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Não há cinco, seis minutos mais perfeitos de cinema do que Gene Kelly a dançar à chuva no "Serenata à Chuva". Sim, é verdade.
Sejam muito bem-vindos a mais um "PopUp", o vosso almanaque de cultura popular, com a garantia de qualidade e sabedoria destes três amores: Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e Pedro Buchinho Mendes. Esta semana estamos especialmente contentes. Este é o primeiro programa em que falamos de um tema sugerido diretamente por quem nos ouve. É isso mesmo.
Logo à primeira. Logo à primeira. A invenção do e-mail. O que um e-mail faz.
Ainda bem que inventaram essa nova tecnologia.
Estás muito contente, Tiago.
Claro que estou.
Esqueceu-se de que o programa é premiado.
Não, não me esqueci. Calma.
Desculpa. É muita coisa. Quando ganharmos no próximo ano, os nossos ouvintes também serão vencedores.
Já são.
Já eram, claro. Obviamente.
Isto tudo porque na semana passada, para quem não se lembra, anunciámos que já temos um e-mail: popup@observador.pt. É assim que fazem os programas premiados pela Sociedade Portuguesa de Autores como melhor programa de rádio. Fica aqui a nota. Portanto, quem nos ouve já pode enviar-nos sugestões, perguntas, partilhar angústias e o que quiser. Entre as várias mensagens que já recebemos, muito obrigado a todos os que nos escreveram e aos que ainda o vão fazer. Uma deixou-nos a pensar bastante e decidimos avançar com o episódio sobre o tema. Foi a Ana Raquel Peixoto que nos escreveu o seguinte, vou passar a citar. Eu pedi autorização para fazer isto. Isto não é feito assim, sem educação.
Peço autorização a Ana Raquel.
Exatamente.
Olha os dados.
"Agora que aceitam pedidos, lembrei-me de pedir sugestões de filmes para afastar um adolescente que tenho cá em casa da PlayStation, do YouTube e do TikTok, para que possa descobrir a maravilha que é o cinema." Isto foi ouro para os nossos ouvintes.
Não vai conseguir. É o que eu posso dizer, não vai conseguir. É os planos.
Não, mas vamos tentar. Esta semana tornámos isto um pouco mais abrangente e decidimos falar sobre filmes que podem levar os adolescentes a gostar de cinema. Adolescentes que não tenham esse interesse. Vamos tentar despertá-lo e podem eventualmente ajudar a gerar uma relação para o futuro. Eu vou confessar, eu tinha pensado primeiro em fazer aqui umas perguntas de introdução, mas achei que não valia a pena. Nós vamos já à matéria, porque senão vamos perder imenso tempo e não vamos falar dos filmes. Mas meus amigos, vocês podem falar, quando falarem dos vossos filmes, podem contextualizar como entenderem. Atenção, Pedro Buchinho Mendes, vamos começar por ti. Até porque eu estou muito curioso, porque a tua primeira sugestão eu não esperava.
Qual é que foi?
"Janela Indiscreta", do Hitchcock.
Ok.
Eu, em princípio, não diria que este poderia ser um filme óbvio para tentar levar um adolescente a gostar de cinema, mas queria ouvir o fundamento da tua escolha.
Em primeiro lugar, este tema, estou aqui junto convosco, mas sob protesto.
Claro, e bem.
Aliás, como todas as semanas. Porque nós não somos críticos de cinema.
Claro que não.
Nem psicólogos, não sei bem qual é a especialidade que tira jovens da PlayStation para o exterior.
Não somos, mas temos direito à nossa opinião.
Sim, e portanto, enviando aqui um abraço solidário à Ana Raquel e ao jovem. Eu parti do pressuposto que é um rapaz. Não sei porquê, mas parti desse princípio.
Porque o e-mail dizia: "um adolescente".
Pronto, é isso. E que terá entre 13 e 16. Parti desse princípio, eu, nas minhas escolhas.
E bem.
A primeira dica é que seja de facto numa sala de cinema. Porque uma das coisas mais interessantes quando eu comecei a trabalhar em televisão, que tive que explicar às pessoas que me interpelavam sobre os resultados, tive que estruturar um discurso, porque é uma coisa que as pessoas sabem, mas não sabiam que sabiam.
Exato.
É que existe uma solenidade na sala de cinema que nos impede, por exemplo, de levantar facilmente. Não é muito usual as pessoas saírem da sala, por exemplo. Que nos prende à cadeira. E existe também a questão de ter pago o bilhete. Portanto, já que paguei, vou ficar até ao fim. Eu devo ter ido ao cinema 200, 300 vezes na vida, talvez mais, e acho que só saí uma ou duas vezes.
Lembras-te dos filmes?
Um foi o "Species: Espécie Imortal". Sabem qual é?
Lembro. Michael Madsen.
Sim. E o outro foi o "Blade Runner 2049" ou aquele segundo "Blade Runner".
Sim, do Villeneuve.
Sim. Que me esqueci de ver quanto tempo é que tinha e acho que tem nove horas. Portanto, a questão de pagar o bilhete e a solenidade da sala de cinema são uma parte importante da experiência. Portanto, para prender o jovem.
Para fazer um compromisso.
Prender aqui o jovem da Ana Raquel à cadeira e ao compromisso. Ele provavelmente vai estar amuado e provavelmente tem o cabelo comprido a tapar os olhos. Que é normal.
Claro.
A Ana Raquel sabe que essa amuar é uma forma de chamar a atenção. Ele, no fundo, quer comunicar com a mãe. Isto é melhor que o "Eduardo e as Psico".
E diz ele que não era psicólogo. Mas depois há aqui uma coisa que eu acho importante
O filme deverá ser de uma época, era, que não é a nossa.
Ok.
Porque isso é mais uma camada de descoberta.
Certo.
E porque este filme do Hitchcock em particular é muito mais linear por comparação com a ficção atual de audiovisual, por várias razões. Tem mais ambiguidade, temos que estar mais atentos, porque nunca nada é o que parece. E aqui, de facto, no "Janela Indiscreta" também nunca nada é o que parece, mas é-nos tudo apresentado de uma forma analógica. Não há telemóveis, ninguém há de ir para o computador descobrir. Ou seja, o personagem do James Stewart, que no fundo é alguém que está a convalescer e que vê qualquer coisa acontecer pela janela, não vai pra internet à procura da identidade do vizinho. Porque não havia internet na altura, nem computadores. E, portanto, este lado analógico das coisas, neste caso, a ação do filme, do argumento progredir, avançar, é mais uma abordagem para que o jovem possa intelectualizar o que está a acontecer. Portanto, um filme adulto, um filme analógico, um filme de outra era e, ainda, um clássico. Porque mais tarde o jovem poderá agradecer quando estiver num bar a tentar ter conversa com alguém, com interesse amoroso, poderá dizer: "Não, não, clássicos. Olha, eu já vi a 'Janela Indiscreta' do Hitchcock, no cinema." Que é uma boa forma de começar a conversa. Portanto, a mãe poderá tentar convencê-lo com estes argumentos e outros.
Olha, Pedro Mexia, devo dizer que é uma extraordinária justificação. E estavas tu a desculpar-te, a dizer que estavas aqui sob protesto.
Bruno, vê lá se consegues ganhar.
Viste a vergonha?
Já estou aqui a pensar.
Insiste.
Acho que vou mudar.
Volta para a semana. Voltamos para a semana.
Maria Ramos Silva, vamos avançar com a tua primeira sugestão, que eu não faço ideia qual é e estou contente com isso, porque fico muito curioso.
Não, eu na verdade, o que decidi fazer? Para já, só pegando aqui um pouco no que o Pedro disse. A primeira dificuldade que senti é o que é hoje um adolescente, sobretudo faixa etária.
Claro. Começa para aí aos oito anos.
Pronto. Mas é verdade, eu senti, por exemplo, há esse grande desafio. Havia coisas que para nós seriam um pouco impensáveis ou talvez mais adiáveis em termos de consumo de cinema há 20, 30 anos. E eu hoje, por exemplo, penso num clássico como o "Regresso ao Futuro", que ainda por cima está de volta às salas. E que se calhar seria uma sugestão normal e expectável para um adolescente do nosso tempo. Mas eu hoje vejo, o meu sobrinho mais velho tem sete anos, já foi ver o filme e aquilo para ele já é provavelmente até demasiado infantil, como ele muitas vezes me diz. Portanto, há aqui um desafio diferente, de facto, como é que estas novas gerações veem o cinema, veem os conteúdos de cinema. O meio é obviamente muito importante, como o Pedro dizia, e aí claro que há uma vantagem competitiva enorme na ida à sala de cinema. Porque tu tens um compromisso, és obrigado a ter aquele compromisso. A não ser que tenhas de facto um VIP que decidas ir embora, que provavelmente se calhar se estiveres com um grupo de amigos até és capaz de fazer isso, mas por regra vais respeitar e vais querer conhecer o final. Portanto, se calhar até te deram dinheiro ou gastaste a tua mesada, enfim, não interessa. Portanto, é de facto o essencial. Dito isto, eu trago sugestões que, na verdade, vão um pouco contra esta ideia, porque são coisas que já aconteceram, são filmes, muitos deles antigos, já têm algumas camadas em cima em termos de tempo. Portanto, se quiserem, o mais simples é ignorar tudo isto e ver o que está a dar no cinema que possa ser mais ajustado, como é evidente, se calhar, eventualmente, vários conteúdos da Marvel, por aí fora, não sei. Ou talvez não, ou coisas inesperadas. Mas tentei arrumar isto pelo menos em quatro categorias. Uma delas eu chamei para desassossegar ou transgredir, se quiseres, porque eu acho que parte do consumo na adolescência é muito feito à revelia de pessoas como aquela que nos enviou o e-mail. Ou seja, eu percebo a boa intenção dos pais de quererem levar os miúdos ao cinema ou de os levar a ver filmes e a consumir filmes, provavelmente até filmes que eles consumiram e querem passar esse legado, esse historial todo. Mas a adolescência é uma fase de confronto. É uma fase em que tu queres ver coisas às escondidas, queres ver coisas que os teus pais não saibam que estás a ver. Se calhar até vais ao cinema, mas de uma forma encapotada. E, portanto, não sei se a expectativa dos pais coincide propriamente com aquilo que são os desejos dos filhos em termos de consumo. Mais uma vez tocando naquela questão, pra que faixa, na verdade, é que nós estamos a falar. Porque há aqui uma diferença muito grande entre teres 12 anos ou teres 17, ou teres 16. Mas arrumando aqui, isto são filmes assumidamente que têm esse lado de transgressão, têm alguns conteúdos mais fortes, mais pesados, se quiseres, até aqui com algumas coisas que provavelmente hoje já terão indicações prévias que se calhar não tinham no nosso tempo, em termos não só de idade, mas também de consumo de substâncias e tudo mais. Mas eu lembrei-me, por exemplo, alguns também mais comédia e mais coteria. Lembrei-me do "Juno", do Jason Reitman. Lembrei-me, por exemplo, do "Ken Park" num outro registo, do Larry Clark, aqui sobre um grupo de skaters. Isto é muito início dos anos 2000. Estados Unidos, relações complicadas, adolescência. Lembrei-me depois num contexto mais da escola, de dois casos franceses. Aliás, três, um mais de culto, mais história, que eu penso que o Bruno também se tinha lembrado, que é o "400 Coups" do Truffaut, que é um clássico imbatível. E depois o "Entre les Murs", que também é passado na escola e que também tem a ver com todo esse contexto de efervescência na escola. E o "La Haine", que também é um clássico, ali muitos subúrbios, com um muito jovem Vincent Cassel, hoje já não tão jovem, obviamente. E ainda, por exemplo, o "Persepolis", eu acho que é um filme também relativamente recente Que é capaz de interessar se calhar até ao público mais feminino. Mas acho que podem ficar aqui de sugestões entre Estados Unidos e Europa.
Muito bem. Bruno Vieira Amaral, antes do intervalo, por que uma seleção de filmes dos anos 80?
Porque foi nessa altura que eu cresci a ver filmes, mas todos estes filmes eu vi na televisão. E isso faz a diferença. Se a ideia é conquistar um adolescente para o cinema, de facto, não há nada melhor do que ir ao cinema ver seja o que for. Mas se a ideia é mostrar outros exemplos de outras épocas de cinema, mesmo visto na televisão, para tentar conquistar o adolescente, então eu resolvi fazer uma pequena seleção, que já foi testada no público-alvo, em adolescentes e pré-adolescentes.
Portanto, há aqui uma razão empírica, não é?
Há, também, porque funciona. Eu escolhi o "Rei dos Gasteteiros", o "Aventura Fora de Horas", o "Regresso ao Futuro" e também podia acrescentar aqui o "Karate Kid". Funciona, realmente. Há uma estranheza em relação à imagem, às vezes até ao próprio ritmo das histórias, mas todos estes filmes têm muitas peripécias.
E tu achas que isso resulta?
Resulta para além de, no caso do "Regresso ao Futuro", ser um argumento quase perfeito. É muito intrincado e aquilo depois vai bater certo, mas é algo que eu acho que continua a funcionar, independentemente do aspecto mais ou menos antigo. Não nos podemos esquecer que para os miúdos de hoje, eles olham para os filmes de 1980 e a distância que os separa desses filmes é a mesma que nos separava, a nós que crescemos nos anos 80, dos filmes da década de 40. Já nem da década de 50, da década de 40. Mas eu vi filmes da década de 50, os "10 Mandamentos".
Cerca de 23 vezes.
Adoro.
Todas as Páscoas.
O "Sargento Negro", por exemplo, que é um filme do John Ford, também acho que é ainda dos anos 50, e vi fascinado, vi esses filmes fascinado. E na televisão. Pode-se desenvolver esse fascínio. Eu acho que estes filmes e outros dos anos 80 continuam a ter uma grande capacidade de sedução, mesmo a quem não está habituado àquela linguagem audiovisual, mesmo para a geração que olha para aquilo e aquilo parece-lhe um pouco arcaico. Depois a história, a força da história, da narrativa é tão forte que acaba por conquistar e acho que é igual para estes filmes todos. E aqui não está tão em causa a qualidade cinematográfica ou o lugar que estes filmes ocupam na história do cinema. Por exemplo, o "Aventura Fora de Horas" é um típico filme de divertimento, de ação juvenil dos anos 80, mas é muito divertido, tem muitas peripécias e eu acho que continua a funcionar com as novas gerações, vencida essa primeira resistência inicial.
Muito bem. Isto começou muito bem. Eu acho que vocês estão a fazer um ótimo trabalho.
Pedagogia.
Exatamente. Entretanto, chegamos aqui ao final da primeira parte do "PopUp". Voltamos depois de um curto intervalo. Até já. Estamos de regresso ao "PopUp" com Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e Pedro Boucherie Mendes. Esta semana estamos a aproveitar a pergunta da nossa ouvinte Ana Raquel Peixoto, que nos pediu sugestões sobre filmes para pôr adolescentes a gostar de cinema. E nós estamos aqui a fazer um programa inteiro à volta do tema, cheios de mania e de atitude. Pedro Boucherie Mendes, mais uma ronda. Juntaste aqui dois, não sei se eventualmente tens mais algum para juntar a este grupo, "Apollo 13" e "Catch Me If You Can", que é aliás, um dos clássicos deste programa.
Deixa-me só dizer uma coisa, em benefício de Ana Raquel. Uma das formas para encontrar o filme no cinema, é consultar aqueles sites de bilhetes, tipo Ticketline, através do modo calendário, porque pode ter uma sessão de cinema, não sei o quê, e ela ou qualquer pessoa pode. Ou seja, é fácil estarmos aqui a sugerir e depois esta senhora é muito discreta, nunca vai ao cinema.
Claro, obviamente.
Então uma forma, ou então obviamente ir à Cinemateca.
Mas estes títulos também servem um bocadinho de exemplo e modelo.
Isso. Mas na Cinemateca costuma haver estes filmes que não são bem comerciais. Eu queria também dizer que estou muito em desacordo com a Maria e com o Bruno nisto. Eu acho que levar um miúdo, que está sempre na PlayStation, vamos usar aqui a caricatura, não podem ser temas da idade dele. Ou não devem.
Tu achas que essa distância ajuda?
Porque a questão dos adolescentes e dos jovens adultos, pelo menos a relação com os pais, é que têm sempre a mania que sabem imensas coisas e mais do que nós. Portanto, se nós levamos para filmes com adolescentes e não sei o quê, em princípio eles vão achar, os miúdos acham sempre que os pais nunca foram adolescentes. Quer dizer, no meu caso eu nunca fui. Ou seja, talvez levar para um território inesperado seja mais...
Mas quem é que disse que... Eu concordo contigo, não estou em desacordo. Essa foi a minha primeira sugestão.
Pronto, está bem. Então desculpa, então já lá vamos.
Não, mas é bonito quando duas almas se encontram.
Esses dois filmes, o "Catch Me If You Can" e o "Apollo 13", e pode haver outros, têm a ver com uma dica, outra dica, que é: filmes inspirados em casos reais. Porque isso permitirá depois ao dito adolescente da caricatura, e à mãe ou ao pai
Conversarem sobre múltiplos temas. O Apollo 13, naquela altura, os americanos e os soviéticos estavam a concorrer, havia a Guerra Fria, e depois quem fosse ao espaço primeiro, etc. Ou no Catch Me If You Can, ele foi contratado pelo FBI, porque ele era muito bom, e sobre a questão da moral, por que nós torcemos, no fundo, é um vilão.
E estamos a torcer por ele.
Exatamente. Esse tipo de coisas. Ajuda, creio eu, francamente, que esteja vinculado à realidade, até porque hoje temos a internet e há imensa matéria sobre isso. Podemos pesquisar e nem sequer precisamos da inteligência artificial, quais são os acontecimentos que deram origem ao filme e onde é que é diferente, etc. E eu acho que esses dois filmes, o Apollo 13 e o Catch Me If You Can, são ótimos filmes, porque não são nem demasiado ligeiros, nem demasiado complexos. É o típico cinema americano de grande público, e eu acho que isso é uma forma de arte em si mesmo. Esse típico filme americano de grande público, é uma forma de arte em si mesmo. É essa a justificação para estes dois filmes.
Muito bem. Maria Ramos Silva, a tua segunda categoria. Teu segundo pijaminha.
Um pijaminha mais pequenino, mas também vale muito a pena. Porque eu penso que toca numa outra questão que também é muito comum. Estou a tentar, sobretudo, procurar referências de mim enquanto adolescente, não conheço todos os adolescentes, obviamente, mas acho que não é uma fase sempre divertida ou quase nunca muito divertida. E tens muitas dúvidas existenciais. E muitas vezes nem te apetece muito cá andar. Eu acho que é uma fase muito complicada. Partilhamos esta inquietação, julgo eu. E eu acho que há boas fitas que mostram, sobretudo, um lado de encontro intergeracional entre a comédia, algumas não tão cômicas, mas com uma dimensão muito interessante. E até temos um bom exemplo relativamente recente. Mas isto para dizer o quê? Se eu pudesse só escolher um filme e apagar todos os outros, há um filme que para mim vai ser sempre um dos meus filmes preferidos e que eu acho que é ótimo para se ver em qualquer altura, mas a começar pela adolescência, que é uma coisa chamada Harold and Maude, do Hal Ashby, e é um filme maravilhoso de 1971, com música de Cat Stevens, e que basicamente é a história de uma idosa viúva que quer muito viver, apesar de se aproximar a passos largos para o final da vida, e de um jovem adolescente que procura por todas as formas tentar matar-se e que está farto de cá andar. É uma história absolutamente deliciosa. Eu acho que é impossível sair disto a ver as coisas da mesma maneira. É possível ver em diferentes fases da vida e encontrar ali motivos para achar o filme absolutamente extraordinário e, portanto, se puderem, neste caso vão ter que ir a alguma boteca, uma cinemateca. É o grande problema depois destas recomendações, mas é uma sugestão muito forte da minha parte. E outro, que é um filme de 2014, do António Pedro Vasconcelos, que curiosamente eu acho que foi um grande sucesso no cinema. Até do ponto de vista familiar, notou-se que levou muita gente ao cinema para ver isto, que foi os Gatos Não Têm Vertigens, que é um título mais contemporâneo e que também tem um pouco a ver com isto. Há aqui uma questão também geracional, alguém mais velho, os dilemas de alguém mais novo. Eu acho que isto, apesar de ser uma história com barbas, acaba por funcionar sempre e não sei se irá convencer todos os-
Nesse caso é com bigodes.
Pronto, nesse caso é com bigodes. Todos os adolescentes, mas é possível que faça um bom caminho. Vamos vendo.
Muito bem. Bruno Vieira Amaral, tu que não gostas das minhas graças. Queres sugerir musicais. Como gênero, não é? É o princípio.
Como gênero, porque quem não gosta de musicais não pode gostar de cinema.
Não gosta da vida.
Não merece cá estar.
Não gosta de cinema. Portanto, eu percebo que a Maria esteja a querer formar cidadãos, mostrando-lhe coisas.
Cidadões, até?
Não, dar-lhes uma razão para viver.
Uma razão para viver.
Cidadões.
Eu só lhes estou a dar razões para eles gostarem de cinema.
Exato.
E se não gostarem de musicais, não podem gostar de cinema.
Mas o cinema também me fez gostar da vida, que eu acho que é importante.
Isso é uma consequência, não é necessária, não é obrigatória. De acontecer, o teu caso aconteceu e nós estamos gratos.
E ainda bem, porque estás aqui.
Ainda bem, claro. E o programa seria muito diferente. Agora, não há cinco, seis minutos mais perfeitos de cinema do que Gene Kelly a dançar à chuva no Serenata da Chuva.
Isso é verdade.
Se tu não gostares disto-
Mas isso é para mostrar logo desde bebê, não é? Isso nem é preciso chegar à adolescência.
Podes só mostrar aqueles minutos no YouTube, não é preciso ir a um cinema. Mas se não se gostar disto, não se pode gostar de cinema. E eu estou aqui a tentar formar um cinéfilo.
Exatamente.
E por isso, Ana Raquel, leve o miúdo a ver o Feiticeiro de Oz, é provável que ache aquilo uma grande estupada. Ou o Música no Coração.
Claro.
E agora no Natal deve passar certamente.
Mas está no streaming também. Não está no cinema, pronto. A questão do cinema.
Não, mas mesmo no streaming, vejam no Natal.
Faz mais sentido.
É uma ocasião especial. Há aquelas pessoas que dizem: "Mas nos musicais-
Eles cantam
...eles começam a cantar do nada". Não conseguem suspender a descrença, porque aquilo não parece com a vida real. Nos filmes de caubóis, eles também às vezes estão a cavalgar e a dar tiros. Eu sei que já ninguém vê filmes de caubóis.
E matam 27 de uma vez.
E nos Vingadores, eu não sei se aquilo é propriamente credível.
Exato.
Mas é assim, os musicais são assim, porque o cinema não é a vida. O cinema é outra coisa.
Por isso é que nós gostamos de cinema.
Que até nos podes fazer gostar mais da vida, como foi o caso da Maria. Não foi o meu e certamente não foi o do Pedro. Mas ficam musicais, em geral, e estes em particular.
Muito bem E há outros recentes e há outros modelos. Podem ver o "La La Land", se quiserem.
"La La Land" é maravilhoso.
Pedro Bochinche Mendes, terceira dose: "Do Céu Caiu uma Estrela".
Sim, e tinha outro também. Não pediste outro ontem.
Depois perguntei-te se tinhas um entretanto.
Sim, o "Céu Caiu uma Estrela" integra-se no capítulo "Jean Renoir discreto". "Do Céu Caiu uma Estrela" dava sempre no Natal antes do "Sozinho em Casa". É desse o filme que dava sempre na RTP. É um filme do Frank Capra. E é um filme fácil de apreender, portanto, tem aquela primeira camada que é fácil de aprender, fácil de seguir. E depois tem um lado, no final, a maneira como o filme acaba, há um lado de encanto que eu acho que vai surpreender o jovem adolescente.
Mas também tinhas falado, exatamente, num que eu acho que é mais denso.
É, que eu levei o meu filho, o "Manchester by the Sea".
Exatamente.
Eu levei o meu filho mais novo, que ainda hoje fala do filme. E qual é que é a receita aqui? Claro que eu fiz inadvertidamente, mas agora arranjei este discurso que vou dizer a seguir, que vai ficar lindo.
E bem, e é assim que as pessoas inteligentes fazem.
Que é tratar os miúdos como se eles tivessem uma capacidade intelectual superior àquela que, na verdade, têm. No fundo, tratá-los como adultos. Isto está em itálico. Esta frase está em itálico ou entre aspas ou sublinhado, como queiram. Mas no fundo, dizer ao miúdo: "Vamos ver um filme que se calhar não é para a tua idade, mas eu confio que..."
Também é apresentar um desafio.
Isso. E tratá-los como pessoas e não como garotos ou como miúdos. Nem sequer me lembro se comemos pipocas. E é um filme muito naturalista, não há aviões, não há tiroteios a cavalo.
Não há naves.
Portanto, é até um filme lento. É um filme forte, sobre a morte, sobre o luto. Muito bem interpretado, tem um ambiente controlado, é ali numa vila piscatória. Não é preciso estar muito atento aos detalhes. Mas o filme é muito pesado aqui no bom sentido, se é que posso dizer isto, do ponto de vista do que é a experiência humana. E eu acho que isso também é um desafio. A Ana Raquel está à espera que o seu filho vá discutir com ela o que achou. Mas lá está, o meu filho ainda hoje fala do filme, e eu acho que ele se sente grato, porque o pai confiou nele a ponto de o levar a um filme para adultos, sendo que é um filme que eu acho que não tem nudez, nem nada dessas coisas. Normalmente, o que sinaliza filmes para adultos são essas coisas da nudez e do sexo. Acho que não tem.
Essas coisas da nudez. Maria Ramos Silva, terceira dose e vamos tentar ainda ir à quarta, que nós somos assim uns valentes. O que é que tens para dar aqui?
Olha, tenho aqui uma categoria que é dos infalíveis e de culto, que na verdade vai aqui tocar um pouco no que o Bruno disse. Quando tudo falha, tu podes sempre buscar, de facto, este básico que funciona sempre. O Gene Kelly é uma coisa altamente recomendável.
Básico entre aspas.
Básico, sim. Básico também aqui com o itálico do Pedro.
Sim, no sentido de facto, de base, de alicerce.
De estruturante. De alicerce, exatamente. Primordial. E eu acho que se tu fores aos primórdios do cinema, tens sempre aquelas coisas mais intuitivas, até o próprio cinema mudo, que te dá aquilo mais...
Bem pensado, Maria. Eu não tinha pensado nisso.
A Maria não está aqui por acaso.
O Charlie Chaplin é óbvio.
Exatamente. Ponho os miúdos a ver "O Grande Ditador", por exemplo, ali não sei quantos minutos, só a ver aquilo e depois, pelo menos haverá algum espanto e as pessoas talvez...
Haverá conversa, também.
Haverá conversa também, o que é bom.
A Ana Raquel sabe que é importante falar com o filho.
Claro.
Eu farto-me de falar com os meus filhos.
Mais uma vez o Eduardo Sá a aparecer no estúdio.
Eu não quis dizer.
Eu falo com o meu filho a perguntar, basicamente: "Vais ao pingo doce?" É a única coisa que eu digo. Muito bem.
Andando um bocadinho para a frente, eu acho que nós temos sempre aqueles filmes simpáticos, agradáveis. O Pedro já disse ali o muito popular do Scorsese. E acho que podemos ir sempre para o "Moonrise Kingdom", do Wes Anderson, também é aquele filme que se vê bem, que os miúdos são capazes de achar piada. É indolor, funciona. Depois, obviamente, aqueles clássicos, eu acho que não sei se era o Bruno também tinha falado isto, como "O Clube dos Poetas Mortos", que é aquela coisa que não passa de moda. Quer dizer, não sei se não passa. Na verdade, não sei se lá regressamos e conseguimos avaliar se aquilo faz sentido ou não.
Eu estaria de acordo contigo, acho que não.
Mas há alguns que têm um caráter quase pedagógico, funcionam quase como um modelo moral.
Sim, e para o passar também.
E eu estou a lembrar-me de um que eu gostei muito de ver quando era miúdo, que era o "Mississippi em Chamas", em que a questão moral está muito bem definida. Nós sabemos quem é que está do lado certo, quem é que está a fazer o que é certo. E isso também para, imagino eu, os miúdos, ver as coisas de uma forma tão bem definida.
Além disso, apresenta o Gene Hackman.
Gene Hackman numa personalidade, numa personagem, de certa forma ambígua.
Goza. Eu não estou a gozar.
Eu gostava de ser este tipo. E essa identificação também com o caráter moral das personagens também pode ajudar.
Só para fechar, desculpa, duas sugestões muito rápidas. Passando aqui para o culto, uma versão mais indie, se calhar um pouco mais exigente também, aqui os pais orientarem mais a coisa. Não deixa de ser um clássico, "A Caminho do Idaho", do Gus Van Sant, com o River Phoenix e a Keanu Reeves, é uma coisa de 92. E depois, 20 anos para a frente, o "Donnie Darko", que também é um filme que eu gostei muito de ver na altura, do Richard Kelly.
Bruno Vieira Amaral, vamos arrumar aqui a tua terceira dose rapidamente para irmos à quarta aí.
Isto é rápido, sim.
Isto é tiros e estalos das trombas.
Pumba.
Então, posso? Já?
Claro que sim!
Ainda há pouco eu falava de filmes que são obrigatórios para um adolescente ou qualquer pessoa que gostar de cinema. Agora, filmes que são obrigatórios para qualquer pessoa que gostar de mim: "Assalto aos Arranha-Céus", "Robocop" e "Desafio Total".
É preciso ter muita mania.
Estes são os filmes que eu já vi e revi dezenas de vezes e recomendo sempre.
Eu posso garantir que já vi adolescentes e pré-adolescentes, estive presente no mesmo espaço, pessoas a ver o "Assalto aos Arranha-Céus" e aquilo funciona.
Funciona. Eu vi com o meu filho mais velho, que há 11 anos.
Se é saudável, se há tiros e pessoas morrem, sim.
Também vi, dos "Rockys". Aquele que funciona melhor para um adolescente é o "Rocky IV". Só para deixar a dica.
Muito bem.
Quem é o inimigo aí, o antagonista?
É o Ivan Drago.
É o Dolph Lundgren. Muito bem, quarta e última ronda. Pedro Ruxino Mendes, "Os Saltadores da Arca Perdida". Só este ou qualquer Indiana Jones?
Este é o melhor. Eu diria que é um dos melhores filmes da história do cinema, apesar de não ser crítico. É um filme que tica as boxes todas. Não é assim que se diz? Não sei como é que se diz em português. Não temos expressão, não é?
Vai a todas.
Preenche todas as caixas.
É um filme verdadeiramente espetacular, é um filme que ganha muito para ser visto no cinema. É o filme que o filho Ana Raquel poderá pensar, talvez não diga, se calhar é "muado" como sempre. Mas talvez diga: "Mãe, eu não sabia que se faziam filmes destes antigamente". O filme é de 81, 82. É um filme incrível, depois se calhar ele vai ter vontade de ver os outros, e o "Star Wars" e essas coisas. Mas o "Os Saltadores da Arca Perdida" é verosímil, podia ter acontecido. A maior parte das coisas que ele faz, enfim, quase todas as coisas que ele faz, são coisas que um humano pode ter feito a dada altura. Uma nave espacial, não, por isso é que eu não recomendei o "Star Wars". E acho que a própria Ana Raquel merece, se ela for mais ou menos assim.
Ver um bom filme.
Exatamente.
Exato.
Se o puto não gostar, ela vai gostar.
Exato. Maria Ramos Silva, a tua última sugestão.
A minha última sugestão é uma coisa mais virada para miúdas, porque eu acho que nós, às tantas, corremos o risco de dar sugestões que são demasiado masculinas, numa fase em que é muito evidente que os conteúdos não interessam da mesma maneira a todos. Bom, então o que eu me lembrei? Lembrei-me de coisas, algumas mais recentes, como por exemplo, o "Bling Ring: O Gang do Óleo", da Sofia Coppola. Isto porque eu acho que há aqui um condimento que é importante, que é por um lado, aquela coisa da agregação, de funcionares em bando, é uma fase de funcionares muito em bando. O contexto da escola, as disputas da escola, as lutas entre colegas, mesmo aquelas coisas mais frios, eu acho que isso faz muito parte. Eu acho que isso podia ser um bom exemplo, também juntando à tendência. Acho que o "Romeu e Julieta" com o DiCaprio é sempre um clássico que as meninas gostam de ver, pelo menos gostei. O "The Craft", mais antigo, com a Neve Campbell, o "Heathers", de 88, do Michael Lehmann, e até o "Bend It Like Beckham", que é uma história engraçada, já dos anos 2000, e que tem a ver com futebol e com superação.
"Mean Girls".
O "Mean Girls" também.
"Mean Girls" e funciona com os miúdos. Os meus filhos de 10 e 12 anos adoram o "Mean Girls".
Rapazes e raparigas.
Rapazes e raparigas adoraram o "Mean Girls". Incrível, é verdade.
Bruno, já que estás com a bola na mão ou no pé, eu não jogo futebol. Tu tinhas aqui uma série de sugestões super indies, mas também tinhas uma muito atual, que eu acho que é interessante falares sobre ela.
É o "Barbie".
Que é o "Barbie".
O "Barbie", que os meus filhos também adoraram ver. Isto aconteceu só por acaso. A minha filha foi com a mãe e depois o meu filho viu em casa comigo. A minha filha foi ver ao cinema.
Eu pensava que ias dizer: "E o meu filho foi com o pai".
Não, não foi. Vimos em casa, porque ele depois queria ver e não viu. Na altura fomos ver outra coisa qualquer, já não me lembro do que era. Porque eu já tinha visto. Lembras-te que nós vimos?
Sim, vimos juntos e fomos felizes juntos.
Depois vimos em casa, gostaram muito. Acho que é um filme para desenvolver o gosto pelo cinema com algo atual.
E tem alguns elementos de várias coisas que aqui foram faladas também.
Que funciona. Para rebater aquilo que eu tinha rebatido, Pedro, logo de início.
Mas rapidamente.
Estão aqui rapidamente as minhas sugestões neste sentido, de expor os miúdos a cenas completamente diferentes.
Desafios.
E que os podem embaralhar por completo. E podem sair de lá com a ideia: "Não percebi nada disto". Eu também saí em alguns destes filmes.
E veja no que tu te tornaste.
A experiência do cinema é esta, às vezes também sais de lá com mais dúvidas do que certezas. "O Último Ano em Marienbad", que nesse campeonato é mesmo sais de lá sem perceber nada, mas também o "Ondas de Paixão", que percebes alguma coisa, eu gostei muito de ver.
"Ondas de Paixão" é aquele que o Brad Pitt é o ator?
Não, isso é o "Lendas de Paixão".
Esse é o "Lendas de Paixão".
Do Lars von Trier. Fui levado por uma professora de filosofia, eu e colegas meus, ao King, Alexandra Leitão, se nos está a ouvir, foi ao King que fomos ver este filme, e que saímos de lá, éramos miúdos, tínhamos 17, 18 anos, e saímos de lá um bocado abaranados. Também "Os 400 Golpes", o "2001" e o "Solaris" são filmes que eles vão sair de lá de certeza: "O que é que foi isto?" Ou não gostaram nada, mas vai provocar uma reação intensa.
O cinema também é isso, acho eu.
É isso mesmo, é também desestabilizares e provocar-te uma reação forte, seja negativa, de total adesão, seja negativa, de repulsa, quase.
Muito bem, final de mais um "PopUp". Já sabem, escrevam-nos para popup@observador.pt. Quem sabe, não têm aqui um tema analisado com este cuidado.
Mas vai ser já na próxima semana, ou vai? Ou até pode ser.
Não sei, vamos ver. Sigam-nos nas vossas plataformas favoritas e nós voltamos na segunda-feira em podcast com as sugestões da semana. Até lá.