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Por pratos nunca dantes navegados na Rádio Observador, como sempre, aos domingos com o nosso Manel Serrão. E hoje à distância. Manel, o estúdio assim não é a mesma coisa. O Diogo já aqui a ficar triste.
Não sei se vou conseguir ultrapassar esta dificuldade, mas vou dar o meu melhor.
A dificuldade à distância?
Claro, esta dificuldade de não estar convosco é logo outra coisa.
Pois é.
Nós depois temos que compensar, Manel, de alguma forma.
Ninguém quer pandemias aqui.
Sabe que estas ausências depois têm de ser compensadas. Aqui vamos nós para uma sugestão de pratos nunca dantes navegados. E hoje estamos de volta à região Centro, não é, Manel? Mas felizmente não é para apagar nenhum fogo. Nós estamos de novo em Viseu. É isso.
Ora bem, que estamos de volta à região Centro, confirmo. Que não é para apagar nenhum fogo, também confirmo, mas já não confirmo que estamos em Viseu. De qualquer maneira, é assim: esta semana, como muitos dos ouvintes saberão, a Rádio Observador esteve em força na região Centro, mais propriamente em Aveiro, no Festival dos Canais. Mas como já se falou muito de Aveiro, vamos para outro lado em Centro, mas na região Centro, que é Mangualde. Também não é Viseu, mas está perto.
É uns 100 quilômetros de Aveiro.
Exatamente. O único fogo que é possível apagar atualmente, no Valério, é aquela espécie de fogo que arde sem se ver, que é a fome e a sede, para além do amor, claro.
Há quem diga que o restaurante Valério agora se devia chamar Figueiredo. Por que será?
Ora bem, é que o restaurante Valério nasceu com o João Valério. E agora, quem está lá à frente é o Jorge Figueiredo. E estes restaurantes do Valério, como muitos outros, vivem na alma dos seus donos. Noutro dia, até me lembro de uma coisa que o Júlio Magalhães contou nos Três Toques, que era a história da prisão de Sócrates. Na Grécia havia um restaurante que se chamava A Prisão de Sócrates, e quando lá foram, perguntaram: "É alguma filosofia na comida, alguma coisa para saber este nome?" E o senhor disse: "Não. Eu chamo-me Sócrates e esta é a minha prisão". Para muitos restaurantes deste estilo, o restaurante funciona como uma espécie de prisão, porque eles estão o dia todo. Estão nas compras, a receber, a tomar conta das encomendas, a receber os clientes. Passam lá o dia. Portanto, eu diria que este Valério, quando nasceu, era a prisão de Valério, agora ficou o nome de Valério, mas é a prisão de Figueiredo.
Entretanto, de um restaurante no coração das Beiras. Hoje não vamos falar de sushi e companhia, certo?
Ora bem, exato. E eu sei que é para muito desgosto e pena da querida amiga, mas na verdade era o que mais faltava no coração da Beira estar aqui a falar. Não quer dizer que não exista. Atenção, aliás, lembro que já aqui falámos de um restaurante em Viseu, que é o Amazônia, onde a par de comidas mais regionais, também tem uma barra oriental.
É verdade.
Portanto, não era impossível, mas no caso do Valério, não. De qualquer maneira, também é preciso perceber que a gastronomia é das coisas mais democráticas que há no mundo. E nós aqui nos Pratos Nunca Dantes Navegados, também temos praticado essa democracia, já que falamos de muitos restaurantes com sushi, com comida oriental, mas também comida regional, comida típica, mais gourmet, menos gourmet, mais caro, mais barato. Eu acho que temos respeitado aqui essa vertente democrática da gastronomia. De qualquer maneira, hoje vamos falar pelo menos cinco coisas diferentes. Uma entrada, que eu recomendo vivamente, que até é estranha, que é a sardinha em molho de escabeche. De facto, também se calhar não estaria à espera que em Mangualde, no coração da Beira, se servisse uma sardinha em molho de escabeche, mas eu acho que vale a pena experimentar. E depois quatro pratos fabulosos, imbatíveis, digo eu. O folhado de vitela esfarrapada, que é muito bom. O arroz de entrecosto e vinha d'alhos, que é um prato que existe em muitos outros restaurantes, mas que aqui no Valério tem um toque especial. O arroz de borrego no forno. Este já, para mim, é o único sítio. Já comi muitas vezes borrego com vários acompanhamentos, mesmo com arroz de forno. Arroz de borrego no forno, só comi no Valério e não conheço mais nenhum lado onde ele exista. E, portanto, também recomendo vivamente, para quem gosta de borrego, como é evidente. E depois bacalhau com broa. E no bacalhau com broa, volta-se a repetir a mesma situação, que é um prato que existe em muitos restaurantes de todo o país, mas que aqui no Valério tem, como acontece noutros casos, um toque especial. Eu estou convencido que quem está habituado a comer bacalhau com broa, vai perceber que este bacalhau com broa do Valério é de facto uma coisa especial, que só lá no Valério é que o consegue comer.
Eu dispenso bem o borrego, mas fiquei curioso com aquela vitela esfarrapada. É o quê? Como é que isso é?
Num sítio mais gourmet, se calhar falariam em empadão de vitela. Que é um folhado e a vitela vem como o bacalhau desfiado, chama-se esfarrapado, mas vem desfiado. É uma boa surpresa. Eu não vou aos folhados, mas este folhado, por acaso, é muito bom. Claro que eu também digo, entre estes quatro pratos, eu iria sempre entre o arroz de entrecosto e a vinha d'alhos ou arroz de borrego no forno. Mas o folhado de vitela esfarrapada, eu também tenho que recomendar aquilo que são as melhores coisas, não só as coisas que eu gosto. Lá se há a democracia dos pratos.
Pois é, e a vitela é forte nesta região.
E eu, para a vossa grande surpresa, eu iria para o bacalhau.
Irias para o bacalhau?
Com grande surpresa.
Eu sei que é por causa da broa.
Exato, claro que sim. Vê como o Manel conhece-me tão bem.
Mas já percebemos que os-
Estava para dizer: é a broa como a mim.
Manel, já percebemos que os arrozes são um ex-libris deste Valério, mas constou-nos que as paredes também contam muitas histórias.
O Valério tem essa característica especial que, apesar da nova decoração que o Figueiredo imprimiu quando tomou conta de Valério, manteve, e muito bem, na sala de entrada, uma coleção de fotografia que mostra os clientes que lá foram, uns mais conhecidos, outros menos, mas sobretudo, o que tem graça é porque são fotografias delas algumas com 20 anos ou 20 e tal anos. E eu devo dizer, aliás, da última vez que lá estive, vi-me lá, que eu originalmente tinha parado e ele é que me chamou a atenção, por uma fotografia de uma primeira vez que eu lá fui, há muitos anos, com pessoas que eu até achei graça de virar a fotografia e mandar essas pessoas que lá não só não se reconheciam quase na fotografia, como nem se lembravam de lá terem ido, tendo em conta os anos que tinham passado. E eu até depois estava em conversa com o meu amigo Bruno Pereira, também de Mangualde, e recordámos precisamente em que condições é que eu lá fui, o que é que eu lá tinha ido fazer, foi uma coisa bem engraçada daquelas. Costuma-se dizer que há aqui sítios onde nem às paredes nos podemos confessar. Aqui é o contrário, as paredes confessam-nos as coisas que já fizemos há muitos anos atrás, que é que interessa.
E num restaurante tão pertinho da Serra da Estrela, não acredito que se possa sair de lá sem dar uma trinca num bom queijinho da serra.
Maravilha.
Ou há alguma coisa contra os queijos neste Valério?
Eu acho que não há nada contra os queijos, mas se perguntar a alguém de lá que sobremesas recomendam, eles falam do requeijão com doce de abóbora e do leite creme. Isto por quê? É um bocadinho aquela coisa que não é em casa de ferreiro espeto de pau, mas é assim, em casa de ferreiro há tanto ferro que houve de surgir um espeto de pau. E é um bocado isso, porque, como é evidente, naquela zona não há praticamente restaurante nenhum que não tenha queijo da serra. E não é só o restaurante, é os cafés, o queijo da serra é omnipresente. E até naquele caso de Mangualde, devo dizer que lá tinha também. Não sei se se lembram do ministro Jorge Coelho, que infelizmente já nos deixou entre nós.
Sim.
Que ele é natural daquela zona e recuperou uma queijaria, que transformou numa das mais conhecidas e famosas da região. E dali é o queijo da Serra de Jorge Coelho. E eu também lá comi, aliás, pela mão desse meu amigo Bruno Pereira, que também era amigo de Jorge Coelho, também provei esse queijo da serra da queijaria que Jorge Coelho recuperou e que era espetacular. E, portanto, é evidente que lá há queijo da serra. É evidente que para quem lá for, num primeiro dia, eu recomendo o queijo da serra. Claro, se vai ao Valério depois de andar três ou quatro dias naquela região, não vai comer queijo da serra à sobremesa todos os dias. Mas como é evidente, tem queijo da serra, não tem nada contra o queijo. Mas claro, como toda a gente sabe disso, gostam de salientar duas novidades que se calhar não há nos outros, que é o leite creme excelente e o requeijão com doce de abóbora, também é uma sobremesa que eu provei já e que também recomendo.
Há lá coisa melhor que o requeijão com doce de abóbora.
É muito bom, sim.
Eu só aprendi a gostar já com alguma idade.
E com umas nozinhas.
Ai, tão bom.
Ainda há tempo.
Não, eu adoro. Pronto. Bem, então posto isto, está na hora de passarmos à conta, não é? Vamos lá então à conta, Manel.
Não, aqui não é pior parte, é uma boa parte. Aliás, até gostaria de aproveitar esta parte para falar do menu executivo que lá tem por 13,50 €. Atenção, pego aqui numa sorte. Podia escolher neste dia entre a aba de vitela estufada, o cabrito grelhado ou o bacalhau à Brás. Isto inclui sopa, um prato destes, um copo de vinho, refrigerante e café. Por aqui já se percebe que com a nossa nota verde, podemos ir os três e ainda levar cada um acompanhante.
Maravilha, disso é que nós gostamos.
Vamos para Mangualde.
E vamos ter um garfo quê?
Um garfo prateado. Também gostaria de dizer que não tem estacionamento privativo, mas é muito fácil estacionar e acho que é um restaurante que merece claramente um garfo prateado.
Muito bem, portanto, temos aqui uma nota de 100, que chega e sobra para os três.
Chega e sobra. Temos que arranjar companhia, temos que ver quem é que levamos.
Olha, Miguel Viterbo Dias.
Olha, pode ser.
O Miguel merece.
E é importante que logo à entrada de Mangualde é muito fácil o acesso e só não convém ir aos domingos, nem às quartas à noite, que é uma coisa também engraçada, que normalmente estas folgas é uma noite e um dia. É domingo à noite e segunda, em muitos casos, segunda à noite e terça. Achei também curioso, porque aqui no Valério fecha ao domingo, mas depois fecha à quarta à noite, não é seguido.
Ah, ok.
É uma nota curiosa, porque normalmente não é assim.
Muito bom.
Desde que não seja uma quarta à noite ou um domingo e levemos uma nota verde, podemos ir em comitiva.
E mesmo fechar ao domingo também não é muito habitual aí nessa zona, porque é aqueles dias até que as famílias aproveitam para os almoços de família.
Claro, mas o restaurante também não é muito grande. Eu julgo que este restaurante é mais clientela profissional e de trabalho do que propriamente de famílias.
Ok, muito bem. Portanto, está dada mais uma sugestão. Hoje, o restaurante Valério, em Mangualde. Estamos conversadíssimos, Manel, de regresso para a semana, por pratos nunca dantes navegados na Rádio Observador, em parceria com o Teu Jornal. Até para a semana, Manel.
Até para a semana.
Até para a semana, juntos e ao vivo.
Boa!