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Todos os domingos aqui na Rádio Observador, o Manuel Serrão leva-nos por pratos nunca antes navegados. Olá, Manuel, bem-vindo.
Olá, boa tarde.
Esta semana já vamos para o Algarve. Já está a ficar verão, já mostra as garras o verão e o verão é Algarve. E desta vez, não estava à espera, vamos a um sítio da moda, em cima da areia. É para ir de chinelo?
Pois.
Ou descalço?
Poderia ser se eu fosse por esses caminhos, já sei que vou desiludir o meu amigo, mas não é desta que vamos para esses sunsets fashions, cheios de influencers e Instagrams. Aqui nos pratos somos sensíveis à moda e a várias modas, mas os bons restaurantes estão sempre primeiro, como se dizia da água de Vimeo, que nem sei se ainda existe. E hoje vamos visitar um restaurante familiar no Vale da Parra, no Algarve, perto de Praia dos Salgados, mas um bocadinho longe da areia.
Estamos a falar aqui de um restaurante familiar no Algarve, estamos a falar de uma tasquinha, uma coisinha pequena? Também já ouvi dizer que há lá uma espécie de cantinho Manuel Serrão.
Acho que não está batizado dessa maneira, mas tem lá um cantinho preferido. De facto, atenção que eu, que fique aqui claro, como também o Diogo de certeza sabe, não tenho nada contra as tasquinhas. Conheço, aliás, muitas e boas tasquinhas por esse Portugal fora. Só no Pulo do Lobo é que ainda não, mas o Cavaco ficou de me contar. Mas a Casa do Avô, que é assim que se chama, não é propriamente uma tasquinha. Também não é um palacete da Quinta do Lago ou outros sítios parecidos, mas é um restaurante familiar, de média dimensão, eu diria 40, 50 pessoas. Não é nenhuma tasquinha, mas até tem duas salas. Por acaso, já que o meu amigo falou nisso, o meu cantinho preferido, onde apesar de tudo cabem oito pessoas, portanto também não é bem um cantinho. É um cantão, mas também não é um cantinho.
Também não é para ir sozinho.
Exato. É num dos recantos da sala de entrada, que eu acho especialmente acolhedor e onde o avô me deixa lá ficar com muito gosto.
Olha, mas parece que há aqui uma palavra-chave no sucesso desta Casa do Avô: é o xerém. Isto é com X ou com CH? E já agora, o que é isto do xerém?
Pois, eu devo dizer que também tive-
Nem sei se estou a pronunciar bem.
Não, meu amigo, há quem diga xerém, outros quem digam xerém. O acento é no É do ÉM, mas eu por acaso digo xerém e ouço lá falar xerém, mas eu não tenho sotaque algarvio. A verdade é que este xerém é com X, como bem lhe inventa, mas também pode ter X versões, talvez por isso. Já explicar é que são outros 500, porque o melhor é ir lá provar e talvez o avô de serviço nesse dia possa explicar, se estiver bem disposto. Mas é uma espécie de farinha de pau. Eu não me lembro se vocês não comiam farinha de pau. Eu em miúdo comia muitas vezes farinha de pau.
Não faço ideia do que seja, sequer.
Nada, pronto. Não tem nada a ver com pão, não sei porque é que chamam farinha de pau. É uma espécie de farinha de pau, um creme, que fica delicioso cozinhado com frutos do mar. Eu iniciei-me no xerém de conquilhas e foi amor à primeira colher ou à primeira vista, se quiserem. Eu gosto de começar pelo xerém de entrada. Ele já sabe isso, portanto nem me pergunta. Mas a política da Casa do Avô, e que é muito insistente, sendo vários os comensais, e eu também fui lá já com várias pessoas, é trazer uma tábua de entradas variadas, em que se não tivermos cuidado, é logo mais de metade do almoço. Mas tem cogumelos, tem polvo, tem as coisas que ele tiver no dia, mas gosta de servir numa espécie de tabuleiro e ele, enquanto não consegue vender a tábua de entradas, não é um homem feliz.
Podemos ficar logo por aí. Mas acabadas as entradas e assumindo que vamos avançar na refeição, acabou-se o xerém? E o que é que fazemos e pedimos a seguir? Mais um xerém de entradas ou como é que é? É xerém pra entrada, xerém pra prato principal.
Xerém pra saída. Exatamente. Atenção que isto do xerém é mesmo uma palavra-chave e eu não quero desiludi-los, e quero pedir também desculpa pela falta de originalidade, mas a minha recomendação para atacar forte a seguir depois das entradas, é mesmo um prato que se chama garoupa, camarão tigre e xerém de brócolis. Mas agora de brócolis, xerém de brócolis que é top. Eu entre o xerém de brócolis e o xerém de conquilha, venho olhar e escolho.
Ficaste dividido.
Fiquei dividido e continuo. Portanto, assim à cautela, como os dois.
Muito bem. Mas vamos lá deixar os xeréns, porque pode haver quem não goste. Nesse caso, vai bater a outra porta ou aí o avô tem outras soluções para satisfazer a clientela que não é tão fã do xerém?
Eu admito a clientela que não é fã de xerém antes de o provar, porque depois de o provar, gostava. Digam um que prove o xerém e não goste. Pode não gostar do de conquilhas, mas gosta do de brócolis. Eu, para mim, com o xerém fico sempre bem. Mas como estamos numa rádio democrática e temos ouvintes que têm direito a ter outra opinião, aqui deixo outras linhas de pensamento. Há o peixe grelhado do dia, que é sempre melhor perguntar qual é, as lulas cheias, grávidas de um recheio excelente, um lombinho de javali em crosta de ervas, que também é muito recomendável, e nunca comi noutro lado, uma galinha cerejada com figos e amêndoas. Eu nem sei bem como é que isso se faz.
Mas lá dentro ou à volta?
É à volta, é lá dentro, ela é cerejada. Havia o cartel cerejeira, não é? Não sei se eu comi galinha. Galinha cerejada. É preciso ir lá provar.
Eu acho que devo ter provado uma coisa dessas em Cabo Verde. É possível que isso seja uma coisa com origens.
É possível. E já agora também, pra quem não gostar nada disto, uma coisa mais simples, mas também excelente, é costeletas de borrego, são muito típicas também naquela região.
Essas eu dispenso. Posso ir a todas, mas dispenso as costeletas de borrego. Estamos a falar do Algarve e vamos imaginá-lo agora em pleno mês de agosto. Temos que fazer reserva, não é?
Pois, eu aliás, acho que já aqui vos disse que eu não vou a restaurante nenhum sem reservar antes. Tenho uma mania que é: eu normalmente quando escolho um restaurante, já sei o que lá quero ir comer. Por exemplo, eu se reservar a Casa do Avô Tenho que comer xerém. Fico a pensar no xerém o tempo todo. Se não reservar, chego lá, não há lugar, está cheio, e na Casa do Avô, então no Algarve, no verão, acontece muito. Onde é que eu vou comer o xerém? Não sei, fico doido. Já nem durmo bem. Eu sem xerém não durmo bem se estiver a pensar nele. Eu reservo sempre. De qualquer maneira, aqui neste caso, é obrigatório. Eu ainda faço outra coisa, que é reservar à moda antiga, que é por telefone, falo com a pessoa. Não faço essas modernices de pôr nas aplicações. Embora me tenham dito que agora há uns desses sites de reservas que têm descontos, quem fizer reserva tem descontos.
Chamam-se os Yams, vais acumulando Yams e depois pagas parte da conta em Yams. Tu, se calhar, da maneira que vais a restaurantes, já terias para ir borla alguns.
Eles disseram outra coisa, que é que nós fazemos uma lista, consultamos, e diz logo lá à partida quantos por cento, qual a percentagem de desconto naquele dia, naquele restaurante.
Sim, verdade.
Eu tentei isso duas vezes, mas não é em todos, é só em alguns, acho que eles querem promover.
É verdade.
Ora bem, os dois que eu queria, das duas vezes que tentei, tinham desconto zero.
Não tinham desconto.
Não fiquei fã. Mas há que informar os ouvintes que agora há essas aplicações.
É verdade.
Quem quiser ir ao restaurante sem estar muito com aquela mania que tem que ser aquele, aquele mesmo, acho que chegou a 30% os descontos, é dinheiro.
Também deixaste aqui uma dica de que para além da reserva, é quase preciso ter cuidado também onde é que vamos deixar o carro, senão temos que fazer uma caminhada, uma maratona até lá chegar, não?
Claro. Eu não sei se eles reservam, eu nunca experimentei. Eles têm um parque, só que se o restaurante estiver cheio, o parque não alberga os carros todos das pessoas. E aquilo é numa rua, numa estrada. Numa estrada não tem estacionamento. Só tem o parque. Eu não sei se é possível reservar o parque.
Senão reservam um táxi.
Ou Uber ou táxi, ou então ir cedinho, porque cedinho há sempre lugar no parque.
Eu sou fã dessa hipótese, ir cedo. Para mim ao meio-dia já está bom.
Tirando o parque e não deixando o carro em transgressão, não há muitos onde estacionar.
Não há muito. Eu até tenho pessoas na família que dizem que se vão muito depois da 13:00, já estão a comer as sobras do resto dos clientes.
Eu é mesmo porque tenho fome a partir do meio-dia. Para mim já é permitido meio-dia. Não gosto nada quando quero ir e o restaurante só abre ao 12:30. Meio-dia para mim está ótimo. Muito bem, Por Pratos Nunca Dantes Navegados.
Temos que fazer conta.
Estava me a esquecer dessa parte, que eu não venho aqui todos os fins de semana falar com o Manuel, esqueço-me de contar.
É verdade. E isto com a Catarina costuma ficar mais barato porque ela come menos. Isto com o Nelson, vamos ter aqui já uma conta mais alta.
Na Casa do Avô, mesmo usando aquela travessa brutal das entradas, a nota de 100 dá para nós três. Com a Catarina até podíamos levar também o Nelson.
O Nelson pode ir sempre que a Catarina nunca faz muita moça na conta.
Nunca faz.
Ela fica-se sempre pelas entradas, quase. E garfo?
Garfo prateado. Seria dourado se tivesse uma categoria só para xeréns, mas não tendo, garfo prateado, que é muito bom também, tendo em conta as outras condições todas do restaurante. É excelente, recomendo vivamente.
Muito bem, fomos então até Vale de Parra, no Algarve, é ali pertinho de Albufeira. Vale de Parra.
Sim, é entre Albufeira e Monção de pera.
E Guia. Vale de Parra, no Algarve. Fomos à Casa do Avô. Comemos xerém que nos fartamos aqui com o Manuel Serrão esta semana em mais uma edição de Por Pratos Nunca Dantes Navegados. Se não escutou ou se não apanhou desde o início, sabe que pode encontrar este podcast também nas plataformas habituais e no nosso site em observador.pt. Manuel, bom domingo. Bom fim de semana.
Muito obrigado e até para a semana. Tchau. Xerém.