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Eu tinha dois colegas, eram gémeos, o Nuno e o Adriano.

Um grande abraço para eles.

Que apareceram lá na escola, para grande infelicidade deles, com um molho de cromos repetidos. Eu disse: "Deixem-me levar para casa que eu depois trago os meus repetidos". E o resto vocês podem imaginar.

Esta é extraordinária. Sejam muito bem-vindos a mais um "PopUp", o programa que reúne estes três vultos da cultura popular que já mereciam um autocolante só deles. Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e Pedro Buchinho Mendes. Esta semana vamos falar precisamente sobre cromos, cadernetas e coleções difíceis de terminar. Meus amigos, não duvidem. Este é um dos grandes problemas existenciais dos nossos dias: os cromos da coleção do Campeonato do Mundo de Futebol que, ao que parece, estão esgotados por toda a parte. As pessoas querem fazer a coleção e não conseguem. É dramático. Mesmo tendo em conta que agora a coleção tem à volta de 900 cromos ou alguma coisa assim.

É isso.

Eu estive a ver, em 1970, quando começou, tinham 270 cromos.

Agora há mais equipas e é preciso fazer render o peixe.

Pois é. Além disso, cada carteirinha parece que custa €1,50.

€1,50, mas tem sete.

Ah, agora tinha sete?

Antigamente trazia cinco.

Ok, pronto, aí está. O que é um facto é que nós estamos aqui muito atentos a este, que é um evidente fenômeno pop. Não é de agora, já é há décadas, mas este ano a coisa está complicada e nós precisamos de analisar este tema. E vamos começar pelo nosso especialista nesta área e correspondente nas coleções, Bruno Vieira Amaral. Bruno, diz-nos do fundo de todo o teu conhecimento, o que se passa este ano? Há mais gente atrás dos cromos?

Parece que sim.

Tu estás a fazer esta coleção?

Eu estou a fazer esta coleção. Aliás, como já tinha feito a do Catar.

E acabaste a do Catar?

Não. Mas não faltavam muitos. Faltavam-me alguns. Como fiz também a do Euro 2008, ou seja, quando já não tinha idade para andar nestas coisas. Aliás, a do 2008 foi a primeira que fiz com o filho mais velho. E claro, foi mais por mim do que por ele.

Mas achas que é necessária essa justificação quando falas com amigos ou quando não estás num espaço seguro, dizes que é por causa dos teus filhos?

Não, os meus filhos é que estão a fazer. Eles estão entusiasmados por direito próprio. E eu este ano não estou tão entusiasmado como já estive.

Porquê?

Não sei.

Já chega.

Finalmente estou a crescer. Finalmente estou a atingir a maturidade. Mas tenho a impressão que existe mais interesse, mas já havia muito no último mundial, acho que houve também muita procura. Lembro-me de haver muitos pontos de troca e das pessoas irem lá nos centros comerciais, em vários sítios.

Mas quando dizes pontos de troca são coisas previamente combinadas? As pessoas já sabem que ali-

Claro, são lugares.

Desculpem, eu tenho que fazer estas perguntas.

Quando vais lá, levas os teus cromos repetidos e vais lá especificamente para-

Baixa era histórico, não sei se ainda fazem, mas ali na zona dos restauradores.

Houve. Aliás, uma das coleções, que agora já não me lembro exatamente qual, até acho que foi da Liga Portuguesa, que eu estive mesmo a acabar, porque eu nunca acabei nenhuma coleção.

Ainda vamos falar disso.

Nunca acabei nenhuma coleção, mas ali ficou a faltar um nessa coleção. E ia lá, aliás, eu praticamente consegui acabar essa coleção com essas trocas. Ia lá aos restauradores e de facto era relativamente fácil conseguir trocar e completar, ou pelo menos arranjar alguns que te faltavam. Mas esse sistema também não tem tanta piada. Tem piada quando já te faltam 10 e compras as carteirinhas e já só te saem repetidos.

Exato.

Mas há muita gente que logo, praticamente no início, começa a ir à procura daquilo que lhes falta ou que tira um bocadinho, quanto a mim-

A piada.

A piada.

O charme.

É, à coleção que é precisamente os nervos que tu apanhas quando começam a sair muitos repetidos e esperar que pela compra consigas completar o máximo possível. Mas acho que no último mundial houve uma verdadeira febre e acho que neste também se está a começar a ver. E os miúdos estão muito empenhados nisso. Ou seja, muitas vezes fala-se daquilo que estávamos a referir, de haver aqui também a participação ou se calhar o maior incentivo por parte dos adultos. E há um pouco um lado de nostalgia, mas também há um fascínio para os miúdos, porque isto é num universo, num meio praticamente só digital, em que eles tudo o que têm é digital, todos os entretenimentos que têm são sobretudo digitais. Isto continua a ser analógico.

Olha, isso é uma ótima dica para passar a bola à Maria Ramos Silva, até porque joga com o planeamento extraordinário que eu delineei para este programa. Maria, é este lado exótico, em 2026, que faz com que mais velhos e mais novos apreciem bastante esta coisa de autocolantes em papel, cadernetas analógicas, em vez de estarem a fazer outra coisa qualquer com um ecrã?

Também usam o ecrã para consultar, nomeadamente através dos grupos.

Fascina-me esta coisa de em 2026.

Ó Tiago, eu acho que é aquela velha questão-

Isto quando começa com ó Tiago é porque-

Da gamificação do mundo. Nós estamos a viver-- não é ganhar, é mais do que ganhar, é participar.

É o processo.

É o desafio, é o processo, é a surpresa, é a recompensa.

É abrir a carteirinha.

Abrir a carteirinha.

Por acaso é muito satisfatório isso.

É muito satisfatório.

E eu acho que neste caso-

O Pedro está a se arrebentar. Já lá vamos.

Já que ainda falamos da Panini, depois chegaremos a essa outra parte da passagem de testemunho, mas conseguiu fazer uma coisa prodigiosa, que é o que conseguem estas pessoas que lançam este tipo de processos. Lá está, que é mais do que criar clientes, criou colecionadores. E quando tu tens colecionadores, tens ali um investimento pra vida. Parecendo que não, o Bruno falou um pouco disso, tu vais comprando no âmbito dessa surpresa, mas depois a partir de certa fase, tens ainda a possibilidade de encomendar os que te faltam. E tens ali um sistema especial através do próprio site e da própria empresa. A verdade é que para tu completares a caderneta, em alguns casos, e há pessoas que já fizeram estudos sobre isso, as fórmulas, as equações todas, as estatísticas, podes ter que gastar 1.008 euros. Não é propriamente uma brincadeira muito barata. Mas eu percebo que haja esse entusiasmo. De fato, há uma nostalgia para quem já conheceu a coisa e sempre viveu a coisa. E depois eu acho que há este fenômeno que se estende a outras áreas. Nós vimos isso esta semana com a corrida aos relógios de bolso.

É verdade. Eu queria te perguntar-

Numa colaboração que nem sequer é limitada, portanto surpreendeu as próprias marcas envolvidas.

Dos relógios da Swatch, não é?

Sim, eu acho que envolve ali uma série de fenômenos.

Achas que te toca?

Acho que de certa forma, porque vai dentro dessa perspectiva também. Por um lado, a nostalgia de quem viveu, mas também o sentimento de uma nostalgia do que nunca foi vivido. Porque os cromos para um miúdo hoje é uma experiência em primeira mão, não é uma coisa usada. O pai ou avô pode ter falado disso, mas está a viver pela primeira vez a coisa. Eu acho que sim, eu acho que também tem a ver com a euforia das redes, tem a ver com esta coisa de tu participares, e de sinalizares que também estás a fazer, de teres uma história para contar. Tu de repente estás envolvido nisto e tens ali uma coisa para partilhar, eu também estou a fazer a coleção de cromos. E entras aqui numa grande história, como se estivesses num jogo permanente muito divertido. O caso particular, por exemplo, dessa colaboração ou de outras, envolve uma série de ramificações, como o processo de revenda. Porque há muita gente que vai comprar aquilo ou que dá um X dinheiro por aquilo já a pensar em revender e muitos deles já estão à venda em plataformas de segunda mão. Já é um mercado ligeiramente complexo. É provável que isso também exista nos cromos, não é, Bruno? Eu acho que as pessoas depois revendem os próprios cromos, as próprias cadernetas.

Aliás, se tu fizeres uma pesquisa na net, consegues encontrar à venda em diversos sites.

E aqueles históricos. Os do Pelé, de 58, não sei o quê, que estão milhões.

E as coleções completas, para mim, claro, mais importante a do Itália 90, mas encontras isso à venda por 500, 600, mais até.

Ó Tiago, e só uma nota extra, que eu acho que poderá justificar o interesse, talvez acessório neste ano. De certa forma, tu tens a pré-anunciada despedida do Messi e do Ronaldo. Não sei quando é que tão cedo, nem sei se voltaremos a assistir.

São cromos que vamos aparecer.

Olha, o do Neymar já desapareceu, não consta.

Não consta.

Não faz parte dos 20 cromos do Brasil e foi convocado.

Deixa-me só falar em cromos, falar aqui com o Pedro Boucher Mendes. Vamos dar seguimento a um tema que já abordamos aqui há poucas semanas. Há bocado perguntava isto aqui ao Bruno, mas eu quero saber tua opinião profissional, que é se isto dos cromos, se era uma coisa de crianças e já não é, se ainda é. Eu também tenho uma teoria que é, sendo que estas coleções começaram ali na década de 70, os que eram garotos e começaram na altura, agora são adultos e se calhar também há essa ligação e jogam com os filhos ou colecionam com os filhos. Não sei até que ponto há um lado emocional nisto.

Desde logo, e espantamo-nos que isso não seja mais referido, as pessoas têm muito mais dinheiro hoje do que tinham há 20 anos ou 30.

Verdade.

Em Portugal, nós continuamos, e muito por responsabilidade do jornalismo, com uma narrativa de pobreza, e o país é muito pobre, mas a verdade é que o país é menos pobre do que era há 20, 25 anos, felizmente, obviamente. E mérito de todos os políticos, todos os quadrantes, toda a gente. Não vou entrar por aí. E havendo mais rendimento disponível, permite que tu tenhas comportamentos dos chamados kid adults. Te metas na fila para comprar esse Swatch não sei o quê, Vaudermans Piguet.

Ia poder ajudar mais tecnicamente.

Compras Legos, que faças esgotar o Lego do Tintim. Há um prolongamento da juventude e da infância, no sentido de existirem troféus, que quando nós crescemos, quando somos miúdos, é importante ter a bola nova, porque isso nos permite subir na escala de valor dos nossos amigos. Quem tem a bola, quem tem as luvas.

Estrito de crédito.

Não sei se é assim que se chama. No meu tempo, ter a bola ou ter luvas guarda-redes era uma raridade. Era como hoje um miúdo sair à rua, sei lá com o quê, com uma camisola autografada pelo Ronaldo, uma raridade desse tipo.

No meu tempo era como alguém ter um Game Boy.

Pronto. Sim. Mas isto dos cromos Panini, e como outras coisas, estamos nos cromos Panini porque estamos à beira do mundial

É também uma espécie de corrida que é alimentada e prolongada pelas redes sociais. Porque tão importante como ter os cromos é poder fazer uma story ou um vídeo a dizer que já tenho os cromos. E nem sequer estou propriamente a criticar, embora eu ache um bocado irritante, os cromos não me dizem nada.

Nunca fizeste nenhuma coleção?

Com os meus filhos fui um sabotador de coleções. Meus filhos queriam fazer e eu: "Não, eu passei e estava esgotado". Porque é dinheiro deitado fora. Porque fui, como o Bruno, um iniciador de muitas coleções e nunca um completador.

É difícil acabar. Exato. Está feito assim.

Sendo que já quando eu era criança, eu sou do tempo, e alguns ouvintes vão se rir, do Sandokan e do Espaço 1999.

Ri por quê?

Estamos a falar dos anos 70.

Certo, mas não tem graça.

E já na altura havia o mito de pessoas que acabavam a coleção. E eu mais tarde percebi, ou intuí, ou concluí que se calhar era mentira. Porque essas coleções estavam sempre guardadas. Essas coleções terminadas.

Num cofre.

Na verdade, tu nunca as viste.

Numa arrecadação.

Não havia prova.

Estavam sempre guardadas para não estragar, porque o manuseio, antigamente manusear equivalia a estragar.

Era como os copos do serviço.

Era não se usava, exato.

E os livros: "Não mexas, não toques". Então essas pessoas que tinham acabado as coleções.

É verdade, mas isso que ele está a dizer é muito real.

Claro que é verdade. Eu acho que nunca vi uma coleção completada. E na minha vida, agora já querem falar sobre mim, eu fazia coleção com o meu irmão. E tu quando fazes uma coleção com um irmão, há sempre um dominante.

Certo.

Há sempre um que é mais. A coleção é dos dois.

A coleção é dele.

É dos dois. Nunca é dos dois.

Claro.

E depois, no meu contexto, também não havia-

Desculpa, era mais tu ou era mais dele?

Dele.

Deixo ao teu critério.

Do irmão.

E no meu contexto também não havia, e não lamento e não culpo ninguém, e o doutor Freud explica, mas não havia alguém que se deslocasse até ao Rossio, porque era naquela zona, Rossio, Restauradores, que se trocava.

Era ali ao pé da ABEP.

Pronto. Sim, por aí, acho eu. Nunca nenhum pai, tio, sobrinho, irmão mais velho, primo, foi lá trocar os meus cromos.

Se agora a ABEP soou mesmo uma coisa muito antiga.

Ainda mais velha que o Sandokan.

Entre Sandokan e a ABEP. É lá naquele restaurante.

Do Pinóquio.

Sim, onde um arroz de pato custa tipo 40 euros. Eu olhei pra lista no outro dia e fiquei arrido. Fiquei arrido, remalei aqui no chão. São outros 500. Só para voltar à questão dos cromos e das Paninis. Eu ainda sou do tempo em que os cromos tinhas que ter um tubo de cola ao lado e colavas, e depois ficava mal colado.

Exato.

Era uma chatice.

Depois passava pra folha de baixo.

E eu ainda sou do tempo em que alguns cromos eram pintados à mão. No futebol, imaginem a fotografia do Romeu, do Guimarães, com o equipamento do Sporting. Então tu pavias que era pintado.

Desculpa a minha ignorância, mas quando dizes Romeu, isso é tudo verdade?

Pergunta ao Bruno.

O Bruno saberá.

Nada disto é combinado, senhores ouvintes, mas a primeira coleção de que eu tenho memória do Campeonato Português, tinha o Romeu no Sporting.

Sim, exatamente.

Acho que é de 82, 83. É a coleção que eu tenho mais-

Aquela longa, os cromos longos ou a meia cor?

Isso já não me lembro.

Tu eras muito novo, Pedro. Tu lembras-te?

Estou te a dizer que me lembro do jogador, em particular do Romeu.

Era um centrocampista ruivo.

E por isso mesmo é que se destacava dos outros.

Não sei se sabes disso, mas eu gosto muito desse programa.

Dos outros cromos.

Mas tu perguntaste uma coisa qualquer.

Não, perguntei-te

É curioso que a palavra cromo em português vai ganhando outro significado.

É, e eu gosto muito disso.

Vamos falar na segunda parte, talvez, e que eu prefiro a palavra brasileira figurinha.

Mas o significado quando se usa o cromo nesse sentido, este tipo é um grande cromo, é isso, é uma figura, é um tipo especial, é raro, há poucos como ele, pra bom ou pra mal.

Vou passar a chamar cromo.

Eu não me importo. Será que teria sucesso cá a competir?

Cromossomo aberrante.

Isso também era muito anos 80.

Muito bem, rapaziada, chegamos ao final da primeira parte do "PopUp", voltamos depois de um curto intervalo. Até já. Estamos de regresso ao "PopUp" com a Maria Ramos Silva, o Bruno Vieira Amaral e o Pedro Bucher Mendes. Esta semana estamos a falar de cromos, coleções de autocolantes, cadernetas e o mundial de futebol, e não só. Bruno Vieira Amaral, como colecionador histórico que és, eu ia te perguntar que coleções lembras com mais carinho.

Lembro-me de várias.

Ou com mais desilusão.

Todas.

Com mais tristeza. Mas pelos vistos já percebemos.

Não, porque nunca acabei nenhuma.

Olha, devo dizer que só acabei uma coleção de cromos, pelo menos que eu me lembre, que foi a coleção de cromos do Roque Santeiro.

Também me lembro dessa coleção. Não, havia a do Tom Sawyer, dos desenhos animados. A primeira de que eu me lembro das grandes competições foi de 1982. Eu tinha quatro anos, mas o meu tio, que é cinco anos mais velho.

Qual é o nome do tio?

O meu tio é Quinjó.

Quinjó. Muito bem.

Eu já falei aqui do meu tio.

Um abraço.

O meu tio é a pessoa que mais percebe de futebol, mais factos.

Vamos tentar um dia trazer o Quinjó. Deve saber do Romeu, então, tudo.

Claro.

Certamente.

Um dia vamos tentar trazer o Quinjó aqui.

Ele pode confirmar que havia um fascínio com essa coleção.

Quinjó é Joaquim José?

Joaquim Jorge.

Joaquim Jorge. Desculpe.

Na minha família paterna têm todos diminutivos. Portanto, a tia Margarida é Guida, e por aí fora.

Tu não tens um diminutivo.

Não, eu não. Eu só sou Bruno. Ou então Nep. O meu tio chama-me Nep.

Nem Bruninho?

Não.

Brunão.

Não, também não. Nem mesmo ali na média.

Brunel.

Estamos em 1982.

Estamos em 1982.

Como é que não fazem uma caserneta com este programa, pelo amor de Deus?

Crómios não faltam. Em 1982, lembro-me bem dos crómios do Nara Rito.

Parece ser o meu ano. Ano fabuloso nesta parte de Espanha.

Tinha também os estádios desenhados. Se não estou em erro, posso estar a confundir com outra coleção que havia, que saía nas caricas da Coca-Cola, em que dentro da carica tu tiravas e aquilo ou trazia o Nara Rito ou o estádio, lembro-me do Camp Nou.

Era uma casinha de borracha.

Exatamente. Depois também houve em 86, com a seleção portuguesa, e eu dei mais atenção até a essa coleção do que à dos crómios. Mas lembro-me de um jogador em particular, Ramón Maradiaga, jogador das Honduras.

Grande nome.

Isto foi em 82.

De 82! Eu não me lembro de mais nada dessa coleção.

Porque eles levavam 10 a 1 da Hungria do Meszaros.

Exatamente.

Vocês são fascinantes.

Depois houve aquela coleção, que me lembro, do Campeonato de Portugal.

Deixa-me só dizer uma coisa. Nesse dia do jogo da Hungria 10.

Era El Salvador, não era Honduras.

O que é que aconteceu nesse dia, em Lisboa?

O Tolão.

Não, abriu o Frágil. Pronto.

Está aqui: Hungria 10, El Salvador 1.

El Salvador. Não, mas o Maradiaga era hondurenho.

Foi no dia 15 de junho de 82.

E para a vossa informação, a mulher dele chama-se Lesbi Vargas. É só para a vossa informação. Eu fui tentar confirmar que ele tinha mesmo existido e que não era produto da minha imaginação.

A mulher do Klaxon.

Aqueles nomes, Bilbao. Klaxon também tinha nomes extraordinários. Tinha o Butragueño de Begiristain.

Sabes o que é o Klaxon?

O detetive privado?

Claro, exato. Do grande António Cordeiro.

Eu pensava que era um jogador.

Não, eu gostava muito de ver o Klaxon.

Era excelente. O Rui Rininho entrou, acho que era o Mate das Maracas ou Mate Maracas, era uma coisa assim.

O Rui Rininho entrou no ano de 13 também.

Um abraço para o Rui Rininho.

E para a Teresa.

Fazia de DNA. Viste esse filme da SIC, claro.

Claro, foi o primeiro telefilme da SIC, realizado pelo grande Ricardo Espírito Santo. Um grande abraço para o Ricardo Espírito Santo. Voltando às coleções.

Estreou em 2000.

Lembro-me dessa coleção para 82, 83 do Campeonato Nacional e a seguir, ainda nesse registro pré autocolantes, ou seja, eu colava com verniz da minha mãe. Pecava nos vernizes da minha mãe para colar os crómios. E lembro-me do Djão, um avançado do Penafiel. Na altura, já estava no Penafiel. Djão, uma figura mítica, e depois fiz outras coleções do Campeonato Nacional, mas das grandes competições, a que para mim foi mais inesquecível e que vivi mais foi a de 1990, que é o Mundial, eu tinha 12 anos, e é o meu Mundial. É naquela idade em que tu vives as coisas do futebol com mais intensidade. Portugal não estava presente como tinha estado em 86, mas em 90 já não esteve presente. E um dos prazeres que nós tínhamos era de ver os jogadores dos outros países que jogavam em Portugal. Havia vários brasileiros, o Casovaldo, o Ricardo Gomes, creio que o Aldair, também o Branco, que era do Porto, os suecos do Benfica também. Creio que o Ricardo Rocha.

Também, que era do Sporting.

Que era do Sporting, também estava lá. E depois havia essa curiosidade. Na altura, eles ainda não esticavam ao máximo o número de autocolantes e havia, por exemplo, algumas seleções como a do Egito, que me recordo, em que um cromo tinha dois jogadores. Havia algumas seleções assim, agora eles já não fazem isso. Não fazem isso para ter os tais 900 e tal. Mas essa foi talvez a coleção que eu vivi mais, só para terminar mesmo as peripécias dessa coleção. É verdade que tínhamos muito menos dinheiro, havia muito menos dinheiro, mas havia sempre aqueles que tinham dinheiro para comprar montes de carteirinhas.

Compravam alguma caixa.

Eu tinha dois colegas, eram gêmeos, o Nuno e o Adriano.

Um grande abraço para eles.

Que apareceram lá na escola, para grande infelicidade deles, com um molho de crómios repetidos. Que eu disse: "Epá, deixa-me levar para casa que eu depois trago-te os meus repetidos". E o resto vocês podem imaginar.

Meu Deus!

Mesmo assim, não consegui acabar, apesar da generosidade do Nuno e do Adriano.

Maria Ramos Silva.

Felizmente não era Nuno e Henrique.

Olha, que estava mesmo ali.

Não te perguntei. Eu acredito que seja difícil ter memórias que consigam rivalizar com este tipo de coisa.

Não, mas por acaso tenho um exemplo recente.

Recente?

Não, eu digo recente porque é próximo, porque eu hoje vou sabendo destas coisas pelo meu sobrinho mais velho.

Ele coleciona?

Não, repara, quando não há dinheiro, há engenho. E ele há quelques meses parece que teve um momento clímaxico e decidiu de retirar imensos crómios dos colegas da escola. Então chegou a casa catrefado.

Retirar é sinônimo de fular?

É, depois acho que houve um puxão de orelhas, teve que haver aquilo tudo. Durante muito tempo ele ainda brilhou com aquilo.

Desculpa, tu és tia, não lhe dás uma notinha quando estás com ele? Mas não achas que uma notinha não dá.

Tu achas que isso chega?

Eu no outro dia tive a infeliz ideia de ir à papelaria e pedir 10 carteirinhas e depois com mais qualquer outra coisa, 20 €. E o quê?

Eu acho que aquilo nem era a coleção. Eu acho que já havia um sentido de visão até um pouco empreendedor, isso eu estimo, porque ele às tantasTrouxe e estava contentíssimo por ter cromos valiosos que nem sequer eram do clube dele. Então imagina, dei por mim num almoço de família com o Jokers em cima da mesa. Como deves calcular.

Jokers em cima da mesa.

Caiu, pronto. Não era a coisa que eu mais-

O tricampeão.

Pronto, mas ele explicou: " Mati, isto é um cromo muito valioso e interessa-me ter um cromo muito valioso". Parece que nas trocas agora se chega ao ponto de haver burlas. Acho que o Portal da Queixa já falou.

Sim.

Porque há muitos sites que se fazem passar pelas Paninis da vida e que dizem às pessoas-

É preciso ser muito loser para ir ao Portal da Queixa por causa de uma coleção de cromos. É preciso ser mesmo muito loser.

Ficámos aqui a minha nota ou está magoado?

Deixa-me só dizer uma coisa em relação às trocas. Antigamente era troca por troca.

Já não é?

Não, agora parece que os miúdos percebem o valor, a raridade do cromo e então dizem: "Está bem, eu dou-te este, mas deste me dá cinco".

E há uns dourados, e há uns não sei o quê.

No nosso tempo era um por um.

No meu tempo havia mitologias, não sei, o Bruno poderá confirmar, e a Maria, que: "Não, nesta zona não há Romeus". Tinhas que arranjar alguém que comprava emsezinhos.

Eu lembro-me disso.

Só falava mal.

Agora vou-vos contar uma história. Isto foi vivido na primeira pessoa. Quanto vou dizer que eu tinha? 15. Exatamente. Foi antes do mundial de 94, trabalhei num café e os cafés tinham também as carteirinhas. Eu acho que aquela coleção do mundial de 94 não era da Panini. Não sei se houve uma da Panini e outra de outra empresa, mas aquela que eu fiz não era da Panini, isso recordo-me bem. E eles então recebiam uma caixa, um recipiente com os cromos. E aquilo tinhas prêmios dentro das carteirinhas de vez em quando.

Uma bola e não sei o quê.

Uma bola, pronto. Então o que é que acontecia? Quem achava que isto funcionava de outra maneira, eu peço imensa desculpa, mas vou-vos contar a verdadeira história. É que aquilo vinha no fundo da caixa, vinha colada a carteirinha premiada.

Ah, ok.

Vinha colada. Ou seja, o dono do estabelecimento comercial sabia onde é que estava o prêmio. Só vinha uma.

E só a punha lá se quisesse.

Claro. E o meu patrão, como pagava muito mal, resolveu oferecer-me.

E tu recusaste, claro.

Não, eu aceitei, obviamente. Aceitei. Não só aceitei, como me comprometi a vender essa carteirinha, que eu sabia premiada, ao Carlos Comunista, que era varredor da Câmara da Moita. Mas depois, perante uma oferta superior.

Carlos Comunista.

Carlos Comunista, toda a gente conhece lá no bairro, já falecido. Perante uma oferta de valor superior, eu traí o Carlos Comunista e vendi a carteirinha premiada a outro tipo. Por 500 escudos.

Já viste a quantidade de pecados que tu cometeste à conta de cromos na tua vida?

É verdade, mas não me arrependo.

Não tens de te arrepender.

Fiquei porque ele ficou mesmo desiludido comigo e foi dramático. Ele era Carlos Comunista porque tinha o cabelo branco.

Era por causa do cunhal?

Claro. Era relativamente novo e tinha o cabelo branco.

Temos algum tempo.

Como assim? Vá em frente.

Eu sou de um tempo em que as coleções de cromos eram uma espécie de substitutos das enciclopédias e agora da internet. Bandeiras do mundo, grandes batalhas.

Estive a uma bandeira de acabar essa coleção. A do Mónaco.

Sim. Animais não sei o quê.

Sim.

É verdade.

Automóveis.

Confirmo. Também fiz a de automóveis antigos.

Mas as favoritas eram as da televisão.

Havia do Justiceiro, não havia?

Sim, especialmente do Espaço 1999, que eu acho que houve várias, houve pelo menos duas coleções, creio eu. Uma certamente era a cores, mas a série era a preto e branco. E isto vai parecer Cinema Paraíso, não sei o quê. Mas nós ficávamos a olhar para os cromos e literalmente víamos os personagens a mexer.

Certo.

Obviamente, os cromos são fotografias estáticas.

São estáticas.

Mas víamos aqueles personagens, a nossa imaginação fazia o resto. E esse prazer, essa fruição, é uma coisa que acontece na infância e é uma das razões porque eu tenho alguma dificuldade em entender porque é que um adulto hoje faz uma coleção de cromos, porque suponho eu que já não exista o mesmo tipo de relação.

Mas se calhar existe.

E a cena vintage vai aumentar.

Dependendo da pessoa.

A nostalgia, não sei o quê.

Do clique com a passagem para a Topps, porque é esse detalhe importante. A partir de 2030.

2030, que é o mundial que passa por Portugal, será o último da Panini.

Exato. E a FIFA terá feito um novo acordo.

Fez um outro acordo.

Este é o último mundial da Panini ou o próximo?

Não, o próximo ainda é. Depois de 2030, ou seja, 2034, é que já será supostamente da Topps, que está mais associada na sua origem aos cromos de beisebol, na verdade.

A ficção americana está cheia de cromos e vendem imensos.

Sim, fazem um sucesso.

Mas para o consumidor isso vai fazer alguma diferença?

Não, só para te explicar que a questão do negócio, portanto, do volume de mercado, mas também da analogia, supostamente vai ser ainda mais reforçada, porque um dos planos que eles têm é, para além de continuarem a fazer este tipo de cromos físicos, é introduzirem uma coisa que são os jersey patches, ou seja, eles vão vender, supostamente, tu vais poder colecionar partes de equipamento de jogos oficiais. Portanto, imagina o nível que isto vai atingir em termos de valor. Ou seja, uma coisa que parece um pouco anacrônica, na verdade, está a ser absolutamente explorada.

Faltou falar de uma coisa, acho eu. Pelo menos eu queria ter falado.

Fala.É um mundo masculino. Ou era.

É uma boa pergunta. O que vocês acham?

Quando nós éramos rapazes, eu não creio que nenhuma rapariga fizesse coleção de cromos de futebol.

Não, de futebol, mas havia mais coleções.

Sim, claro.

Mas agora eu vejo pelos meus filhos, os mais novos estão os dois igualmente entusiasmados. Portanto, é um rapaz e uma rapariga.

E não é por aí.

Sim, o rapaz conhece um bocadinho mais.

Alegadamente.

Alegadamente. Conhece um bocadinho mais o jogador. Eu tinha essa mania de ler as cadernetas para depois ir ter com os meus amigos e saber os 20 jogadores do Uruguai.

Tu fazes ideia se hoje há de futebol feminino, por exemplo? Não sei se haverá se calhar, mas tens miúdas a jogar, o segmento mais se desenvolveu, se calhar há um interesse.

Podemos fazer a sondagem possível neste estúdio e perguntar à Maria se ela foi uma grande colecionadora ao longo da sua vida ou se nem por isso.

Eu tinha aqui um pouco a experiência do Pedro. Era quase sempre uma coisa a dois com o meu irmão, portanto eu não sei bem quem é que começava, quem é que ia mantendo e quem é que andava.

Quem é que era o dono.

Sei que ainda tenho muitos cromos espalhados.

Ainda tens?

Tenho muitos cromos espalhados algures por casa dos meus pais.

E era de futebol, sobretudo?

De tudo. Eu lembro-me depois da fase dos Tazos e de coisas mais de televisão. Dos Toos. Mas muitos de futebol. E é muito engraçado, porque mais uma vez, os meus filhos, incluindo o mais novo, acham imensa graça a ver cromos de jogadores que já não jogam há 30 anos e acham aquilo fascinante e decoram os nomes e de repente está-te a debitar elencos do antigo.

Mas isso é interessante.

Mas aí já é uma coisa mais bodybuilding.

Eu e o Bruno falámos sobre isto muito pouco tempo antes do programa, que é até que ponto este tipo de coleções influenciam ou são resultado de. Mas a primeira parte, influenciam a relação com o futebol. Porque se calhar a relação com uma caderneta de um campeonato do mundo tem algo mais, tem esse lado futebolístico. O que é que pode mudar?

Eu acho que a caderneta seria transversal para essas gerações que faziam a coleção, mas era um produto especialmente apreciado pelos cromos de futebol. Ou seja, não aqueles que jogavam mais à bola e que tinham mais jeito, mas por aqueles que gostavam de saber muita coisa sobre o futebol.

E era uma forma de tu veres e conheceres os jogadores que agora tens 1001 formas, mas na altura não tinhas.

Eu lembro-me que ligava muito mais às cadernetas do que alguns amigos meus que jogavam à bola e lhes interessava o futebol mais do que a mim, nesse sentido. E depois havia um lado exótico, é verdade. Hoje temos 48 seleções e há algumas que são francamente exóticas, por exemplo, Curaçau. Eu não conheço nenhum jogador de Curaçau.

Acho que nenhum nasceu em Curaçau, acho que é uma coisa assim. Nas Holandas, sim. Países Baixos.

Em relação às cadernetas de 1990, não é preciso recuar mais. Praticamente todas as seleções, a maior parte dos jogadores, à exceção de dois ou três, jogavam nas ligas nacionais, nos campeonatos nacionais. A maior parte deles, tu não os conhecias, eram nomes muito distantes. Claro que havia as estrelas e uns que já jogavam no estrangeiro ou que jogando nas suas ligas já eram muito conhecidos, mas havia um lado também exótico de descobrires clubes e nomes de jogadores muito estranhos. É verdade que agora vai mudar um pouco com este alargamento para 48 seleções, mas atualmente praticamente todos os jogadores de todas as seleções, de alguma forma ou de outra, são conhecidos ou são reconhecidos pelo público que acompanha futebol, porque jogam nos principais clubes europeus ou sul-americanos, mesmo aqueles que jogam na América do Sul são conhecidos e já não há tanto aquele fascínio exótico de descoberta de jogadores. Já não há Maradiagas. Ou se calhar, agora passa a haver alguns desses jogadores mais fora das grandes ligas que ainda existe esse interesse, mas eu acho que, sobretudo o fascínio que vinha das coleções das grandes competições, passava muito por aí. Para além de teres tido em 1992 uma coisa que era a comunidade de Estados independentes, a CEI, que no Europeu já não havia União Soviética e ainda não era a Federação Russa.

Foi ali uma fase de transição.

É o tempo do Belanov? Não.

Eu acho que Belanov ainda joga nesse.

Não, o Blokhin.

Quando se começa a falar em anos.

O Belanov de certeza joga em 1986.

Belanov.

Em 92, Kachael seguimos talvez. Já seria essa fase.

Sim, muito bem. Só para terminar.

Mas eram só oito seleções no Euro.

Pergunta muito curta. Pedro, estás entusiasmado com este mundial de futebol que aí vem?

Não.

Pronto, sim senhor.

Porque lá está, excesso de seleções.

É gente a mais.

Sim, os horários são heterodoxos.

É meio de madrugada, um bocado.

Mundiais com Portugal não são muito a minha cena, como se diz nas ruas, nunca se diz na rádio, porque o nosso jornalismo veste a camisola e põe o cachecol. E isso perturba a minha adesão, digamos assim, um problema meu, obviamente.

Existe aquela regra excecional. Que a seleção sempre tem um pouco isso.

Não, porque, por exemplo, o jornalismo espanhol é muito exigente com a seleção. Nós não.

Mas torce-se.

Não sei se torce, não sei mesmo. Eu não me importo, obviamente, que os jornalistas portugueses torçam pela seleção, mas de uma forma geral ficam muito excitados e Portugal é favorito e estamos aqui na concentração e Portugal é favorito.

Sim, isso acontece muito.

É muito irritante.

Isso no jornalismo desportivo em Portugal acontece muito. Eu que há uns tempos estava a dar a transmissão dos jogos da seleção de andebol e mesmo eu, que até tolero um pouco essa adesão às seleções nacionais, achei que aquilo ultrapassava um bocadinho as marcas.

Porque se Portugal merecer perder, não vale a pena dizer que foi injusto.

Vamos lá, rapazes! Só falta mais um.

Vamos lá, cambada, é assim que se diz. Muito bem, cambada, final de mais um "PopUp". Já sabem que podem seguir-nos nas plataformas de podcast e escrever-nos para popup@observador.pt. Nós voltamos na segunda-feira com as sugestões da semana. Até lá.