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"Por Pratos Nunca Dantes Navegados" está na hora, na Rádio Observador, em parceria com o "T Journal", como sempre com o nosso Manel. Hoje voltamos a estar à distância, Manel.
É uma pena, é sempre diferente, não é?
É, mas entre nós não há longe nem distância.
É verdade. Ansiosa por estarmos juntos já pra semana. Mas entretanto, hoje estamos de volta ao Portugal profundo, interior Norte. Manel, como é que foi lá parar?
Na verdade, não é tão longe do Porto como Lisboa, mas é longe na mesma. Mas curiosamente foi um cliente de Lousada que fez muita questão que eu conhecesse. Na verdade, aliás, muitos dos restaurantes que tenho conhecido em sítios mais recônditos como este, devem-se a esses meus amigos e clientes ligados de alguma forma à indústria têxtil. Vale a verdade que, na maioria das vezes, têm sido boas experiências, não só gastronômicas, mas também porque têm histórias muito curiosas, como esta de um restaurante de Lousada, onde eu acho que só tinha estado uma vez. Em Lousada, claro.
Manel, estamos a falar do restaurante O Caçador. Eu, pelo menos daquilo que me lembro dos episódios anteriores, ainda nem andava por estas bandas, mas lembro que já tínhamos uns restaurantes com nomes engraçados. Havia um que era a Pitaresca. Isto é da terra ou como é que é? Lousada é propícia a estes nomes?
Eu conheço poucos restaurantes em Lousada, mas é curioso, porque os que conheço, já tínhamos falado do Pitaresca. Agora esse Caçador, Pescador e Outros Mentirosos Troca a Nota é, de facto, um nome que é curioso. Mas tem uma história. Temos que recuar um bocadinho. Há uns anos atrás, um casal que eu já não tive a oportunidade de conhecer, o Manuel Fernando Avelino e a Maria Guimar, faziam naquela altura, a pedido de alguns empresários amigos, que por sinal também eram caçadores e pescadores, uns petiscos depois da caça e da pesca. Esses clientes, frequentemente, quando lá estavam, recebiam chamadas das mulheres, colegas, clientes, e em vez de dizerem que estavam lá a comer, diziam que estavam numa reunião de trabalho em outro lugar.
Quem nunca?
Não se fez muito depois aquilo no tempo da pandemia. Mas por essa razão ficou conhecido o local por O Caçador, o Pescador e Outros Mentirosos. Se fosse hoje, poderíamos acrescentar os golfistas, também são mentirosos. Mas depois do desrapasto, e porque as pessoas que frequentavam o local eram pessoas com posses, pagavam despesas pequenas com notas muito altas, o que fazia com que o senhor Avelino andasse pelos estabelecimentos e pessoas perto de sua casa a pedir pra trocar as notas pra poder fazer o troco. Daí que também foi conhecido como Troca a Nota.
E ficou o nome completo.
Então, bom. O Caçador, o Pescador e Outros Mentirosos Troca a Nota. Muito bem. Hoje em dia ainda está tudo na mesma ou há outra gerência, logo outra vida diferente, Manel?
Pra já, o restaurante hoje em dia é mais conhecido só pelo Caçador, embora lá apareça as referências ao resto do nome lá nas paredes. Mas como está numa emblema, é o Caçador. De qualquer maneira, como o negócio ia de vento em popa na altura, isto deixou de ser apenas uma ou duas vezes por semana, uma brincadeira, e passou a ser tal que a partir de 98, ainda o casal, os pais, resolveram abrir a casa ao público com este nome. Entretanto, hoje em dia é a filha Natália e o genro Fernando, que herdaram não só a qualidade como o restaurante em si, e continua com o mesmo segredo. Hoje em dia já têm clientes que não são só caçadores, nem pescadores e também não são todos mentirosos, o que já não é mau. Mas continuam a dizer que o grande segredo deles, de facto, é manterem a qualidade dos produtos da terra.
Manel, acho a questão do rumo muito gira, mas se calhar vamos à comidinha, porque uma pessoa começa a ficar com fome a esta hora e portanto queremos é saber de comida. Primeiro, começamos pelo início. Eu sei que são mais dos bolos, mas as entradas-
Eu é mais bolos.
É, eu é mais bolos. Mas ouvi dizer que as entradas aqui do Caçador não são nada mentirosas, não é?
Não, eles só mentem numa coisa, quando eu lá fui, eles perguntaram o que eu queria. Disseram que tinham várias entradas, presuntos, chouriço à tarda, arrozões, azeitonas, muitas coisas. E nós dissemos: "Não, estamos aqui, foi um almoço, almoço tem que ser com mais calma. Estamos só os quatro, vamos pedir um prato de presunto e tal". E ele: "Sim, muito bem". E depois começou e trouxe tudo. Presunto, chouriço à tarda. Lá está. Também podia chamar de mentiroso. "Não, senhor, nós pedimos presunto e eu perguntei se estava bem e a seguir traz tudo". O mentiroso, pelos vistos, na casa também podemos chamar, na brincadeira, claro, as pessoas de mentirosos. Ficou o resto.
Pra entrada, temos então um presunto, chouriço.
Chouriço à tarda, que era muito bom.
Coisas boas.
Um pão também magnífico, caseiro, muito bom.
E pra mim há alguma coisa, Manel?
Claro que há.
Um queijinho.
Há salada, salada mista.
Ok. Obrigada, Manel.
Era o que podias.
É, exatamente. Muito bem, depois dessas entradas, acho que também ninguém consegue escapar de um franguinho de Guia. Pra mim tem que ser outra coisa, mas vá, franguinho de Guia.
Eu fico com o franguinho.
O franguinho de Guia, como sabe, é aquele frango típico do Algarve, da zona de Guia e arredores, que é muito pequenino, que é cortado. Hoje em dia já se consegue comer noutros lados, mas nunca comi nenhum franguinho tão parecido com o original como neste Caçador de Lousada. Mas lá está, voltámos ao mesmo. Ele disse o que é que tinha, nós pedimos o naco. O naco já, então vem o naquinho, logo aí também voltou a mentir. Quando falei em naquinho, achei que viria um naco, uma coisa gigante, meio paia para as pessoas, mas era o naquinho. Portanto, lá está, essa coisa dos mentirosos mantém-se também hoje em dia. De qualquer maneira, o naco Tem um truque especial, porque o Fernando dá-lhe umas pinceladas com um molho especial, que também não tinha anunciado, mas que nós gostámos. Mas também se pode pedir que o molho venha à parte para quem gosta de coisas menos atrevidas.
Mas sabemos o que é que tem o molho especial?
Tem um molho especial.
Isso é segredo, claro.
Um molho especial à carne que vale a pena acompanhar.
É isso.
De qualquer maneira, a Catarina estava a reclamar, para ela também temos um bacalhau, que também é o prato emblemático da casa, que é uma posta alta demolhada à moda antiga, grelhado na brasa, que vem acompanhada com a batata cozida, meio evidente. Para mim, sempre com arroz.
Tem de ser.
Mas depois também temos, se não até parecia mal, um coelho à caçador, para fazer justiça aos nomes, tem. Portanto, é mesmo um coelho à moda da casa, que é grelhado na brasa, como o frango ou a posta, mas tem uma crocância incrível. É acompanhado também de batata e a salada de alface. A Catarina não come o coelho, mas come a salada.
Eu fico com o coelho outra vez.
Obrigada. Vocês só me dão salada e bacalhau.
Tem o Manel quando tu restas.
Mas ó André e Catarina, é importante este tipo de restaurantes, que é tipo um restaurante caseiro, que é gerido por um casal, que tem clientes que vão lá todos os dias, já te conhecem. O seu tipo de serviço, o tipo de comida, são restaurantes que estão a desaparecer. Hoje em dia, numa grande cidade como o Porto ou Lisboa, é difícil encontrar restaurantes com essas características regionais.
Tem toda a razão.
Não é só na comida, é em tudo. Se lá tem parque de estacionamento, meio evidente. Dantes o mais difícil era lá chegar, mas agora com o GPS, chegamos lá, tal como aconteceu a mim, num instante. Mas são restaurantes característicos que, de facto, não é fácil encontrar em cidades como Lisboa e Porto. Mas não é só pela comida, é tudo, é o misto, é a maneira, o relacionamento com os clientes, a maneira como eles falam, o tipo de serviço. São restaurantes que também temos de trazer aqui porque fazem parte do Portugal em que estamos e em que comemos.
Não podem morrer e não podem morrer, é muito importante.
Não devem morrer, claro.
Exatamente.
E pela clientela que eu lá vi, não vai morrer tão cedo.
Pois, exato. Olha, Manel, já abrimos com presuntinho, depois fomos para o coelho, fomos para o naco e agora para a sobremesa.
E para o bacalhau, peço desculpa. Merece destaque.
Ficaram na memória estes. O que é que tens para nós na sobremesa?
O "para nós" que estás tu a dizer, eu chamava plural mastático, porque tu estás a dizer para ti.
Exatamente.
Já nem preciso de ir, Manel.
Eu posso dizer para nós, mas o que interessa mesmo é que exista para ti.
Eu fico com as suas sobras.
Já com chave de ouro. Olha, tens lá um bolo de chocolate, pudim francês, rabanadas e queijo curado com a marmelada, que foi aquilo que eu provei, que também gostei muito.
Muito bem. Para mim, escolhi os quatro.
Mas acho que já deve chegar também.
Faz um pijaminha.
Eu acho que se fizeres uma refeição com isto tudo, já não precisas de comer mais nada.
Sim, também me parece.
O tal naquinho e bolo de chocolate.
E tendo em conta que tínhamos de comer a parte da Catarina, depois também ficava com a barriga ligeiramente cheia.
Eu passo a sobremesa mesmo. Agora, não podemos passar as contas. Vamos lá então à nossa continha, Manel.
Isto é outra das vantagens desses restaurantes regionais. Aqui, uma nota verde, eles precisam mesmo de trocar a nota para dar o troco, porque uma nota verde para os três chega e sobra. Portanto, lá está, pode haver necessidade, mais uma vez. Mas agora com os clientes que ele tem, o Gilberto ele próprio certamente que fará o troco lá. Mas a nota verde chega claramente para os três e sobra.
Muito bem. Recapitulando: entrada, prato, sobremesa e se calhar ainda temos o nosso vinhinho da praxe, não é, Manel?
Um cafezinho.
Eles têm lá um espumante caseiro de vinho verde, que é muito bom. Foi também o que eu na altura provei, mas têm outros vinhos também. Mas para experimentarem, eu sugeria que aceitassem a sugestão do tal espumante que ele tem caseiro de vinho verde. É muito bom.
Muito bem. E o garfo, Manel?
Garfo prateado, da categoria restaurante regional, onde se chega e se pode trocar as notas. E, claro, se conseguirmos levar algum mentiroso conosco para fazer jus ao nome, se calhar até dá desconto.
Eu tenho uns quantos, chamamos amigos e vêm connosco.
Exatamente.
Muito bem. Manel, está dada então a sugestão de hoje, o Caçadores na Lousada, o convite está feito. É mais uma dica do nosso Manel Serrão para Pratos Nunca Dantes Navegados em parceria com o "Útil Jornal". Manel, estamos de regresso para a semana e juntinhos.
É verdade, finalmente.
Claro que sim, juntos e ao vivo.
Juntinhos.
E não estou a mentir.
É verdade. Obrigada, Manel. Até para a semana.
Até para a semana.
Obrigado.