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Já cá estamos por pratos nunca dantes navegados, como é habitual, aos domingos de manhã, na Rádio Observador, em parceria com o TeJornal e o nosso Manuel Serrão, finalmente.
É verdade.
Ao vivo e a cores.
Ao vivo e a cores, exatamente. Cá estamos.
E finalmente aqui também com o André, não é?
Com o André, exatamente. É a primeira vez.
O André chegou, entrou aqui no estúdio.
É uma desilusão.
Não, meu amigo. Eu só confirmei que, de facto, olhando para ele, não se percebe bem como é que ele é o guru das promessas. Mas está isto tudo aqui é, pronto, acabou.
Eu não percebo.
É porque é um metabolismo muito rápido, é o que costumam dizer. Sai logo tudo. Entra e sai logo.
Quem me dera ter esse metabolismo. Bem, mas vamos lá. Hoje, Manuel, vamos à Trofa, naquilo que julgo que é a primeira viagem destes pratos a essa bela localidade do distrito do Porto.
Exato. Aliás, era isso que tínhamos previsto, porque à última hora estive quase para mudar para Oeiras, porque não faltaram esta semana. Sugeriram boas enjoeiras.
Mas o programa ficava de uma hora.
Nós já lá fizemos um, que é o Pátio Antigo, por acaso acho que esse não entrou no guia Michelin.
Exaltino.
Não, mas vamos à Trofa, acho que sim. De qualquer maneira, tens toda a razão. Eu até fico admirado como é que é a primeira vez que vamos à Trofa. Porque a Trofa tem muita e boa oferta. A Trofa e arredores têm muitos bons restaurantes. A Julinha é apenas um dos bons exemplos. Mas falando de sítios que eu conheço, há muitos mais, porque estes pratos nunca tinham navegado por terras trofenses, mas depois desta ideia fica a promessa de que é a primeira, mas não será a última.
Muito bem, sim senhor. Então, Manuel, mas olhando aqui para o nome, Julinha, temos um diminutivo, podemos esperar um restaurante de comida de peso ou um restaurante também de comida pequenina, como Julinha?
O meu amigo é que podia ser o Andrézinho. Já estávamos a ver.
Sim, exato. Por acaso nunca me chamaram Andrézinho quando era miúdo.
Não.
Não. Por acaso.
Por acaso está aqui também uma boa dica para falarmos dessa magna questão dos nomes dos restaurantes. Durante muitos anos existiam os nomes oficiais, que depois eram, na verdade, substituídos pelos nomes que os clientes gostavam mais de lhes chamar. Devem conhecer também muitos casos desses. Nós aqui falámos de alguns, como o Almoço do Marginal, que virou Maria Jorge, o Dona Elvira, que virou Virinha, o Turismo de Barcelos, todos conhecem como o restaurante do Jorginho ou a Marisqueira de Matosinhos, que é o Miguel para quase toda a gente, ou o Belcanto, que ir ao Belcanto é ir ao Avillez.
É verdade.
Hoje, das duas uma: se é uma personagem carismática ou um chef famoso, o caso do Avillez, por exemplo, fica logo com esse nome. Ou se quer ser mais fino, arranja-se um nome estranho e depois inventa-se uma história para justificar a escolha. Nos dias de hoje fica muito bem ter uma história para contar. Seja um vinho, uma casa, o nome de um restaurante, tanto faz.
As histórias vendem também.
Exatamente. No caso da Julinha é mais ou menos assim.
Pois, exato.
Então este Julinha fica na Trofa, mas o ex-libris é um bacalhau à moda de Braga, que fica a umas boas dezenas de quilómetros da Trofa, não fica, Manuel?
Fica. A pé é muito longe. De carro pela A3 é mais rápido. Mas eu costumo dizer, e até acho que escrevi no TeJornal, que não há bacalhau como o da Julinha. Atenção que isto estou a falar, que não faço bacalhau, nem o cozinho, só o como. Mas os próprios anfitriões, com uma humildade notável, são os primeiros a dizer que o bacalhau à Julinha é antes de mais e antes de tudo um bacalhau à moda de Braga. Só que quando ele aterra na mesa, confinado numa travessa à medida, imponente, ainda quase tímido, meio escondido entre as batatas e as rodelas de cebola, é que percebemos que nunca comemos outro igual. Atenção que o tamanho aqui conta, e muito. A posta da Julinha é uma posta gigante.
Certo.
Mas a maneira como conseguem confitar como um todo também ajuda a fazer a diferença. Atenção que quando eu digo que não há bacalhau como o da Julinha, nem sequer estou a dizer que não é um bacalhau à moda de Braga. Mas bacalhaus à moda de Braga há muitos, como aos chapéus do Ibérico. E nem sequer são todos em Braga. E o que eu digo é que neste caso, o bacalhau é diferente. Até podia ser diferente para pior. Mas por acaso, na Julinha, o bacalhau à Julinha é diferente do bacalhau à moda de Braga para melhor, na minha opinião.
Boa. Então, há bocado a Catarina estava a dizer que ainda há uma distância grande, pelo menos se formos a pé, entre a Trofa e Braga. Essa viagem para o Julinha ou para a Julinha vale a pena?
Eu acho que vale muito a pena.
Pelo bacalhau, só, quase.
Exatamente. Já para comer na Julinha convém levar a boca bem aberta, porque mesmo se demora a encontrar o restaurante final feliz, vai valer bem a pena. E por quê? E eu vou contar uma história. Porque quando houve aqui no último inverno aquelas inundações todas, que os rios saíram dos leitos, perto da Julinha há um rio, ou um afluente, penso que do rio Ave. E eu ia para lá. Primeiro, o caminho que eu estava habituado a conhecer estava fechado pela GNR. Disseram para eu ir por outro lado, fui por outro lado, dei uma volta muito grande, também estava quase a chegar, outra vez fechado, o rio tinha saído. Portanto, eu não consegui ir à Julinha, tive que telefonar e falar: "Lamento muito, mas hoje não é possível ir, porque não trouxe barco, não consigo ir." Aquilo, de facto, não havendo estes problemas, é fácil de encontrar. Agora, quando há estes problemas, é mais difícil. Não fica propriamente no cimo de uma montanha. Havendo inundações, é melhor perguntar se consegue lá chegar sem ser de barco.
Exato. Não é o meu caso. Hoje estou servida, Manuel.
Não é o meu caso.
Também adoras bacalhau?
Adoro bacalhau.
Pronto, então nós três estamos. Mas para quem não for fã de bacalhau, não vai à Julinha fazer nada ou até pode encomendar outras coisas? O que é que nós podemos encontrar?
Ora bem, o bacalhau à Julinha é o bacalhau à Julinha. Mas como dizia o ex-presidente Jorge Sampaio, do défice, também aqui há mais Julinha para além do bacalhau. Desde logo, os muito apreciados cabrito e vitela assadas no forno. Já sei que isso para a Catarina é menos bom.
Passo.
A carne Black Angus grelhada no ponto desejado e ainda o leitão segoviano.
Isso eu gosto.
O leitão segoviano tem que se lhe diga, atenção.
Isso eu gosto, não é só sobremesa.
O leitão segoviano é um leitão assado à moda de Segóvia, como é evidente, que é perto de Madrid, não sei se conhecem. Mas em vez do tradicional leitão à barrada, passa por serem recos mais pequenos, no máximo 3,5 kg, assados abertos ao meio e sem molho apimentado à barrada Eles fazem isso lá e também se calhar ouviu isso pela primeira vez. O leitão fica tão tenrinho que se corta com um prato, não é preciso faca. É uma coisa até simpática.
Não é preciso pontiagudo.
Não é para defender o bicho, corta com o prato.
Não estejas a descrever, por favor. É só falar. É leitão, é rico.
O prato é bonito. Mas está bem?
Não, não está.
Catarina, não sei.
Estou horrorizada, tens tu de pedir a conta.
Pronto, eu vou pedir. Ainda há mais?
Ainda por encomenda, ainda se arranjam dois pratos de luxo e menos comuns. Um é o cozido à portuguesa na carcaça e um arroz de frango.
Na carcaça?
Na carcaça e um arroz de frango à bordalesa. Estes não existem todos os dias, é preciso encomendar.
Calma, mas na carcaça não estamos a falar de pão.
Estamos a falar de pão, sim.
Estávamos a falar de pão.
Estamos a falar de pão, exatamente. Carcaça de pão. Ainda a pensar no meu amigo André, ainda hoje em casa umas sobremesas, embora sobretudo depois de uma bacalhoada destas, é preciso muita coragem e base outra vez. Mas imagino quem fica a meio caminho e que é o pão de ló húmido feito na A Zulinha, a mousse de queijo com doce de figo e uma delícia da A Zulinha, que é sempre uma surpresa, mas não leva bacalhau, isso eu já garanto.
Ok, então pronto. Fica a surpresa que é para eu ir lá. Ficamos tipo num jogo.
E temos um bom vinho a acompanhar o bacalhau. Sempre um bom vinho.
Sempre sim. Bacalhau, já aqui disse, eu prefiro, apesar de eu preferir maduro branco, mas a maior parte das pessoas prefere maduro tinto e tanto num caso como no outro não faltam lá boas escolhas.
Muito bem. Então agora sim, vamos à conta.
Vamos, já está tudo preparado.
Não, eu já. Eu sou o leitão.
Conta primeiro, nota verde. Dá para os três?
A nota verde dá para os três, exatamente, sem nenhum exagero nas coisas dos vinhos. Também sobrará, propriamente não sobra, pode sobrar é bacalhau.
Já calhei à conta.
Sobra mais para o bacalhau do que a nota verde, mas pronto.
E o garfo?
O garfo. E um garfo dourado.
Maravilha.
Um garfo dourado na sucateria de restaurantes regionais, sobretudo de bacalhau e graças ao bacalhau.
Muito bem. Está dada então a sugestão deste "Por Pratos Nunca Dantes Navegados" na Rádio Observador, em parceria com o TJornal. Hoje, o restaurante A Zulinha, na Trofa. Manel, estamos conversados por hoje? Até para a semana.
Estamos conversados, sim, senhora.
Até para a semana.