da PIDE/DGS. Estavam para ali, como há muita coisa que ainda parece que está para ali.

Tu gostavas de um dia...

Aquilo é um pouco uma Netflix. A oferta é tanta que tu não sabes o que é que vais procurar.

Diziam-te assim: "Olha, agora vais ter aqui um ano

Oh meu amigo.

Não, mas atenção, online era só para encontrar.

Não, há para pegar coisas. É uma coisa que eu consulto regularmente os arquivos online da Torre do Tombo, concretamente sobre o Tocoísmo, que é uma seita religiosa criada em Angola no meio dos anos 40. Aliás, na altura até foi no Congo. O criador dessa religião era angolano e depois foi para Angola, esteve preso, detido pela PIDE, depois foi desterrado. E há muita documentação online que tu consegues pesquisar por palavra-chave. Agora, chegas à Torre do Tombo, tens 3 km só de arquivos da PIDE.

Fica difícil.

Haverá muita informação que ainda não foi explorada. Eu não digo exatamente como esta investigação que a Maria José Oliveira fez, mas outras em que poderás encontrar informação que até agora não é do conhecimento público. Neste caso, é uma informação muito relevante, por quê? Porque são 12 caixas que estão no arquivo da PIDE/DGS e que são sobre uma comissão de investigação criminal militar, já depois da revolução, que funcionou entre maio e agosto de 1974, para investigar e eventualmente punir crimes cometidos pela PIDE em Moçambique. É uma comissão que, por vários motivos, não dura muito. A Maria José Oliveira, para além de consultar estes documentos que estão nestas caixas, que consistem quase na sua totalidade, ou na sua parte mais relevante, em interrogatórios ou entrevistas que se fizeram a pessoas nativas de Moçambique que queriam denunciar crimes cometidos pela PIDE durante aquele período entre 1964, o início da guerra colonial em Moçambique, e 1973, 74. A parte mais relevante consiste nesses documentos, mas há outros, porque os militares juntaram outros documentos, até para corroborar as alegações feitas pelas pessoas que faziam as denúncias. Há outros documentos, mas essa é a parte mais importante e dá uma ideia, para quem já leu as reportagens que foram saindo no Público, o livro é isso, e já terão uma ideia, do nível das atrocidades de violência empregue pela PIDE em Moçambique e podemos depreender nas restantes colónias. A importância histórica destes documentos é reforçada porque grande parte dos arquivos da PIDE em Moçambique foram destruídos pelos próprios agentes da PIDE logo depois da revolução. Portanto, aquilo que está aqui não é só valioso pela informação que contém, pelo facto de muita da informação que poderia ainda estar disponível, não estar, porque os arquivos foram destruídos. E dá-nos uma ideia do funcionamento da PIDE nas colónias, onde a polícia política gozava, não sei se devo dizer de liberdade de ação ou se de impunidade. E também explica muito daquilo que lemos, das ações que vemos descritas neste livro, é da Tinta da China, da Maria José Oliveira, "Casa dos Mortos".

Muito bem. Tens mais alguma coisa? Está tudo?

Está tudo.

Muito bem, sim, senhor. Sugestões entregues, estão sempre disponíveis em podcast. Sigam-nos nas plataformas habituais. Nós voltamos na quinta-feira. Até lá.