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O mais importante num apresentador de televisão que queira ter longevidade é não hostilizar o público, é não criar instâncias em que o público se vira contra ele.

Sejam muito bem-vindos a mais um "PopUp", o programa de cultura pop da Rádio Observador, com estes saudáveis sábios, quem sabe um dia centenários, Maria Ramos Silva, Pedro Buchinho Mendes, e esta semana também com a Susana Romana, já que o Bruno Vieira Amaral continua ausente por terras calientes. Diz ele que está a fazer literatura, um dia havemos de descobrir. Susana Romana, como é que te sentes neste regresso a esta casa, que também é tua?

Que bonito.

Não é?

Que bonito. Sinto-me bem. Eu nunca sei de quem é que eu vou fazer. Normalmente, só quando o Carlos conta é que: "Hoje sou o Bruno."

Mas eu gosto de deixar essa incógnita.

Mas eu gosto dessa polivalência.

Não é?

É.

É muito bonito. Muito bem. Neste programa vamos cantar os parabéns a uma das figuras mais emblemáticas da história da televisão e depois falaremos também sobre apresentadores e seus requisitos. Vamos começar por David Attenborough. E vamos também descansar toda a gente, porque é óbvio que não vamos cantar coisa nenhuma. Seria uma tragédia. Vamos só assinalar os 100 anos de David Attenborough, completados esta sexta-feira, dia 8 de maio. Executivo de televisão, naturalista, apresentador.

Não, ele pode morrer.

Sim, pode.

Pode nunca os completar.

Achas que isto é como dizem: cantar os parabéns antes da pessoa fazer, antes dá azar.

Olá, Susana.

É isto que eu trago este programa.

Eu não sou versado em superstições portuguesas, aquela coisa de: "Não ponhas o chapéu de chuva não sei onde, ou os sapatos não sei onde, ou os chapéus."

Também não te preocupes.

Chuva aberta, não podes vir em casa.

Não sou mesmo versado, por razões de ascendência.

Desversado é por não saber ou é porque não acreditas?

Não.

Não sabes, portanto não acreditas. Uma coisa está ligada à outra.

Eu não cresci num contexto muito português, portanto não sei bem. Não é género.

Percebo.

"Uma aranha!" Como é que é? Qualquer coisa, não é?

As aranhas trazem dinheiro, não mates as aranhas.

Exato.

A minha favorita é a da vassoura.

Para varrer. Não te casas, não é?

Não. Acho que é para as pessoas irem embora.

Se queres que os convidados vão embora, põe a vassoura atrás da porta.

Se queres que eles vão embora?

Sim.

Mas já com os convidados na sala?

Sim.

Ok.

Acontece muito.

Muito bem.

Também podes dizer: "Já não há vinho." Ao que as pessoas dizem: "Não faz mal, o que é que tens aí? Ah, amêndoa amarga. Traz."

Vira. Ora bem.

Mas pode não chegar lá o David Attenborough.

Claro, mas vamos a isto. Mas a história está feita e a história diz-nos que ele é responsável por algumas das séries e documentários sobre natureza mais importantes de sempre ou pelo menos mais influentes, digo eu. Susana Romana, tu que escreveste para nós sobre o David Attenborough.

Sim. Não sei se já está disponível ou não, porque eu digo só mesmo no aniversário.

Vamos ver, mas entretanto estará. Não sei se tens alguma relação especial com o David Attenborough ou com os programas dele, não necessariamente com ele. Se já tinhas ali uma série de detalhes e de histórias que eventualmente te fascinavam e se ao escreveres o texto que fizeste, se descobriste algo mais que não estavas à espera.

Olha, o que eu descobri é que basicamente a reação que eu tenho aos programas do David Attenborough é uma reação um bocadinho pavloviana de ficar com fome. Não por causa dos animaizinhos em si a correr pela savana, mas porque eu associo a programa que se vê antes de um almoço de família.

Claro. Meio-dia, não é?

Sim, com o compasso de espera entre o meio-dia e uma, umas pessoas chegaram, outras não, a televisão está ligada, é um tipo de programa mais ou menos consensual. Porque nada faz-lhe bem ver, é pedagógico.

Não conheço ninguém que: "Epa, não vou ver isso."

Pois, não, é um limpa-palatos. E então eu associo muito a programa que se está a ver enquanto se está a fazer tempo para comer um cabrito, uma coisa assim do género.

Por exemplo.

E outra coisa que eu também, quando estava a escrever o texto, me percebi, é que por mais respeito, e é uma figura bastante consensual, sobretudo no Reino Unido, sir David Attenborough é considerado o maior tesouro nacional em termos de popularidade e tudo mais. Há vários números que sustentam isso. Eu acho, digo eu, sem ter feito nada de jeito com a minha vida, que até um certo ponto ele falhou um bocadinho, porque eu acho que o grande impulso da carreira do David Attenborough é chamar-nos a atenção para o planeta estar a morrer e nós temos que fazer alguma coisa.

E nós não fizemos nada.

E não fizemos. Nós vimos os documentários, achámos os animais superfofos, gostámos muito de ver os leões à pancada e a mama ursa com os seus ursinhos, mas eu acho que aquilo que ele nos andou a tentar dizer durante décadas, não sei se depois, na verdade, colheu assim tantos frutos como o próprio gostaria.

Portanto, parece que esse lado talvez tenha saído ao lado.

Sim, eu há uns tempos fui ver uma exposição, que era uma banhada, mas acho que a culpa não seria do próprio, que agora há exposições imersivas.

Sim, experiências.

Experiências. E eu fui parar a um barracão nos arredores de Londres para ver aquilo que eram basicamente imagens dos documentários projetadas em paredes brancas com voz off a dar por cima. E muita gente sentada em todo lado. E aquilo ao mesmo tempo é, com bilhetes caríssimos, eu a pensar: "Isto é um desperdício de recursos, de energia, é a coisa menos ecológica da vida, mas ao mesmo tempo está a ser feita em nome de David Attenborough." Por isso eu acho que, na verdade, aquilo que ele nos andou a dizer, nós não estávamos a ouvir.

Entendo. Maria Ramos Silva, pegando aqui neste lado dos programas sobre natureza e sobre animaisConcordas? Achas que é um tipo de programa consensual? Por que funciona? É simplesmente porque nos mostra coisas que nós não vemos em sítios onde nós não vamos?

Eu acho que o Bruno Vieira Amaral faz aqui imensa falta hoje, sendo que espremeu para a Susana. Por quê? Porque isto é true crime com bichos, para mim. Na minha cabeça, há sempre alguém.

É uma telenovela também.

É uma telenovela, é da vida real. É literalmente um Big Brother com bichos. Há sempre um leão que vai matar uma gazela. Isto acaba sempre assim.

Aliás, no texto que ainda não leram, mas que a Susana escreveu, tu falas lá da necessidade de criar uma narrativa.

Sim, tem que haver um vilão claro e uma vítima, tem que ser muito limiado.

Os formatos mais vistos de história natural, desculpem, são com répteis e com rituais de acasalamento.

É por isso que o Pedro vem estes programas.

São telenovelas que nós vemos com humanos, mas com bichos, que no fundo também são os nossos antepassados, é uma fauna.

E parece que isso resulta, obviamente.

Resulta por várias razões. A razão que a Susana apontou desde logo é muito válida. Há, de facto, ali uma espécie de indicativo para o almoço. É um pouco como o fator preço certo para o jantar. Em que as pessoas já têm a televisão ligada, aquilo funciona ali um pouco como música de fundo.

Fernando Mendes é o nosso David Attenborough.

De certa forma, sim. Encaminha também para os 100 anos. Graças a Deus.

Noutro tipo de habitat.

Sim, é verdade. Eu acho que há muitas razões que estão obviamente ligadas. Por um lado, à forma como a agenda foi evoluindo, nomeadamente esta questão da conservação, que se calhar hoje tem um interesse extra, ainda que, de alguma forma, o David Attenborough possa ter pensado que o caminho não foi suficiente. Mas eu acho que, apesar de tudo, nós também não temos forma de saber como é que seria hoje a nossa relação com este imperativo da conservação se não houvesse programas. Eu acho que ainda seria um desastre maior, portanto, de certa forma, acho que alguma escola terá feito.

Terá tido o seu contributo.

Diria que sim. E não te esqueças que a nossa relação de humanos e civilizacional com os animais também tem uma série de altos e baixos, tem uma relação histórica e lendária, em que nós muitas vezes vimos uma série de bichos, e ainda hoje algumas culturas veem como símbolo do demônio. Esta coisa de nós adorarmos cãezinhos e gatinhos e termos uma relação absolutamente cosmopolita e civilizada com os animais, também não é uma coisa assim tão antiga. É relativamente nova.

Fora o lado que se calhar muitos julgarão exagerado, enfim, fica ao juízo de cada um, como os animais são tratados, ou o tempo que é dedicado, ou o dinheiro que é investido, etc.

Exatamente, mais uma outra camada. Depois temos também a forma como nós fomos vivendo cada vez mais nas cidades e, portanto, aquela noção que temos da vida animal, essa vida selvagem, também se foi diluindo e torna a experiência muito mais exótica. A juntar a tudo isto, eu acho que tu tens, obviamente, um fator que é o próprio David Attenborough se ter transformado numa atração. Eu vou ver o leão da mesma maneira que eu quero ver o David Attenborough.

Queres vê-lo a ele.

Porque ele é, de facto, uma personagem absolutamente carismática, que eu acho que é fundamental. Na minha cabeça, ele sempre foi uma pessoa já com muita idade.

Exato.

Porque quando eu nasci para esses programas, é como se ele tivesse nascido velhinho. Mas tu já foste ver imagens dele jovem a tentar imobilizar um crocodilo com a sua camisa.

E bonitão.

E bonitão que ele era, a pinta que tinha. Estão ali os ingredientes todos.

Desculpa, a tentar imobilizar um...?

Um crocodilo, sim. Procura.

Justo com uma camisa?

Ele tira a camisa.

Seria manietado ou imobilizado?

Não sei.

Não sei, mas estou fascinado com isto, acho que vou querer estas imagens.

Mas a camisa da Burberry é ótima. E só mais uma coisa que eu acho muito relevante para a manutenção do sucesso, é que num tempo absolutamente frenético, o David Attenborough manteve sempre aquele seu ritmo pausado e de autoridade. É uma cápsula do tempo em que nós estamos a ver o mundo.

Mas é uma coisa muito britânica, ou pelo menos na nossa visão romântica das coisas.

Absolutamente. Aquilo é o melhor cartão de visita BBC. Tu ligas, queres saber o que é o registo daquele tempo com aquela voz, e ele, de facto, é a bandeira mais.

É como se todos aqueles animais bebessem chá.

Ora bem, não encontraria melhor imagem.

É mais ou menos isso.

É mais ou menos isso.

Pedro Bichinho Mendes.

Tanto para dizer.

Eu queria ouvir-te sobre esses dois tópicos. Um, programas sobre natureza e animais, até porque estou muito curioso.

Dá uma palavra.

E sobre o David Attenborough, em particular. Mas segue lá em frente, que eu quero ver desfilar.

Em Portugal, tínhamos o espanhol Félix Rodríguez de la Fuente, não é do vosso tempo, acho eu, mas quando eu e pessoas mais velhas éramos garotos, era esse o amigo dos animais, era esse o David Attenborough, que era um espanhol que morreu em 1980. Víamos os programas dele. Temos que pensar a televisão como em um tempo em que não havia computadores, não havia telemóveis, não havia YouTube, não havia canais. E os canais de televisão antigamente eram menús. De manhã não sei o quê, à tarde não sei o quê, à noite. Nem sequer emitiam de manhã. E a ideia de programação ligada aos animais, e depois à vida selvagem, tem a ver com o facto de o conteúdo se justificar a si próprio. Ou seja, precisamos de coisas de animais. Este é um EPAD dos anos 50, 60. Tanto que o David Attenborough começa na BBC como produtor, e em um programa chamado "Zoo" ou uma coisa ligada ao jardim zoológico, que hoje as pessoas ligadas aos animais não gostam de jardins zoológicos, há esse lado. E na SIC, o programa "Vida Selvagem", que lá está, é o meio-dia do fim de semana, do sábado, é um dos programas mais antigos, se não mesmo o mais antigo, se excluirmos os serviços noticiosos, da SIC. A SIC é de 92, é fazer as contas, como diria o engenheiro Guterres. E é a televisão dos 7 aos 77. Sucede que a nossa relação com os animais é muito marcada pela Disney, pela disneyficação da relação entre os animais. Os animais são bondosos, são bonitos, são redondinhos, não têm cheiro, não se comem uns aos outros, aqui no sentido literal.Se nós repararmos, mesmo quando o leão apanha a zebra, há como que uma mensagem que vem do programa: a zebra sacrificou-se para que o reino animal continue no seu equilíbrio.

Para que o ciclo da vida prossiga.

Exato, que é o equilíbrio, que se não foi Deus, foi alguém melhor do que Deus a impor. E o grande vilão disso tudo é os humanos, porque os humanos, não sei o quê, betão, cimento e poluição, e os animais vivem num mundo perfeito e idealizado. O David Attenborough, não sei se queres a minha opinião.

Tu não queres a minha opinião.

Há imensa oferta de programas de wildlife.

Vida selvagem.

Nos mercados de televisão. A Globo faz programas na Amazônia. Há imensa oferta, inclusive há oferta portuguesa, há documentários portugueses sobre as minas da Panasqueira e uma espécie qualquer de sapos que lá há.

Ou os cachalotes.

Estou a inventar. Os programas mais caros são aqueles com o David Attenborough, mas são mais caros por causa dele.

É um formato caro no geral, calculo. O tempo que é preciso gravar para ter material útil.

Viagens, a própria produção.

Só que se tu fores de uma televisão búlgara ou portuguesa e pensas: "Isso pode ter sido muito caro, mas quero lá saber do documentário sobre os cachalotes nos Açores, porque isso não vai ter audiências". O David Attenborough tem aquele extra que cativa o espectador porque o reconhece, é território familiar e a mediação, a forma como o David Attenborough sempre fez a mediação, sempre fez a ponte entre o espectador e aquilo que se está a passar, confere-lhe um estatuto que muito poucos, barra, mais ninguém tem.

Mas uma questão: estavas a falar do exemplo da SIC. Esses programas e esse horário está assim há anos.

Desde sempre, e tem ótimas audiências.

Acho que continua a ser o Eduardo Rega a fazer a voz?

Sim, acho que sim. Outras vezes outros.

Se continua, é porque é um sucesso, é porque tem boas audiências e vale a pena.

Sem dúvida nenhuma, sim a tudo. Mas as pessoas também estão habituadas a que lá esteja o programa, o que torna difícil para a concorrência vencer naquele horário, porque se as pessoas estão habituadas a ver aquele programa, as pessoas vão procurar ver aquele programa naquele horário. Se calhar em muitas famílias, fez parte e faz agora parte e fará parte no futuro do ritual familiar. O miúdo chega da natação às 11:00 e apresta-se com o papá a ver enquanto a mãe faz o almoço. Porque a nossa vida, apesar da ideia nos parecer chocante, é muito mais ritualizada do que às vezes vemos nas colunas de opinião dos jornais, sobretudo os portugueses. As pessoas gostam e precisam dos rituais e, a meu ver, não há mal nenhum nisso. Não há mal nenhum que a mãe prepare o almoço, ou o pai, ou a avó, não interessa. Mas ver documentários de vida animal é uma coisa que as crianças fazem com os adultos, porque aprendem e o pai explica.

E os pais sentem que fizeram um bom trabalho.

E esses programas estão filmados de uma maneira higienizada. Quando a leoa apanha a zebra, nós não vemos o esguichar de sangue.

Mas também não é giro.

Não é giro, mas é um bailado que faz parte.

Sim, aquilo é quase uma coreografia.

O Tiago explica às filhas: "Vêem, filhas, há a vida e há a morte."

Porque também parece um lado meio quase fixo. É como se não fosse real.

Exatamente isso.

Parece encenado.

Porque é um leão atrás de uma zebra. Quer dizer, se nós saímos à rua, não há leões, uma leoa, peço desculpa. Não existe. Portanto, essa distância parece que nos dá-

Porque também pode haver beleza na barbárie, não é, Tiago? Não queríamos chegar lá.

Sim, claro, com certeza.

De alguma forma, é uma tragédia, mas é encantador. Por que gostamos de ver algumas coisas que não são politicamente corretas, por exemplo?

Susana, só para terminar, uma pergunta que não estava minimamente no plano, mas que eu tenho sempre curiosidade. Imagina, vais ver, sentas no sofá e dizes assim: "Agora vou ver aqui vida selvagem". Qual é o tipo de animais que tu desejas que tenha nesse programa? Qual é aquele que tu gostas mesmo de ver? Porque há pessoas, por exemplo, que dizem: "Se for coisas no mar, eu não quero ver."

Não tenho problema com répteis. Há pessoas que não veem coisas com cobras. Eu tive um chefe que comprava religiosamente a revista do National Geographic e dava à estagiária para a estagiária ir rasgar todas as folhas que tinham cobras antes de entregar a revista.

A sério?

Sim. E uma pessoa que tu sabes quem é.

Ora bem.

Portanto, eu não tenho anticorpos com nenhum animal. Gosto de uma boa perseguição. Até porque a Maria falava da barbárie. Aquilo, às vezes, também, dependendo de como é que eles estão a fazer o documentário, há alturas em que tu estás do lado da zebra e com pena da zebra ter morrido, mas há alturas em que aquele editado parece que tu estás do lado do leão.

Mas isso é que também é humano.

Exatamente, porque era um leão bebê há pouco tempo e agora conseguiu matar o seu primeiro animal e teve um rito de passagem importante.

Ou que não se alimentava há duas semanas, ou seja o que for.

Ou porque a mamã precisava daquela carne, daquela zebra para não sei o quê. Portanto, aquilo também te põe a torcer ou não por determinado animal. Eu acho que nós não conseguimos ver quase nada de futebol, documentários de natureza, sem estar a torcer por alguém. Eu quando estou a dar os Jogos Olímpicos, eu estou a ver modalidades das quais eu não percebo nada, eu não sei que pessoas é que estão ali e eu arranjo por quem torcer.

Nem que seja a cor do uniforme.

O romeno tem um ar mais simpático, então eu quero que o romeno ganhe ao coreano. E eu acho que nós não conseguimos estar a ver sem estar a torcer. E este tipo de televisão também passa muito por isso. Respondendo à tua pergunta de maneira factual: pinguins.

Pinguins!

Deixa-me só dizer isto.

Mas é rápido.

É rápido. Estes documentários da vida selvagem são também um palco para exibir a inovação tecnológica. Uma lente que chega a um certo ângulo. Uma cor que não chega a um certo ângulo.

O drone.

O Attenborough começou a filmar com 16 mm. Acho que na altura foi uma coisa super revolucionária, que eles não queriam nada.

Com uma mão, enquanto com a outra manietava-

O seu crocodilo.

Muito bem. Final da primeira parte do "PopUp", voltamos depois de um curto intervalo. Até já. Ora, aqui estamos de regresso ao Pop Up com a Maria Ramos Silva, o Pedro Boucherie Mendes e esta semana com a convidada especial Susana Romana, já que o Bruno Vieira Amaral continua sem aparecer ao serviço. Um grande abraço para ele. Estamos aqui a dar os parabéns a David Attenborough. Como diz o Pedro, esperamos, não é? Que completa 100 anos esta sexta-feira, dia 8 de maio. E a propósito, estamos também a tentar perceber o que é preciso para fazer história enquanto figura da televisão. Susana Romana, eu explico isto de uma forma muito prática, como David Attenborough, apresentador de televisão, mas eu não sei sequer se é.

Sim, é um bocadinho mais complexo do que isso.

Pronto, mas é uma figura da televisão, não é?

Sim. E como o Pedro dizia há pouco, é uma figura determinante para tu escolheres ver aquele programa e não outro que podia ter características semelhantes.

Ora bem, dirias que ao longo da vasta carreira do David Attenborough, ele instituiu regras, ele deixou lições, há coisas que foi ele que terá definido de uma certa forma e que hoje em dia é boa ideia seguir, para quem queira fazer carreira disto?

Eu acho que ele ditou algumas regras de como é que se faz este tipo de programas. São regras que eu não sei se se vão manter depois de já não termos o David Attenborough, porque depois de não termos o David Attenborough, se calhar vai aparecer outra figura que muda a maneira como são feitos os documentários de vida selvagem. Eu no artigo para o site chamei que aquilo é uma espécie de slow TV, ou seja, aquilo demora o seu tempo. Obviamente que este demorar o seu tempo é mais ou menos forjado, ou seja, aquilo tem uma noção de ritmo de programa muito boa, mas dá-te ali supostamente alguma noção de tempo, de ser pausado, de estares à espera que algo aconteça, porque isso também te causa tensão, esse tal tempo de espera. Por isso ele faz uma espécie de uma slow TV. Ele não é particularmente entusiasta na maneira como fala. Aquilo é tudo quase a servir-te ali de um pano de fundo. Ele fala quase como se não quisesse acordar os animais, como se não quisesse que os animais percebessem que nós estamos a olhar para eles. É uma coisa muito pausada, quase doce.

Daí que às vezes parece que ele está, de facto, em todos os momentos, na savana.

Sim, porque às vezes ele parece que está a sussurrar, exatamente. Ele parece que está escondido atrás de uma moita naquele exato momento e não no estúdio.

Era esse sketch do Herman, não era isso?

Como fazia o Herman.

Sim, exatamente. Aliás, já não me lembrava disso, mas para o artigo relembrei-me que na altura da Eurovisão em Portugal, nós fizemos um sketch com o Herman a fazer David Attenborough, que causou uma grande escandaleira no Reino Unido, porque não se goza com Sir David Attenborough.

Uma vergonha.

Foi uma vergonha. Portanto, eu acho que ele, de alguma maneira, modelou aquilo que é o formato deste género de programas. Eu acho que a maior parte das pessoas ou tenta imitar. Eu agora não me lembro o nome dele, aquele australiano que depois acabou por morrer, que basicamente também agarrava nos animais.

Irwin, não era? Steve Irwin.

Sim.

Mas esse era um bocado...

Esse era mais Crocodile Dundee.

Exatamente. Ou tu vais para esse lado quase mais histriónico, Crocodile Dundee, estou aqui com os meus 15 amigos iguanas, ou esse lado quase mais sussurrante do David Attenborough, que eu acho que fez escola, um bocadinho também por causa daquilo que o Pedro dizia, que é aquilo que nós estamos à espera quando estamos a ver um programa daqueles. É um tipo de slow TV que se dá muito bem com uma figura do David Attenborough. Eu não sei se continuará quando já não tivermos o David Attenborough.

Até porque depois, se calhar, há também aquela coisa do respeito, não é? Eu não vou muito mexer com este formato por respeito a esta espécie de deus do género.

Sim, ele é uma figura de tal maneira importante que ele terá, calculo eu, os seus contratos e as suas regras muito bem blindados do que é que se faz e o que é que não se faz.

Exato. Maria Ramos Silva, queria perguntar-te o que te parece que é essencial para dizermos qualquer coisa como: "Ora, sim, senhor. Está aqui um apresentador." Lá está.

Para já parece-me que mesmo que ele falece entretanto, 99 já não é mau.

Não.

Portanto, acho que é uma marcadinha.

Todos nós podemos ansiar.

Não é?

Não, eu não anseio. Ok. Ter 100 anos. Não, 99. E quando digo apresentador, é figura da televisão.

TV personal.

Exato. No teu gosto, o que te faz vibrar e ficar com alguém na memória, alguém da televisão? Como é que se faz?

Vou dizer um lugar-comum, mas depende muito do formato. Se estamos a falar de um âncora, uma pessoa que faz entrevistas, para mim é fundamental que consiga cativar, mas por tu dares espaço à pessoa que recebe, o que nem sempre acontece e é difícil encontrar esse equilíbrio. Mas alguém que apresenta um programa, enfim, neste caso sobre vida selvagem, mas podia não ser. Eu acho que tu tens ali uma conjugação de fatores, mas há uma que será certamente uma coisa que não se explica, que eu não sei sequer qual é a formulação, que é o carisma, no fundo. É tu conseguires juntar ali uma série de ingredientes que têm humor, o estilo, o fato de seres uma sumidade na matéria, saberes daquilo que estás a falar, as pessoas empatizarem contigo. E há ali uma série de fatores, o Pedro saberá certamente melhor, que nós todos os dias vivemos, seja a ver o telejornal, ou seja a ver um programa de entretenimento, que é aquela coisa tão visceral quanto: "Não gosto da cara deste tipo, portanto, não acho muita graça ou não sei quanto." Esta questão da união ou da rejeição, às vezes não tem uma base muito científica.

Até porque nós não conhecemos as pessoas.

Exato, portanto, nós temos ali uma relação um pouco ambígua, cinzenta ou não, ou então apaixonamo-nos ferozmente por uma personagem e seguimos por esse caminho.

E é possível criar essa relação assim de forma rápida ou é preciso tempo?

Depende. Imagina, eu quando penso num referencial à nossa escala, nós temos o veterano Mojo Isidro, que também é uma figura absolutamente consensual, que tem 81 anos, respeitável, afável. Eu acho que seria aquilo mais próximo que nós encontramos quando pensamos em termos de longevidadeFísica, biológica, mas também no ecrã. E eu acho que toca nesses aspectos todos, mas é uma figura que nós conseguimos identificar. Eu acho que é muito aquela ideia do que o Pedro falava há pouco também de mediação, porque é um papel muito difícil. Tu não estás nem num campo, nem noutro. Tu estás precisamente a meio da ponte e consegues aproximar os dois lados. E nem toda a gente consegue fazer isso. Há pessoas que continuam a estar muito perto ou demasiado perto do público que está em casa a ver, ou demasiado imersos naquilo sobre o qual estão a falar. E esse equilíbrio de estar ali exatamente na posição certa é muito raro. Portanto, não te sei dizer exatamente. Para mim, eu acho que é muito essa questão de carisma. Ali qualquer coisa, sobretudo nestes programas de entretenimento, porque a informação tem outro tipo de contexto. Tu vez por tens uma prioridade de informar sobre algo. Mais imediata, mais pragmática, se quiseres. Agora, estás a passar o teu tempo de lazer com alguém, estás na companhia de alguém, tu tens, de facto, de criar uma relação de afinidade com aquela pessoa. Sobretudo quando, no caso do Attenborough, estás há 50 anos a vê-lo no ecrã, ou mais.

No meio da savana.

No meio da savana.

Posso só acrescentar muito rápido uma coisa a este raciocínio da Maria. Uma coisa, ao mesmo tempo, que eu acho interessante é essa tal proximidade que nós temos com o David Attenborough, que a Maria falava agora, sendo que nós não sabemos assim tanto sobre ele. Nós agora vivemos numa altura em que ser uma celebridade é o oposto disto. Ser uma celebridade é tu saberes tudo sobre a vida dessa pessoa. A biografia dessa pessoa é quase tão ou mais importante do que aquilo que ela faz. Eu não sei muita coisa sobre o David Attenborough enquanto pessoa, com quem ele é casado, com quem ele não é.

Nem é relevante.

Não é relevante, não sei muita coisa.

É viúvo, não é?

Calculo. Não sei, pode ter casado com uma garota de 20, mas não sei a vida dele.

É viúvo, tem dois filhos.

Pronto. Mas aquilo que é a biografia dele acaba por não ser assim tão importante para a opinião que tu tens dele. Eu estive a ver algumas entrevistas dele em talk shows enquanto preparava o texto, e ele vai aos talk shows falar sobre vida selvagem. Não vai dizer: "Aconteceu uma coisa muito gira quando eu entrei num hotel." Ele não tem esses genres de conversa, sequer em talk shows. E então é interessante como nós sentimos essa proximidade com alguém de quem nós, de facto, não sabemos muita coisa.

Pedro Balseiro Mendes.

Tantas coisas para dizer.

Sim, naturalmente, interessa-me o que tu achas disto, tu que não percebes nada disso.

O David Attenborough é um funcionário, creio que é uma palavra que na língua portuguesa, em 2026, tem uma conotação ligeiramente negativa. Mas, na verdade, ele é o funcionário. Eu não li o texto da Susana, mas calculo que tenha alguma informação que eu vou dar. Foi ele que inventou, por exemplo, a bola de tênis com cor, porque ele está ligado à introdução da cor na televisão inglesa e percebeu que na transição, naquela altura, principalmente para a cor, a bola branca não se via bem. Então esta bola amarela esverdeada, amarela fluorescente é uma criação dele, que ele sugeriu à malta do tênis. Para dar essa ideia. E ele foi ficando na BBC, depois às tantas começou a fazer programas, começou a gostar do lado de viajar, mas ele é um funcionário. Ou seja, ele não é e não foi, e terá sido essa a sorte dele, deixa-me dizer assim. Ele não assinou um contrato com os chocolates Cadbury para ser o rosto, essas coisas que ele podia ter feito, ou com a Fiat. O mais importante num apresentador de televisão que queira ter longevidade, é não hostilizar o público, é não criar instâncias em que o público se vira contra ele. Portanto, é não ser divisivo. Não sei se existe em Portugal. Divasivo?

Sim, claro que sim.

Nós temos em Portugal pessoas excelentes a fazer televisão, como por exemplo, a Cristina Ferreira, e que há muita gente que não perde a oportunidade de falar mal dela, sobretudo nas redes sociais. Mas ela é uma excelente apresentadora de televisão. Portanto, "Pedro, o que é que é uma boa apresentadora de televisão?" A Cristina Ferreira. "Mas eu não gosto dela, porque ela é isto, é aquilo, é loira, é morena". Mas isso não significa que ela não seja uma excelente apresentadora de televisão. Hoje é mais difícil ter uma carreira análoga à do David Attenborough, porque há redes sociais.

Isso cria mais problemas.

As pessoas que têm programas de televisão, têm acesso aos comentários, que nós poderemos dizer maldosos, se quisermos, que fazem acerca delas, coisa que o David Attenborough não teve. Por exemplo, ele começou a ser acusado de não ligar à emergência climática. Vamos partir do princípio que existe, para efeito aqui de conversa. Como sabes, há quem ache que é um disparate, e muitas das pessoas que estão no discurso público acham que não é um disparate, que temos que fazer qualquer coisa. E ele deve tê-lo percebido, já é uma pessoa de 90 anos.

Sim, as últimas produções têm muito esse lado.

E elogia já Greta Thunberg, por exemplo, em público. Não estou a dizer que ele está errado em elogiar, estou só a dizer que ele se aproxima daquilo que ele julga ser a maioria do pensamento que circula.

Que eventualmente também terá sido pressionado para isso, não? Dizemos nós.

Não, ninguém pressiona um homem com aquela altura.

Já ninguém pressiona o David Attenborough.

Aliás, é muito interessante esta questão do clima, porque depois nós temos os miúdos que são: "o clima", mas depois usam o ChatGPT por tudo e por nada, que consome brutalidades de eletricidade e, portanto, também é mau para o clima. Portanto, fica aqui só o parêntesis.

Diz-me só uma coisa, desculpe interromper aqui o teu raciocínio. Quando dizes que, além de todas as outras características, obviamente, ontem profissional e carisma, não hostilizar o público. Isso é válido para qualquer tipo?

Eu ia dar um exemplo em Portugal de uma figura que surgiu nos últimos anos e que vais achar inesperado. Confessa que vais achar inesperado.

Já estou a confessar.

Que tem três ou quatro características, já vou dizer o nome. Três ou quatro características que o tornam numa preciosidade, que é o Martins de Sousa Tavares, que é uma figura que surgiu há pouco tempo.

Sim.

E que não encontres ninguém que fale mal dele. Ele é muito popular, escreve livros que vendem muito, faz espetáculos ao vivo que esgotam, faz podcasts que são muito ouvidos. Eu nunca encontrei ninguém que fale mal dele, que diga: "É um chato." Nunca ninguém me disse: "O tipo é um chato." E isto é muito difícil de conseguir. Porque o Ricardo Araújo Pereira, eu diria que 90% do país adora, mas depois há 10% que acha que é um isto, é um aquilo, não tem graça. Joana Marques, a mesma coisa, que são personalidades muito fortes e que até têm um cachê muito mais alto, se nós fôssemos empresários de futebol, valem mais milhões do que o Martin. Mas o Martinho se não cometer erros, pode estar a apresentar programas aos 100 anos.

Muito bem, a gente já cá volta.

Ficaste surpreendido?

Sim, médio.

Confessa, Tiago.

Não, atenção, fiquei surpreendido, se calhar, porque não era o nome mais óbvio, mas compreendo e concordo.

Mas concordas com a escolha de Cristina Brilhante?

Tinhas pensado nisso, não é?

Eu penso em tanta coisa, Pedro, também não tenho tempo para tudo.

Um abraço ao Martinho.

Exato. Susana Romana, tu que escreves, entre outras coisas, para apresentadores e para figuras de televisão, e para as pessoas dizerem coisas na televisão. É um trabalho complexo.

Ingrato.

Escrever para uma pessoa. Não estou a falar de fazer um guião de um programa ou de uma série.

Sim, tentares encontrar a voz que é a voz daquela pessoa. Respondendo de outra maneira: é suposto ser. Tu em Portugal, dependendo, eu já escrevi programas muito diferentes uns dos outros, desde talk shows a concursos, já escrevi guiões muito diferentes para pessoas muito diferentes e a serem gravados em circunstâncias muito diferentes. E há programas em que tu tens o tempo e a oportunidade, e a abertura também do outro lado, para criares uma relação profissional suficientemente boa e próxima com o apresentador, em que tu consegues chegar àquilo que é a voz dele e a coisa flui da maneira certa. E às vezes também acontece, estás em casa, mandas um e-mail, um documento do Word em anexo para uma pessoa com quem tu nunca falaste, com quem nunca vais falar e que algures num estúdio de televisão lê aquilo que tu estiveste a escrever. Portanto, eu já passei por todo o gênero de experiências. Eu acho que o trabalho é melhor e que o resultado final é melhor quando a pessoa que está a escrever e a pessoa que está a dizer têm um entendimento. E acho que sim, que faz parte do trabalho de um bom guionista perceber que eu estar a escrever para a figura A não é a mesma coisa que eu estar a escrever para a figura B, e que a pessoa tem que se sentir minimamente confortável com aquilo que está a dizer, que ele tem que fazer sentido na cabeça dela. Não há sensação pior, pela qual eu já passei, do que estares a ver uma pessoa em público a dizer uma coisa que tu escreveste e perceberes que a pessoa não está a perceber nada do que está a dizer, não está a perceber a cadência da frase, está a ditar as palavras e não está a perceber nada.

E tu achas que as pessoas que não escreveram o texto vão perceber isso?

Não sei. Eu acho que não vão perceber no sentido em que a dona Lourdes não vai estar em casa a ver e a pensar: "Aquele texto, ele de fato não..." Mas eu acho que as pessoas vão perceber que se calhar não se relacionam com aquele conteúdo da mesma maneira. Acho que acabam por perceber.

Portanto, é preciso alguma diplomacia.

É preciso alguma diplomacia. A apresentadora com a qual eu tenho a relação de longe mais próxima, que escrevo praticamente tudo o que ela faz, a Filomena Cautela, que tem uma fama, acho que ela não se importa que eu diga isto em público, que tem fama de ter um feitio bastante exigente. E eu dou-me muito bem a trabalhar com ela. Nós trabalhamos as duas muito bem, temos uma relação de respeito boa, em que eu digo o que eu acho e ela também diz aquilo que ela acha e juntas chegamos a uma coisa que eu acho que resulta. Mas não é assim com toda a gente, obviamente.

Muito bem. Maria Ramos Silva, há aqui uma coisa muito interessante que tem a ver com a voz. No caso, por exemplo, do Attenborough, há aquele sotaque, há aquela cadência.

Sim, eu há pouco, quando falava da imagem e do carisma da imagem, acho que obviamente, e apesar de estarmos a falar de televisão, neste caso, a voz é fundamental, até porque também é muitas vezes fator de rejeição. "Ai, não suporto aquela voz, não vou ouvir." Também há muito isso.

Claro.

Acho que tens essa capacidade de cantar histórias ou encantar histórias, no caso de figuras como o Attenborough, porque tem esse efeito de Scheherazade e continuares a contar e conseguires que as pessoas te continuem a ouvir. Ele tem obviamente esse êxito, essa tal voz BBC. O sotaque ajuda, de alguma forma também a reforçar essa imagem de marca.

Mas em Portugal parece que toda a gente tem que falar como se fosse de Lisboa.

Em Portugal, na voz e na imagem, eu acho que felizmente nós também vamos caminhando. Não foi sempre assim, mas vamos caminhando também para uma maior diversidade.

Mudou muito, até em rádio mudou muito nos últimos anos.

Sim, na rádio nota-se a diferença.

Na rádio. E mesmo em termos de imagem, obviamente, nós temos estado a falar sobretudo de figuras masculinas. Eu acho que é interessante ver também qual é a margem de progressão para figuras femininas na televisão, porque normalmente por aqui costuma ser mais ingrato. Eu gostava que esse estigma também mudasse e fosse possível ir assistindo essa longevidade também no plano feminino. Mas acho que, de facto, é de louvar, porque conseguimos ir encaixando mais diversidade nessa exposição, nas pessoas que ocupam esses lugares. Mais novas, mais velhas, acho que as pessoas também não devem ser colocadas em segundo plano só por terem mais juventude. Quer dizer, isso não é necessariamente sinal de incompetência ou de não terem bagagem suficiente para ocuparem um papel. Portanto, acho, de facto, que devemos estar para lá disso e acho que em termos da imagem, que é obviamente indissociável ao trabalho em televisão, também temos conseguido mais exotismo, que é interessante.

Pedro, só para terminar, esta questão da idade. Eu lembro-me quando era garoto, as grandes figuras da televisão eram todas mais velhas. Hoje em dia, eu também sou mais velho, portanto, a televisão pode ser tocada por causa disso.

Tinha um ar mais sério. A roupa também, a forma como apareciam era outra.

A minha pergunta é se hoje em dia é mais difícil para alguém mais velho manter-se na televisão.

O que eu sei é que nos últimos 20 anos, querer ser apresentador de televisão passou a ser qualquer coisa que faz sentido na cabeça de algumas pessoas. Sei isto porque eu recebi incontáveis e-mails a esse respeito. Ainda ontem recebi um de duas jovens que fazem um curso numa daquelas escolas profissionais, não tem problema, e acham que têm jeito e talento. Depois eu discutia com um amigo que é muito difícil argumentar a favor ou contra quando as pessoas são médias. Já no "ídolos" era a mesma coisa. Ou seja, é fácil avaliar os muito bons, fácil avaliar os muito maus, extremamente difícil avaliar os médios. Aqueles alunos 3, 4. Pelo menos era assim, aqueles alunos de 13, 14.

Como eu, médios.

Tu queres ser apresentador de televisão. És péssimo? Não. És ótimo? Não. O papel do apresentador de televisão é mediar, é explicar: "Bem-vindos, vamos aqui a um concurso. Se te enganares na terceira pergunta, estás fora". E esse trabalho é um trabalho mais difícil de fazer do que parece, porque imagina que tu apresentas concursos na tua vida durante 15 anos consecutivos. Estás constantemente a dizer a mesma coisa: "Olá, bem-vindos. Tiago, és de onde?" "Sou de Albufeira." "Albufeira?"

E o desafio é não cansar quem te vê ao longo de 15 anos.

Mas ao mesmo tempo, não violar a expectativa. Porque aquela conversinha: "És de Albufeira?"

Estão à espera.

"Este ano a água estava fria, não estava?" E tu: "Estava".

Nós falávamos há bocado na brincadeira do Fernando Mendes, mas é isso que ele faz.

Sim.

Fernando Mendes não faz isso.

Não faz isso?

Não, Fernando Mendes não faz isso. O Fernando Mendes mete um véu de ironia e de humor que algumas pessoas captam e outras não captam. Porque o chamado povo também é malandro e percebe. O que eu estou a falar é na televisão mais normal, mais de linha.

O povo é malandro.

A televisão é tão importante, deixa-me só dizer isto, a televisão é tão importante que as pessoas deveriam receber instruções sobre a forma como se apresentam vestidas. A televisão é tão importante que evita as pessoas feias, por exemplo. Tu és um candidato para um concurso. Vou dizer uma coisa horrível, se fores feio, se calhar devíamos escolher aquele candidato que é o segundo melhor.

Eu acho que toda a gente tem um pouca noção de que é assim que as coisas funcionam.

As pessoas acham que o mundo é justo e indignam-se. Se calhar, ao ouvirem isto vão-se indignar.

Por isso é que nós estamos aqui.

Vão-se indignar e fazer queixa à SIC.

Esta questão da roupa, que é uma coisa relativamente de liberdade. Ninguém quer saber. Também é isso.

Para dizer que ser apresentador de televisão é muito mais difícil do que parece, porque tu não és tu. E tens que simular simpatia, ser amistoso, ser empático, ao mesmo tempo que vais pescando o olho às pessoas mais inteligentes para as pessoas acharem que tu não és parvo.

É um compromisso difícil.

Sim, é muito mais difícil do que parece. E é um trabalho, na minha opinião, muito mais aborrecido do que as pessoas pensam. Não é só coisas boas.

Não é só ser uma estrela.

Pronto. E não é só ser penteado e maquilhado. Mas é um trabalho como outro qualquer. Tomara as televisões terem dinheiro, digo eu, e com conhecimento de causa, para terem mais programas onde pudessem exibir os seus apresentadores e lançar outros novos. Tomara que isso fosse possível nas televisões.

Muito bem, meus amigos, chegamos ao final de mais um "PopUp". Já sabem, podem escrever-nos para popup@observador.pt. Sigam-nos nas plataformas de podcast. Nós voltamos, como sempre, na segunda-feira, com as sugestões da semana. Até lá.