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Sejam muito bem-vindos a mais um "Pop Up" neste que é, eu tenho a certeza absoluta, o episódio mais esperado do ano. É aquele em que regressamos do descanso do verão, lindos e maravilhosos como sempre. Como em agosto também acontece muita coisa, aqui estão os do costume: Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e Pedro Buzferrimendes, para a conversa que importa nesta altura. O que se passou enquanto estivemos fora? Passou-se muita coisa. Até porque não estivemos, de facto, fora o tempo todo, nem todos. Maria Ramos Silva, ela a rir-se especialmente para mim. Portanto, a missão deste programa da rentrée, com sotaque francês, é discutirmos aqui aquilo que de mais marcante foi acontecendo ao longo das últimas semanas. E por falar em marcante, vamos começar pelo Pedro Buzferrimendes. Pedro, bem-vindo de volta, é bom ver-te. Continuas bonito, elegante, inteligente.
Sem mais velho.
E de esquerda. Estou a brincar. Queres começar, ou pelo menos eu quero que tu comeces, pela Dolly Parton. Dolly Parton que morreu há quê? Duas semanas, podemos dizer, mais ou menos? Estás a rir de quê? Não tem graça.
Não, não tem graça. Tem graça a maneira como tu disseste. Eu achei graça.
Mas é verdade.
Vamos falar da Dolly Parton.
Exato. O que queria perceber, não sei se queres falar do seu contributo para a cultura mundial enquanto estrela da música country e não só, ou se é uma conversa um pouquinho mais abrangente. Queres ir pronto.
Saudando os nossos ouvintes.
Exatamente, muito bem.
Referindo que estamos a subir no top dos podcasts.
Ora, cá está. Matéria que interessa, sim senhor.
Não sei se te interessa a ti.
Claro que me interessa.
E com muitas mensagens de ouvintes.
Eu vivo disto, meu amigo.
Muitas mensagens? Essas eu não recebo.
Quer dizer...
Vão só para ti.
Algumas. Recebi mensagens, comentários aos programas que foram emitidos durante o mês de agosto, porque nós não estávamos cá.
Uma seleção criteriosa.
Exato. Que não passou por nós.
Passou, e com prefácios muito bem feitos e muito bem gravados.
O repto para este primeiro programa da parte final do ano de 2026 era: o que é que aconteceu em agosto que mereça a pena ser referido?
Ora, muito bem.
Morreu Dolly Parton. Como sabes, eu tenho a mania que sei tudo.
Claro.
Aliás, não só tenho a mania, como existem algumas provas de que de facto eu sei tudo. Eu fiquei bastante surpreendido, para não dizer que fiquei muito surpreendido, com a importância cultural e social de Dolly Parton para os americanos. E estou a incluir as elites. Portanto, Dolly Parton, para nós, era uma cantora country de busto avantajado e cabeleira loira. Uma senhora com ar simpático, que não víamos muitas vezes, porque ela fez poucos filmes. Fez uns sete ou oito filmes no total.
Sim, poucos.
Desculpa, mas de facto falou-se pouco. Eu lembro-me quando era miúdo, falava-se muito da Dolly Parton.
Por causa do busto.
Dos seios da Dolly Parton.
Era transformada, de alguma forma, em piada.
Sim, e ela própria nunca fugiu do tema, mas na hora da morte de Dolly Parton, esse assunto foi mais ou menos arrumado.
Pronto, tens percente.
E em podcasts insuspeitos que eu oiço, enfim, imagino eu sobre tecnologia ou sobre estas coisas novas das inteligências artificiais, em muitos casos, o episódio do podcast começou com uma homenagem a Dolly Parton. Ou seja, aqui a minha primeira conclusão é que ainda existem figuras que permanecem domésticas, mas essa domesticidade, não sei se é assim que se diz, é muito forte, é muito pesada. Por exemplo, fiquei a saber que Dolly Parton tinha um parque de diversões, como uma Disney, um Dollywood, que é uma coisa no Tennessee.
Como uma Dolyland.
Acho que é Dollywood. É no Tennessee, portanto tu vais lá, andas de montanha-russa.
Olha, apreciável.
Comes Smoky Mountain comida.
Bem bom.
Ouvves música country. E que ela tinha um serviço de livros, que eu não percebi bem como funciona, mas que pelos vistos chegava a casa das crianças americanas através do correio, todas as semanas ou alguma coisa do gênero, um livro. Portanto, ela era fortemente benemérita e é responsável por muitos americanos terem começado a ler ou ficado com o hábito da leitura, que é um hábito saudável, como sabemos. Portanto, mesmo nas redes sociais, pessoas anónimas, que eu não conheço e que estão no meu feed, não sei bem porquê, nos Instagrams e naquela coisa, como é que se chama aquela do Instagram que quer fingir que é o Twitter? O Threads.
Sim.
Mondos de pessoas saudando: "Foi graças à Dolly Parton que eu recebia livros". E é de facto extraordinário como nós, apesar de acharmos que o mundo está globalizado, sabemos tudo e os fenómenos, ainda somos surpreendidos, ou pelo menos eu sou, com figuras que eu não fazia a menor ideia da importância social, política e cultural da Dolly Parton, que morreu aos 80 e pouco.
80.
Portanto, 80, nos norte-americanos, incluindo as elites, mais elites. Pronto, é isso.
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Muito bem, Maria Ramos Silva, tu também queres fazer aqui uma referência à Dolly Parton antes de avançarmos?
Sim, saltar. Até porque eu acho que subscrevo esta ideia do Pedro. Acho que a Dolly Parton traz aqui à mora uma ideia do passado, que muitas vezes era desconhecido pra nós. Mas uma coisa ainda mais interessante, e que eu também descobri nesta fase de morte da Dolly Parton, é que a senhora não só trabalhou até o último dos seus dias, como deixou totalmente decidido aquilo que vai ser o futuro da sua marca a longo prazo. E portanto, só pra vocês terem uma ideia, segundo revelou o empresário de longa data da Dolly Parton, o Danny Noza, está previsto coisas como: um espetáculo com o avatar da Dolly Parton, um documentário sobre o musical para o início de 27, uma cinebiografia, uma série de ficção, outra de animação, bonecas Dolly Dolls, a abertura de um museu e de um hotel. Portanto, é mesmo vai buscar. É absolutamente extraordinário como é que alguém, que obviamente também sabe que tem um fim previsto, ela sofria de câncer, portanto, não seria propriamente uma notícia que apanharia toda a gente de surpresa. Mas houve esta preocupação em cuidar da marca da Dolly Parton pra lá do fim da Dolly Parton. Já nem estou a falar, que acho que há uma canção qualquer, que está guardada e que só pode ser depois revelada lá pra 2050, essa coisa. Eu acho absolutamente extraordinário que, de facto, durante muitos anos, mesmo pra nós, aquilo que chegou sempre, de uma forma mais evidente, era um traço físico absolutamente saliente, e ela assumia isso. Aliás, a Dolly Parton tinha uma fase extraordinária que era: "It costs a lot of money to look this cheap." Dá muito trabalho, de facto, ter aquele ar.
Aquele aspecto marrasca.
É. E eu acho que durante muito tempo, antes de nós abençoarmos aqui enquanto estas tribos urbanas mais indie, que acham graça a estes fenómenos kitsch. Mas a verdade é que ela foi só uma estrela da country pirosa durante muitos anos pra nós. E afinal, era uma trabalhadora incansável, uma mulher que tem um papel absolutamente decisivo, como o Pedro dizia, na história da América, lembrada de alta a baixa, até o presidente dos Estados Unidos.
E que disse não a Elvis Presley, por exemplo.
Pronto, já nem vou chegar a isso. Ou seja, ela, de facto, correu em pista própria, fez o seu caminho e deixou a garantia de que outros caminhos seguirão depois disto, o que é pra mim absolutamente extraordinário enquanto artista.
Por falar em caminho.
Que é o "I Will Always Love You", da Whitney Houston, é da Dolly Parton.
Sim, que muita gente também não sabe, que é extraordinária.
E o Elvis quis gravá-la, mas quis metade dos direitos.
Eu acho que muita gente-
E ela disse não
...muita gente ficou a saber que a Dolly Parton era compositora com essa canção. Porque não se tinha a ideia. A Dolly Parton é um fenômeno americano e que chega à Europa, pelo menos a Portugal, chega muito pelas suas participações no cinema, não tanto pela música. Acho que nunca foi um grande sucesso musical em Portugal. E a partir desse momento, dá-se noção de que a Dolly Parton, afinal, era mais do que a imagem da Dolly Parton e a voz da Dolly Parton. Era compositora. Aliás, ela começa como compositora. E depois há uma tentativa de a transformar numa estrela pop. Ela canta umas canções fora da country nos anos 60 e então finalmente deixam-na cantar canções country e ela compôs 3 mil canções. E eu acho que na Europa, de facto, nunca tivemos bem noção do estatuto e da dimensão da Dolly Parton.
Por falar em estatuto, voltando aqui à Maria Ramos Silva, uma referência também a um acontecimento das últimas semanas, e que continua a ter desenvolvimentos, que é o John Galliano Gate.
Sim, e por que eu elenquei, cruzei aqui com a Dolly Parton? Porque há quem já tenha lembrado, e eu penso com grande oportunidade, que perante o afastamento, esse inverter de marcha, digamos assim. Bom, para resumir, o Met tinha decidido, anunciado há dois meses que o John Galliano ia ser o centro, uma retrospectiva do designer, ia ser a âncora da grande exposição da primavera no Met, que depois está ligada à Met Gala, o grande evento de moda do ano. Bom, o que acontece? O John Galliano é, de facto, um gênio criativo na moda, tem um historial absolutamente inquestionável, só que depois tem também um lado muito sombrio, como outras figuras da moda, e não só.
É como nós.
É como nós.
Ora, oras.
Humanos, pessoas terra a terra.
Pessoas humanas.
Nós temos um lado oculto.
É verdade. Só que o lado dele não ficou assim tão oculto. Em 2011-
Esse é que foi o problema
...numa esplanada, parece que ele disse que adorava o Hitler e insultou assim umas pessoas.
Desagradável.
Umas tiradas muito antissemitas e desagradáveis com os asiáticos também. Enfim, ele tem ali uma série de coisas que não gosto muito. Há de ter cumprido ali a sua pena. Valeu-lhe inclusivamente o afastamento da Dior na altura, portanto, ele ficou sem trabalho. A verdade é que nos últimos anos essa reabilitação tem vindo a ser feita. Ele voltou a trabalhar, tudo mais Tem uma coleção agora para sair com o gigante do consumo, a Zara. É uma coisa com toda a pompa. A Anna Wintour, que é uma senhora que supervisiona a Met Gala e que é muito amiga dele, o que pensou? "Isto é uma ótima ideia para lhe darmos este protagonismo" e eventualmente, parece-me que essa intenção é legítima, por ali em discussão esse duelo entre o talento artístico e este passado mais sombrio.
O homem e a obra.
Pronto, só que o que acontece? O Met esqueceu-se que boa parte dos seus patronos e das pessoas que de alguma forma-
Não gostar.
Não, há ali um peso evidente da comunidade judaica, e não era preciso ser judaica. Há ali pessoas, de facto, que investem o dinheiro e que não gostam deste tipo de-
Não querem estar associadas.
E que não querem, acham que não é boa altura, ainda por cima, porque o privilégio que o Allan teria, ele seria apenas o terceiro designer vivo a ter direito a esta retrospectiva, porque é o Met, não é propriamente um museu de esquina. E portanto, acabou por ser tudo cancelado. Claro que nós podemos discutir se faz sentido não ser cancelado, mas se faz sequer sentido anunciar logo de início este projecto. Onde é que chega aqui a Dolly Parton? É que já houve pessoas a lembrar na internet, e eu de alguma forma acho que seria uma genial ideia, porque vai ser muito difícil encontrares aqui um plano B, para uma exposição que tem que ir por diante até à primavera. E a Dolly Parton é, no fundo, o gol de baliza aberta. É uma figura com esta dimensão que nós já falámos.
Consensual.
Ou seja, é uma pessoa que já está morta, já não se vem queixar de ser plano B. É verdade.
E tem aquele lado muito interessante que é ela artisticamente.
Do ponto de vista estilístico, tudo.
Tradicional e conservadora à América, mas depois é muito associada ao Partido Democrata e a toda essa ala menos conservadora politicamente.
Há uma série de facetas que podiam ser exploradas, dos looks ao impacto cultural. Acho que do ponto de vista de inspiração, porque essa retrospectiva, por regra, inspira o tema dos looks na Met Gala. Acho que há, de facto, imenso potencial. Não sei se terão isso. Sei que eles têm, para já, uma dor de cabeça para resolver, que é o que é que vai a seguir depois deste cancelamento. E é uma ideia, só que-
Vamos ficar aí para ver
Ficaria bastante entusiasmada com essa ideia.
Muito bem. Bruno Vieira Amaral, ainda temos tempo, ou como se diz profissionalmente, tempo ainda para-
Dirigi a outro morto.
Tim Curry.
Tim Curry.
Que também nos deixou.
Também nos deixou. É um caso curiosíssimo. Se nós olharmos para a filmografia do ator, é fraquíssima. Olhas para os filmes que ele fez, o que é que tu te lembras?
"Sozinho em Casa 2".
"Sozinho em Casa 2".
Esse é o primeiro que me lembro.
"Os Três Mosqueteiros". O Tim Curry fez muito teatro, muitos musicais. Fez também muitas vozes para animação.
Sim.
Trabalhou muito nessa área. Não é por isso que nós o conhecemos. Até porque cá nós dobramos e algumas das coisas que ele fez, claro, foram dobradas depois em português, portanto não o conhecemos dessa faceta. Mas o pouco cinema que fez, em particular, claro, o "Rocky Horror Picture Show", que se tornou um filme de culto, fizeram do Tim Curry um ator com uma dimensão muito superior, ou com uma personalidade com uma dimensão muito superior à filmografia dele ou à qualidade da filmografia dele. Ainda que nos lembremos desse pequeno papel no "Sozinho em Casa 2", e como o Cardeal Richelieu nos "Três Mosqueteiros". De facto, ele tinha um carisma que superava muito os filmes em que entrou e as personagens que fez. E a partir dos anos 90, ele fez muito pouca coisa que tenha ficado para a memória. Acontece que eu, ano passado, ou ainda no início deste ano, já não sei se foi no final do ano passado ou início deste ano, li uma entrevista do Tim Curry a propósito do lançamento do livro de memórias dele. E a entrevista é, de facto, muito boa, é uma entrevista de vida. Ele tinha sofrido um AVC em 2012, por volta disso, e tinha ficado bastante incapacitado, ou seja, com muita dificuldade para voltar a trabalhar, ainda que tenha voltado a fazer algumas coisas, mas já não no mesmo ritmo. E depois de ler essa entrevista, vi finalmente o "Rocky Horror Picture Show", que nunca tinha visto, e que se tornou esse filme visto nas sessões da meia-noite, e que tem uma legião de fãs verdadeiramente inacreditável, e que eu acho que foram eles que impulsionaram um pouco também o culto à volta da personalidade do Tim Curry. E depois destas pesquisas, a propósito da morte dele, claro, o algoritmo começou a bombardear com coisas, sites de homenagem, páginas de homenagem ao Tim Curry, com muitas entrevistas. E ele era, de facto, fascinante nas entrevistas que dava. E eu estou convencidíssimo, e depois encontrei também muitos comentários em páginas dedicadas a ele, e não só, muita gente com essa ideia: ele teria dado o Freddie Mercury perfeito.
Olha, registo.
Eles que eram amigos. Curiosamente, também descobri isso nestes bombardeamentos do algoritmo. Descobri que eles eram amigos, que se davam muito bem. E várias pessoas a dizer, de facto, que ele teria sido o Freddie Mercury perfeito, muito melhor do que o Rami Malek, que ainda por cima ganhou o Oscar. Mas a personagem dele no "Rocky Horror Picture Show", o Frank-N-Furter, é ele próprio já um bocadinho o Freddie Mercury daquele tempo. Só é pena que eles tivessem, de facto, praticamente a mesma idade e não fosse possível. Mas é um daqueles casos, talvez a par do Alan Rickman, também Participou em poucos filmes. Até começou a carreira cinematográfica relativamente tarde.
Só teve a vantagem, entre aspas, do Harry Potter.
Do Harry Potter, que o tornou conhecidíssimo para esta nova geração. Mas são atores que têm um carisma.
E do "Die Hard", não é?
Esse foi o primeiro papel dele em cinema.
O Hans.
O Hans Gruber.
Era o mau. Era o melhor mau.
O pior mau. E o Tim Curry também tinha esta característica, que tornavam quase um vilão perfeito. E têm esta dimensão: tornaram-se atores de culto, cuja filmografia é, comparativamente ao estatuto que eles depois adquirem nesta legião de fãs, relativamente pequena, até em qualidade.
Muito bem, chegamos aqui ao final da primeira parte do "PopUp". Voltamos depois de um curto intervalo. Até já. Estamos de regresso ao "PopUp", com a Maria Ramos Silva, o Bruno Vera Amaral e o Pedro Boucher Mendes, neste que é o programa de regresso após a pausa de verão. Estamos a analisar de forma extremamente profissional, claro, o que de mais marcante se passou no mundo pop durante o mês de agosto. Pedro Boucher Mendes, vais abordar aqui um tema que ainda é de julho, passou para agosto, e pelo menos nas nossas mentes, continua vivo e importante. Eu escrevi: "Odisseia/Spider-Man". Isto tem mais a ver não necessariamente com os filmes, mas com a ida ao cinema e a procura por bilhetes, etc. Sendo que o mais recente Spider-Man, que é um grande sucesso de bilheteira, só estreou dia 29 de julho, portanto, é claramente um assunto de agosto.
Vou aproveitar para promover o meu próximo livro.
Muito bem.
Sobre os anos 90. Sai no fim deste mês. Para dizer que quando estreou o "Jurassic Park" em Portugal, no final de 93, creio eu, por aí, já não me lembro bem.
93, 94.
Sim. Já não havia bilhetes para a estreia. Acho que os filmes ainda estreavam à sexta-feira. E já não havia bilhetes. Portanto, as pessoas que quisessem ir, essa parte escrita no livro, tinham que esperar. E passou-se uma coisa semelhante este ano. Uma das conversas da praia foi: "Eu queria ter ido ver o 'Odisseia', mas já não havia bilhetes". Não sei se vocês apanharam isso ou não. Eu, felizmente, como não queria ir ver o "Odisseia", nem quero.
E conseguiste?
Consegui não ir ver. Exato. Já foste vê-lo?
Não, não fui.
Por razões pessoais.
Claro. Mas talvez ainda vá. Não sei.
Vão lá, não sejam assim.
Nisto, começam as conversas dos mais jovens: "O Spider-Man. Eu também queria ver o 'Spider-Man', mas fui lá, já não havia bilhetes, nem para o dia X". Parece que há um ressurgimento. Isto é na América e em Portugal acredito que também tenhamos notícias semelhantes. Acho que as bilheteiras estão 15% acima em termos de receita. Tudo terá começado, segundo uma investigação que eu fiz breve, com o projeto "Hail Mary", um filme que eu aqui amplamente elogiei, que recomendo e que está no Amazon Prime.
Já vi e apreciei bastante.
Que é excelente, um filme excelente. O filme sobre Michael Jackson, eu creio que não falámos muito aqui.
Abordámos.
Mas foi um esmagador sucesso de box office. E estes dois filmes meio estranhos, que chegamos a falar, acho que fora dos microfones, mas não chegamos a abordar o "Obsession" e o-
Vi o "Obsession".
E o "Backrooms".
Adorei o "Obsession".
Pronto, falhámos esse.
O "Backrooms" ainda não vi.
Pronto, mas esses dois filmes, que são meio indie.
Sim, mas é muito bom.
Levaram muita gente ao cinema. E finalmente, o "Toy Story" e o "Super Mario" tenho aqui. Mas este "Spider-Man" e este "Odisseia" afetaram positivamente, porque o verbo afetar não é só negativo. Afetaram positivamente o negócio da exibição cinematográfica. Imagina, pessoas que tinham, ou que têm, ou que gerem cinemas, um cinema num subúrbio qualquer de San Diego, está a ter um ano muito melhor do que os anos anteriores, graças a esta colheita de filmes, o que também significa que as pessoas, quando estes fenómenos ganham algum poder de contágio, afinal reconciliam-se com a ideia de sair de casa, comprar um bilhete, sentarem-se no sítio, aturarem as tosses e as senhoras a falarem uma com a outra, com a amiga. Há muitas senhoras que vão ao cinema com a amiga. Não sei se já repararam. Falam imenso.
Elas não penderão da sala também onde vão?
Eu às vezes dou graças a Deus de não haver licença de porte de arma em Portugal. Não o meu caso.
Muito bem, sim, senhor.
Não, estou a brincar. Estou só a dizer que há sempre um público que sempre foi ao cinema. E estou a dizer essas senhoras, tenho um intuito cômico. Talvez as pessoas mais velhas, com mais tempo, mais disponibilidade, até porque têm o cartão NOS ou um desses cartões dá desconto. Mas para umas novas gerações, ir ao cinema não parece ser tão necessário.
Eu acho que aqui nestes dois casos, também há duas situações que fazem diferença. O primeiro é do Christopher Nolan. E o Nolan costuma ter este arrasto.
Eu acho que é claramente o contágio, depois tem a ver com o IMAX, que o bilhete é muito mais caro.
Não há muito o fator Zendaya. Tu tens uma geração que vai atrás destas figuras.
Não, a Zendaya acho que tem efeito. Aliás, acho que tem efeito o casal do Homem-Aranha, totalmente.
Principalmente em Portugal.
Se fossem outras duas pessoas, acho que era complexo.
Exato.
E não deixar a gorjeta.
Mas isso é o Homem-Aranha.
Eu não acho que seja palavra de ordem. Nenhum de nós pode provar.
Acho que é um misto.
Acho que as pessoas vão porque as outras pessoas vão.
Claro. Óbvio.
E depois estas discussões que houve sobre o "Odisseia", os intelectuais disseram que não era a "Odisseia", os outros disseram que era não sei o quê
Mas isso eu acho que é um mérito do Christopher Nolan. Acho que é dos poucos realizadores que faz com que tu queiras ir ver um filme.
Deixa lá ver o que este tipo fez desta vez.
São muito poucos hoje. Se pensarmos, o Spielberg já perdeu essa capacidade de atração.
Vi o último filme dele e achei aquilo um aborrecimento.
Ainda não vi.
Chamada xaxada.
Perdeu essa capacidade de atração.
Quando posso. Aprecio.
Gosto dessa frase.
Por falar em estrelas, e agora noutro espectro, Maria Ramos Silva, dois dos grandes acontecimentos deste verão.
Mais pares.
O casamento de Cristiano Ronaldo e o regresso de Harry e Meghan ao Reino Unido. Juntamos isto num bolo.
É, mais vale.
Vamos lá saber.
São celebridades.
São estrelas pop.
São estrelas pop, são celebridades, cada uma à sua maneira. É curioso, eu acho que foi um verão interessante para quem esteve a trabalhar, como é o meu caso, atarefado, mas sobretudo porque acho que acabamos de vez com aquela ideia da silly season. Já nem se usa, já nem vale a pena usar a expressão, porque é de facto muito tonta, porque nós vivemos em vertigem permanente de informação e nomeadamente nestas notícias mais light, que nós eventualmente podíamos achar que também vai tudo de férias e mais descansado. Mas não, as pessoas resolveram, deu tudo em casar no verão. Grandes casamentos, aquilo começou com as duas Lipas, a Taylor Swift. O Ronaldo tinha avisado que era provável que isso acontecesse.
Já tinha avisado.
Ele já deu o aviso que era provável que acontecesse depois do mundial. Ele queria idealmente com a taça na mão, não aconteceu, mas o casamento foi por diante. E depois houve todo aquele embrulho pop, porque na verdade, quando tu de repente tens um senhor como o Jurgen Teller, que é um dos grandes nomes da fotografia contemporânea, na tua casa em Cascais para fazer um registo kitsch daquela cerimônia civil e na mesa, com a família, os diamantes, as toalhas na cabeça, os sapatinhos, tudo aquilo é um verdadeiro colírio. Também com o seu quê de kitsch, que resultou em uma produção para a Vogue, teve o exclusivo, que eu acho que qualquer meio gostaria de ter, e eles tiveram. E depois tens essa notícia também que nos vai, nós jornalistas, certamente dar pano pra mangas e alimentar nos próximos tempos, que é este regresso do Harry e da Meghan.
Do filho pródigo.
Sim, mais ou menos pródigo, porque as coisas estavam mais ou menos calmas desde o famoso Megxit, quando eles tinham ido lá à vida deles aos Estados Unidos. E entretanto decidiram voltar e ficou tudo muito expectante, o que é que vem por aí. Mas eu acho que há aqui uma nota extra pop, que também faz parte aqui do balanço do nosso verão, como todas estas celebridades e mais algumas, continuaram a descobrir e viver intensamente a Comporta e o litoral alentejano. Isso continua a ser uma nota absolutamente dominante, reforçando essa ideia de que Portugal está definitivamente no mapa.
Como é que os ingleses e americanos dizem, Comporta?
Não sei bem, provavelmente. Mas que estamos contentes.
With a door.
Exato, with a door.
Não era onde é que eu estava com a cabeça.
Mas que estarão visivelmente satisfeitos com tudo o que se passa por cá, a achar que isto é tudo maravilhoso e é. Pronto, um pouco mais caro para nós do que para eles, mas na verdade é absolutamente fascinante. E prevejo que continuem a fazer escala. Aliás, o Tom Holland e a Zendaya também têm um vasto historial.
Tom Holland também veio aqui passear, não foi?
E desde miúdo.
E o Pedro Pascal.
O Pedro Pascal também.
Foi uma pisaria de um grande amigo meu.
Então? Tu tens de ter ítems todos.
Ele esteve no México, por acaso.
Isso apareceu nas notícias e teve graça. Depois eu falei com meu amigo. Parece que há pessoas que vão lá e perguntam em que mesas esteve o Pedro Pascal.
Posso me sentar.
É como uma pessoa lá em baixo.
Bruno Vie ira Amaral, estás aqui para falar de uma recente tendência que no verão foi mais reforçada, que é roubos em museus e assaltos.
Ainda bem que tu propuseste a falar há um ótimo tempo.
Por essa Europa fora.
E vai continuar.
Isto também me depara com uma sucessão de notícias sobre roubos, assaltos a museus. Os assaltos em si, seja a museus, seja a bancos.
É um tema que te interessa.
Já é muito pop. E é muito cinematográfico. Os filmes de assaltos, seja a um museu.
Os tesouros que são, Bruno.
É uma das coisas mais fascinantes para um miúdo.
Imagine sempre o Paul Newman a roubar dinheiro a alguém.
Ficamos sempre do lado do bandido.
Claro. Na vida real, não sei como é, mas no cinema estamos sempre a torcer para que ele consiga abrir o cofre. Era uma das imagens, quando eu era miúdo, que mais adorava ver num filme era os tipos a tentar arrombar um cofre.
Claro.
É uma coisa que deve apelar a qualquer coisa primordial.
Da caixa-forte do tio Patinhas, por exemplo.
Não, é qualquer coisa.
Até para isso é preciso engenho e trabalho, a questão é essa.
Quando eles punham o estetoscópio para tentar ali ouvir.
Têm sempre umas temporadas giras.
Têm sempre, obviamente.
O cérebro da operação.
O mastermind. Claro, temos os filmes "Ocean's Eleven", "Twelve" e "Thirteen" e por aí fora, mas muitos ao longo da história do cinema. "O Ladrão de Casaca". Nós gostamos muito, cinematograficamente, dos ladrões e gostamos de ver.
Como é que se chama aquele muito porreiro com o Clive Owen?
"O Infiltrado", do Spike Lee.
"The Thomas Crown Affair".
Ora aí está, roubos em museus. Todos nós gostamos de: "Como é que eles conseguiram dar ali a volta?" Assaltos a bancos, tudo, isso faz tudo. E nós estamos sempre a torcer, como dizia o Pedro, pelo ladrão, como é óbvio, não vamos torcer pela polícia. Na vida real, não sei como é, mas tem havido uma sucessão de casos de assaltos em vários museus europeus, que levanta aqui uma série de questões. Uma, desde logo, é a segurança em muitos museus.
Está tudo a dormir?
Vimos aquele no Louvre o ano passado. Foi uma coisa inacreditável. Mas depois há uma série de museus espalhados por toda essa Europa, que nós imaginamos que as condições de segurança em muitos deles devem ser muito precárias, mínimas. E isto dá azo a uma série de roubos E que tu depois pensas, e é essa outra questão: o que eles vão fazer com isto? Porque em muitos casos, isto só pode ter sido encomendado. E para pessoas, colecionadores particulares, que na maioria dos casos-
Que é todo um mercado, aliás.
Que é um mercado, e tu pensas: "Eles não vão poder exibir isto." Houve um assalto num museu italiano em que foram roubadas obras, um tríptico, uma parte, ou um políptico. Aquilo acho que são quatro ou cinco painéis, e foram roubados três, de um pintor, Antonello da Messina, e foi do museu da cidade de Messina, é o Políptico di San Gregório. E tu imaginas: com o que é que farão isto? Porque se roubares peças de joalharia-
Consegues derreter
Algumas, sendo que algumas peças serão mais valiosas intactas, como é óbvio. Claro que podes depois vender, desfazer daquilo, podes derreter o ouro, mas algumas peças o valor não é tanto até do metal em si.
É a peça.
É a peça. E tu pensas nos casos de quadros e de quadros de artistas muitos-
E quem é que vai comprar um quadro roubado?
E roubado. E o que é que vai ficar lá na-
Mas eu acho que há um documentário, não sei se é Netflix.
É encomendado, é um roubo encomendado.
Totalmente. Arquimilionários são capazes de encomendar uma coisa destas pra ficar a olhar pro quadro no seu iate. É isto.
Eu percebo, eu também estivesse num iate.
Tem a ver com o tédio. Acho eu. O tédio, eles têm tudo. Mas eu devo dizer que, não quero parecer pomposo, mas enquanto europeu, digamos assim, eu, por exemplo, não fui capaz de ver, há um documentário sobre o assalto ao Louvre numa das plataformas. Acho que é na HBO, que se chama qualquer coisa como os 20 minutos, não sei o quê do assalto. Eu não fui capaz de ver, porque esta coisa dos museus é um dos traços maiores do nosso legado, da nossa heritage, que fica melhor dito assim, e do nosso fundo cultural, e que no fundo, é aquilo que nós temos em comum uns com os outros e até entre as gerações. Aliás, é uma das discussões que em Portugal se deveria ter é: por que Portugal não tem um museu grande, no limite passível de ser assaltado? Mas a verdade é que não temos, porque o regime que saiu do 25 de Abril decidiu não o fazer ainda. Mas estes assaltos, os próprios assaltantes leem notícias e têm redes sociais e devem achar: "Epa, está ali um museu. Ontem fui lá e não estava. Há poucos guardas."
Sim, e muitos deles são museus de província. De fato, isto já aconteceu em França, em Espanha. E estas pessoas, atenção, não entram de noite nem andam a partir nada. Entram à hora da visita com as pessoas que lá estão, partem o vidrinho, sai e nunca mais sabemos deles. Portanto, estamos a falar de coisas, peças com 3 mil anos, com 5 mil anos.
Isso aconteceu em Espanha?
Sim, que procedem, como são marginais, muitas vezes as pessoas só sabem que eles existem porque eles são assaltados. Portanto, é uma coisa quase paradoxal. Parece que há uma esperteza para o patrimônio.
E há peças estranhamente valiosas. Tu não dirias que ia num museu-
Precisamente.
Tem igrejas em Portugal. Aliás, os roubos de arte sacra são até bastante frequentes. Basta imaginar, é facílimo. Tu entras numa igreja-
Só a preguiça pode explicar o fato de nós não fizermos nada. É verdade.
Está aqui uma hipótese.
Amigos, reta final e agora última ronda, vamos ter que ser rápidos. Estamos a ficar sem tempo. Pedro Mexia Mendes, antes de irmos embora para descansar no verão, demos nota da estreia, ou já tinha estreado, a série Furious, na Disney Plus. Eu, pelo menos, estava relativamente entusiasmado com o primeiro episódio. Vi alguns a seguir, não fiquei tão entusiasmado como estava no início. Entretanto, a série terminou nesta semana.
Terminou.
Não sei se já acabaste. Qual o teu balanço?
Com a Amy Rossum, da Hulu, portanto da Disney, será quase certeza a série que vai papar os prêmios todos. Já foi anunciada uma segunda temporada. É uma série que se parece com a ideia que nós temos de boa série.
Compra os requisitos.
Tem heróis que são inequivocamente bons, embora que tenham um passado em que cometeram alguns erros, que é sempre uma coisa que as pessoas gostam, porque elas próprias também cometeram alguns erros. Tem uma história fácil de seguir e um vilão/vilã, não vou dizer se é um vilão, se é uma vilã, com o qual é fácil empatizar e compreender as suas motivações. A investigação avança num ritmo, cada episódio, isto avançou mais um bocadinho.
Dá sempre uma recompensa.
Depois há uns maus, que são mesmo maus, e depois há uns maus na polícia que também são maus, amigos dos maus. Eu diria que no fim, o resultado é enganador, mas é interessante ver como as séries que mais motivam e que mais excitam a crítica e o jornalismo, que fala destas coisas, acabam por ser as séries mais parecidas com a ideia de série que se tem.
Ideia clássica.
Sim, mas é um classicismo deste tempo, dos streamers. Já está uma segunda temporada garantida, que em princípio, ou será com outro plot, ou será um desvio deste plot, porque este tem fechamento, esta história fecha. E é isso. Eu darei um sete lá de uma a 10.
Nada mal, um sete, Pedro Mexia Mendes, quem me dera. Maria Ramos Silva, rapidamente, tal como o fenômeno foi rápido, tivemos um eclipse.
Foi o meu amor de verão. Eu vou ser rapidíssimo. Tiago, os diretos, a saga dos óculos, as fotos com os óculos nas redes, as pessoas que se gabaram de não ir ver o eclipse. A tensão ocular no dia seguinte.
Pedro Mexia Mendes, viste o eclipse?
Não, claro que não.
Em Espanha.
Olhei para o céu e não percebi.
Mas não olhasse, tiras te fotos, espero eu.
Não, não tinha, claro que não. Senão havia um prédio à frente e depois: "Se calhar devia ter ido para a rua", e depois não fui e aquilo passou.
Passou e agora só daqui a 112 anos.
Não sei.
Mas acho que foi uma experiência única, apesar de tudo. Eu vi, acho que foi extraordinário. E acho que é sobretudo comovente imaginar quão pequeninos nós somos quando olhamos para aquilo e vemos a probabilidade ínfima de haver aquele alinhamento, aquela massa daqueles corpos. E de facto, nós andamos aqui às vezes preocupados com uma série de coisas e não somos nada.
Mas a verdade é que nos anos 90, o Estado pôs óculos à venda nas farmácias. Foi uma coisa muito importante. E houve um sorteio para quem comprasse óculos, sorteavam uns carros e umas televisões.
Claro, um fantástico automóvel. Rogério Amaral, tens um minuto, desculpa, para assinalar, já agora no início de setembro, acho eu, o regresso de Salvador Sobral ao Spotify.
Sim, porque nós não nos demos apenas conta da nossa pequenez quando olhamos o eclipse. É também nestas coisas que nós vemos quão pequenos somos. O Salvador Sobral deu-se conta que perante a força do Spotify, uma pessoa dizer: "Eu agora vou sair do Spotify". Não tem grande efeito. Ele tinha anunciado há uns meses que saía do Spotify em protesto contra várias coisas e agora volta. Como o próprio disse, e honra lhe seja feita, ele podia perfeitamente ter voltado ao Spotify com o rabinho entre as pernas e voltou ao Spotify porque, de facto, é impossível. Precisa de trabalhar. E mesmo que ganhe pouco por cada download, a verdade é que tu precisas de estar lá para que as pessoas conheçam o teu trabalho, para que depois vão ver os teus concertos.
Para que o resto aconteça.
Ora aí está. E é assim, às vezes contra factos não há argumentos e se não podes vencê-los.
Junta-te a eles. Muito bem. Final deste "Pop-Up" pós agosto. Já sabem que podem escrever-nos para popup@observador.pt. Sigam-nos nas plataformas de podcast. Nós voltamos na segunda-feira com as sugestões da semana. Até lá.