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Começa agora mais um "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje falamos sobre a escola, esse lugar que devia ser uma festa, mas que tantas vezes parece uma fábrica. Olá, Eduardo. O Eduardo diz que a escola não é uma indústria, mas de certa forma tem vindo a comportar-se como tal. Em que momento é que deixamos de olhar para o ensino como um espaço de crescimento e passamos a vê-lo como uma linha de produção?

Olá, Judite. Eu tenho medo que os rankings tenham dado um contributo significativo a isso. Judite, eu gosto que haja uma visão macro da escola, isto é, quando nós olhamos pra escola no seu todo, parece-me só sensato que possamos perceber qual é o nível de desempenho dos alunos em relação a uma determinada disciplina, à maneira como elas são ensinadas, etc. Mas eu tenho medo que os rankings tenham dado um contributo pra isso e, de repente, haja toda uma vertigem que faça com que nós queiramos muito que os alunos tenham boas notas. Até aí eu acho fantástico ter boas notas, mas é como se eles não estivessem autorizados a errar. E quando uma criança tem o azar de ter uma nota mediana ou, à escala de uma classificação mais pequenina, ter um três, parece que nós estamos a lidar com uma criança com carências cognitivas muito grandes, em vez de percebermos que as notas que as crianças têm dependem de muitas coisas: das turmas, dos professores, das escolas e de um conjunto de outros fatores que inevitavelmente também dependem um bocadinho delas e dos pais delas, mas que depois as condicionam. E, portanto, eu tenho a ideia que de repente se criou uma onda tão grande a este nível, Judite, que esta onda já chegou às universidades. Eu percebo que não se ganha nada em reprovar um aluno, porque o raciocínio é só este: se os miúdos são inteligentes e não percebem a disciplina A ou B ou C, temos mais é que perceber em tempo útil porque é que eles não estão a perceber e ajudá-los. Agora, esta ideia de nós estarmos a dar-lhes conhecimentos sem muitas vezes avaliarmos como deve ser a forma como eles os aprendem. Estarmos sempre a pôr pó de arroz nas notas, dando-lhes a entender que eles são sempre muito melhores do que efetivamente são. Não lhes darmos oportunidades pra ter dúvidas ou pra errarem e tudo mais, faz com que, de repente, em vez de nós estarmos a usar a escola pra que eles cresçam pro conhecimento, cresçam como pessoas, agora como boas pessoas, cresçam pras relações, aprendam uns com os outros, etc. Nós parecemos estar a transformar a escola numa espécie de linha de montagem de jovens tecnocratas de sucesso e quanto mais tarde eles se confrontam com as suas dificuldades, não digo que mais irreparáveis, porque se bem vistas as coisas, tudo tem reparação, mas mais duras são as consequências, levando muitas vezes a perder miúdos que bem orientados pela vida afora, engasgavam-se ali, erravam acolá, mas que feitas as contas, iam crescendo e iam crescendo bem, sobretudo em relação ao conhecimento, que é aquilo que uma escola fornece como uma bênção preciosa pra todos eles.

Há cada vez mais pressão pra que as crianças aprendam mais cedo, aprendam mais cedo a ler, a escrever, a dominar conteúdos. Há riscos nesta aceleração?

É uma patetice. É uma patetice, Judite, porque no fundo, os ganhos não compensam os custos. Eu costumo dizer que devia ser proibido ensinar a ler e a escrever no jardim de infância, porque às vezes nós queremos tanto que eles aprendam muito depressa e sobretudo sem erros, que, no fim de contas, eles no fundo replicam conhecimentos, mas depois discorrerem sobre eles, aprender a pensar com eles, é uma coisa completamente diferente e, portanto, nós temos que dar a entender aos pais que aprender tem o seu tempo, precisa de tempo e precisa de um conjunto de oportunidades. Isso nós não lhes damos. Tudo isso, estamos sempre em cima deles a querer que tenham sucesso, às vezes a comparar as notas com este ou com aquele colega e a zangarmo-nos com isso, Judite. Nós estamos a criar, de fato, jovens tecnocratas de sucesso. Não estamos a criar crianças mais inteligentes. Não estamos a criar miúdos que sejam capazes de pensar sobre o conhecimento e sobre o mundo de maneira melhor. Não! Estamos a estragar uma competência e isso a mim preocupa-me muito, porque eles entram na escola a perguntar por quê. Judite, e saem da escola sem perguntar por quê, que sentido é que tem?

E transforma-se a escola numa fonte de ansiedade, tal é a pressão.

Invariavelmente. Porque eles têm medo, percebe? Porque dantes as crianças iam pra escola com medo de levar uma reguada, que era uma coisa trágica, digo eu, por mais que às vezes as pessoas passem a vida a falar da escola do antigo regime como se fosse uma escola onde finalmente se avaliava, etc. Mas eles hoje vivem com medo de não corresponder às expectativas dos pais, à exigência de boas notas das escolas. A esta comparação que isso faz sempre ter a ideia de que têm que estar ao nível dos melhores, vá-se lá saber o que é que é os melhores. Porque se não estiverem ao nível dos melhores é porque não prestam e, portanto, o que é que nós conseguimos? Estar a criar as condições necessárias e suficientes pra uma epidemia atípica de baixa autoestima, tal é o medo com que eles vão pra escola e aprendem.

O que acontece quando o tempo das crianças não coincide com o ritmo da escola?

Estamos a espatifar a adolescência, estamos a espatifar a infância e estamos a dar-lhes a entender que isso são bens de segunda necessidade absolutamente recicláveis e, portanto, estamos a não perceber o óbvio, que as crianças aprendem de dentro pra fora. Aprendem com as suas experiências, aprendem quando encontram argumentos pra pôr legendas naquilo que vivem, aprendem quando veem ali um vislumbre de uma resposta pras dúvidas que elas estão permanentemente a construir. E, portanto, a escola pode ser uma gramática absolutamente fantástica pra vida deles, assim eles possam falar, pensar, engasgar-se e tudo o resto, porque senão, se nós os queremos a repetir as coisas, como às vezes acontece, por que os professores têm que preparar os testes dando uma espécie de teste na véspera, quase como quem diz: "Pronto, a resposta certa é esta". É quase como se nós andássemos a criar todos uma ilusão, quando, calma, eles não precisam de crescer assim, porque senão nós estamos a usar a escola para os desencontrar do conhecimento e da vida. A escola não pode servir pra isso.

Fica o recado pra pensar durante o fim de semana, porque é um tema muito importante. Eduardo, um grande abraço, um bom fim de semana. Segunda-feira cá estaremos de novo.

Um bom fim de semana.

Até segunda.