Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Por pratos nunca dantes navegados na Rádio Observador, já cá estamos em parceria com o TJornal. Manel, bom dia.

Bom dia.

Bom dia.

Muito bem, cá estamos. Este mês de outubro já foi o mês vermelho, agora não tem cor.

É um mês um bocado cípice.

Manel, hoje temos aqui um restaurante com um nome realmente invulgar. Conte o que sabe sobre este Porta Enxerto.

Quem é que dá o nome de Porta Enxerto? É esquisito. Eu próprio devo dizer que fui pela primeira vez a este restaurante exatamente, isto é para técnica de marketing, por causa do nome.

Ficou curioso.

Porta Enxerto, o que será isto? Porta Enxerto? Mas terá um enxerto numa porta? Entra-se pela janela em vez da porta.

É que é um nome muito familiar que anda no ouvido.

Pois. E então depois fui investigar para saber o que é que representava, o que significava este Porta Enxerto. E então este nome é um nome ligado às vinhas, que remete para a filoxera, essa tragédia que atacou a Europa em meados do século XIX. Atacou a Europa através das vinhas. Claro, não foi propriamente um ataque da Rússia. O porta-enxerto foi uma das formas de combater a doença nessa altura. E por isso, a primeira coisa que posso já dizer é que todos os vinhos que têm o porta-enxerto estão de perfeita saúde, como é evidente.

Pois, claro.

Mas posso continuar a estranheza com o nome do dono, que também é o chefe da sala. É a alma da casa, sendo que a casa também é pequena, portanto, alma grande em casa pequena, sempre vale a pena. E que se chama Hermenegildo, também em termos de estranheza. Embora seja tratado pelos amigos por Gildo. É o Gildo. Os amigos tratam-no por Gildo, eu próprio já o trato por Gildo, mas ele é Hermenegildo. Estamos a falar, como tu estavas a dizer, de um restaurante muito pequeno, mesmo no centro de Famalicão, perto da Cortina Miranda, que tem seis mesas na sala interior e depois tem mais seis na esplanada, mas claro, nem sempre a meteorologia está de acordo com a utilização dessas seis mesas.

Ainda por cima agora em outubro.

E sendo pequeno, ainda também tem um horário pequeno, porque o Porta Enxerto para jantar só abre às quintas, sextas e sábados. Quem quiser jantar nos outros dias tem que ir para outro lado.

Quintas, sextas e sábados.

É enxotado do Porta Enxerto. Para jantar. Almoço é todos os dias, como é evidente.

Certo. Portanto, temos aqui um nome diferente. O próprio dono também tem o nome diferente. Também temos um menu diferente, original, ou é uma coisa mais convencional?

É que aqui, de facto, tudo que nós vemos no Porta Enxerto são surpresas. E o menu também, eu fui surpreendido. Antes de mais nada, o menu vem, não é estas modernices lá de QR code. Vem uma carta, mas é iluminada. É uma carta que tem uma luz interior e tem dois lados.

Mas a luz está no papel?

O menu tem uma luz interior.

Mas é de papel na mesma ou é um ecrã?

É papel, mas tem uma luz. É muito engraçado, nunca tinha visto, não percebi como é que isso funcionava. Mas porque o restaurante é muito pequeno e tem uma iluminação muito romântica, digamos assim. Aquilo é para ajudar-nos a ler. Para não haver aquela coisa que estamos sempre a ver, que é as pessoas com o telemóvel ligam a lanterna para ver. Ali, não, ali o próprio menu é iluminado. E depois tem outra coisa curiosa, que é: como é que ele é organizado? De cima para baixo, tem um grupo de empratados, um grupo de tapas, um grupo de coveres e charcutaria e grupo de doces e diárias ao almoço. É assim que está o menu. Eu nunca vi isto em mais lado nenhum.

Foge também à convenção.

Exatamente. É estranho no nome do restaurante e do dono, é estranho na configuração e é estranho no menu.

Tu estás a condizer. Com um menu assim, como é que o Manel sugere que nós façamos as escolhas? É preciso uma boa engenharia de processos, não é?

Não sei se devemos falar ao Fernando Santos para nos dar uma tática, mas é preciso uma tática. E eu quando fui para lá, não ia preparado, não tinha estudado.

Não tinhas estudado a matéria.

Tive que ser um bocadinho de acordo com ele, com o Gildo a dar-me dicas. Mas agora que já fui lá mais vezes, eu acho que para duas pessoas, porque é um restaurante típico para irem duas ou três pessoas, não é para grupos, não é um restaurante de grupos, é pequeno, para ir duas pessoas, um casal, ou vá quatro pessoas, dois casais, amigos. Eu acho que dois empratados e duas tapas chegam bem. Da outra vez que lá fui, comecei com cover de pão e azeite especial, que também é especial, porque ele serve-o um bocadinho como se faz a sidra. Não sei se alguma vez viram como é que serve a sidra em Espanha. Começa, vai, que vem. O azeite é especial e para um pratinho de azeite muito pequenino, ele levanta a garrafa até para aí dois metros.

Uau!

E aquilo fica lá e não percebo como não expira. Ele tem uma técnica que fica impecável. É um espetáculo dentro do próprio espetáculo. Portanto, continuamos com as coisas estranhas. Depois, nas tapas e nos empratados, escolhemos uma veludade de camarão com grelos e ovos em revuelto. A baixela também é espetacular, porque é um restaurante com ar muito clássico, com pratos antigos, clássicos, com decorações clássicas, os guardanapos, as próprias toalhas de mesa. É uma experiência que parece que não estamos a recuar ao tempo do Porta Enxerto. Mas é uma viagem no tempo. Tirando a comida, que é mais moderna, são sabores mais atuais, mas tudo o resto que nós vemos, desde a decoração, os talheres, os pratos, as baixelas, é tudo assim de uma forma que parece uma viagem no tempo, ao tempo dos nossos avós.

É como se fosse um museu, no fundo.

Quase como se fosse um museu, exatamente. Para ajudar ao museu, ainda tem outra coisa, que é: tem na parede uma série de quadros e retratos históricos antigos.

Uau!

E então na ementa, que o advogado estava a descrever, que é iluminada, de um dos lados tem menu e do outro lado tem a legenda dos quadros, o que é que são, a história de cada quadro. Estás num museu.

Tem que se ir com tempo, então, também.

Com tempo e com gosto, exatamente. Aqui não é para ir lá comer à pressa. Aliás, é mais de jantar que de almoçar, mas tem que escolher uma quinta ou sexta-feira. Normalmente são os jantares, principalmente à sexta e ao sábado, em que temos mais tempo para jantar. Portanto, é isso que se recomenda. Estava ainda a falar da comida, para além do ovos mexidos com camarão e ovos mexidos, comemos também um spaghetti al nero de sepia e gambérrimo, spaghetti negro com gambas e lula. E depois um lombo de porco preto do Alentejo grelhado, que misturei com um risoto de cogumelos divinal. A questão é que parece muito, mas não é, porque também pelo preço percebemos logo que não são doses gigantes. Por isso é que também chamam empratados e tapas. A ideia é que as pessoas experimentem lá várias coisas.

Tipo petiscos, não é?

Tipo petiscos, sim, tem lá muita coisa.

Eu gosto.

Presuntos, tem muita coisa.

Se não é tão carne, eu gosto de partilhar.

Não, tem lá muita coisa.

Eu partilho com o Manuel.

Tem lá muita coisa.

Manuel, no fundo, voltamos a falar também aqui, e já disseste há bocado, apesar de termos aqui um museu, temos um restaurante que é pequeno. E isto também é um bom tema para discutir, porque os restaurantes pequenos, de certa forma, apesar de serem mais pequeninos, também têm algumas vantagens face aos grandes.

Pois, eu diria assim: há muita gente que acha que um restaurante pequeno não presta por ser pequeno. E há muita gente que acha que um restaurante grande não tem graça nenhuma e também não presta por ser grande.

Eu, por acaso, prefiro os pequenos. Porque acho que fica mais cozy.

Eu acho que nós não devemos fazer essa distinção.

Como se costuma dizer, também não importa.

Também não importa aqui. Tanto há restaurantes pequenos que não prestam, como há restaurantes pequenos que são maravilha. E este Porta Enxerto é um bom exemplo disso, como há restaurantes grandes que são maravilhosos. Eu lembro-me de um restaurante que eu conhecia, que era pequenino em Viseu, na zona de Viseu, vocês já aqui falámos, não vamos estar aqui a falar porque é para dizer mal. Havia um restaurante que era pequeno, quando resolveu crescer, tinha muita clientela, perdeu qualidade. Ganhou quantidade, perdeu qualidade. Mas também conheço restaurantes grandes, já que falamos, por exemplo, do Solado dos Presuntos. Que é um restaurante grande e que é muito bom. Há restaurantes que mesmo sendo grandes mantêm a qualidade e há outros que apesar de serem pequenos não conseguem atingir os níveis de qualidade. Essa ideia de que só os restaurantes pequenos é que são bons ou só os restaurantes grandes é que são bons, eu acho que é uma querela que não faz sentido nenhum.

Por acaso quando ele estava a falar dos restaurantes maiores, grandes, às vezes tem a ver com a confusão, com o barulho, mas não tem mesmo a ver com a sonorização. Por exemplo, o Solado dos Presuntos pode estar cheio e não há aquele barulho ao ponto de a pessoa não conseguir entender o que o outro está a dizer, e isso incomoda-me nalguns restaurantes, por isso eu estava a dizer.

Mas há muita gente que diz exatamente que os restaurantes grandes são fábricas de comida. E alguns que são.

Sim, é verdade.

E alguns que são e, de facto, muitas vezes nem é a qualidade da comida, é a qualidade do serviço. Muitas vezes os restaurantes grandes, por exemplo, parece que têm mais empregados, mas depois perdem na qualidade do serviço. Este daqui, o caso Porta Enxerto, só há uma pessoa a servir, que é o Gildo. Mas para as pessoas que têm, chega e sobra e é de uma atenciosidade, é de uma atenção, de uma simpatia fantástica, o serviço é perfeito. Claro que ele, para manter essa qualidade e esse serviço, aumentasse o restaurante para o dobro, com certeza que ia perder na qualidade do serviço, pelo menos.

Claro, há que fazer opções.

Exatamente.

E vamos a uma sobremesa para o Manuel. Eu ia dizer para o Manuel e para a Andreia.

Também pode ser para o Manuel.

Temos alguma de destaque?

Temos. Eu, da sobremesa, a que gosto lá mais é o pão de ló. Ele tem um pão de ló úmido, muito bom, e também um tiramisù.

Também naquela zona é muito bom.

E um tiramisù também recomendo.

Pronto, alinhas, pão de ló.

O pão de ló, apesar de não ser a minha sobremesa favorita.

Mas também te vou dizer uma coisa, já aqui falámos e vamos falar muitas vezes de restaurantes em que as sobremesas vale a pena esperar por elas. Eu acho que aqui nos empratados e nas tapas fica mais por isso. Não quer dizer que não possa comer uma sobremesa, mas não é o restaurante em que se vá por causa de uma sobremesa.

Sim, claro.

Claro que sim. Muito bem, então agora vamos às contas, Manuel. Quanto é que isto sai aqui para os três?

Voltámos a estar num bom plano. A nota verde chega e sobra para os três.

Muito bem.

E sobra bem.

E o resto investimos para ir ao próximo.

Exatamente, e o resto investimos e fica para o próximo. Fica guardada num PPR para aqueles em que a nota verde não chega para os três.

E o garfo, Manuel?

Um garfo eu punha prateado. É um restaurante pequeno, tem muita qualidade, mas eu acho que tendo em conta outros que já aqui falámos parecidos, um garfo prateado fica muito bem.

Muito bem, então temos aqui um garfo prateado para Porta Enxerto, em Famalicão. Está dada a sugestão do nosso Manuel Serrão para Pratos Nunca Dantes Navegados, na Rádio Observador, em parceria com o TJornal. E Manuel, estamos de regresso para a semana.

Estamos de regresso para a semana.

Até para a semana.

Falta, exatamente.