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Sejam muito bem-vindos a mais um "PopUp", o vosso anjo da guarda semanal no mundo da cultura popular, nas ondas da rádio, sempre com estes nossos, mais do que tudo, Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e Pedro Boucher Mendes. Esta semana vamos cantar os parabéns a António Varizões, mas antes seguimos de saltos altos ao encontro de Pedro Almodóvar. Estreia-se esta quinta-feira, nas salas portuguesas, o novo filme do realizador espanhol. Chama-se "O Quarto ao Lado" e conta a história de uma mulher que decide morrer, está numa fase avançada de um cancro terminal, e também da amiga que a acompanha neste processo e que passa a viver exatamente no quarto ao lado. As interpretações são de Tilda Swinton e Julianne Moore, e é a primeira longa-metragem de Almodóvar em terras americanas. O filme ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza. Vamos fazer aqui um primeiro aviso: nenhum de nós viu este filme. Só para esclarecer, ó Fanho.
É verdade.
Eu não vi.
E o resto...
E vamos ver se alguém vai ver.
E o resto das nossas amizades também.
Depois de algumas coisas que andam por aí.
E aparece que é intriga. Maria Ramos Silva, vamos generalizar primeiro, que é: Almodóvar sim ou não?
Depende.
Cá está. Sim, senhor. É como os ovos.
Pronto.
Depende.
Apesar de tudo...
E costumas ser favorável, sobretudo em que circunstâncias?
Eu acho que o Almodóvar chegou a um ponto da sua carreira em que se pode gabar de...
Imensas coisas.
Sim, entre elas o facto do seu apelido corresponder quase a um adjetivo. Nós quando dizemos: "Isto é muito Almodóvar. Isto é um enredo muito Almodóvar". Isso significa que há ali um conjunto de marcas, que nós podemos gostar mais ou menos, mas identificamos automaticamente e que ele fez alguma escola e ressoa de alguma maneira. Há coisas na produção do Almodóvar que eu achei muito interessantes. Eu gosto muito do "Tudo sobre a minha mãe", gosto muito do "Fala com ela". Mais recentemente, gostei muito do "Dor e Glória", com o Banderas, penso que falei disso aqui. Este mais recente, eu não sei, ainda só li.
Vale o que vale.
Vale o que vale. E provavelmente irei ver. Estava a brincar ao início, mas as indicações com que fiquei não são as melhores, porque de facto parece-me que há ali uma tentação para um certo estilizar do tema, daquela criação, daquela ideia.
A eutanásia está no centro da história, não é?
Pronto, mas o tema em si ou o tratamento do tema não me choca. Eu acho que, mais uma vez, é muito a vida e a morte. Essa pulsão entre aquilo que é vital e o lado também fúnebre, se quiseres, está sempre muito...
Não é novo no cinema.
Sim, é totalmente compatível e até é altamente identificável na obra dele. Agora, não sei, parece-me um pouco forçado, talvez, pelo menos pelo que li do nosso Eurico. E depois tem a Julianne Moore, que, desculpem-me dizer isto, mas é uma pessoa que às vezes aborrece tremendamente.
Estou a sentir sorrisos neste estúdio, não sei se...
Mas é tudo tão excessivo, e eu não sei se de facto o Almodóvar é alguém que faz muito, ou seja, que consegue dar esse salto, internacionalizar o seu cinema. E chegou aqui a um ponto em que, mais do que internacionalizar esse seu cinema e conquistar Hollywood em pleno, incorpora essas grandes estrelas de Hollywood. E eu ainda estou para perceber se isso é bom ou é mau. E acho que vou ter que também ver esse filme para tirar uma conclusão mais certa.
Eu percebo o teu sentimento em relação à Julianne Moore.
Mas não me vi já.
Consigo relacionar-me com essa tua...
Eu gosto muito da Julianne Moore, mas depois já digo.
Já lá vamos. Antes vamos falar aqui com o Pedro Boucher de Mendes, que eu ainda não percebi se é fã de Almodóvar ou não. E portanto, vou te perguntar diretamente. Tu também ainda não percebeste, é isso?
Não faz sempre o mesmo filme, o Almodóvar.
Lá está, como diria a Maria, depende de quem perguntas.
Depende dos ovos.
É o típico realizador de jornalistas. Ali nos anos 90.
Tinha saudades.
Cada vez que eu via um filme novo do Almodóvar era feriado, era em Lisboa, lembro-me disso, era feriado.
Eu aproveitei algum.
O que torna o juízo um pouco difícil. Eu estou a dizer isto, obviamente, a brincar, mas havia uma espécie de crédito infinito, não sei se ainda há, ao Almodóvar. Um novo filme do Almodóvar, à partida, era ótimo. Pronto, e agora íamos ver se era ótimo às bolinhas, ou ótimo aos quadradinhos.
Qual era o grau de ótimo, era isso?
Ótimo era sempre.
Exato.
Depois podia até ser ótimo com sabor a baunilha, ou ótimo aos quadradinhos.
Ótimo spray.
Mas, de facto, ele é um cineasta diferente e isso por si só deve ser valorizado, acho eu. Tem uma marca própria e a ideia que dá é que os atores se entregam. Entregam-se aos papéis e gostam de trabalhar com ele. Às vezes fica a meio do caminho. Não saberei dizer exatamente em qual filme, mas às vezes alguns filmes que eu vi dele, sobretudo na televisão ou em casa, parecem oportunidades perdidas, perdeu-se qualquer coisa. Mas como eu gosto muito de Espanha, dos espanhóis, dos atores espanhóis, das atrizes espanholas, aproveito para ver a paisagem.
É um critério como outro qualquer. Mas já agora, se eu te perguntar se tens um filme favorito de Almodóvar.
O "Fala com ela", que é um dos mais, e aquele "Tudo sobre a minha mãe" serão os...
Sinto que estás a atirar nomes.
Não, são os mais... Por exemplo, aquele "Vicky Barcelona" do Woody Allen
Na minha cabeça é um bocado um filme do Almodóvar. Tenho alguma dificuldade em me lembrar.
És capaz de confundir as coisas facilmente.
É como se tudo que fosse espanhol, de repente, é Almodóvar.
Não diria tudo. "A Casa de Papel" é um bom exemplo daquilo que não é Almodóvar. Para pior, obviamente. Eu acho que há ali qualquer coisa autoral, aqui no bom sentido, no Almodóvar, mas ao mesmo tempo faz sempre o mesmo filme.
Percebo.
Porque é um estilo tão marcado.
Ele tem temas que são recorrentes também.
E atrizes e atores.
Mas é visualmente, e depois também no universo, é tão marcante, é tão vincado esse estilo, que é facilmente, não só identificável, tu consegues ver por uma imagem se aquilo é Almodóvar.
Não precisas de muito tempo.
Não precisas para perceber que aquilo é Almodóvar. E isso tem um problema, é que por ser facilmente identificável, também torna mais fácil a autoimitação. E de cair numa excessiva estilização, provavelmente é isso de que este filme transplantado para outro mundo, que não é o que ele filma habitualmente, este filme está a ser acusado disso. Ou seja, é o Almodóvar fora do seu mundo habitual, de Espanha, daquele universo, daquelas personagens que ele domina bem, mas leva o aparato estético com ele para que seja um filme dele.
Até porque há aqui uma questão importante que é a ligação. Não é só por ele ser espanhol, é a forma como a língua está relacionada com as interpretações, com os retratos que ele faz nos filmes. Portanto, a questão de ser espanhol não é por acaso, não é só uma nacionalidade.
Sim, não é só. Olha que história tão boa, que enredo tão bom.
Que é engraçado, por acaso passa-se em Espanha, não é só isso.
Não. Aliás, se tu pensares bem, e eu estava a pensar acerca do Woody Allen e o Pedro mencionou um dos filmes que o Woody Allen fez na Europa, porque precisava de financiamento ou davam-lhe essa possibilidade.
E foi rodando as cidades ali.
E foi fazendo, e com filmes desiguais, mas sentes sempre que ele bem que faz a tentativa de adaptar o enredo àquelas realidades, mas parece que é sempre uma coisa que não combina bem. Há ali uma dissonância.
Estás a pôr bonecos no sítio.
E depois vais adaptando para a coisa não parecer demasiado forçada. E no Almodóvar, de facto, aqueles filmes só são espanhóis. E não é uma limitação. Quanto a mim, esta é uma das virtudes do filme. Imagina, sei lá, estás a pensar em realizadores como o Ozu ou o Fellini. Quer dizer, há coisas que são marcadamente dos locais de onde eles são. É difícil imaginar a história com aquele modo de filmar noutro país. Isto não é nenhuma defesa do nacionalismo. São limitadas é que aquilo está.
Sim, ele está a buscar muita história. Também vestígios do franquismo, a relação com a igreja, por exemplo, o lembrar de má educação.
Mesmo as questões das mulheres, a forma como ele olha para as mulheres, das personagens femininas, seria completamente diferente se o filme fosse sueco.
Muita geografia, claro.
Sim, ele usa bem o kitsch, por exemplo.
Exato.
Usa muito bem. E é um pouco como, não sei, eu pelo menos falo por mim, é um pouco como vamos à casa de uma tia ou fomos à casa de uma tia e ela é um galo de Barcelos e aquilo é apropriado. E eu acho que isso, nos filmes do Almodóvar, aliás, também é uma marca de inteligência e de sensibilidade, porque parece-me ser, de facto, um tipo sensível, aqui também mais uma vez no sentido só positivo da palavra, não de excesso de vulnerabilidade. É um tipo que tem qualquer coisa a dizer e consegue passar isso para o espetador. Também são camp os seus filmes. Têm uma aragem camp. Mas que também é do ponto de vista daquilo que nos interpela enquanto espetadores e chama a atenção para questões que se calhar que não estamos habituados, ou pelo menos falo por mim. Agora, é um pouco aborrecido que sejam filmes de jornalista no sentido que à partida são todos ótimos, espetaculares e incríveis, como acontecia, aliás, com o Woody Allen, até às questões levantadas pelo Farrow. Também era tudo espetacular, incrível e amazing.
Eu acho que ele tem filmes desiguais. Eu acho que há sempre ali um mínimo no Almodóvar que eu gosto. Mas há filmes desiguais. Eu gosto muito mais do "Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos" do que, por exemplo, agora, para ir buscar um recente, o "Mães Paralelas". Acho que é um mau filme. Não gostei, mas o "Dor e Glória" é um grande filme outra vez. O "Tudo sobre a Minha Mãe" é um dos filmes da minha vida, portanto, acho que ele tem filmes desiguais, mas depois tem outros. Tem ali também duas fases, eu creio que distintas. Uma inicial mais louca, mais selvagem.
Feérica.
Sim, a todos os níveis, psicológico, da própria expansividade das personagens. E depois começas a ter ali a partir do final dos anos 90, o Almodóvar a entrar na fase madura. E também há quem olhe para isso E diga: isto é o Almodóvar mansinho e a fazer filmes-
E a cumprir as regras
... de bom gosto. Eu acho que é o amadurecimento normal de uma pessoa, de um artista. Depois eu acho que ainda tem filmes muito bons. Percebo o que se diz. Parece que ele captou ali o tom certo do bom gosto, quando ele, de início, caminhava muitas vezes naquela fronteira do mau gosto, arriscava mais. Mas eu não acho que isso seja propositado.
A questão é que nós queremos que ele seja um Tom Ford. Queremos?
Não, queremos um bocadinho ali a rasgar.
Queremos um picking.
Sim, queremos ali um bocadinho a rasgar as coisas, mas ele envelheceu.
Isso é uma chatice. Mas diz-me uma coisa . E Julianne Moore, em paralelo? Vamos lá.
Este é um dos problemas que eu tenho com o filme antes de ver o filme.
Antes de ver o filme?
Antes de ver o filme.
Depois havemos de trocar ideias quando víssemos o filme.
Se me dissessem assim: "Duas atrizes de língua inglesa que fizessem um filme do Almodóvar, quais é que ele escolheria?" Eu diria a Julianne Moore e a Tilda Swinton. Ou seja, são muito previsíveis. É o tipo de atriz de prestígio e que muitas vezes anda ali naquela coisa do camp e do queer, que eu iria buscar se eu fosse o tipo que faz o casting para os filmes do Almodóvar.
Manda um currículo .
E nesse sentido, é um pouco previsível.
Mas o que eu quero saber é se tu gostas de Julianne Moore ou não.
Eu não gosto.
Porque pareceu-me que ias defendê-la. Face aos ataques vis da Maria Ramos Silva.
Eu gosto muito da Julianne Moore, quase sempre.
Quase todos os dias.
Gosto muito. Para mim, o grande papel dela é de um realizador com alguns pontos de contacto, apesar de estar completamente diferente geograficamente, que é o Todd Haynes, e que é o Safe, o Seguro. Que é um papelão. O filme tem 30 anos, e é um papelão da Julianne Moore e a partir daí, ela pode fazer o que quiser que eu gosto sempre.
E muito bem. Sim, senhor. Antes do final da primeira parte, vamos avançar com as sugestões da semana no Post-it. E vamos começar com Maria Ramos Silva, que tem coisinhas boas. George Harrison. Vamos começar por aí.
Sim, eu lembrei-me porque a edição dos 50 anos do "Living in a Material World", foi aquele difícil sucessor do "All Things Must Pass", um disco caso.
O difícil segundo álbum.
Pois. Lembrei-me porque estive a ver o 64 dos Beatles-
Também vi
...que na verdade, não me deixou assim propriamente. Mas ocorreu-me, é sempre uma bela reaudição. E depois, a propósito de Almodóvar, nem de propósito, o Cinema Nimas vai ter até ao Natal, um ciclo sobre o melodrama. Não há Julianne Moore, mas há Bunuel, há Fassbinder, há Oppelius, há Becker e há uma série de outros tipos. Muitos deles já não estão entre nós, se não mesmo a maioria ou todos.
Mas tipos com bom currículo.
Mas com ótimo currículo e portanto vale a pena passarem por lá se puderem.
Tipos que já não estão entre nós. O Pedro Buchary Mendes quer falar-nos de surf, mas em livro.
Não é bem surf.
Não é bem.
Estive nos Açores recentemente.
E apreciaste?
Sim, há aquela coisa que os Açores são lindos. Lindo e o vulcão.
Não é lindo?
Sim, claro que é. Mas também há um lado histórico, um lado da história dos Açores, histórias dos Açores e das ilhas. Por exemplo, fiquei a saber, uma coisa que já sabia, mas para a qual não estava completamente desperto, que a miudagem dos Açores nos anos 80 tinham todos calças leves, ou quase, por causa da base das Lajes. Esse tipo de histórias interessam-me mais do que propriamente os vulcões.
Mas isso seria na terceira.
Na terceira, exatamente, neste caso. E aqui, o livro chama-se "O Mais Velho Surfista do Atlântico, uma História de Surfing nos Açores", portanto não é só surf. Surfing serão as modalidades praticadas nas ondas, diz o autor, Pedro Arruda, editado pela Tinta da China. O Pedro Arruda trabalha nos Açores, é um empresário, é um surfista, acho eu, ou alguém praticante, mas também um empresário ligado ao turismo. E põe aqui a conjetura de que o surfing, estes desportos feitos no mar, nas ondas, terão a origem no Havaí. E ele descobre aqui uma pista açoriana que poderá ter sido um tal de George Cunha, que acompanhou a primeira pessoa ou o primeiro surfista conhecido no início do século XX, numa espécie de digressão, exibindo estes desportos ligados ao mar e às ondas. Este tipo de histórias interessa-me e ainda bem que este livro existe, "O Mais Velho Surfista do Atlântico, uma História de Surfing nos Açores", de Pedro Arruda. E ainda-
E ainda, peço um, dois, três.
E ainda, sim. Descobri na Max uma coisa chamada Yacht Rock.
Yacht Rock. Ainda não vi, quero muito ver isso.
É uma coisa sensacional. Yacht aqui pronunciado Yacht. Y-A-C-H-T Rock, que é um nome de um estilo musical dado a posteriori. Uns rapazolas fizeram uma série web cômica no princípio do século XXI, antes do
Do YouTube, mas no tempo do MySpace, naquela altura. E deram este nome a um estilo de música que se chama Middle of the Road, AOR, Adult Oriented Rock, que seria a música ouvida quando as pessoas estavam em festas em barcos.
Sim.
Que é uma espécie de rock com uns toques de jazz e de soul.
Do Bee Brothers, Steely Dan.
Exatamente.
Mas é bem apanhado. A questão é que é bem apanhado.
E sabem que é um género que tem vindo a ser reapreciado nos últimos tempos.
E eu estive a ver o documentário, ia só ver três minutos, estava aborrecido com a vida, era para me distrair.
É que quando for assim, liga-me.
Acabei por ver o documentário todo. Isto depois de termos passado ontem um final de tarde ótimo no lançamento do livro de um amigo nosso.
É verdade.
"Toda a gente tem um plano", que é um livro do Bruno Vieira Amaral.
E é um amigo muito bonito.
Muito bonito. E bom livro para levar para um barco.
Não, e além de ser essas coisas todas, é um ótimo livro, que eu recomendo vivamente e parabéns, Bruno, porque eu já li.
Obrigado.
"Toda a gente tem um plano" na Quetzal.
E só por causa disso, a sugestão do Bruno vai ficar para a segunda parte. Voltamos depois de um curto intervalo. Até já. Estamos de regresso ao "PopUp" com Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e Pedro Bucher Mendes, três pessoas muito bonitas por dentro e muito bonitas por fora. E por falar em ser bonito por dentro e por fora, Bruno Vieira Amaral, ainda não ouvimos a tua sugestão desta semana.
A minha sugestão é um livro.
Ninguém esperava.
De 1981.
1981?
Do Ian McEwan, que já foi publicado também há muitos anos em Portugal, chama-se em português "Estranha Sedução", "The Comfort of Strangers". Agora é uma reedição desse livro. Eu li há muitos anos, "O Jardim de Cimento", que é o primeiro livro do Ian McEwan. Este é o segundo. E na altura fiquei fascinado. E foi na altura em que o Ian McEwan lançou o "Amsterdã", o "Sábado" e pouco depois o "Expiação" e eu, nessa altura-
Estava em alta
...papuei isso tudo.
Era um escritor de jornalistas, lá está.
Depois podemos discutir. "O Jardim de Cimento" eu gostei muito, acho que continua a ser dos meus livros preferidos dele. É um livro estranhíssimo.
Também gostei muito desse livro.
E este aqui eu não tinha lido e agora estou a ler. É engraçado que tem marcas de um segundo livro e é engraçado tu veres um autor que agora é super consagrado, e que este livro na altura também foi um sucesso, depois foi adaptado ao cinema pelo Paul Schrader, mas ver ali alguns sinais de insegurança, quanto a mim, típicos de um segundo livro. Ele ali um bocadinho a tentar navegar, para ver se não se espalha.
Sem saber muito bem para onde.
Se não se espalha ao comprido, então recorre ali a algumas boias, umas coisas de segurança para não cair, para não se afogar. Mas é um livro de que estou a gostar muito, ainda não acabei de ler. Depois posso dar aqui a minha opinião definitiva num próximo programa, mas é a minha sugestão de hoje, "Estranha Sedução" do Ian McEwan, o segundo romance de Ian McEwan.
Muito bem, esta semana já falámos aqui sobre Pedro Almodóvar, cujo novo filme chega esta quinta-feira às salas portuguesas. Avançamos agora em frente e com todo o gosto para as canções de António Variações, que morreu há 40 anos e teria feito 80 esta semana. E é o tema central também de um colóquio que acontece por estes dias, esta quinta e sexta-feira, na Universidade Nova de Lisboa. É um colóquio que debate o artista, a música, o contexto social português de então e o inevitável legado de António Variações. Maria Ramos Silva, vou começar esta pequena conversa sobre este grande génio com uma citação tua, que diz assim: "Este país não merece gente como António Variações". Polémica, escândalo. A minha questão é: isto foi uma frase que tu disseste, porque foi num momento de nervos, por qualquer coisa da tua vida, ou é uma certeza que tu tens e que repetes em qualquer altura?
Pensei alto e tudo se nota.
Sabes que eu aproveito todas as frases.
Não, se calhar o que eu queria dizer, na verdade, era isto, só com um pouco mais de rigor, que é: este país em 2024 não merece gente como António Variações. Isto para dizer o quê? Sabes que eu esta semana vi um vídeo no YouTube, que será provavelmente uma das últimas aparições, não faço ideia, mas é de facto já numa fase muito tardia do Variações, em que ele aparece na televisão, aparece em direto com o José Isidro, e tu de repente, quando estás em 84, salvo erro, provavelmente estás, o Variações vem de pijama com um urso de peluche. O José Isidro ótimo, como sempre, num fato zubebê. Depois há no meio um miniconcurso em que o Variações vai decidir, dentro de um grupo de pessoas com uma instalação na cabeça, qual é a mais espetacular. E tu olhas para aquilo e pensas que ainda a anos-luz de todo aquele advento, todo aquele prodígio técnico e tecnológico, a televisão analógica, de facto, tinha ali coisas que são absolutas pérolas. Porque o técnico estava nas pessoas e estava naquelas personagens, e estava naqueles momentos, que eu penso que ainda hoje seriam, de facto, demasiado excêntricos, se quiseres. Que é uma palavra que eu não gosto de usar para descrever o Variações, mas tenho a noção que a maior parte das pessoas continua a vê-lo, provavelmente continuaria a vê-lo, ainda hoje como um excêntrico, se o visse a descer a Avenida Liberdade como ele descia com um papagaio de madeira no ombro.
Falando em papagaio, porque essa palavra remete para uma coisa do estilo ave rara, não é?
Também, sim, se quiseres.
Estamos a falar, neste caso, do Variações, mas há algumas figuras neste país que de facto estiveram acima, felizmente, da mediania e que se distinguiram. Eu acho que o Variações tem dois planos. Por um lado, o que produziu artisticamente, que é absolutamente transgressor e magnífico até hoje. Dois álbuns bastam para nós continuarmos a achar que aquilo é, de facto, um meteorito que é pop de alguma maneira, que inventa a pop num certo momento. Mas para mim, muitas coisas são absolutamente rock'n'roll, com aquele lado folclórico que ele nunca escondeu. E depois é também isso, é que ele podia ser o tipo que vem da Terriola com uma dimensão de Terriola, sem despudor nenhum. E de facto não, é um tipo absolutamente do mundo e que não teve aquela coisa que nós às vezes muito portuguesamente temos, que é da vergonha das nossas origens ou de achar que o folclore é uma coisa menor e que o que vem de fora é que é interessante. E ele conseguiu assimilar isto de uma forma a criar clássicos instantâneos e coisas que vivem para a posteridade. E depois toda a sua imagem, o seu próprio caminho, pessoalmente, acho que é absolutamente extraordinário.
Era uma noção pop completa, não é?
Sim, eu acho que se tu quiseres, em termos de comparações, que são sempre muito injustas, mas eu acho que de certa forma, o Variações é o nosso Bowie. É um Bowie entre o Minho e Lisboa para o mundo inteiro. É um tipo que consegue estar completamente acima de tudo. E depois teve também a sorte de ser secundado neste caminho por pessoas como o José Ídro, por exemplo, mas muitas outras com quem se cruzou, que estiveram no momento certo, na altura certa e também perceberam que se devia tratar de agarrar neste OVNI e fazê-lo voar. Ainda bem que o fizeram.
Falando em OVNI, Pedro Mexer Mendes. Estou a brincar. Tu como grande especialista nos anos 80, especialista autoformado. Atenção.
Estou feito. Nunca devia ter escrito um raio do livro.
Não, atenção, não é uma questão do livro, é que tu és a pessoa aqui destes quatro que tem mais experiência de vida nos anos 80.
Mais memória.
Variações faz parte daquele grupo de pessoas que nessa década mudou o país, dirias?
Recentemente, fui ver o espetáculo da Lena d'Água, no São Luís, e ela cantou o Robô. E depois, mais tarde, estive com a Lena d'Água noutro contexto. Eu sou assim.
É verdade.
E de facto, o Robô é uma canção péssima. E já era.
Não esperava este começo.
Não, depois a Lena d'Água estava a explicar que era um jingle publicitário, que foi adaptada a canção, mas foi um dos grandes êxitos daquele tempo, do início dos anos 80. Só para dizer que a Lena d'Água também interpretou músicas escritas pelo António Variações.
Verdade.
E eu perguntei-lhe porque é que não as cantou no espetáculo. Depois mudámos de assunto e não percebi bem. O que eu estou a dizer é que a maior parte da música do boom do rock português no início dos anos 80, das canções, das músicas, não sobrevivem ao tempo. Aquilo foi uma explosão que se deu e a maior parte das canções, de facto, pura e simplesmente não é boa, nem artisticamente, nem musicalmente, nem do ponto de vista das palavras, das letras. E também não tem que ser. Naquela altura, foi o que foi. Tanto assim é que muito poucas sobreviveram, acho eu, ao crivo do tempo. A interpretação que a Lena d'Água faz do Robô é uma interpretação diferente, obviamente, mas aquilo não é uma música rica, não é uma música que nos emociona. E o Variações, que era de facto um tipo singular, to say the least. Acho que pelos vistos não percebia nada de música, no sentido de notas, composições, solfejos, essa coisa, e ensaiava em frente ao espelho da casa de banho com uma cassete.
Sim, entoava as suas músicas e gravava-as.
É quase como se fosse um enviado dos deuses. Eu fico muito feliz e emocionado até que as pessoas continuem a gostar muito. Eu nunca ouvi ninguém criticar o António Variações, dizer que a sua obra não é boa. E de facto, ele continua vivo, a verdade é essa. E as suas canções, hoje, ouvimo-las como se calhar ouvíamos então. Eu lembro-me bem daquele tempo, eu tinha 12, 13, 14 anos. E de facto, o tipo era aparentemente um cromo, uma pessoa de quem nós poderíamos rir, nós crianças, mas não ríamos. Ele era o António Variações e as suas músicas eram incríveis. É interessante que não tenha deixado sucessão, sucessores.
Verdade.
Não nasceram êmulos ou imitações. E depois com os Humanos, que de facto é também um ótimo vestimento que deram às canções. É um projeto, acho que do David Fonseca.
Sim, da Manuela Azevedo.
E do Camané. Mas eu acho que é o David Fonseca o ideólogo. Não sei.
Para falar das vozes.
Não, das vozes, sim, sei. O Camané e a Manuela Azevedo e o Fonseca. Que deu uma outra vestimenta às canções. A Lena d'Água interpretou algumas também. Estou a ver que ninguém quer interpretar o Robô, mas que muita gente quer a Ana interpretar. Nada contra o legado do Robô. Nada contra a Lena d'Água, pelo contrário, eu gosto imenso dela e das canções dela, mas o Variações, de facto, é um enviado dos deuses, foi uma sorte que tivemos. Não sei se ele foi transformador nos anos 80, lá está, porque não deixou legacy, legado. Não esquecer que nos anos 80 havia apenas um homossexual em Portugal, que era um jornalista do Diário de Notícias, o Guilherme de Melo, em que sempre que havia uma questão ou sobre a sida ou sobre a violência, ele era o único, porque era o único homossexual assumido. Eu não gosto dessa expressão, mas é só para as pessoas perceberem. Não havia mais nenhum em Portugal.
Sim, só para não perceberem que de fato não havia.
Sim, exato.
Exato. Não vamos correr esse risco. Bruno Vieira Amaral, como eu disse há pouco, quinta e sexta-feira são dias de um colóquio que acontece na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, que é dedicado a António Variações. Especificamente sobre o Variações, mas também sobre outras figuras da cultura pop. Se calhar é uma coisa que nós não fazemos muito, esta coisa de levar a pop para a universidade, mas faz sentido ou não?
Sim, acho que faz sentido. Não acompanho as atividades acadêmicas tão de perto a ponto de saber se é feito muito esse trabalho ou não, mas é de saudar que haja essa atenção da academia a esses fenômenos. Já passou o tempo suficiente em relação ao António Variações, à obra dele, ao que ele deixou, já não se vai acrescentar mais nada, para poder perceber o impacto que teve, o que é que representou. Pode não ter deixado sucessores, imitadores ou êmulos, mas influenciou bastante. E mesmo que não tivesse influenciado, no sentido de ser apreciado pelas gerações seguintes, aquilo que ele fez continua válido. E isso é incrível. E o Pedro estava a falar de alguma pobreza musical. É verdade, se tu pensares em algumas coisas daquela época, estou a pensar naqueles hits do GNR, dos primeiros tempos, "Portugal na CEE" e "Eu quero ser um GNR", de facto, musicalmente aquilo é um bocado pobre. E outras coisas, mas que estão muito ligadas também à própria época e foram marcantes por acontecerem naquela altura. Às vezes tens a sorte de estar no sítio certo, no momento histórico certo. É curioso que o António Variações, não tendo essa formação musical de base, tenha conseguido, por um lado, criar essas músicas, essas canções que perduram, que ficam no ouvido e, ao mesmo tempo, ter essa atenção ao popular, que não é só o estilo de música popular, mas o ouvido para as coisas que podiam ser ditas pelas pessoas, que provavelmente eram ditas pelas pessoas, mas que depois entraram nas canções dele.
Sim, transformar isso em canção não é fácil.
Não é fácil. O "É para Amanhã", o "O Corpo é que Paga", isso é sabedoria popular que ele aproveita.
Parece simples.
Parece simples e depois transforma, a palavra se calhar é gasta, mas de uma maneira verdadeiramente original. Ele era, de facto, um original. Voltando à questão do Almodóvar, é fácil identificar os traços de um original, mas fica muito mal quando tu o tentas imitar. Ou seja, o melhor é imitar aqueles tipos que não dão muito nas vistas.
Exato.
As marcas brancas.
Aquele que dá tanto nas vistas, é complicado imitar, porque vai parecer foleiríssimo.
Talvez isso também tenha feito com que esse tal legado que o Pedro referiu, o legado imediato do sucessor, não tenha aparecido.
Porque fica foleiro. Até por estar ali na fronteira do kitsch, entre o bom gosto e o mau gosto, não sabes muito bem. Ou do exagero, do camp, que é o cultivo desse exagero. Mesmo por estar nessa fronteira, depois quando se tentas imitar, cais rapidamente na foleirice, porque aquilo está mesmo ali. É um território em que só aquela pessoa é que consegue caminhar sem se espatifar.
Uma comparação que pode ser feita. Não é bem uma comparação, mas podemos pôr os dois em cima da mesa. O José Cid tem um repertório riquíssimo. E muito partilhado, e os povos e as culturas precisam desse tipo de artistas. É o tipo de música que é tocada nos casamentos. O José Cid e a malta gosta, porque as pessoas já estão um bocadinho bebidas, os filtros estão embaixo e as pessoas podem assumir que se estão a divertir. Mas nenhuma música do José Cid é artisticamente comparável a uma música do António Variações. Se calhar tínhamos que ficar aqui a fazer quatro colóquios só para tentar perceber por quê, mas eu creio ser pacífico dizer que a nossa reação imediata é que as do Variações são muito melhores, são muito mais ricas. Nós tivemos naquele tempo, Cristina, não vás levar a mal, mas "Beleza é Fundamental", que é uma música dos Rock e Vários, um dos hits mais lembrados do rock português de então, uma das músicas pobres, como eu dizia e o Bruno também. E o Variações não tem nenhuma deste tipo de músicas. E é do mesmo tempo, da mesma altura.
Se formos por essa comparação com o José Cid, o José Cid tem muitas músicas, que eu diria, ao gosto popular. E eu acho que essa será a diferença. Enquanto o José Cid, quando compunha essas canções ao gosto popular, é um tipo com conhecimento, com essa formação musical, que sabe o que está a fazer, o Variações fazia aquilo porque era aquilo que ele era.
Era instintivo.
Se houver uma diferença, não sei, agora começámos a falar disto, não foi planeado.
E bem.
Mas parece-me que é um pouco isso. E o José Cid tem ali uma fase. O José Cid fez coisas totalmente diferentes. Rock progressivo, essas coisas. E quando entra nesse repertório mais ao gosto popular, ele sabe perfeitamente o que está a fazer. Aquilo é propositado, é deliberado. Enquanto que o Variações, aquilo não é pensado, aquilo é quase visceral.
Então vamos só aqui a uns exemplos. Antes de irmos embora, pedi-vos que escolhessem uma canção do António Variações. Vamos ouvir a primeira escolha da Maria Ramos Silva. Maria Ramos Silva, onda morna.
Sim, nós falámos deste lado visceral que há de facto no "Variações", mas se tu reparares bem, eu acho que isto também dá uma dimensão extra de intemporalidade. O Variações nas canções dele trata muito, por um lado, a sua sina pessoal, mas também a nossa sina coletiva. Não tanto se calhar em canções como estas, ainda que nós também sejamos especialistas no morninho. Mas o "É Para Amanhã", o "Quando Falam Português", o "Linha Vida", mais sobre ele em particular. Mas há ali tanta coisa, que mais uma vez é actual.
Olha aqui uma pandeireta. Melhor instrumento do rock'n'roll.
E a voz!
Sim, eu de facto acho que é o choque que o Pedro falava há pouco do miúdo que enfia os dedos com água na tomada. E isto é a reação que nós temos. É mesmo! Eu olho para o Variações e é, de repente, o mundo da catequese e do transe encontram-se à esquina e aquilo há ali uma espécie de fusão cósmica. E ele, de facto, transforma-se num profeta raro. É de facto comovente.
É a Isabel Silvestre dos Cantares de Manhoso a cantar com os Talking Heads.
Exatamente. Poderia ser isso.
Falar em catequese com transe, foi o que tu disseste. Vamos ouvir a escolha do Pedro Boucher Mendes. Estou a imaginar Pedro Boucher Mendes a desfilar de mansinho pelo chão da discoteca, da boate, com um copo na mão.
Esta é uma das canções pop.
Isto é uma canção zorra.
Eu não escolhi esta porque eu sabia que alguém ia escolher.
Canção do engate, Pedro, queres explicar porquê? Não é preciso, não é?
O Variações tem esta característica de nós não sabermos bem sequer quais são o nome das canções. Com a exceção do "Quanto é que paga?"
Certo, estou a perceber. A ligação óbvia entre...?
É uma canção, como o Bruno diz, não há muito a dizer, é uma obra-prima. Como agora, mais recentemente, o "Desfado" da Ana Moura. São canções, estas duas e outras, eventualmente, mas que nós podemos estar no Alasca e somos transportados para a nossa família, para o nosso país, para a nossa cultura. Isso é a marca do génio.
Engraçado tu falares no fado, porque eu acho que o Variações, para mim, é um fadista. Em última instância, o Variações é um fadista, é um grande fadista de pop.
Vamos terminar e só vais dizer: "Bruno, adoro esta canção, esta é a tua escolha" antes de irmos embora.
Isto é uma oração.
Já estás de mãos postas.
Não, é uma oração suspirada. A primeira vez que eu ouvi esta canção foi na versão dos Tristes Tigres.
Com a voz da Ana, é uma bela versão.
Que é uma maravilhosa versão.
Verdade.
Mas é muito bom depois ver as diferenças, o que eles fizeram e perceber aqui esta coisa mais crua desta versão, que é uma oração.
Muito bem, meus amigos, chegámos ao final de mais um "POP UP" e voltamos na próxima semana. Até lá.