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Por pratos nunca dantes navegados na Rádio Observador, em parceria com o TJornal e o nosso Manuel Serrão. Tantas saudades, Manuel.
É verdade. As férias são isso. Nem tudo é bom nas férias, ficam as saudades. Para quem não está de férias junto, claro.
É verdade, isso eu não conversávamos há muito tempo e hoje aqui também com o Miguel.
As férias são sempre boas, mas ganhar as saudades uns dos outros também é bom pra depois o reencontro ser melhor.
Exatamente.
Sempre haver o lado positivo.
E onde é que se fazem os bons reencontros?
É à mesa.
Exatamente.
Estou tramada com vocês.
Continuamos coordenados como sempre.
Muito bem. E hoje, Manuel, estamos também de volta ao Portugal profundo, já longe do mar e das praias. Aboim fica mais ou menos onde?
Ora bem, Portugal profundo é bom, porque o nosso sentimento de reencontro também é um desejo profundo, portanto, acho que uma coisa rima com a outra. De qualquer maneira, em relação a saber onde fica Aboim, eu não sei se os meus amigos Miguel e Catarina estão bem conscientes de que poderemos ser perseguidos por dar esta informação. Eu lembro do Miguel Silva Escrivão escrever sobre um restaurante que adorava, mas que confessava que estava a ser masoquista, porque os melhores restaurantes deviam ser um segredo bem guardado.
É verdade.
Porque depois ficam estragados. De qualquer maneira, este restaurante de Aboim também é mais ou menos assim, que também rima. As pessoas que já conhecem dizem apenas: "Queres ir almoçar a Aboim?" E já sabem onde é, sem dizer o nome do restaurante, porque estes paredes têm ouvidos. Quem conhece já sabe, quem não sabe continua sem saber. Mas não há muito a fazer, porque o segredo foi mal guardado e os Filhos de Moura, assim se chama o restaurante, estão sempre a abarrotar. Portanto, já nada se pode fazer pior. Então no fim de semana, mas Filhos de Moura. Mas no fim de semana é pior ainda. Para não achar que estou a fugir à pergunta, e ainda bem que fizeste essa pergunta, vou esclarecer. Aboim é perto de Amarante, a caminho de Molinos de Bastos, e mais não digo.
Também já se sabe que quando se for falar nessas terras, é sinal que não vamos sair desiludidos. Manuel, a ida a estes Filhos de Moura vale a pena por causa de um prato que se intitula leitão bizarro? É assim que se diz? É que um leitão bizarro é coisa que pode não soar muito bem.
A mim já não está a soar, só por ser leitão.
Bizarro rima com pisar, mas não estamos aqui agora a tratar de política, nem da saúde. Mas, por acaso, tive um amigo que uma vez me perguntou, e por isso é que eu me lembrei também disto agora, se eu conhecia o melhor restaurante de leitão bizarro perto de Amarante. Eu estranhei, mas depois quando me disse que se chamava Filhos de Moura, é que eu morri. Então não é leitão bizarro, é leitão bizarro. E o engano dele é que era bizarro. O engano é que foi bizarro. Filhos de Moura até tem já um site onde não deixa dúvidas a ninguém. Lá se pode ler com todas as letras que a missão do restaurante Filhos de Moura é servir o melhor leitão bizarro do país. E podem ter razão.
Pronto, muito bem, ficamos esclarecidos. Já não é bizarro. Realmente, bizarro soava aqui um pouquinho estranho.
Era o chamado nome bizarro.
É, exatamente. E é verdade que numa ida ao Filhos de Moura matamos assim dois coelhos com uma cajadada. Coelhos? Mas não era leitão? Então, Manuel. Coelho, leitão. Eu não sei.
Só nos quer baralhar.
Não, o que eu estou a ver é que é tudo para vocês e nada para mim.
Exato. E o problema é que isto ainda vem tornar a coisa mais bizarra ainda. Mas pronto, é uma força de expressão. Claro que é leitão, não é coelho. Só que numa ida aos Filhos de Moura podemos fazer duas coisas boas e sem pagar a mais por isso. Daí a ideia de matar dois coelhos com uma cajadada. Podemos comer o leitão de categoria e divertirmo-nos ao máximo com as graçolas do verdadeiro cromo, que é o Filho de Moura em pessoa. Ele é um cromo raro mesmo. Para isso, a receita é ir almoçar mais sobre tarde, para ele já estar mais folgado quando chegarmos à altura do café. Aí começamos a puxar por ele. Ele é um fartote de rir com as histórias e piadas que ele tem um stock impressionante. Desde os meus tempos de liceu, que não estava tanto tempo a rir com as anedotas ao vivo, como aconteceu da última vez que lá fui. Vale a pena conhecer o personagem, porque ele começa logo a dizer: "Nós chamamo-nos Filhos de Moura, porque não somos filhos de não sei o quê". E vai por aí fora. Ele tem uma memória que há muito tempo não via ninguém com tanta memória para anedotas. Se calhar também é porque como o prato principal é só um, ele não precisa de gastar a memória com o menu. Usa a memória para se lembrar das anedotas e das histórias que conta aos clientes e nós divertimo-nos muito com isso.
É como se costuma dizer alguém que faz a casa. E quem lá for no grupo e não gostar de reco, tem que ficar a ver os outros a comer ou arranja-se outra coisa qualquer?
Estás a olhar para mim, Miguel.
Ora bem, eu diria que a Catarina lá não tem grande escolha. Mas também vamos ser honestos. Quem vai ao Filhos de Moura vai para comer o leitão bizarro. Senão vai enganado. Se for para lá para comer outra coisa. O que se admite é um grupo que vai lá para comer leitão bizarro e que vai uma pessoa que quer ir com o grupo e que não gosta de leitão.
Exatamente, é isso mesmo.
Pronto. Nesse caso há sempre os tradicionais bacalhau com broa, as oletas de pescada e o tradicional bife do vazio.
Dava para isso.
Mas devem-se contar pelos dedos as pessoas que lá estão. Eu confesso até que das vezes que lá fui, nunca vi lá ninguém a comer outra coisa que não fosse o leitão bizarro. Mas de qualquer maneira, se for alguém lá enganado ou que foi obrigado a ir com outros no meio do grupo, tem que comer as alternativas, mas não tem mais do que isto.
Antes de passarmos às contas e ao garfo, eu já sei também que os Filhos de Moura têm um vinho verde da família. Mas já agora, isto é quase uma pergunta para queijinho, Manuel. Com leitão, não é o espumante que escorrega melhor?
Há várias teorias. Eu acho que sim. Aliás, essa é que eu não sou muito com vinho, espumante da Bairrada. Eu, por acaso, até devo dizer que para mim o que vai melhor é o espumante tinto. Eu gosto do Cavaliães tinto bruto, é muito bom, mas o branco também vai bem. Mas os Filhos de Moura produzem um vinho verde que é de uma terra da família e que gostam muito de o promover, porque ele é muito bom. E o que eu faço normalmente? Aceito o vinho verde para as entradas, ele põe lá sempre uns salpicões, uns chouriços e umas coisas. Portanto, o vinho verde acompanha bem às entradas, mas depois quando passamos ao leitão, mando vir um espumante. Porque o leitão, seja na Bairrada, seja em Águeda, seja na Trofa ou em Aboim, pede espumante. Mas claro que há pessoas que são do contra, que têm sempre outra ideia. Também há vinho maduro e, para além desse, vinho verde, porque é produzido lá na família e ele recomenda. Eu sou um bocado contra aquelas pessoas que não sabem e não querem saber. Ou seja, acho que não gosto de espumante, mas nunca experimentei com leitão, portanto prefiro outra coisa. A minha sugestão é: experimentem uma vez, depois se não gostarem, ok. Então depois digam: "Não, já experimentei, já provei, não gostei". Na maior parte das coisas da vida, nós não devemos dizer que não gostamos sem provar.
É verdade.
Não é válido para tudo, mas pelo menos na gastronomia, e nesse caso, o leitão e o espumante, é válido sim.
Mas a idade aí também ajuda, não é?
A idade?
A idade ajuda.
A experiência.
Nem mais. É verdade, eu tenho que dizer mais experiência. Não é a idade, é a experiência.
Exatamente.
É verdade.
A todos os dias que correm hoje há gente mais nova que tem mais experiência que gente mais velha.
É a altura perfeita para passarmos às contas e ao garfo, não é, Miguel? Lá puxou lá tu.
Ia perguntar se essa característica da experiência me valia aqui na hora de sacar a carteira. Eu, sendo o menos experiente, espero que um de vós saque da carteira. Então, Manuel, com que nota é que se pagava este almoço aqui para os três, fazendo de conta que a Catarina almoçava conosco, com gosto?
Claro. Exatamente, que até podia comer o bacalhau, se estivesse pescada. A nota verde aqui dá claramente para os três e até podemos pedir um espumante de grande categoria. É naqueles dias em que até podíamos voltar a chamar o nosso Diogo, porque podíamos ir os quatro com a nota verde e não tínhamos nenhum problema.
Parece-me bem.
E a cor do garfo?
Eu acho que este caso é claramente um garfo dourado na vertente restaurante de leitão bísaro, como é evidente.
Claro.
Eu gosto também de sempre criar essas subcategorias, porque o garfo dourado tem que se ir adaptando às categorias dos restaurantes. Este restaurante não se pode comparar com outros restaurantes a quem já aqui atribuímos um garfo dourado. São as duas vertentes principais. Onde ele brilha como dourado é no leitão bísaro e nas anedotas do chef, do Filho de Moura.
Muito bem, Manuel. Então por hoje está feito. Para a semana cá estaremos outra vez para mais um "Por Pratos Nunca Dantes Navegados". Nesta edição fomos até Aboim, Filhos de Moura, o restaurante sugestão do nosso Manuel Serrão. Manuel, até para a semana. Ficamos por aqui, "Por Pratos Nunca Dantes Navegados" na Rádio Observador em parceria com o UT Jornal. Adeus, Manuel. Para a semana.
Adeus e obrigado.