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O que acontece quando há uma boa série na HBO ou na Amazon, é que há um grupo de pessoas que se sente muito motivado a defender essa série como a melhor coisa de sempre, por não ser da Netflix.

Sejam muito bem-vindos a mais um "PopUp", a vossa epifania semanal no mundo da cultura popular. Tudo graças aos do costume: Maria Ramos Silva, Pedro Bush Mendes e esta semana, finalmente, o regressado Bruno Vieira Amaral.

Bem-vindo.

Eu quase que peço um aplauso. Só não vou pedir porque o estúdio é pequeno.

Soa estranho.

Fica desconfortável.

Faz aquelas palmas por trás.

A Maria João Simões tem essas coisas, a ti não te dão isso.

Vou pedir em pós-produção, se calhar. Bruno.

Olá. Não era eu.

Estás pleno de felicidade por estares de regresso.

Estou, estou.

Tiveste saudades nossas?

Nem por isso.

Muito bem.

Eu podia continuar lá a fazer o que estava a fazer.

Nota: na tua ausência, eu não disse onde é que tu estavas. Disse só que estavas ausente.

Estava em terras de Veracruz.

Muito bem. Esta semana vamos, não a terras de Veracruz, infelizmente. Mas vamos voltar ao streaming e às séries, mais ou menos, já vão perceber, tudo às contas de números da Netflix. Muito bem, um pouco de história recente. Foi em maio de 2016 que a Netflix se tornou verdadeiramente global, depois de ter começado a operar em cerca de 60 países, mais coisa, menos coisa, passou a fazê-lo em mais de 160. Foi também nessa altura que começou a produzir conteúdo fora dos Estados Unidos. E para assinalar esta data, a empresa, inteligentemente, digo eu, criou um site a que chamou de The Netflix Effect, que em português se diz, Pedro Bush Mendes, o efeito Netflix, caso não estivesses a par. Neste site, a Netflix revela dados da própria Netflix. Atenção. Vários números de metas que atingiram e aponta também transformações nas quais a própria Netflix acredita que tem vindo a ser protagonista. Pedro Bush Mendes, vamos andar aqui à volta destes 10 anos. É óbvio que é inegável a importância e o peso que a Netflix conquistou e ocupa na indústria do entretenimento, como dizem as pessoas sérias, mais especificamente no audiovisual. Dito isso, podemos de facto dizer que a Netflix mudou a televisão? E quando eu pergunto isto, parece uma pergunta muito filosófica, mas tem a ver com a televisão, como, se calhar, a conhecíamos antes do streaming. Se levou a que a televisão mudasse ou nem por isso?

Em Portugal há sempre o problema de televisão designar o aparelho, a indústria e a emissão.

Exato, quer dizer muitas coisas.

Vou ter que andar aqui à volta com as palavras um pouco. A Netflix existe porque existe a internet. No fundo, as máquinas de lavar roupa existem porque existe a roupa. Ou seja, não foi qualquer coisa que alguém criou do nada. Não sei se sabes a história, mas a Netflix era um clube de vídeo por correspondência. Pagava-se uma mensalidade e podia-se ver os DVDs que se quisesse, que vinham nuns envelopes encarnados, mas só podias ver um novo DVD quando devolvesses o antigo. E depois, às tantas, houve lá um tipo que se lembrou: "Isto é capaz de ficar mais barato", porque a Netflix era o principal cliente dos Correios americanos, do US Postal. "Se calhar poupamos umas massas em portes de correio, se em algumas partes dos Estados Unidos que já estão servidas por banda larga", lembro que os telemóveis e a internet começaram a popularizar-se mais cedo na Europa do que nos Estados Unidos. Nós já tínhamos telefones GSM e nos Estados Unidos ainda não. Não sei se as pessoas se lembram. E as pessoas começaram a aderir, ou seja, se eu pago uma mensalidade e eles não têm que pagar selo postal, logo é mais barato para eles. E assim foi crescendo e as pessoas começaram a se habituar. E isto cresce quando crescem a velocidade das ligações à internet, que hoje é uma commodity. Todos nós temos velocidades de gigas.

Imensas velocidades.

Megas ou gigas. "Eu tenho dois gigas em casa". Nós já nem sabemos o que significa, porque é suficientemente rápido. Mas há uns anos, não muitos.

Importava saber.

Importava saber, exatamente. É mais caro, mas é mais rápido.

E a luta com os operadores para ter mais.

O que a Netflix tem que os outros ainda não têm? Em primeiro lugar, não falha.

Tecnicamente.

No outro dia estava a tentar ver um episódio de "Euphoria" na HBO, via caixa da Apple, e aquilo engonhou. Portanto, pendurou, é assim que se diz?

Encravou.

Sim, fica ali.

A rodinha a andar.

Exatamente. Isso nunca me aconteceu com a Netflix. Nunca me aconteceu. E eu tenho uma ligação fibra, veloz, nunca me aconteceu.Não falha. Ou seja, nós carregamos no botão, fazemos play.

É um valor seguro.

Não, isso é muito mais importante em tecnologia, porque existe essa ansiedade da tecnologia. Nós queremos que as coisas funcionem.

Se não funcionar vais para a próxima.

Mesmo abrindo um e-mail ou qualquer coisa, nós ficamos loucos quando demora um segundo.

Porra.

E por vezes, eu não sei.

Se calhar também devíamos pensar um pouco sobre isso.

Onde chegámos?

Não sei se elas não terão consciência do impacto que isso poderá ter, porque a verdade é que esses segundos, já não falo um minuto, esses segundos de espera são exasperantes para o consumidor atual. E, por exemplo, fazendo aqui um pequeno parêntesis, eles têm outra inteligência, que a Amazon também tem, que é não te estão sempre a pedir que mudes a password e tem que ter caracteres, asteriscos e bolinhas.

Exato.

A minha password da Amazon.

Não digas!

Não, mas é a mesma dos anos 90. São três palavras. Estas empresas têm esse tipo de know-how, porque têm equipas de consultores e de research de tal forma aprimorados que a experiência Netflix, não sei se te lembras como é que foi registar, eu sou cliente desde o primeiro dia e nunca interrompi. Tenho o mesmo login.

Sim, o mesmo perfil.

Nunca mudei. Assinar a Netflix demora 10 segundos. Não te pedem o nome do pai, o nome da mãe, morada, selo fiscal, vai receber no seu e-mail um não sei o quê. Que é uma coisa que a mim me deixa completamente louco. Não sei como é que é com vocês. Estas coisas todas contam. Mudou a televisão. Ao mesmo tempo que a Netflix aparece, as pessoas começam, já tinham começado, continuam a mudar de aparelho de televisão e passam a ter as chamadas smart TVs, que no fundo é só carregares num botão.

Exato.

Inclusive, algumas marcas de televisão já têm no próprio controle remoto a palavra Netflix, a palavra Amazon e a palavra não sei o quê. Portanto, mudou a televisão, mudou a nossa relação com o televisor. Eu acho que a nossa relação com o televisor mudou por causa das smart TVs, onde está o YouTube, onde está o MEO, a Vodafone ou o NOS, onde está a Netflix, onde está a Amazon, no meu caso, onde está a Apple, a Filmin, a Sky Showtime.

Deixa-me pegar nessa parte da relação ao contrário, do utilizador com a televisão.

Tanto que, só para acabar, os MEO, os NOS e não sei o quê, adaptaram-se a uma lógica Netflix. Hoje, tu vais ao MEO, por exemplo, vou ao MEO, vês filmes, séries, documentários.

Exato. Seguiram o mesmo princípio.

A box deles vai buscar os filmes aos vários canais.

Bruno Vieira Amaral, tu és um exemplo, tu pessoalmente, se és um exemplo da forma como mudou a relação das pessoas com a televisão.

Sou. Sou o exemplo.

Ou com o televisor?

Com o televisor e com a televisão.

Tu és um exemplo para tudo também.

Eu acho que hoje vejo muito menos televisão do que via.

Linear. Televisão linear. Mas se calhar vês mais o televisor.

Mas se calhar vejo mais e também vejo de forma diferente. A Netflix veio criar uma sensação de conforto, que é eu vou-me sentar aqui, para já posso estar meia hora a escolher, ou mais, a série que quero ver ou o filme que quero ver, sempre com a sensação de que haverá a seguir, aparecerá a seguir, um filme ou uma série que é mesmo isto que eu quero ver. E às vezes, o tempo esgota-se nesse processo e acabas por não.

Este é, eu acho que é mesmo a síndrome Netflix. Passas mais tempo a escolher do que a consumir.

E isso não existia antes. E o próprio processo em si torna-se parte da experiência televisiva.

Sim, é verdade.

Tal como adormecer a ver. Isto eu não digo que não acontecesse antigamente, mas este fenómeno já está-

Mas agora é de uma dimensão.

É, que é. Estamos ali, o casal, a pessoa, com os amigos será mais difícil, mas o casal está ali a escolher, começa o filme e tal, e depois adormecem. Isto eu não sei se seria exatamente assim, porque eu acho que era muito mais, não sei porque isto, deverá haver uma explicação psicológica para este facto, mas era muito mais fácil na altura. Já estou cansado deste programa, desligo a televisão e vou dormir. E agora eu acho que há a tendência, que será também uma parte deste efeito Netflix, para deixar estar até adormecer. E depois, porque no outro dia não há problema, no outro dia voltas e tentas perceber onde é que ficaste, exatamente em que ponto é que começaste a adormecer. Aqui já estava a fechar os olhos, aqui já não estava a ver bem. Desta parte já não me lembro. Não, aqui estava acordado.

Até porque eu acho que essa é das principais coisas que mudou na nossa relação com o televisor.

É que és tu que ditas.

Tu mandas tudo.

És tu que ditas o ritmo a que queres ver.

O tempo é muito relativo.

Mudou completamente. Mesmo em relação aos canais de subscrição de filmes.

Sim.

Porque mesmo assim só os podias ver àquela hora, quando estavam a passar naquele dia, e isto veio alterar tudo. Em relação aos conteúdos, acho que podemos falar depois disso, em relação aos conteúdos da Netflix, mas em relação à experiência com a televisão e com o televisor, eu acho que mudou por completo. Foi completamente revolucionário e por muito que se tente depois pôr a Netflix aqui numa espécie de limbo, quase marca branca do streaming ou marca Zara ou IKEA do streaming, eu acho que a Netflix rebentou completamente com essa forma antiga de consumir televisão e até a relação com o próprio espaçofamiliar. Eu acho que vem alterar uma série de coisas e isso provavelmente já estará estudado.

Maria Ramos Silva, haverá um perfil tipo para o utilizador de cada um dos serviços de streaming? Por exemplo, o utilizador tipo da Netflix é uma determinada pessoa, se for da HBO é outro tipo de pessoa, parece?

Acho que a Netflix conseguiu mais cobertura. Esta ideia de marca branca.

Isso é o líder.

Mas tirando casos, ou és um acumulador de plataformas.

Não sei quanto é que estava, mas acho que era mais de 300 milhões de subscrições no mundo inteiro.

Por razões profissionais, como é o nosso caso, tens várias e portanto é difícil averiguar qual é o teu perfil. Eu acho que há alguns perfis que depois é possível afinar. Acho que uma pessoa que só tem a Filmin não é bem a pessoa que prefere ter só a Netflix ou a Disney, porque se calhar tem uma família com miúdos. Acho que há aí uma série de camadas. O que eu penso que estes serviços todos, com a Netflix à cabeça, têm em comum, é uma coisa que me faz divergir aqui um pouco do Bruno, no sentido em que eu acho que nos dá uma falsa sensação de estar no controle, porque na verdade, a Netflix é o pináculo de uma vida em subscrições. Há aqui toda uma estratégia, eu não estou a dizer isto de forma censória, isto aplica-se a vários domínios da nossa vida. É tu disputares cada fatia que podes de fidelização, tu acedes a dar os teus dados, o teu cartão de crédito, o teu tempo, na verdade, passas ali imenso tempo a escolher.

Os teus hábitos.

Os teus hábitos.

São fundamentais.

Obviamente, e portanto os conteúdos, depois o pitching também, pelo pouco que sei, também é feito a partir daí. Ou seja, eles vão estudando a vida para saber o que é que fazem a seguir.

E depois aquilo que te propõem a ti pessoalmente.

E tu tens a sensação de que estás a poupar imenso a longo prazo, porque é esta ideia de repente pensar, é preferível dar, já não sei se é €20 ou €19 ou o que seja, por um acervo, um bufê inesgotável. Mesmo tu depois faças as contas, e eu por vezes faço-as, e de facto rende muito pouco. Eu, por exemplo, no caso particular da Netflix, eu encontro uma razão muito boa de X em X tempo para estar a ver Netflix. É uma relação muito pouco consistente e regular. E se eu tivesse que fazer uma escolha mais racional, digamos assim, e menos para o lado destas exigências profissionais, não sei se manteria. Porque aquilo que me dá em termos de retorno, eu equivalo um pouco àquela coisa de circulares num grande outlet. Aquilo promete ser uma experiência absolutamente estratosférica, mas depois à terceira secção já estás esgotado.

Só para terminar, o que eu acho que também a Netflix conseguiu é quase como uma espécie de inevitabilidade. Tu podes escolher uma ou outra plataforma, mas em princípio a Netflix toda a gente vai ter.

E há uma outra questão, que eu acho que vem aqui no seguimento.

E que vai ser rápida.

É muito rápida. Aquilo que a Maria estava a dizer é que eu não sei se a Netflix já não terá passado aquele ponto, e deviam ter receio de que esse ponto chegasse, de começarem muitos cancelamentos de subscrição. Eu tenho a impressão, isto é apenas uma impressão, não tenho dados que sustentem esta impressão, mas tenho a impressão que há uma resistência a cancelar, enquanto outros serviços.

Já estás embrulhado naquilo, tens dificuldade.

Da minha experiência, eu já tive várias das plataformas, já subscrevi e nunca desisti da Netflix. E das outras todas, já.

Já cá voltaremos. Chegamos aqui ao final da primeira parte do "PopUp". Voltamos depois de um curto intervalo. Até já. Estamos de regresso ao "PopUp" com Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e o Pedro Boucherie Mendes. Esta semana estamos a tentar responder a uma pergunta simples: existirá ou não um efeito Netflix como a própria empresa apregoa? Pedro Boucherie Mendes, eu ia te fazer uma pergunta, mas acho que tens alguma coisa a acrescentar ainda vindo da primeira parte.

Sim, nós estamos no negócio da atenção, como se diz. Porque se eu estou a ver Netflix, com certeza que não estou a ver a SIC ou não estou a ler um romance. Aquilo que a Netflix tentou fazer agora com a HBO, e nunca me lembro dos nomes, Paramount ou não sei o quê, tentou comprar.

A Netflix tentou comprar a Paramount.

Tentou consolidar.

Não conseguiu.

Mas ao mesmo tempo fez subir o preço ao concorrente. Fez com que os outros tivessem que gastar mais dinheiro.

Espera, não foi tentar comprar a Paramount. Agora já estou todo confuso.

Tentou engolir a HBO.

A Warner.

Sim, a Warner, exatamente.

A Warner. Sim, é que é.

Porque neste negócio da atenção, ou matas ou morres por causa da falta da originalidade. O grande player no momento, e provavelmente no futuro, é o YouTube.

Que tem muito mais utilizadores.

Muito mais conteúdo.

Pois.

Nós estamos aqui com cabelos brancos a falar destas coisas e a miudagem está a ver o YouTube.

Exato.

E essa miudagem depois também um dia vai crescer e ter cabelos brancos.

É, por exemplo, um dos sítios onde os garotos mais ouvem música.

Exatamente.

É no YouTube.

Eu também faço isso e eu sou uma garota. Mas isso só mostra a diversidade.

Eles já estão noutro.

Isso só corrobora.

Estou só a seguir o raciocínio do Pedro.

Portanto, talvez o YouTube tenha mudado mais não sei o quê do que a Netflix. O que a Netflix faz, conseguiu, aliás, é, e agora é um assunto que me tem interessado muito nos últimos temposÉ entrar na chamada guerra do status. Aparentemente, o status, as aparências, é uma coisa má, mas na verdade é uma coisa boa, porque te estimula a querer ter mais coisas. E tu querendo ter mais coisas, em princípio vais trabalhar mais ou vais fazer pela vida para poder ir de férias a Mykonos ou o que for. É importante ir de férias a Mykonos, porque isso te permite ter uma história para contar quando estiveres com os teus amigos. "Não, nós este ano estivemos em Mykonos."

Exato.

Tem tanto valor a eventual experiência em Mykonos, mesmo que chova, como tem a possibilidade de poderes contar essa história. E a Netflix é uma das poucas coisas nos últimos anos a conseguir entrar na batalha do status. Nota que, por exemplo, nenhum de nós já se gaba de ter um iPad. É uma coisa que entrou na nossa vida, nós gabámo-nos de ter um. "Não, a minha sogra tem um, a minha sogra ofereceu-me um." E entretanto desapareceu. É verdade.

Não estava à espera desse pequeno elemento familiar.

No meu caso, ganhei dois em passa tempos.

Olha.

É extraordinário. Na mesma semana.

A sério?

Sim, é extraordinário. Eu assinava a Economist, eles começaram a me enviar e-mails a dizer que eu tinha ganho um iPad. Eu pensava: "Cara, é mentira". Até que o tipo insistiu tanto. "Não, tu ganhaste mesmo." E mandaram um. Mas para dizer que ter Netflix, ver Netflix, tornou-se uma coisa: "Não, eu fiquei em casa a ver Netflix" ou "Não, eu agora só vejo Netflix" ou "Ia ver uma série na Netflix". Portanto, é um comportamento conspícuo, é qualquer coisa da qual nós falamos e anotamos mentalmente para vir a falar hoje à noite. Vamos beber um copo. "Já viste aquela série?", etc. Se notarmos com atenção, as pessoas não ficam impressionadas se tu te gabares de uma série que viste na Amazon ou na HBO. Tu dizes: "O 'DTF St. Louis' é muito bom." "Onde é que isso está?" "Está na HBO." "Sim, eu já tive, agora já não tenho." É normalmente isso.

Sentes isso?

Sinto.

Claro. Eu, por acaso, acho que funciona um pouco ao contrário.

Netflix, como o Bruno dizia bem há pouco, e a Mari também, toda a gente tem. Portanto, no fundo, descobrir uma pepita na Netflix tem mais valor social do que: "Não, esse cara é meio esquisito, vê HBO."

Ele é artista.

Sim, a HBO é mais ambígua, és um ser mais complexo.

Isso já tem a ver com aquela pergunta que eu te fazia, do perfil do utilizador.

Mas eu estou em todos, agora imagine.

Só para dizer também que a Netflix mudou a televisão na medida em que fez subir, e muito, o salário dos atores, da produção, dos técnicos, dos realizadores, etc. Portanto, os outros canais, as outras televisões tiveram que subir a parada e pagar. Tanto que todos os conglomerados têm agora o seu próprio streamer ou a sua própria operação de streaming. É claro que a HBO é de alguém. Enquanto que a Netflix é nativo digital. A HBO é feita em cima da Warner, que tem 70 anos, ou 80, ou 100, lá o que é. E finalmente, no ponto em que estamos, também é mais ou menos consensual que criativamente a Netflix não é a melhor. Certo?

E agora estás a mandar a bola. É genial esse programa, a forma como isto é feito. Bruno Vieira Amaral, a pergunta de um milhão de dólares ou mais: qual é a melhor plataforma de streaming?

É a Netflix.

Vamos por encaixe.

É a Netflix. A melhor é a Netflix.

Do contraditório.

Tudo somado, olhando mesmo para os conteúdos e olhando para os conteúdos produzidos.

Eu sei porque é que tu estás a dizer isso, porque é a plataforma que tem mais true crime.

Não, mas o Bruno tem razão.

Tem a diversidade.

No fim do dia.

Agora, o que é que acontece? Quando há uma boa série na HBO ou na Amazon, há um grupo de pessoas que se sente muito motivado a defender essa série como a melhor coisa de sempre, por não ser da Netflix.

Estás a falar com um todo crítico, essas pessoas irritam-te.

Irritam-me um bocado. Aqui há uns tempos, já não foi recentemente, eu costumava ler algumas críticas de pessoas a séries e quando ela sentiu que era boa, já sabia que aquela série não estava na Netflix, portanto, estava a funcionar um pouco ao contrário. Se não estava na Netflix é porque é boa, porque é a estética da Netflix. Era um pouco como se a Netflix tivesse tornado a Moviflor das plataformas. Não, aquilo é aquela estética sempre.

Sempre a surpreender.

É verdade. Então era quase que rebaixavam. Se tu gostas das coisas da Netflix é porque és pobre e tens as bilhas todas.

Não é pobre, és básico, és simples.

É, quer dizer, vê coisas mais sofisticadas nos outros lados. E eu acho que, entretanto, a Netflix já deu a volta, já passou a crista da onda e neste momento já penetrou de tal forma na cultura que esse tipo de discurso já acaba por ser um pouco irrelevante. E a verdade é que se nós olharmos para algumas das produções da Netflix, elas, de fato, entraram na cultura. Por exemplo, o "Stranger Things", a capacidade de entrar na conversa cotidiana, na cultura, na discussão cultural cotidiana, que eu não diria que é completamente incomparável. Houve outros fenômenos de outras plataformas, mas a Netflix não fica atrás. E eu acho que já se ultrapassou um pouco esta tendência, que ainda haverá em algumas pessoas de: "Ok, eu torço um bocado o nariz àquilo que vem da Netflix e vou pôr nos pinkers tudo aquilo que é feito por outras plataformas." Até, lá está, como sinal de distinção, porque a Netflix é tão popular, chega a tanta gente, que tu só te podes distinguirSe não fores team Netflix ou se encontrares motivos para crítica.

No fundo, é como qualquer coisa que de repente passa a dominar a cultura popular.

Claro, é algo que começa por ser de nicho e se torna completamente mainstream. É verdade, olhando para os filmes, há muita coisa da Netflix que eu acho que é muito mediana. Para não dizer, em alguns casos, medíocre, sobretudo naqueles filmes em que eles investem muito com os Dwayne Johnson e Ryan Reynolds. Eu acho que o nível é médio-baixo e alguns filmes de ação, sobretudo, que estão muito longe dos padrões de produção, por exemplo, de Hollywood nos anos 80 e 90. Esse tipo de produção eu acho que é o pior da Netflix. Mas mesmo assim, se nós pensarmos noutras coisas feitas por outras plataformas, se calhar não é assim tão pior do que fazem as outras plataformas.

Maria Ramos Silva, uma das medalhas que a Netflix colocou no seu próprio peito, como vencedora, foi o fato de ter contribuído, e muito, para o que dizem ser a influência, para lá das séries e dos filmes, que tudo isso tem na cultura popular, no consumo, nas escolhas, nas tendências, na moda. Parece-te que é legítimo?

Eu admito que sim, mas suspeito sempre, para já, porque não sei de onde é que vêm esses números. É um estudo feito pela própria Netflix. É a mesma coisa que eu amanhã escrever sobre as Canárias e dizer que no dia a seguir toda a gente foi viajar para as Canárias porque escrevi sobre isso. Eles fazem muito com percentagens, que eu não sei exatamente de onde é que vêm, mas dizem-te, por exemplo, que toda a gente, depois de ver o "The Crown", ou muita gente depois de ver o "The Crown", foi marcar voos para Aberdeen porque queria conhecer Balmoral. É possível. Não digo que não, mas é difícil exatamente ter noção disto. Eu acho que há aqui muitos entusiasmos que foram aparentemente reais. Por exemplo, recordo-me do "Gambito de Dama", de imensa gente ter ido aprender xadrez. Acho que é perfeitamente normal, mas gostava de saber quantas pessoas é que continuam a aprender xadrez.

Um dos mais recentes, por exemplo, tem a ver com o filme das guerreiras do K-pop.

Sim, mas esta reação da Maria, desculpem interromper, é uma espécie de adversativa, como se a Netflix tivesse alguma obrigação de ensinar xadrez às pessoas.

Não, claro que não tem.

Eu sei que não é esse o teu processo consciente, mas nós às vezes reagimos. "Ah, fazem estes concursos de talentos, mas quantos é que saíram de lá..." Não é? Mas o objetivo da televisão não é promover a música.

Claro.

Não é isso, Pedro. Eu estava a falar do entusiasmo que as pessoas vêm em relação às coisas.

Quando a Netflix faz o "The Crown", não é para levar pessoas a Balmoral.

Sim, mas a questão não é essa.

Mas até pode ser. Eu não acho que seja mau.

E os entusiasmos também podem ser fugazes, como são, não só em relação àquilo que vem da Netflix.

Não é culpa da Netflix que as pessoas não vão.

Não estou a dizer que é culpa, claro. Não é isso que eu estou a dizer. Estou a dizer é tu reivindicares para ti um patrimônio no sentido de mudarmos o mundo. Se calhar mudaram. Não sei é se mudaram com a dimensão que eles acham que mudaram.

Pois, faltam dados.

Eu não vou a Paris porque vi o "Emily in Paris", mas aparentemente as pessoas hoje vão a Paris porque viram "Emily in Paris".

Mas também há pessoas que vão a Nápoles por causa da Elena Ferrante.

Ou da Maradona.

Claro, exatamente. Mas nós conseguimos exatamente perceber.

Também não sabemos.

A contabilização não é factual.

Malta, é só isso.

Não, o Pedro é que questiona. Maria, repara, não é contra ti, mas é uma coisa que me eriça um pouco, porque é como se nós, quando falamos e dizemos estas coisas, como me pareceu ser agora o teu caso, estivéssemos a imputar uma responsabilidade, neste caso, à Netflix.

Mas qual responsabilidade? Eu até acho que devia, e acho que já falámos sobre isso. Acho que podia haver um trabalho mais concertado, até do ponto de vista da produção de filmes e de outros conteúdos, sem ser na Netflix, como o The Ellen fez.

Foi em Nova York.

Tomara nós que a Netflix viesse para cá fazer uma grande produção. Porque a Netflix, se há coisa que deu, foi imensos trabalhos na indústria.

E em vários países. Isso ainda não falámos.

E Espanha, por exemplo.

Eu estou a me pôr no lado do espectador. Imagina, gostava de saber, mas é quase uma experiência, uma questão.

O que me pareceu foi-

É do entusiasmo. Se nós vivemos de entusiasmo em entusiasmo, e também está tudo certo se for isso.

Mas isso é um problema da Netflix.

Eu não disse que era um problema da Netflix.

A palavra aqui não é problema, é facto.

Mas a Netflix não é um broto.

É se tem um efeito duradouro na nossa experiência enquanto consumidores, é só isso.

Netflix é uma empresa privada, estamos de acordo. Não tem nenhuma obrigação de divulgar a informação.

Agora estás a falar da informação. Mas essa é uma pergunta interessante. Por que a Netflix, dirias tu, por exemplo, não tem que o fazer, atenção, mas todos os números, dados e todas essas coisas vêm da própria empresa.

E por isso são sempre recebidos com algum grau de sal.

A questão é: até que ponto nós podemos olhar para eles com confiança ou é melhor sempre duvidar? Porque não é uma auditoria externa. São números.

Eu trabalho numa estação de televisão, que existem audiências, como nós dizemos. "Ah, as audiências, subimos nas audiências, descemos nas audiências." As audiências existem porque as agências de publicidade precisam de mecanismos.

Claro.

Não existem para que nós saibamos.

Porque as televisões decidiram.

Não, e sobretudo, não existe para que nós possamos dizer que somos mais vistos do que o concorrente. Contudo, é essa a nossa convicção.

Claro.

E voltando aqui a esta questão da Maria, que eu interrompi de uma forma eriçada. Quando eu fazia o "Ídolos", eu às tantas ficava com a sensação, e ficava bastante chocado, que as pessoasAchavam que devia haver uma espécie de autoridade do Estado que fosse verificar. Não, sério.

Isso é o governo civil total outro.

Mas tem a ver com a importância dos fenômenos. Espera aí, deixa eu só acabar. Tem a ver só com a importância dos fenômenos. Há coisas que chegam a proporções tal, que as pessoas confundem com a realidade e com o que deve ser. "Não, eles deixaram fugir aquele concorrente." Como se pudesse ir a tribunal ou viesse um tipo.

Eu percebo.

Aquilo é só entretenimento.

Claro, aqui a dimensão é outra. Agora, como não há essa exigência de parte dos anunciantes para perceber onde é que eu vou pôr o meu anúncio, não existem essas audiências elaboradas de forma externa. A Netflix diz que em 10 anos-

Para que tu precisas da informação?

Eu não preciso, tenho só curiosidade.

Isso é diferente.

Tenho só curiosidade.

Repara que quando a Netflix anunciou aqui há uns anos uma quebra nas subscrições, toda a gente acreditou. E quando a Netflix divulga os orçamentos dos filmes, ninguém põe em causa.

Sim.

Ninguém põe em causa que o filme do Martin Scorsese custou 100 milhões ou mais de 100 milhões.

Mas eu acho isso interessante. Esse fenômeno, eu acho isso interessante.

Se dizer assim: "Teve não sei quantos views."

Sim, por exemplo, eles agora dizem que contribuíram em 10 anos com mais de 300 mil milhões de dólares para a economia global.

E toda a gente .

E agora, aqui já torcemos o nariz.

É um fenômeno curioso, é porque os dados vêm todos do mesmo lugar.

Exato.

Só preciso dizer uma coisa que eu internamente também já disse na minha empresa, que é: as televisões defendem-se mal, porque imagina, 600 mil pessoas viram ontem um capítulo de uma novela. Isto significa que viram o capítulo inteiro. Ok?

Ok.

Pronto. Quando se diz 600 mil pessoas viram ontem, porque é a audiência média. Quando a Netflix diz: "No primeiro dia, 50 milhões de pessoas, não sei o quê."

Podem ser 10 segundos.

Exatamente. Nos streamers, basta clicares. "Ok, depois vejo depois." Isso conta como um view. E depois clicas outra vez amanhã ou não sei o quê. Portanto, eu tenho a certeza que o mercado das televisões se defende mal nesta medida. Quando se fala em audiências, é uma ponderação de todas as pessoas que viram um bocadinho do episódio da novela, digamos assim, ou todo o episódio, e que é depois ponderado e dá, imagina, 600 mil pessoas. Mas na verdade, se calhar, 900 mil pessoas passaram por lá. Pronto, é essa a diferença.

A questão é que a Netflix não vive de publicidade.

Claro.

Nem tem a obrigação.

Claro. Nem as televisões têm a obrigação. Ou seja, são as televisões, os anunciantes e as agências que pagam as audiências, não é o Estado, não é o voto dele.

Não, e de facto, esses dados do filme que se foi visto muitas vezes ou não, só interessam à própria Netflix, para depois decidir onde é que deve investir, em que filmes é que deve apostar, porque não há um mercado de publicidade.

A accountability são o número de pessoas que pagam mensalmente para ter Netflix. Essa é a única dado que interessa e que são obrigados a revelar, porque como são uma empresa cotada em bolsa, aí são obrigadas a essa transparência.

Sim.

"Subimos de 120 para 800 milhões."

Maria Ramos Silva, curiosamente, foi em 2016 que se estrearam séries como The Crown, que já falamos aqui, Stranger Things, que já falamos aqui. Duas dúvidas que eu tenho é se este tipo de produção e conteúdo de várias temporadas, com muitos episódios, se não estará a ficar fora de moda e até que ponto uma das vantagens da Netflix sempre foi o catálogo, que é gigante, interminável.

Sim, mas há coisas também saem. Isso é um dos fatores que penso que mais evidente na Netflix. Tens ali um tempo. Por exemplo, não é só por limpeza de catálogo, mas tens um caso agora relativamente paradigmático, que é do Friends, que saiu da Netflix para o Max. Portanto, uma pessoa que quisesse agora muito ver o Friends, vai ter que reequacionar aqui a coisa. Isto para pensar em séries mais clássicas com muitas temporadas.

Que podem eventualmente convencer as pessoas a assinar.

Não me parece nada que este tipo de série esteja esgotado. Até porque elas próprias, entre os The Crown e os Stranger Things, tens algum tempo e a fórmula continua a funcionar. Normalmente, a Netflix tem uma coisa também relativamente diferente em relação a outros streamings, em que tu tens logo tudo disponível, pelo menos daquela temporada. Portanto, está mesmo feito para os mais ansiosos, não queremos estar à espera e portanto, tens esse fator também aqui diferenciador.

E pelos vistos tem sido um formato vencedor, porque a Netflix continua a liderar.

Não, certo. E eu há pouco queria dizer, e acho que o Pedro, de facto, interpretou mal a coisa, é que eu, por exemplo, não preciso de números, e aqui basta-me um tempo, muitas vezes até é assim pouco acarinhado, que é o da perceção. Eu não preciso, de facto, de números da Netflix, nem ninguém para ter noção que o The Crown, obviamente, alimentou o interesse redobrado pela família real britânica.

Olha, um grande exemplo-

Acho que é óbvio.

É aquela série-

O próprio Bridgerton, que movimentou desde a moda, o interesse histórico, prequela.

Um grande exemplo desse fenômeno é, por exemplo, a série Drive to Survive da Fórmula 1.

Sim, por exemplo.

Eu acho que levou muita gente a voltar a ter interesse na Fórmula 1, ou que nunca sequer tinham tido interesse. Jovens.

Sobretudo as mulheres.

Sim?

Claro, e portanto, obviamente que estes conteúdos não há qualquer tipo de predisposição ou obrigação formativa de quem faz isto. Aliás, já tivemos programas sobre isso. Agora, há uma coisa aqui que também acaba por muitas vezes escapar ao controle, que é as coisas terem um sucesso que de facto ganham um astro brutal, as pessoas querem seguir, entusiasmam-se, e isto de repente transforma-se num fenômeno. Totalmente de acordo. A única coisa que questiono é que eu acho que os próprios, seja a Netflix ou seja quem for, se tiver números que são fornecidos por entidades externasTorna a coisa mais-

Aí poderíamos dizer com mais certeza uma série de coisas

...legitima mais, defende mais quem está a partilhar os números. É só isso, porque eu tenho alguma curiosidade pelos dados, mas tenho pela Netflix como tenho por outra qualquer. Imagina, até em termos absurdos, foram marcados X voos para Paris depois de as pessoas verem esta série. Acho ótimo. De facto, ajuda teres essa base. Não ponho em causa.

Mas às vezes vamos, sem querer prolongar a polémica, a Paris ou não sei o quê, e existe a rota. Até acho que existe em Portugal a rota "Emily in Paris" ou a rota "Game of Thrones".

Claro, mas está tudo bem com isso. Eu acho ótimo. Eu acho que só se as cidades forem muito tontas é que não potenciam isso. Tu também ias a Nova Iorque ver a casa da Carrie e antes de ver isto tudo ias a Paris só ver o túmulo do Jim Morrison. Acho ótimo.

É isso.

Bruno Vera Amaral. Não estava no guião, mas eu fiquei a pensar. Já falámos aqui várias vezes em diferentes temas, como deixou de existir a cultura única. Mas se calhar a Netflix é o que resta da coisa mais próxima de cultura única.

É capaz de ser, pela abrangência. Mas eu acho que nós por vezes também tendemos a desvalorizar esta capacidade que há de hoje em dia, os fenómenos virais. O que é que são senão essa cultura única? Ou seja, se houver um fenómeno, se alguma coisa se tornar popular, seja uma canção, seja uma série, a facilidade de tu acederes a esses conteúdos hoje também é quase inesgotável. Naquela altura, se tu perdias alguma coisa, pronto, estava perdido, nunca mais, não dava, esquece. Agora não. Agora tu podes voltar. Aliás, uma das minhas sugestões que vou fazer na próxima semana reflete um pouco isso, porque é uma série que já acabou, tem uns 16 anos ou 15 anos.

E eis senão quando vem Bruno Vera Amaral.

Ora aí está. Tu consegues hoje, não havendo essa cultura do café, como é que se diz, das torres de água?

Water cooler.

Do water cooler, aquelas conversas do dia seguinte, toda a gente via a mesma coisa. A verdade é que rapidamente hoje, se alguém começar a falar de um determinado tema, os outros todos são capazes de se sintonizar muito depressa, porque o acesso, seja ao YouTube, seja às redes sociais, seja à Netflix, é muito fácil. Portanto, eu desconfio um pouco da completa desvalorização da cultura única ou dessa cultura de partilha, porque acho que a partir do momento em que as coisas se tornam virais, torna-se muito mais fácil. Hoje é muito mais fácil o acesso. Eu muitas vezes dou por mim, quando alguém me fala de um determinado assunto, a dizer: "Já vi qualquer coisa sobre isso. Não estou bem a par, mas já ouvi qualquer coisa." E pesquisando, é muito fácil tu acederes, seja a que conteúdo for. Portanto, eu acho que o melhor exemplo disso é mesmo uma Netflix.

Muito bem. Chegamos ao final de mais um "Pop-Up". Sigam-nos nas plataformas de podcast e escrevam-nos para popup@observador.pt. Nós voltamos na segunda-feira com as sugestões da semana. Até lá.