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Malta, os blogs para mim eram ação, as redes são reação. É uma coisa totalmente diferente.

Olha, pronto, fechem o programa.

Desliga. Acabou.

Fechem o programa. Sejam muito bem-vindos a mais um "Pop-Up", o vosso livro de instruções radiofónico para o mundo vasto da cultura popular. Esta semana, Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e Pedro Abel Chirimenes juntos de novo, claro está, desta vez para falarem sobre blogs. Até a palavra já soa a coisa antiga, cada vez que dizemos. Blogs, não é?

Palavra arcaica.

Foi no início do século XXI que criaram um espaço único, afirmaram-se, criaram estrelas e depois foram desaparecendo. Nos últimos dias, voltaram a ser notícia depois do portal Sapo ter anunciado o fim do serviço de alojamento de blogs, pedindo mesmo aos seus utilizadores que fizessem o backup da informação, já que daqui a poucos meses essa informação será apagada daqueles servidores. Vai daí, quisemos nós refletir sobre estas páginas únicas da história da internet. Ótima frase, bem bonita.

É extraordinário isso, que o Sapo vá apagar.

É.

É um bocado esquisito.

Sim, mas provavelmente-

Nada se apaga da internet, eu sempre ouvi dizer. Porque o Sapo pediu a muitos blogs. Imaginem, eu tinha um blog, era popular, e o Sapo: "Não queres vir aqui para os blogs do Sapo?" E agora, ao fim desses anos todos, uma traição.

Certamente não haverá-

Não sei se a palavra traição, mas é um bocado isso. Anda viver comigo, anda viver para a minha casa.

No final já não estão interessados.

Não haverá trapaça.

No final: "Olha, leva as tuas coisas daqui. Transfere isto para outro sítio qualquer."

Ninguém vai ver blogs, digo eu.

Olha, pega nas tuas coisinhas e vai para a arrecadação da tua mãe.

Já que estás a falar, Bruno Vieira Amaral, vamos começar por ti esta semana, só para tornar isto diferente e mais atrativo.

Isso é que estou assim, estou chateado.

Diz-me, tu que sabes tudo, ou achas que sim, os blogs desapareceram porque já não fazem falta, ou foram simplesmente, e obviamente, ultrapassados pelas redes sociais?

Sei lá, faz um inquérito com a GFK.

Não vamos fazer isso. Começámos o programa-

Vai falar com as pessoas.

Achei piada.

Entrevistas de rua. Não fazem falta. Claro, se fizessem falta, continuavam a existir.

Ora bem.

Não existem é porque não fazem falta. Citando, eu estou a ouvir sempre este separador aqui na Rádio Observador, e acho que é o professor Carlos Filhós que diz: "Tudo nasce, tudo morre".

E tens feito disso o mantra da tua vida.

Isso inclui os blogs. Claro, que se fizessem falta, continuavam a existir.

Será que alguém já disse, desculpa, numa rutura amorosa, será que alguém já disse essa frase?

Do Carlos Filhós?

Não, em vez de ser "Não és tu, sou eu", dizer: "Tudo nasce, tudo morre."

Tudo se transforma.

Eu acho que não tem espaço para isso.

E o nosso amor...

Mas atenção, há aqui uma questão que é: lá porque a atenção que dedicamos à internet esteja focada noutras coisas, não quer dizer que o papel que os blogs desempenhavam ou o conteúdo que eles publicavam tenha sido, de facto, substituído.

Não foi.

Essa é que é a grande questão.

Tem de ser preciso escrever mais de 100 caracteres.

Houve uma transformação.

Mas há publicação de ambos.

Claro que a atenção foi transferida para redes sociais, mas o conteúdo, aquilo que os blogs permitiam e disponibilizavam, não tem nada a ver com aquilo que hoje existe nas redes sociais, e nomeadamente no X. Eu, por razões profissionais, tenho de ver o X de vez em quando, à procura de material.

E às vezes gostavas de mudar de profissão só por causa disso.

Aquilo é muito mau. Não há nada ali que se aproveite. Provavelmente, há pessoas que já me disseram: "Eu encontro ali links para coisas interessantes". Tudo bem. Mas em termos de produção, ou seja, texto ou pensamento, não há ali nada. E eu sei que há estrelas do X e que funcionam bem e que até depois usam, da mesma forma que os blogs foram usados, usam aquilo como plataforma para dar o salto, por exemplo, para a televisão.

Ou para a política.

Ou para a política, também. E haverá uma arte de comunicar nas novas redes sociais, só que não substitui, de facto, aquilo que existia nos blogs, que era mais próximo. Estaria ali, alguns dirão, o jornalismo ou a opinião nos jornais. Eu acho que houve uma transferência e eu acho que foi esse espaço que os blogs abriram, que foi uma clareira que permitiu a pessoas escreverem opinião, que não tinham espaço para o fazer na imprensa tradicional, mas também dizia que estava entre o jornalismo e também experiências literárias, mesmo quando não aspiravam a ser publicados.

Sim, escritores.

Ser escritores. Porque havia muitos que eram muito bons naquele formato. Ou seja, aquilo provavelmente não funcionaria noutro formato, em livro. E isso era uma característica dos blogs que eu acho que não se transferiu para as redes sociais, a forma como são utilizadas agora. Também não quero fazer aqui o discurso: "Aquilo, antigamente, houve uma idade de ouro". Não, mas, de facto, eu perdia tempo, entre aspas, diariamente a ler vários blogs, sempre à espera das atualizações diárias. Houve ali uma mão cheia de blogs Mesmo quando faziam textos mais curtos, daqueles que eu lia, havia uma outra preocupação, talvez uma aspiração na qualidade, no estilo, que agora simplesmente, pelo menos do que me é dado ver.

Pelas redes que tu vês.

Sim, pode ser um problema de pesquisa da minha parte, mas que não vejo, não encontro nos blogs. E havia uma grande diversidade. Eu acho que também se afunilou um pouco os temas. Uma vez mais, o problema pode ser meu.

O problema pode ser teu.

Pode ser meu. Mas está-se só a falar do mesmo. É verdade que no início dos blogs, houve um impulso com a guerra do Iraque e que toda gente comentava de um lado e de outro da trincheira, guerra do Iraque, invasão, quem é a favor, quem é contra, quem é que tem razão, quem é que não tem. Mas ao mesmo tempo havia discussões sobre o cinema da Nouvelle Vague, coisas às vezes substanciais. E isso eu acho que se perdeu.

Pedro Buxinho Mendes, será que entre as coisas que eventualmente se transferiram dos blogs para as redes sociais, foram os comentários, a cultura do comentário?

Os blogs estão mais perto da morte de Diana do que do nosso tempo, por exemplo.

Eles lá fora até começam em 94, acho eu.

Pronto, mas o blog, sim. E um dia que se faça, que não se vai fazer, porque dá trabalho, uma história da extrema-esquerda em Portugal do século XXI, o bloco é de 1999, enfim, os blogs foram essenciais para o cimentar de uma certa visão política da realidade que deu frutos e votos, lugares no Parlamento e no Parlamento Europeu e essas coisas todas, que pelos vistos acabaram. Vida é o resultado eleitoral da candidata mais próxima do bloco. E os blogs eram um espaço de liberdade, passo a expressão, tinham uma característica muito interessante, que é uma característica que as redes sociais vieram a ter, que é: eram muito fáceis de fazer. Portanto, no fundo, era clica aqui, nome do blog, o blog do Tiago Perano, não sei o quê, tal. Depois começavas a escrever, eram muito fáceis de fazer. A questão dos comentários é tu teres a oportunidade de ter feedback àquilo que estás a escrever. Gosto muito do David Bowie, não sei o quê. Portugal é o país do mundo com mais fãs do David Bowie, não sei se sabes.

Tu não eras do Nick Cave?

Do Nick Cave, sim, mas cada vez que morre o David Bowie, nós somos recordados que é o país do mundo com mais fãs do David Bowie, per capita. Eu acho que cada português é duas vezes fã do David Bowie. Bom, não interessa. "Gostas muito do David Bowie, o meu disco favorito é o não sei quantos", depois outra pessoa comentava: "O meu favorito é o tal". E criava-se esta lógica de comunidade, acho que não se usava a palavra, em que tinhas feedback. E de fato, ter feedback, ou seja, no fundo, ter atenção, é o que todos nós queremos, todos os que estamos neste planeta, incluindo o Brandão e eu próprio.

Mesmo que não pareça.

Não, e eu próprio.

Agora está lá fora.

E os blogs criaram esta comunidade em que toda a gente podia participar, até porque o anonimato não era visto como um crime de lesa-pátria, ou seja, tu podias ser só o TP, digamos assim, e: "Eu gosto muito deste comentador, o TP. Quem aquele será? Já ouvi dizer que ele é um poeta que vive na Serra do Marão." Essas coisas aconteciam.

Não sei se exatamente.

Na Serra do Marão.

Talvez na da Gardunha.

Sim, exato.

Não, e houve mesmo blogs muito populares, assinados por gente que até dado ponto não se sabia quem era e depois veio-se a saber.

Mas só para dizer isto, que quando os blogs aparecem, não existem as redes sociais. Quando eu digo aparecem, é quando fazem parte da vulgata, do diário.

Sim, e quando são populares.

Estamos a falar da primeira década deste século, a primeira parte da primeira década deste século. Não sei o quê, a guerra do Iraque, depois os atentados, aliás, o 11 de setembro e depois o referendo do aborto, o segundo referendo do aborto. Tem um papel muito importante na promoção da discussão sobre a questão do aborto, sim, se não, a interrupção da gravidez, acho que 12 semanas. Mas não existia, isto é importante dizer, não existiam redes sociais para nós compararmos. Será que eu prefiro estar no X ou prefiro fazer um blog? Pronto, não havia tanto, que hoje em dia existe o Substack, onde alguns jornalistas fazem uma coisa muito parecida com o que era os blogs, com a diferença que tentam ganhar algum dinheiro, como os Patreon.

Sim, agora é esse no formato que são newsletters.

Não, mas no fundo são posts.

Mas que no fundo são posts.

É o mais próximo desse regresso.

Publicações longas, são textos longos, como existiam.

Muita gente escreve posts longos no Facebook.

Então, se calhar os blogs não morreram, têm só outro formato.

Por exemplo, eu não consigo entender como é que Não, meu amigo, os blogs morreram.

Sim, os blogs morreram. Mas é possível blogar no Facebook.

Eu acho que é outra coisa.

O X eram poucos caracteres e depois passaram a ser mais.

Só pra dar um exemplo.

Estavas a falar, nessa altura, do referendo do aborto. Houve blogs criados para apoio a candidatos presidenciais e a partidos, coisa que hoje, no Facebook, não existe.

Os blogs pra mim eram ação, as redes são reação. É uma coisa totalmente diferente.

Fechem o programa.

Desliga. Acabou. Vamos embora.

É isso, no fundo. Tu tinhas um ponto de vista, para além do eventual talento, que eu acho que serviram para que muita gente se contasse.

E que fazia a diferença.

Fazia a diferença, porque havia ali um investimento e uma dedicação também de tempo e de cuidado com a escrita, que é uma coisa que se perdeu. Tu estavas a falar do X, experimenta ir ao Truth Social, onde as pessoas respondem com memes ao presidente dos Estados Unidos.

Havia toda uma erótica dos blogs. Eu posso desenvolver esta ideia?

E da palavra, sobre a imagem, porque também é muito isso, os blogs vêm de um tempo pré-imagem, que é o que as redes vão trazendo. Porque de repente, imagina, tu no Facebook começas a ter uma imagem, até a tua foto de perfil, e isso de alguma forma quebra por completo um certo anonimato que ainda havia ali.

E o encantamento.

E o encantamento.

De imaginares quem é que seria aquela pessoa.

Que no fundo é o prolongamento dos últimos anos dos jornais, em que os jornalistas não eram estrelas. Eram tipos que assinavam. Tu muitas vezes não sabias, nem querias saber, não era relevante, quem era a cara do jornalista. E portanto, o essencial era, de facto, aquilo que ele produzia. Nesse sentido, eu tenho imensa nostalgia, porque tu ligavas era àquilo que as pessoas faziam e não tanto à imagem que têm. Acho que é sobretudo essa lógica que se muda. Não só por essas questões políticas que são vitais e que encontraram ali um chão muito propício, mas de facto havia também esse tempo de distanciamento e de marcarem a agenda. Depois não há, as pessoas vão atrás do que está nos primeiros dias.

E havia uma coisa curiosa, que era, mesmo sem redes sociais, que é aquilo que hoje em dia se calhar mais ajuda a seja o que for virar sucesso e virar coisa popular. Isso não existia, mas os blogs tornavam-se populares.

Mas eu acho que as pessoas não começavam necessariamente com essa intenção. Ou seja, o blog começa por ser o quê? A primeira vez que tu abres o teu diário. Tinha esse registo confessional pra mim.

A ideia era essa.

Tu querias atenção.

A ideia era essa.

Sim, lá está, tu tinhas alguns que começaram a gerar imenso público, mas depois também tiveste blogues do solitário que esteve ali anos, coitado, provavelmente a falar pra uma parede.

E havia muito esse lado confessional.

Exatamente. Nas mais diferentes áreas, até no lifestyle, já vamos falar disso, penso eu, na outra parte. Eu acho que as pessoas começaram, como nós próprios depois começaríamos nas redes, com muita ingenuidade, sem saber no fundo no que é que aquilo podia dar, que proporções ia assumir, e muito longe de imaginar que tudo aquilo era monetizável. Porque, de facto, tu hoje tens o Substack, que de alguma forma vai emular um pouco este registo de se escrever mais, com algum tempo, de marcar a agenda e não estar tanto a reboque desta atualidade mais rápida, mas as pessoas já estão a pensar naquilo como modelo de negócio. Sabem ao que vão. Não é propriamente uma coisa: "Vou escrever aqui uns abafos." Não. Depois a questão do tamanho também é fundamental, porque estávamos a falar há pouco disso. Mesmo quando tu tens posts longos no Facebook, no Twitter ou quer que seja.

Ou no Instagram.

Eu acho que não tem, de facto, essa capacidade reflexiva que o blog tinha, porque o tempo é outro. Tu hoje, mesmo que não queiras ler uma opinião sobre uma coisa, já alguém publicou, já está na tua cara. Há ali uma cuspidela, perdão a imagem, muito imediata de reação a qualquer tema da atualidade, que se calhar não tem três linhas, mas gastaram milhares de linhas.

Ou seja, o formato influencia o conteúdo e influencia a forma como é consumido.

Também, obviamente, porque isto depois é uma voragem. Porque é que os blogs também não fazem sentido hoje? Não fazem porque também precisas ter pessoas com massa crítica e com vontade de se sentarem e de lerem um post estruturado, bem escrito, e de pensar: "Olha, se calhar, isto é o mais importante do meu dia, e não é tanto aquilo que eu consumi de manhã à noite, que é completamente irrelevante, que é muita informação, mas triturada vale zero."

Queres acrescentar alguma coisa, rapidamente, Pedro?

Uma ou duas coisas. Um dos fenômenos a que iremos assistir nos próximos tempos, meses, poucos anos, é perceber que os mais velhos, quando eu digo os mais velhos, são pessoas de 60, 70, 80, também estão muito na internet e também consomem muito texto na internet, ou seja, nas redes sociais, como se diz, e eventualmente os blogs poderão voltar. A questão que os blogs revelaram também no princípio, uma das questões que revelaram foi, e eu acho que isso deve ser dito: afinal, há muita gente em Portugal que escreve bem. E dava gozo, dava gosto ler. Eu acho que se algumas dessas pessoas voltassem a ter blogs, não sei, talvez a Maria, acho que concordas, nós também voltaríamos a ler. "Vou ler o blog do Tiago Pereira. Ele tem um blog? Sim, ele agora tem um blog outra vez." A questão é que muitas dessas pessoas que eram muito boas, estão hoje instaladas, e aqui a palavra é neutra, no poder. Ganham um dinheirão a escrever pra O Expresso, não vão fazer um blog. Havia uma certa generosidade desses autores que se perdeu quando perceberam que é muito melhor ser pago para escrever.

Quantas às cenas vazias também.

Vou pôr entre aspas a generosidade, mas podemos falar disso.

Já cá voltamos. Chegamos ao final da primeira parte do "Pop-Up", voltamos depois de um curto intervalo. Até já. Estamos de regresso ao "Pop Up" com Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e Pedro Boucherie Mendes. Esta semana estamos às voltas com os blogs, que lugar ocuparam, o que é feito deles e que legado deixaram. Bruno Vieira Amaral, hoje fala-se muito de polarização. Está tudo muito polarizado nas redes sociais, no discurso, nas opiniões e nos comentários. No tempo dos blogs havia polarização?

Havia alguma polarização.

Fazia parte da mística?

Fazia, e havia polarização sobre muitos assuntos, as polémicas. Hoje a polarização nós quase que ligamos exclusivamente à política, mas nos blogs havia polarização sobre tudo e mais alguma coisa, sobre literatura, sobre filmes. Mas era uma polarização que obrigava a um certo argumentário. Ou seja, não era só dizer: "Epá, vai morrer longe!"

Exato. Era preciso sustentar esse desejo.

Era, porque também era por isso que eu estava a falar da erótica dos blogs.

Cá está.

Nós escrevíamos nos blogs, porque como não tínhamos de pôr a fotografia, os blogs permitiam-nos a todos ser um bocadinho mais altos, mais sexy, mais cultos.

É verdade.

Mais cool.

Sim.

Mais sexy.

Estávamos David Bowie, não é?

Exatamente. Imagina eu escrever sem ninguém estar a ver a fotografia. Vou falar sobre o álbum "Low" do David Bowie e de repente quem está a ler do outro lado: "Epá, este tipo deve ser assim."

Muito guapo.

E depois, de vez em quando, havia jantar dos blogs coletivos e idas a discotecas.

Essa era outra cena.

E as pessoas viam-se: "Espera aí, esta pessoa não parece aquela pessoa que eu idealizei."

Esse era outro lado interessante, que era os blogs coletivos.

Os blogs coletivos.

Com muitos autores.

Que começaram logo no início, ou pelo menos do início do grande impacto. A Coluna Infame é um blog coletivo e alguns ainda existem, mas eu lembro do blog de esquerda. A primeira vez que eu publiquei num blog foi no blog de esquerda, que era do José Mário Silva. Eu tinha-o conhecido e ele convidou-me para escrever o que ele chamava de um shot, onde também escrevia o Ricardo Araújo Pereira, de vez em quando mandava, antes ainda dos Gato Fedorento, porque os Gato Fedorento também tiveram um blog.

E há um livro.

E depois deu um livro, e outros. Mas para voltar a esta ideia, depois podemos falar dos blogs coletivos, havia este esforço, ou pelo menos esta oportunidade para todos nos mostrarmos um bocadinho mais cultos, mais cool, mais sexy, de falar prolongadamente sobre as coisas de que gostávamos, de como íamos ao King ver filmes do Jimmy Armas às 15h de uma terça-feira.

Era maravilhoso.

Era maravilhoso, porque de repente vinhas pessoas: "Epá, eu também estava no King naquela terça-feira à tarde de agosto a ver um filme do Armas."

Isso parece os pregões do Blitz.

Exato.

Quem é que estava no King e tinha uma camisa às riscas.

Pronto, e isso funcionava assim. E eu acho que uma das características muito apelativas dos blogs era essa.

Isso é outra coisa, agremiava, que é uma coisa que hoje...

Porque encontravas rapidamente e mesmo naquilo que lias, tu ias selecionando aqueles que eram mais próximos da tua sensibilidade, criando ali uma espécie de comunidade, porque depois linkava-se: "Este post tão divertido." E quando alguém linkava um post que tu tinhas publicado, de repente: "Uau, cheguei ao topo do mundo." Eu lembro-me uma vez, não quero mentir, mas foi o Rogério Casanova, que tinha a Pastoral Portuguesa, linkou um post que eu publiquei no meu blog.

E tu sentiste que conquistaste.

Epá, é este grupo, é esta malta.

Eu fui linkado pelo Pacheco Pereira.

Estás a ver? E aquilo era importante.

Mas era um blog teu?

Era uma validação, era um blog meu.

Tu assinavas com o teu nome?

Sim, acho que sim.

Ou BVA, se calhar.

Sim, mas não interessa, mesmo que não tivesse assinado com o meu nome.

Escrevias sobre tudo?

Não, escrevia sobre-

Polística, filística?

Porque eu estive a reler agora.

Tiveste vergonha?

Não, não tive. Estive a reler agora que foi anunciado o fim, porque ainda tenho lá, tenho que transferir algumas coisas. Algumas coisas tenho guardadas, mas escrevia sobre filmes pornográficos. Alguns dos textos que estiveram na base do meu primeiro romance foram publicados ali.

Mas como é que se chamava o blog?

Circo da Lama.

Circo da Lama.

Estão lá os textos, que depois estão no livro.

Mas está no SAP? Se eu fizer um Google chego lá?

Chegas lá, claro.

Tem que ser rápido, pá, João.

Não, acho que é até junho.

Não, eu vou apagar. Vou correr agora para casa apagar. Pronto, já falei.

Pedro Boucherie Mendes, o José também quer saber.

Eu ia dizer uma coisa.

Tu escrevias em blogs também?

Sim, eu ia dizer uma coisa interessante.

Claro.

Acho que é interessante.

Não fazes tu outra coisa.

Sim, digo muitas coisas sem interesse, mas também digo algumas coisas interessantes.

Mas tens é de contar essa história do Pacheco Pereira.

Que era muito lido o blog dele.

Os blogs, é justo dizer que deram origem à Iniciativa Liberal, creio eu que é uma coisa que concordaremos. Muita daquela malta conheceu-se ou conheceu o pensamento através dos blogs.

Podemos dizer que houve muitas mudanças ou coisas que aconteceram na política por causa e alboio dos blogs?

O reforço da extrema-esquerda. Se nós pensarmos um bocadinho em retrospetiva Já se nota que a esquerda e a extrema esquerda é muito mais combativa do que as pessoas que não são de esquerda e que não são de extrema esquerda. As guerras nos blogs, as discussões, eles de extrema esquerda, tinham sempre mais um post, mais um argumento, mais uma ideia. Eu não estou a dizer agora se isso são bons argumentos ou maus, pouco importa agora. O princípio dos blogs coincide com a subida meteórica do bloco de esquerda e da afirmação de um discurso de extrema esquerda, que hoje se chama woke, no espaço público português e que teve o seu pináculo na Geringonça.

Mas também abriu espaço para uma direita que até aí-

Em contraponto, também se percebeu a pessoas que se identificavam com outro tipo de diário político e ideológico, passe a expressão, como era o meu caso, percebeu: "Afinal, aqui há uns tipos que também pensam como eu", digamos assim, são pelo mercado livre, são contra o socialismo ou são por uma alternativa ao socialismo, para ser mais preciso.

E que não são fascistas.

Não se usava muito na altura, creio eu, a palavra.

Não se usava o fascismo.

Não, não era tão comum.

Estava implícito. As pessoas não eram tão fãs de David Bowie como são hoje, nem usavam tantas vezes essa palavra. E havia aquilo que agora chamamos de insights, coisas bem apanhadas. Eu lembro uma vez num blog que eu fiz, fiz um grande texto sobre as lasanhas do Lidl. Pronto, estás a ver?

Mas como é que se chamava o blog?

Já vou dizer fora de microfone.

E assinavas com teu nome?

Não. Alguns sim, outros não.

Sacana.

Lasanhas do Lidl, blog.

Sabes que lasanhas do Lidl parece o nome de uma terra?

Eu recordo-me que o Pedro Rolo Duarte puxou, linkou e comentou no blog dele. Alguns de nós sentiam-se parte de uma certa comunidade, mas eu, correndo o risco de estar a ser tolo, eu não me lembro que nós nos achássemos, ou que alguns de nós nos achássemos superior aos outros.

Não, pelo contrário, muitas vezes achávamos era inferiores. Como é que escrevem tão bem sobre estas coisas?

Sobre a apanha da azeitona.

Sobre as lasanhas do Lidl.

E depois também não acharíamos, Bruno e aqui ajuda-me, Maria e Tiago ajudem-me, também não nos acharíamos superiores a quem não tinha blogs e a quem não lia blogs. Ler blogs era uma coisa como: "Pronto, eu jogo ping pong e tu não tens blog, então se calhar fazes surf."

E nem sinalizavas isso. Ou seja, não era sequer uma virtude superior.

Não podias bater certas a ele, eu tinha um blog.

Agora, se calhar, faz sentido.

Desculpa, só recordar, que não me esqueça, que existe um livro.

Exatamente.

Da Fundação Francisco Manuel dos Santos, que se chama "A Blogosfera Portuguesa: Da Coluna Infame ao Ocaso de uma Era".

Que conta bem esta história.

Sim, o título não é grande pistola, mas o livro é engraçado.

Grande pistola, sim, senhor.

É um daqueles livros fininhos, baratuscos da Fundação.

É verdade.

Grande pistola é o tipo de termo que se usava ainda nos blogs.

Maria Ramos Silva, podemos dizer que foi com os blogs que nasceu o conteúdo, entre aspas, lifestyle, como hoje o conhecemos?

Também. A Pipoca Mais Doce é uma das pioneiras, se não mesmo a pioneira, e que se mantém até hoje. Eu acho que não só porque tem talento, que é óbvio, mas porque cultivava também muito a palavra, ou seja, aquilo não começou por ser uma coisa, deixa-me cá tirar fotos. Aliás, ela na altura nem aparecia a cara dela, ela começou a fazer umas fotos mais rudimentares da roupa, mas ninguém estava a pensar que ia tagar a mala.

E foi aí que nasceu o influencing.

Sim, mas ela própria também penso que já falou sobre isso. Era uma coisa quase um registo diarístico. De repente, tu abres um pouco as páginas da tua vida, vais abafando, a comunidade vai crescendo e depois aquilo toma rumo.

E depois foi preciso gerir profissionalmente.

E os blogs também depois serviram para fazer essa triagem, para peneirar, porque nem toda a gente, de facto, depois resistiu em termos de carreira ou de aspirações até hoje. Eu só queria dizer uma coisa, eu nunca fui linkada, não era assim tão popular, mas fui insultada.

Mas isso é bom.

É quase a mesma coisa, mas ao contrário.

Hoje consigo rir-me um bocadinho, mas foi na altura em que trabalhei com o Pedro Rolo Duarte, curiosamente. Ele também era alvo da mesma origem. Porque também, de certa forma, eu acho que os blogs têm evidentemente esse conforto e trouxeram para muitos o conforto do anonimato, mas também trazem ali a semente da selvageria.

A barbárie.

A barbárie também, de certa forma, começou ali, porque eu recordo-me também depois a coberta dessa descrição, desse recuo em termos públicos, que havia gente a chamar-nos as coisas mais... iam por um teclado e dizer: "Esta tipa é assim, assado." Normalmente, era uma palavra só com quatro letras, começava por P e acabava em A, portanto também era curtinho, mas era chato. E eu lembro-me, chegavas àquele ponto que na altura ainda fazia sentido. Nós achávamos que o lodo não iria crescer. Mal sabíamos. Mas na altura ainda pensavas: "Isto era uma coisa relativamente rara, vale a pena apoquentar-se, usar as coisas de difamação." Porque de facto, depois também isso, havia tudo.

Escrevias um blog teu, escrevias um blog coletivo?

Eu cheguei a ter uma coisa com amigos de forma muito amadora. Curiosamente, quando penso nisso, já com muita imagem. Imaginava aquilo quase como um pré-site. Gostava muito de seguir sobretudo coisas mais ligadas aos livros. Gostava dessa experiência e dessa capacidade de agremiação, porque como o Bruno dizia, muitas destas experiências eram também coletivas. Havia lobos solitários, mas havia ali pontos de encontro que depois se reuniam.

E havia pessoal que andava na alcateia e depois era um lobo solitário à noite.

Também.

Mas deixa-me vir a todas.

Já sabemos que vais apagar o teu blog rapidamente para ninguém ler. E que blogs é que tu lias?

Lia muita coisa.

Isso interessa-me muito. O que é que vocês seguiam na altura?

Lia muita coisa, mas deixa-me ainda, antes de ir ao que lia, houve uma altura em que começámos a dar muita importância às visitas. Ao número de pessoas que iam ao blog. Lembro-me que depois havia uma ferramenta que permitia ver até de onde é que as pessoas vinham. E depois acordavas um dia e vias que tinhas 10 mil visitas. Tinhas viralizado. Alguma coisa que escreveste tinha viralizado e depois vias que tinha sido um post qualquer.

Como se tivesses ido para a bolsa.

E tu dizias: "De onde é que isto veio?" Tentar perceber, ias investigar. E foi aí que eu acho que algumas pessoas começaram a perceber que aquilo tinha um potencial, que ia muito além deste sentido fraternal, de comunidade.

Podia ser um negócio.

Exatamente. Não para toda a gente. E também um negócio neste sentido de servir de trampolim para outros voos, outros negócios.

Outras situações.

E aí, num certo sentido, começou a morrer a blogosfera. Se eu posso ser pago para escrever, por que eu vou estar aqui a escrever?

Quando acaba esse lado mais amador e há outros objetivos.

Havia pessoas que tinham perfeita consciência que aquilo, desde o início, podia servir de trampolim.

Isso é bom a favor deles, eu diria.

Não só para escreverem noutros lugares, mas até para fazerem outras coisas, como a política.

Como vieram a fazer.

Estava a falar, por exemplo, o Rui Tavares destaca-se em primeiro lugar na blogosfera.

O Gato Fadado começa por ser um blog, antes de ser um quarteto que faz televisão. Começa na televisão.

Servia de plataforma. O que é que eu lia? Além desses, o Maradona, que tinha o blog "A Causa Foi Modificada".

Não tem ainda? Não sei.

Não sei. Não fui verificar, mas servia uma espécie de agregador, pelo menos para a blogosfera em que eu me movimentava. O Tiago Cavaco também, com o "Voz do Deserto".

O último post de "A Causa Foi Modificada", 16 de janeiro 2015.

2015, pois. A Pastoral Portuguesa, do Rogério Casa Nova, os blogs do Vasco Barreto.

Desculpa, o blog do Maradona corre o risco de ser apagado pelo SAP.

Descontinuado.

Não, apagado.

Isso é apagado para sempre.

Desculpa.

O Vasco Barreto, na altura, acho que não assinava com o nome. Teve vários, mas a Memória Inventada, lembro-me pelo menos desse. Mas teve outros, agora acho que ainda tem o Oriquense, não sei se escreve lá muito frequentemente. E havia coisas muito diversas. Por exemplo, tinhas a Miss Pearls, da Isabel Goulão, o Bom Inteligente, da Carla Quevedo, o Ana de Amsterdã, da Ana Cássia Rebelo, esse que acabou em livro, a Pipoca. A Rititi também acabou em livro, também chegou a livro, mas havia muitos blogs.

E as pessoas punham os links para os outros blogs, também havia essa generosidade.

Não havia só generosidade, mas havia até quase exigência. Havia pessoas que ficavam extremamente furiosas se tu, por exemplo, num post.

Se tu referisses e não fizesses um link.

E não fizesses um link. Porque havia ali uma espécie de código.

Oficioso.

Exato. Eu linkei o teu post quando te referi e agora tu não linkaste o meu. Eu evitava fazer links, pelo menos no meu blog, para não entrar precisamente nesse lambe-cusismo. Peço desculpa.

Ora essa, eu acho que é uma honra.

Quero um bocadinho. Às vezes havia pôr o link, mas depois não te esqueças de mim. Mas não era por nenhum código deontológico.

Nesta altura, ainda não se diz que a imprensa vai acabar. O grande salto, a grande transformação acontece com os smartphones, os chamados iPhones. E há quem tenha também o outro sistema operativo, agora não me lembro o nome. O Android. O telefone permite que nós estejamos à espera do metro, à espera do médico ou o que for, e estejamos a consumir texto, informação, imagem.

E tudo agregado, da mesma forma como também tens a informação agregada. Porque logo tu tinhas que ir a cada um dos blogs.

Tinhas que agregar. Os blogs fazem parte desse tempo da internet, em que a internet primeiro era uma espécie de enciclopédia. E depois a internet também é um sítio onde tu podes fazer coisas, e as coisas que podias fazer eram precisamente os blogs. Não marcavas ainda o apartamento em Praga para ir com duas viagens.

Mas diz-me, Pedro, que blogs lias tu?

Não me lembro bem, palavra de honra. Sei que comecei a deixar de ler blogs aquando da discussão do aborto. Porque era tão agressivo. Algumas interações eram tão agressivas. É claro, eu como qualquer pessoa, adoro ver pancada. Gosto de estar sentado e gosto que estejam à luta à minha frente.

2007, portanto.

Aquilo pareceu-me poluição e deixei de consumir blogs. Alguns eram bem apanhados, mas eu acho que os melhores blogs também passaram a ser uma espécie de hipercultura. Citavam 16 autores de que tu nunca tinhas ouvido falar e isso também acabou por afastar algumas pessoas, pelo menos no meu caso. Aliás, eu depois voltarei aos Twitters, onde já não estou, muito porque percebi que era uma fonte de informação sobre coisas que me interessavam. Neste caso, Fórmula 1. Depois, a opinião em Portugal, os textos livres e de opinião, no Facebook, no Twitter ou nos blogs, caso eu lesse, havia sempre um recado implícito e às vezes explícito. No limite era: "Está a chover muito em Lisboa, e quando é que o Moedas acaba não sei o quê?" Ou seja, há hoje em dia, e desde há uns anos, sempre uma mensagem, sempre um recado, sempre um ataque. E isso torna as coisas um bocadinho menos interessantes. E eu próprio também o fiz.

Ora essa. Maria, para terminar, lembras-te?

Eu não me lembro. Estou com o Pedro, não me lembro, mas lembro-me de facto de terem chegado a um ponto, eu penso que isso foi muito dissuasor, de certa forma, em que a ingenuidade passou para o outro extremo, que é tornarem-se círculos demasiado fechados. E não te esqueças que também não havia aquilo que depois também, de alguma forma, alimentou ainda mais o outro, que é a caixa de comentários como nós hoje a conhecemos. Isso não havia. Tinhas um e-mail, alguém podia deixar lá qualquer coisa, mas isso também implicava que a pessoa desse um certo passo a mais, se mostrasse, não mostrando, também obrigava a escrever com pés e cabeça, porque também querias responder, estar à altura da resposta, porque também havia esse lado. Mas não era a caixa de comentários como tu tens hoje. Eu acho que as pessoas hoje estão mais preocupadas em ter tempo para estar na caixa de comentários do que em produzir conteúdo ativo para ser objeto de discussão.

E controlavas, na altura podias ter caixa de comentários ou não ter caixa de comentários.

Exato, filtrares, sim.

E tendo caixa de comentários, se eram logo automaticamente publicados ou não.

Deixa-me só dizer que eu fui membro de um blog coletivo até há muito pouco tempo, que foi do Sporting, que se chamava " És a nossa sé", e que acabaram.

Um blog que eu lia com alguma regularidade.

E que acabou.

Estou a brincar.

Também há muitos desportos, é verdade.

Deixa-me só dizer, foi o único blog, só para tu veres como eu sou um lobo solitário, para o bem e para o mal. Foi o único blog coletivo para o qual eu alguma vez fui convidado, e aceitei. E estive num almoço de blogs há muitíssimo pouco tempo, do Corta Fitas, fui convidado como convidado especial. Muito obrigado ao João Távora, que me convidou.

Não participavas no blog, mas foste-

Não participava, nem participo. E foi a única vez que estive num encontro de blogs, com pessoas que faziam blog fisicamente.

Muito bem. O que é que comeste?

Estava ótimo. Comi mão de vaca, mas estava ótimo.

Apropriado.

Muito bem recebido. Enfim, foi ótimo.

Muito bem, final de mais um "PopUp". Já sabem que podem inscrever-nos para popup@observador.pt. Continuem a seguir-nos nas plataformas de podcast. Voltamos na segunda-feira com as sugestões da semana. Até lá.