Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Faz tão pouco sentido eu ver o Euphoria como um miúdo de 17 anos ver o Succession.
Sejam muito bem-vindos a mais um "PopUp", o vosso folhetim radiofónico de cultura popular, com Maria Ramos Silva, o Pedro Buchinho Mendes e esta semana também com a Joana Sicchini Vilela, que está aqui no lugar do Bruno Veira Amaral, que está ausente em aventuras literárias. Bruno, se estiveres a ouvir-nos, onde quer que estejas, um grande abraço. Joana, muito obrigado pelo teu regresso.
Obrigada eu.
Gente bem madura. Aqui o painel perfeito para falarmos sobre algo como a meia-idade, ou que raio é isso, e a pop. Perguntas profundas no programa desta semana, é isto que vos prometemos. Será que a forma como se vive a cultura pop a partir de certa idade pode ser uma espécie de nova adolescência? Ou será que a pop é coisa de garotos que os adultos gostam de viver? Por falar em garotos e adultos, Pedro Buchinho Mendes, vamos começar por ti. Tu argumentas várias coisas ao longo da tua vida, eu acho que as pessoas têm que ter consciência disso, e tens argumentado, nas nossas conversas fora dos microfones, que são várias e bonitas, que hoje em dia há muita coisa que em tempos tivemos como pertencente aos miúdos, coisa de miúdos, e que agora são coisas de adultos. A minha primeira pergunta é, como diria o outro: que fenómeno é este? E se é novo ou não, porque pode não ser novo, e que coisas são essas de que falas? Quando pensas neste fenómeno, que coisas é que te lembras? Começaste a rir com aquele ar de malandro, de garoto.
Antes mais, o que será a meia-idade, não é?
Olha, pergunte-me isso várias vezes.
Quando eu era final da adolescência, princípio da idade adulta, naquela altura, mas já foi há muito tempo. Naquela altura, as pessoas de 50 e tal anos, 60, não usavam tênis/sapatilha. Vou usar a palavra tênis, porque é mais rápida. Não se usava, e se víssemos alguém com calçado desportivo, achávamos ou que era estrangeiro, ou que era meio doido, ou que tinha problema.
Que era meio exótico. Era fora da norma.
Não, completamente fora da norma. E eu dizia, claro, a quem me quisesse ouvir, até acho que algumas pessoas tatuaram isso no corpo, que eu jamais, quando chegasse aos 50 anos, iria usar tênis/sapatilha.
Posso confirmar que falhaste miseravelmente.
Eu nunca tive tanto calçado desse tipo-
Como tens agora.
Como tenho agora. E temos notado, quem está atento, quem é observador, que certo tipo de coisas que quando nós éramos mais novos, falo por mim, mas acho também que falo por vocês, eram coisas de miúdos, e aqui miúdos, vai, se calhar dos sete, oito aos 21. Como fazer puzzles. Hoje são coisas não só de adultos, como são coisas que os adultos se orgulham de fazer. Não fazem secretamente.
E anunciam para quem quiser ouvir.
Sim, porque lá está, no meu tempo, quem colecionava bonequinhas ou bonecos, começamos bem, acharíamos também meio bizarro, meio tonto.
Certo. Também fora da norma.
As pessoas, como sabes, naquele tempo colecionavam miniaturas de mochos e cachimbos.
De mochos?
Certo?
Eu tenho uma tia com uma coleção de miniaturas de mochos.
Pronto, há sempre alguém.
De mochos?
Estás a ver? Eu não combinei isto.
O meu pai colecionava cachimbos.
Combinei isto contigo, Joana? Não combinámos.
Não combinámos.
Não sei se está a par das miniaturas de mochos. Acho que nunca ouviu falar.
Houve uma fase.
Ou colecionavam miniaturas, garrafinhas de: "Ah, tenho o vá de 69, já tenho".
Isso sim.
Hoje colecionam-se Legos.
Isso sim parece que tenham problema.
Uma grande amiga minha, a quem mando um beijinho daqui.
Cumprimentos.
No outro dia dizia, ela estava a pensar em voz alta e foi em voz alta: "Ai, o meu filho, não sei o quê, a namorada, mas ela não gosta de Legos". O filho da minha amiga tem 26, 27 e gosta muito de Legos e a preocupação da mãe era que a namorada não era muito dos Legos.
Genuíno, porque é uma coisa importante pro filho, que ele gosta.
Sim, claro, mas lá está, quando eu tinha 26, 27, se eu falasse em Legos, enfim, é provável que não arranjasse namoradas.
A minha grande dúvida é se-
Isto é bom ou mau.
Não, nada disso. É se esse tipo de coisas, na verdade, até já acontecia nessa altura que tu estás a referir do passado.
Era isso que eu ia contar para ti.
E se calhar nós não sabíamos porque não havia tanta informação, talvez.
Eu estou a escrever agora sobre os anos 90 e sobre a minha experiência dos anos 90, e sobre a minha memória dos anos 90. E nós quando montámos a nossa primeira casa, nós não levámos conosco os livros de banda desenhada, os jogos de damas e de xadrez, pelo menos eu não levei, mas acho que posso generalizar naquela altura, no princípio dos anos 90, porque pra nós aquilo fazia parte da infância, das férias. Tu não tinhas em casa a PlayStation ligada à televisão nos anos 90. Só havia um. Mas quem jogava console e quem jogava jogos eram pessoas da tua idade, não pessoas da minha idade. Tu tens menos de 10 anos, não é? E hoje em dia, tu tens adultos que se orgulham de jogar PlayStation, de fazer vídeos no Instagram.
Mais do que isso. Essa, por exemplo, é uma daquelas indústrias em que, na verdade, tu só podes usufruir dela de forma completa a partir de uma certa idade, porque é caro.
Está bem.
Senão tens que estar dependendo.
Esse é um argumento meio caro. Mas também há jogos pra adultos, mesmo.
Claro, cada vez mais do que havia antigamente.
Esta coisa dos kid adults. Agora temos o foguetão do Tintim.
Em Lego.
Sim, que até foi desenhado por um português.
Exato.
E parabénsEu diria que muitos dos miúdos de hoje em dia nem sequer fazem ideia do que é o Tintim, porque entretanto, o Tintim, por várias razões, agora já falamos sobre isto aqui, hoje é quase arte. Porque o detentor dos direitos não deixa fazer fronhas de almofadas, e não sei o quê, e essas coisas, e edredons para miúdos. Portanto, isto claramente destina-se a pessoas com 30 e tal, 40, 50, 60. A ideia de que o meu pai pudesse comprar um foguetão de Lego para montar na sala, é uma ideia que eu nem sequer consigo, num mundo de fantasia. Nada contra o meu pai, caramba, que era um homem excepcional, mas hoje em dia gastam-se balúrdios no eBay, figurinhas do Star Wars, homens adultos, mais velhos do que eu. E no fundo, foi isto que nos trouxe aqui hoje. Eu não tenho a certeza, se Deus Nosso Senhor me perguntasse a opinião, acabe com isto ou não, eu não tenho a certeza do que diria. Não sei se acho uma coisa boa ou uma coisa má.
Muito bem. Maria Ramos Silva. Uma dúvida que eu tenho também é: há uma expressão em inglês muito boa que é "boys with toys". Esta coisa de adultos, 40, 50, a fazer coisas, e aqui há muitas aspas, supostamente de garotos.
Eu acho que podem ter brinquedos, mas não estes. Outro tipo de brinquedo, assim mais adultos.
Achas que é uma coisa de homens, mais do que de mulheres?
Acho que é mais de homens, não exclusivamente de homens, até porque tiveste agora um ressurgimento daquelas coisas, tipo os labuvos e os amuletos para as malas, anda tudo como se tivesse malas de miúdas com imensos charms pendurados. Mas isso é para adulta? É. Pronto, lá está. Aí está.
São muito expensive, não é?
Pois, é até um culto. Entra aí no culto, no kitsch. Eu acho que, no fundo, era aí que queria chegar. Acho que, no fundo, são tudo armadilhas para nos fazer comprar mais coisas que não precisamos. De uma forma genérica.
Sim, mas se resultam é porque há aqui qualquer coisa.
Há, porque há aqui muita coisa. Fator culto, fator nostalgia, essa sede de te religares ao analógico. Acabas por ter um escape que acaba por ser super old school. É muito aquela imagem do comboiozinho. A sala com os comboios e as coleções, não sei o quê, e vais buscar muito essa coisa.
O Pedro na semana passada lembrava o Rod Stewart.
Precisamente, e eu acho que isso acaba por estar ali muito entre a tendência, nostalgia, o saudosismo de alguma coisa que tu não viveste. Agora, eu acho que depois também há aqui uma coisa que é a dificuldade das pessoas crescerem. Há, de facto, aqui muita adolescência engavetada na alma das pessoas e sobretudo dos homens, desculpem, mas é verdade. Muita gente não quer crescer e aqui encontra estes escapes.
Mas eu também não quero crescer.
Sim, mas é isso que eu queria dizer. Mas depois há um lado muito criançola. Porque aquilo que o Pedro dizia, de facto, é um pouco estranho tu imaginares que alguém esteja aos 40 anos e agora vai se enfiar no quarto a jogar PlayStation. Para mim é um bocado bizarro. Ou seja, tu podes ter um hobby, deves ter um hobby, mas há hobbies e hobbies. E eu acho que isto depois também entronca aqui numa outra questão, e se calhar já iremos lá na segunda parte, que tem muito a ver com um contexto familiar, que é: tu tens uma experiência que não tinhas no tempo do Pedro, eu também ainda não tinha na minha, presumo que vocês também não tivessem na vossa, que é dos pais helicópteros. Tu hoje tens uma realidade em que os pais estão totalmente integrados nas vidas dos filhos de uma forma, para mim, às vezes quase pornográfica.
Nem sempre.
Sim, mas o miúdo vai ao concerto, então como tu não queres proibir, vais com ele para controlar. Isto era uma coisa que não existia. Eu jamais iria a um concerto aos 18 anos, aos 17 ou mesmo aos 16, com os meus pais atrás. Nem queria, nem eles queriam. As pessoas tinham vidas muito mais separadas. Eu acho que um fator maior, menos controle, mais transgressão, mais autonomia também, mais probabilidade de uma série de coisas. E, portanto, eu acho que isto também vem juntar aqui um pouco esta coisa de uma experiência que é quase vivida num contexto familiar. Olha, eu dou-te um exemplo muito concreto. Eu tenho isso, por exemplo: o meu irmão desde miúdo era louco por coleções de carrinhos, miniaturas, mesmo coleção, que são balúrdios.
Majorettes, Matchbox.
Não só, aquilo é infindável, eu não percebo nada, como deves calcular.
Liman.
Já tinha uma coleção precisamente astronómica, que conseguiu passar para os filhos, que entretanto são mais dois putos completamente viciados em carros, e agora tu já não percebes quem é que compra para quem. Eu acho que aquilo é obviamente uma desculpa, no fundo são para o meu irmão, mas que são os miúdos a comprar. Ou seja, aquilo de repente vai avolumando e acaba por ser um misto de fato, transmissão, mas depois tu continuares a alimentar essa coisa muito de miúdo que tinhas.
Mas talvez seja possível um equilíbrio, não sei.
Eu acho que sim, mas repara, eu também não sou o melhor exemplo, porque já era uma alma velha em criança. Com o tempo, não melhorei. É sério, eu nunca fui uma pessoa de brinquedos. Acho que já falei disto aqui, os meus brinquedos eram os livros.
Os meus brinquedos eram os meus punhos.
Eu tinha muita dificuldade em imaginar, por exemplo, desarrumar o quarto todo, porque pensava logo: "E o trabalho que me vai dar agora, depois de arrumar os Legos todos". E um livro era só abrir e fechar. Eu tinha um mundo fantástico lá dentro. Era portátil, aquilo era superprático. E portanto, ainda tenho mais dificuldade em compreender como é que pessoas depois se entretêm com este tipo de brinquedos.
Eu, em minha defesa, devo argumentar que acho que é possível ser adulto e gostar de jogar Super Mario de vez em quando.
Nunca joguei PlayStation na vida, acreditas?
Então, mas um dia vamos testar isso. Joana Siqueira Vilela, tu que és especialista nas coisas dos anos 90 e de outras décadas, mas como acabas de, e agora espaço publicitário, lançar o livro "LX190", que aliás, o Pedro Teixeira Mendes, e bem, aconselhou aqui.
Aconselhaste?
Sim, é um safado.
Aconselhei e voltaria a aconselhar.
E bem. Tens argumentado, não só no livro, mas fora do livro e à volta dele, que foi a última década, a última era de uma cultura única. Sobretudo porque depois vem a internet, a banda larga, enfim, aqui estamos. Os adultos que eram jovens nessa altura podem, fazendo algumas das coisas que estamos aqui a falar, regressar a esse tempo de uma cultura única? Fará falta esse regresso? Será essa uma justificação?
Vou tentar dividir, porque tu perguntas várias coisas.
Claro.
Não sei se esse pressuposto me faz muito sentido.
Claro.
Para começar, a questão do fim da cultura única, eu não argumento, eu li em vários sítios e é uma coisa que está estudada e documentada. Até aproveito para sugerir um livro muito divertido, que se chama "Os Delirantes Anos 90", que está editado pela Objectiva, do James Brooks Smith. Acho que o Pedro já leu.
Nós falámos sobre esse livro na altura, quando saiu aqui.
E em que ele fala também disto. E tem a ver justamente com o que tu disseste, com a internet, também com essa expressão, que já é um bocadinho velha, a banda larga.
Agora, pois, sim.
E sobretudo com, depois, as redes sociais. Agora, se esta questão de, pelo que eu percebo, uma espécie de prolongamento de uma infância através de objetos que se continua a colecionar e atividades que se mantêm, tem a ver com esta geração, se isto é um sinal de alguma coisa. Eu posso dar aqui já dois exemplos, e que têm a ver com pessoas que nasceram para aí nos anos 20, do século XX. Um dos meus avôs oferecia sempre aos filhos carruagens de um comboio elétrico para pôr no seu próprio comboio elétrico. Ele tinha uma sala do comboio e ele é que adorava o comboio.
Era o contrário. Ele perpetuava através de.
E esta história é frequente. Eu já falei com outras pessoas que me disseram exatamente a mesma coisa. E a Maria falou da questão dos carrinhos. Também me lembro de falar com um senhor um bocadinho mais novo, mas que tinha uma loucura pelos Matchbox e colecção.
Desculpa, havia uma certa excentricidade associada.
Eu não sei se é uma excentricidade. O comboio é um brinquedo. Eu nunca pensei muito nisso. É uma coisa que dá prazer. Porque é que as pessoas, quando crescem, para mim, a maturidade tem muito mais a ver com coisas como responsabilidade, forma de pensar, de agir, do que propriamente com tu gostares, de vez em quando, de jogar um jogo. Por exemplo, tu disseste que quando te mudaste de casa e foste viver com a tua mulher, deixaste o xadrez em casa.
Eu não disse que tinha ido viver com a mulher.
Não?
Não, disse só.
Mas isso eu entendo. Eu também me revejo. Era um tempo em que eu deixei os Tintins, de facto, em casa dos meus pais, porque aquilo para mim estava associado a uma fase. Eu acho que tu tens ali um momento na tua vida em que tu próprio queres cortar com isso, não é, Pedro?
Mas hoje, Maria.
Exatamente.
Muitas vezes, o que acontece é isso. Depois, se calhar, regressas.
Claro, mas naquela fase é uma fase de rutura. Se tu quiseres, é um ato de revolta.
É de afirmação.
Mas o que eu ia dizer é que o xadrez, historicamente, é jogado pelos imperadores de grandes impérios, por todas essas coisas. Não estou a dizer: "Olha, Pedro, está errado". Mas estou a dizer: isso é uma ideia que tu cultivaste e desenvolveste, tal como a Maria fez isso. Mas lá está, é a afirmação. Eu vou deixar esta parte da minha vida ali e vou recomeçar.
Desculpa, eu estava a generalizar. Posso estar errado, mas estava a generalizar que naquela altura era mais importante o tapete da entrada ou o flor, ou os panos da loiça, do que os livros do Tintim ou o jogo de xadrez.
E eu estou aqui também a generalizar. Eu sempre gostei muito de brincar, não tanto das bonecas, mas acho que há duas palavras que definem bastante bem a minha infância, que é joelhos e esfolados. Andava sempre de um lado para o outro e a trepar a coisas. Mas parece-me haver aqui esta associação entre maturidade e jogar o jogo. O jogo é muito importante na vida. Aliás, se calhar, o que eu isolaria aqui é: a Maria falou de uma coisa muito importante, que é a questão do consumo. Estes gostos são muito incentivados pela própria indústria, que vê naqueles clientes, pessoas com dinheiro. Aliás, a história dos Matchbox. Muitos miúdos, e depois homens, continuam as coleções, porque em miúdos eles pediam aos pais, os pais não davam, eles não tinham dinheiro.
E quando chegam a adultos pensam assim: "Finalmente, agora sim."
Agora é que vai ser. Desde que tudo o que façam na vida não seja brincar com os carrinhos . Aí há um problema.
Não sei se não vamos destacar essa frase.
Bom.
Deixa-me interromper-te, porque temos que fazer aqui uma pausa. Se calhar vou aproveitar, vou jogar PlayStation com o Pedro. Chegamos ao final da primeira parte do "PopUp". Voltamos depois de um curto intervalo. Até já.Estamos de regresso ao pop-up com Maria Ramos Silva, Pedro Bucher Mendes e também com a Joana Sicchini Vilela. Esta semana a ocupar, e bem, o lugar do Bruno Vieira Amaral. Estamos aqui a tentar perceber se por estes dias, coisas que eram de miúdos agora são de graúdos ou se sempre foi assim. Pedro Bucher Mendes, uma outra coisa que nós às vezes já falamos também aqui ou fora do microfone, tem a ver com, por exemplo, coisas aparentemente modernas, como o streaming ou a forma como as séries, por exemplo, conteúdo audiovisual é distribuído e consumido. A forma como estabelecemos relação, por exemplo, com as séries, com estas coisas, com o streaming, está um bocadinho relacionado com isto, com esta forma de consumir?
É uma boa pergunta.
Obrigado.
Porque, aparentemente, por exemplo, o Facebook já é para velhos.
Diz-se sim.
Reformados, malta dos gatos. Não esperamos que o nosso filho de 12, 13 anos tenha uma conta.
Sim, supostamente não vai querer.
É o TikTok. Logo aqui já podemos antever que daqui a 20 anos, não sei o quê, será cool ter uma conta no Facebook outra vez.
Porque isto dá a volta.
Exato, dá a volta para ser mais popular. Uma das dificuldades das chamadas séries, e eu agora escrevo sobre séries, o que me retira bastante prazer de as ver, fica aqui a nota, é: a que perfil se destina o "Euphoria", por exemplo? Estou a ver a terceira temporada. Bolas, eu com a minha idade devia estar a ver a terceira temporada do "Euphoria"? Não tenho a certeza.
Certo.
Mas, ao mesmo tempo, também não quero ficar fora e ver o "Crime de Estela".
"Phoria"? Desculpe.
Não me quero render e estar só a ver re-runs do "Crime de Estela" e daqueles policiais com-
"NYPD Blue" etc.
Não, esse já é muito forte. Aqueles que há sempre uma senhora simpática que resolve os crimes em Inglaterra. Agora falha-me o nome.
Tipo a Agatha Christie, a Miss Marple.
Sim, é isso. Quando nós consideramos uma série, quando nós discutimos uma série, estamos a pensar na idade a que se destina essa série, porque há umas óbvias. Há umas séries de adolescentes, claro, essas são fáceis, mas não há séries para velhos. "Não, esta série é boa, tu tens 52, esta é uma série boa para ti".
Sim, declaradamente não existe.
São todas sempre aspiracionais ou quase todas aspiracionais. Os personagens fazem coisas que nós ou gostaríamos de fazer ou juraríamos a nós próprios jamais fazer. Porque, como sabemos, é importante para o espetador de uma série sentir-se melhor do que o vilão da série, melhor pessoa do que o vilão, aquela pessoa que representa o caminho errado. Mas ver séries com 50 e tal anos, 40 e tal anos, também é, parece-me, uma tentativa de ser jovem. A malta da pulseirinha.
A minha pergunta é essa, exatamente.
Da pulseirinha, das calças pelo tornozelo.
Mas é por quê? Porque assim podes fazer parte de uma tribo?
Não, porque na nossa cabeça nós temos uma idade assim genérica, 30 e tal anos, mesmo que o nosso corpo tenha quase 60.
Sim, eu tenho claramente 27.
Pronto, é isso.
É o que eu sinto.
O lado do rock.
Não morras.
Mas sempre 27, todos os anos.
E o mundo parece mais homogêneo nisso, a oferta. Mas faz algum sentido, por outro lado, também um miúdo de 17 anos ver o "Succession"? Será que ele entende o "Succession"?
Certo.
Não sei. Se calhar, faz tão pouco sentido eu ver o "Euphoria" como um miúdo de 17 anos ver o "Succession". E, no entanto, não é uma coisa que à partida nós possamos dizer.
Exato, e que seja óbvio. Maria Ramos Silva, há bocadinho já estavas aqui a tocar neste assunto. Pergunto-me se na música não se passa um pouco o fenômeno contrário, porque há idade para ser festivaleiro? Ou os festivais são para um público específico? Concertos de Taylor Swift, vês pais e filhos a gozar ali de uma certa epifania pop. Há adultos muito respeitosos, talvez alguns neste estúdio, à procura de bilhetes para Bad Bunny.
Não sou eu.
Pronto.
Eu não sei de quem é que estás a falar. Mas não me importava.
Exato. E há uma questão também, que também já aqui falamos várias vezes, que é a vergonha que muitas vezes já não temos de assumir que gostamos de coisas que sempre foram foleiras.
Mas não acho que seja só isso, porque, por exemplo
Como sabes, nunca fui uma pessoa da pop. Nem jovem, mais uma vez.
És uma alma velha.
Eu já era uma alma velha, eu não era uma pessoa da pop. Eu nesta altura estaria a ouvir Fogazzaro em vez de Taylor Swift, se ela existisse.
Por exemplo.
Mas claro, respeito quem gosta, obviamente, percebo o fenómeno. Agora, também há aquela outra questão que tu falavas e que é muito interessante: perdemos a vergonha também de nos misturarmos com miudagem. Ou seja, eu acho que há menos autocensura, há menos censura também de terceiros.
Teremos até, se calhar, orgulho.
Sim, porque depois é aquela coisa quase de prova. Depois tens o corpo a dizer que já são horas de ir para casa e no dia a seguir vais estar completamente arruinado, porque foste a um festival ou a um concerto, mas tu sobreviveste a isso. Portanto, isso transforma-se num outro exercício.
E se puderes mostrar nas redes sociais, mais créditos ganhas.
Pronto, e também foste. Mas mais uma vez, eu acho que num contexto mais adolescente e familiar vai ter aquela questão que eu falava. Tu hoje tens a possibilidade de viver, que atenção, eu também acho que tem coisas ótimas, porque aproximou aqui famílias, pais, filhos, tios, sobrinhos, tudo mais, que de facto não era vivido de uma forma tão plena, mas que também dá um pouco as regras do jogo. Tu hoje vais a um MEO Arena e num espetáculo destes, tens um encontro, de facto, muito rico de gerações.
Esse tempo afetivo familiar começa nos anos 90, aliás.
Exatamente, sim. E vai mudando e ainda bem que muda. Eu acho que muitas vezes chega, porque também conheço a experiência extremada do outro lado, dos pais que não conseguem cortar o aço. E então o miúdo desde muito pequenino que vai na viagem, não sei para onde, de finalistas e o pai vai alugar o quarto. Eu conheço casos esses, vai instalar-se no hotel ao lado. Não, não estou a brincar. Porque pode acontecer qualquer coisa.
A Maria não brinca.
E eu tendo em conta que aos quatro anos os meus pais já me estavam a despachar sozinha para não sei onde com os colegas lá do infantário, eu fui toda contente a minha vida, não entendi isso, mas pronto.
Já ias para a noite com os quatro anos?
Para a noite, não, mas os dias eram divertidos.
A Rita Maria faria com quatro anos.
Na noite, imaginem. Mas olhem, os dias foram bem divertidos. Há fotos fantásticas, aquelas ainda em película, que o provam. Mas bom, onde é que eu ia?
Joana Stickanini Vilela, virando aqui a narrativa ao contrário. Vamos usar o teu conhecimento empírico, doméstico, se quiseres, e também o conhecimento reunido, por exemplo, para fazeres este novo livro. Tu vês muita mudança na forma como os jovens consomem cultura pop hoje e, por exemplo, a forma como a pop era consumida nos anos 90? Isto para lá das questões óbvias, não da banda larga, mas já estou a falar da fibra e do streaming e do smartphone, etc. Ou a essência e a filosofia é exatamente a mesma?
Acho que é diferente, mas queria só concluir aquela ideia. Estávamos a falar dos jogos e dos brinquedos. O que me parece em relação a essa, é que esse lado de um prolongamento, no fundo, brinquedos, este é quase um fetichismo, está a ser muito acarinhado pelas empresas, pelos negócios, pelo potencial lucrativo que tem.
Comercial.
Comercial. E que o público não é muito diferente do que era. Pode ser um bocadinho mais largo, mas não é assim tão diferente, embora com o avançar dos anos e com, por exemplo, nos anos 60 ou 50, alguém que teria de ir começar a trabalhar aos 18 anos, se alguém lhe dissesse: "E agora vais brincar?"
Pois, a responsabilidade era outra.
Era ridículo. Ou a história de alguém preocupado porque o filho tem 26 anos e gosta muito de Lego. O que eu estou a dizer é que isto só por si, se calhar, é um sintoma de outra coisa que, a meu ver, não tem tanto a ver com a cultura pop, porque de facto, é normal nós evoluirmos, nós crescermos e tirarmos prazer de muitas outras coisas. Sobre a questão da cultura, da forma de consumo, há aqui duas coisas curiosas. Uma é aquilo que tu estavas a dizer, que tem a ver com esta mudança muito proporcionada pela internet, pelas redes sociais, pelos serviços de streaming, em que o nosso consumo é acima de tudo individual. Ou seja, nós podemos ver o que queremos, à hora que queremos, com a velocidade que queremos. Há quem veja séries a andar para a frente.
A forma quase que se torna o conteúdo.
E sobretudo o gozo, o prazer ou o desprazer que aquilo te causa é muito menor, é muito mais diluído. O impacto que estas coisas têm faz com que a tua experiência seja muito mais superficial. E isto, parece-me, estende-se a muitas coisas da vida. Além de que existia uma coisa muito positiva naquilo a que se chamava a cultura única e aplicado, por exemplo, à televisão, quando tínhamos dois canais, que era: o meu programa começa daqui a meia hora e eu tenho de estar à espera. Elemento positivo um: paciência. Elemento positivo dois: se outra pessoa estivesse a ver outro programa que não me interessava, eu às vezes ficava a ver e-
Descobrias qualquer coisa, eventualmente.
Descobria qualquer coisa ou descobria que não gostava de qualquer coisa e percebia que havia pessoas com gostos diferentes dos meus.
Claro!
E tudo isto concorre para termos noção do outro, que é uma coisa que se tem vindo a perder.
Uma coisa interessante no teu livro é que, e é demonstrativo, e eu acho que foi a última vez ou durante a última era em que aconteceu, em que
tudo o que era fenômeno pop ou consumo pop, quando a cultura chegava a um certo nível, era vivido de forma coletiva.
Exatamente, a questão do coletivo. Nós vivemos em sociedade, as pessoas esquecem-se disso. Quem vive fechado num quarto a jogar PlayStation, nas redes sociais e nos fóruns de terraplanistas, acha que toda a gente é igual a si própria. Mas esta ideia do outro tem muito a ver com o amadurecimento, se calar mais do que gostar de carrinhos. Mas a ideia de tu perceberes: eu não sou a medida para todas as coisas. O mundo é muito mais complexo do que eu imagino e eu preciso de aprender a ouvir o outro. Tudo isto são coisas que lentamente se estão a perder. Agora, a segunda coisa que eu ia dizer é que hoje em dia existe uma nostalgia que eu não imaginava que fosse tão forte. Estes livros, eu repito isto muitas vezes, não são livros nostálgicos, são livros para mostrar como era a vida em outras décadas, até para nós percebermos como é que chegamos aqui.
A nostalgia implica tu quereres voltar a?
Sim, implica uma dor, implica um perdi aquilo, é um voltar a casa. Era tão bom antigamente e agora é horrível. E não é, agora não é horrível. Aliás, o que acontece é que, e eu sou muito chata nisto, eu acho que os pais sentem muito tudo isso. Eu estou sempre a dizer aos meus filhos: "Tu não tens a noção da sorte que tu tens."
Bem, basta ver os números, por exemplo, uma das coisas que mais me impressionou neste livro é o data, aquela informação sobre como é que era Portugal logo no início, nos anos 90, e parece que nós estamos a falar dos anos 50. Ainda são impressionantes os números.
E quando vais aos anos 60, há pessoas que não tinham saneamento básico, pessoas sem água dentro de casa.
É assustador.
É outro país. Mas ao passo que eu tinha noção da sorte que tinha, até porque havia falta de coisas. Eu lembro-me de dada altura não haver leite, que é uma coisa curiosa. Em alturas muito pontuais, mas nos anos 80 isto aconteceu muito. O Pedro se calhar lembra-se.
O Pedro lembra-se de tudo. Por isso é que ele está aqui.
Mas os miúdos têm, e não só miúdos, é isso que eu estava a dizer. Eu tenho-me apercebido, até agora que tenho dado algumas entrevistas por causa da promoção do livro.
Olha só.
Já viste? E compra em tudo. Que há, de facto, uma nostalgia enorme por esta década, não só de pessoas que a viveram, como também-
De quem não a conheceu
...de quem nunca a conheceu e até de pessoas que eram mais velhas naquela década, mas quem não a conheceu. E justamente por causa dessas experiências de que nós estamos a falar aqui.
Exato.
Experiências coletivas, os grandes concertos de estádio. Eu nunca fui ao estádio do Alvalade a um concerto, tu de certeza que foste, Pedro, e de certeza que te lembras deles.
Sim, fui a números.
O Pedro viveu tudo o que é para viver no estádio do Alvalade.
Por acaso não fui a este jogo do Bodø/Glimt. Mas o meu filho foi. Deixa-me só dizer uma coisa, que é: quem produz o discurso, vamos usar esta frase como se estivéssemos na Universidade Nova, quem faz as séries.
Onde nós andamos, acho que os três.
Eu não.
O Pedro. Excêntrico.
Quem produz o discurso é desse tempo. Ou seja, quem tem 40 e tal anos, quem tem 50 e tal, 40 e tal, 30 e tal.
Quem é supostamente o líder em vários campos.
Quem escreve as séries, quem faz a música, o que for, quem desenha os cenários da Taylor Swift, não sei, tem esta idade. Os Duffer Brothers, os irmãos Duffer que fizeram o "Stranger Things", homenagearam uma época em que não eram vivos, se calhar.
Exato, que não viveram.
O que é interessante. Várias coisas que a Joana disse que eu quase que discordo.
E bem.
Ainda bem.
Supostamente, nós vivemos num jogo permanente. Nós, cada um de nós. Um jogo.
Sim, o jogo faz parte da vida, é fundamental.
Sim, um jogo. O que o Tiago acha de mim? O que a Joana acha de mim, neste caso, e a Maria, claro. O que eu vou jantar hoje? O que eu vou não sei quê. Se eu for hoje a um jantar, nós notamos isso muito quando estamos com os amigos.
Eu jogo o jogo diferente do Pedro.
Quando alguém diz que: "Eu estive num sushi muito bom em Setúbal", imediatamente outra pessoa vai dizer que também esteve num sushi ainda melhor em Castelo Branco. Isso faz parte do jogo, chamado jogo do status, se quisermos. Nós passámos, creio eu, uma barreira, e lá está, não sei se é bom ou se é mau, em que as pessoas já dizem alarvemente: "Não, eu lego. Estive a montar..." E é uma coisa estranha para alguém da minha idade, porque quando eu cresci não era uma coisa que se dissesse, nem sequer se pensava, nem sequer se sonhava. Aliás, a Lego salvou-se porque passou a fazer coisas para os adultos.
Mas havia Legos para adultos.
Não, mas a questão é: se te dissessem assim: "A Lego vai fazer uma nave não sei o quê, tu compravas?" Eu: "Epá, não". No entanto, montei naves de Star Wars, aquelas coisinhas que ficavam cheias de cola.
Tive os aviões.
Para concluir, não concluir nada, mas concluir que há uma espécie de infância ligada ao prazer das coisas, e aí, sim, todo de acordo com a Joana, uma espécie de simplicidade, uma espécie de mundo onde tudo corria bem, o que não é verdade. Lembro-me perfeitamente de mentalar várias vezes os móveis quando era criança, e não foi nada agradável. Nem tudo na infância foi agradável. E que eu acho que às vezes, e aqui já estou a ser judgmental, como dizem nas séries, eu acho que às vezes infantiliza as pessoas e faz com que reivindiquem, querem casas, querem não sei o quê. E estas coisas estão ligadas. As pessoas não estão erradas, obviamente.
Sim, o lado lúdico é fundamental. Eu se calhar também na primeira parte fiquei um pouco perdida nisso, mas depois há este lado.
Portanto, para quem tem 20 e tal, 30 e poucoDe facto, a vida é uma vida Erasmus. Como disse na semana passada, a vida é muito Erasmus, é ir aqui, ir ali, aquele bar, aquela festa. Isso significa que, de facto, Portugal já foi pior e agora é melhor. Portugal e o resto da Europa. Dizia eu ontem a alguém que o meu filho, que vai fazer 22 anos, já foi a mais países do que eu fui. E eu viajei bastante. Mas ele já foi a mais países do que eu fui, porque tem tempo, tem vagar, e depois marca umas viagens, é mais barato à quarta-feira, às 16h. Não faço sequer ideia do que eles estão a falar. E eu não sei como é que será a vida destas pessoas, no caso do meu filho, quando tiver 40, 50, 60 anos. Será que vai estar a jogar PlayStation? Não sei.
Quem sabe? Sociologicamente, já que estávamos na Universidade Nova agora, há mesmo quem defenda que esta coisa dos toys, este fator de distração, tem um pendor, de facto, anestésico. Ou seja, além de ser prenúncio de crise, tem muito esta coisa de inchar aqui um certo balão do alheamento, porque tu estás distraído com os teus comboiozinhos, ou carrinhos, ou os Legos, é tudo fixe, tu estás ali na tua bolha protegido, entretanto o mundo vai ruindo lá fora. Mais uma vez, há imensa gente a vender as suas coisas e as coisas vão passando. O Pedro estava-se aqui a chegar, mas não. Silêncio. Já agora acrescentar ao que a Maria diz, é que, de facto, há uma grande apatia das classes mais jovens. E isso é uma coisa que a mim me faz confusão e que é totalmente diferente do que acontecia nos anos 90. Há muita abundância, as coisas passam muito depressa, é muito fácil os miúdos ficarem em casa a ver streaming ou a fazer scroll infinito do que sair. Por exemplo, os miúdos hoje em dia saem menos à noite, têm menos namorados e namoradas, e o que quer que seja, têm uma vida social menos rica. Ralam-se menos, supostamente. Muito menos. Eu estou a generalizar. Claro. Ou seja, eu não estou aqui a falar de ninguém.
Eu estou a generalizar. A minha casa é completamente diferente, cada um é um mundo.
Até é quase um paralelo, porque nós, no nosso tempo, a cultura era muito menos portátil. O computador estava em casa, tu prestavas ao computador, não tinhas, de facto, alternativa.
E se tivesses computador?
E se tivesses, pronto. Mas hoje tudo é muito mais portátil. Por isso as pessoas, de facto, saem mais. Comerciavam-se discos. Exato. Deixa-me só terminar perguntando à Joana uma coisa que eu acho que tem a ver com isso que estavas a falar, da diferença entre a rapaziada mais jovem, por exemplo, nos anos 90 e agora, que é: se entrasses num quarto de um adolescente nos anos 90, serias capaz de lhe traçar o perfil? E hoje é diferente um quarto de um adolescente? Os adolescentes cultivam em simultâneo essa questão da identidade, de estar a construir uma identidade, de que o quarto é muitas vezes um reflexo, e também o segredo dos pais. É um jogo difícil. Parece-me que tu nunca vais saber tudo sobre um adolescente.
Ainda bem.
Felizmente. Claro, tudo não. Mas se calhar descobrias alguma coisa assim que entravas, se calhar descobrias qual era a música. Mas eu não acho que seja assim tão diferente. O que mudou, se calhar, é esse lado da materialidade. Antigamente, ou nestas décadas, os miúdos, e não só, tinhas revistas, tinhas jornais, e se estava lá uma foto de um músico que tu gostavas, havia revistas como a Bravo, ias buscar os posters, punhas na parede. Este lado material era muito acessível no dia a dia e tu apropriavas-te daquilo e colavas na parede e fazias essas coisas. Por outro lado, também para ouvires música tinhas de comprar os discos ou os álbuns ou as cassetes ou andar a gravar cassetes, ou essas coisas, e tudo isso desapareceu. E por um lado, tem esse lado muito bom, que é uma democratização, e eu acho que isto é importante dizer, e se calhar o Pedro está de acordo comigo nisto, que é, por exemplo, nos anos 90, a cultura era muito mais elitista do que é hoje. E a internet teve um grande papel nisso. Ou seja, tu muito mais facilmente tens acesso para consumir e também para produzir. Por outro lado, há aqui uma coisa perniciosa que é, tu achas que estás a ouvir o que queres, mas na verdade estás muitas vezes a ouvir aquilo que alguém quer que tu oiças. E portanto, nós passamos de uma elite, se calhar baseada em dinheiro, em classe, em história, em política, para uma elite baseada em tecnologia, ambição e dinheiro, e os miúdos, muitos deles, hoje em dia o que dizem é: "O que é que tu queres ser quando fores grande?" "Eu quero ser rico." Que é uma coisa que a mim me aflige muito. Já não há profissões. Profissão em si é uma coisa absolutamente irrelevante. Esta coisa, passado, presente, direita, esquerda, jovens adultos, esta polarização, vamos com calma. É verdade, porque a vida é muito mais complexa do que nós imaginamos. Estes comportamentos, muitas vezes sensórios, daquilo a que se chama extrema-direita, ou gostam de chamar extrema-direita e gostam de chamar extrema-esquerda, para mim, não têm nada a ver com política, que é uma convivência em sociedade, têm a ver com atitudes totalitaristas de quem quer mandar em tudo. Pronto, não tem a ver com isso. E portanto, se calhar o mais importante aqui, e falando dos quartos dos adolescentes e dos brinquedos, é fazer um bocadinho aquilo que os miúdos, noutro dia, falando no ambiente doméstico, eu fui falar, já não me lembro se contei isto, fui falar uma coisa de tendências, uma apresentação de um relatório de tendências. E entre outras coisas, tendências, fenómenos e coisas que estão fixas, que já acontecem sem as pessoas falarem nelas. E pediram para eu falar de uma coisa que tinham constatado, que era que embora não se falasse nisto, as pessoas agiam dessa maneira e era que havia uma idealização do passado, sobretudo dos anos 90, e muito notória na geração Z, que é a geração que não viveu os anos 90, e que 50% das pessoas com quem eles tinham falado, da geração Z, dizia que os anos 90, idealizava essa década. E eu resolvi falar lá em casa, perguntei: "O que vocês acham?" E um dos cidadãos que vive lá, um ou uma, disse: "Não, porque era isto e era assim e era assado." E outro dos cidadãos, saudavelmente rebatente, disse: "Mas tu tens redes sociais, tu tens Instagram." E a resposta, e se calhar aqui, isto é interessante, que é: "Eu gosto das redes sociais, eu gosto de ter o telemóvel, mas hoje em dia é tudo muito rápido e não há um fruir das coisas. E para a cultura pop, para estas experiências que nós achamos todas tão boas e tão marcantes, são momentos em que as coisas estão lá, mexem conosco e não é como se andássemos numa passadeira rolante só a ver passar a realidade.
A ver as coisas passar e a tocar-lhes ao de leve.
Sim. Muito bem, rapaziada. Foi um programa profundo, filosófico e talvez de crescimento, ou não. Final de mais um "PopUp". Já sabem, escrevam-nos para popup@observador.pt. Sigam-nos também nas plataformas de podcasts. Nós voltamos na segunda-feira com as sugestões da semana. Até lá.