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Há um prazo para contar aos filhos que o pai tem uma nova namorada? É essa a questão que temos para hoje. O caso de um pai, podia ser uma mãe, que se divorciou, tem, entretanto, outra relação e questiona se há um tempo recomendável para envolver os filhos nesta relação. Olá, Eduardo. Boa tarde.

Olá, Judite. Olá, Bruno.

Olá, Eduardo.

Há algum tempo recomendável ou isto depende de cada caso?

Judite, de certo modo, há um tempo que é talvez razoável, porque os pais e as mães, reconheço que os pais mais. Às vezes são muito desajeitados quando se trata de comunicarem a um filho que têm outra relação, independentemente da idade do filho. Às vezes querem pôr uma tão grande naturalidade que estragam tudo. Às vezes são muito precipitados, quase muito impulsivos, e acham que os filhos aguentam tudo. E eu percebo que queiram ter uma vida tão normal quanto possível, mas às vezes não é assim tão simples. E, portanto, se nós tomarmos isso em consideração, Judite, eu estaria tentado a dizer que o intervalo de tempo que vai entre seis a 12 meses é talvez o intervalo mais razoável para que a poeira pose, para que os filhos tenham a ideia de que, no final de contas, o pai passa ali por um período em que está mais ou menos sozinho e que não houve ninguém que tivesse interferido na relação entre pai e mãe, porque às vezes essas coisas também entram nas contas de cabeça dos filhos. Mas se nós apontarmos para um intervalo desses, será, no meio de tudo, o intervalo razoável. Depois é como diz, Judite, depende de tantas circunstâncias, de tantas situações, que eu não queria que isto fosse vivido como uma generalização abusiva. Não pretende ser. Pretende ser só uma espécie de ajuda dentro daquilo que pode ser o razoável e o sensato, mas dentro do que é razoável.

Acho que a chamada talvez tenha ido abaixo. O Eduardo Sá não está ligado neste momento. Estávamos a falar desse tempo ideal para apresentar aos filhos uma nova relação e o Eduardo falava que havia um período de nojo entre seis meses a um ano, para que os filhos percebessem que havia um tempo em que o pai ou a mãe estavam sozinhos e que só depois disso, então, estavam prontos para entrar numa nova relação. Este caso, nós não sabemos exatamente qual é o tempo, sabemos que foi um divórcio relativamente recente. Eduardo.

Olá.

Olá. Estava a falar-nos desse tempo razoável e depois cada caso também será um caso. Há aqui uma outra linha de raciocínio que este pai põe: a maneira como nos divorciamos conta para isso? Ou seja, se o divórcio não tivesse sido assim tão bonito.

Não, Judite, tudo conta. Conta a forma como os pais se divorciam, conta a maneira como eles terão sido capazes de manter um canal de comunicação depois do divórcio, tomando em consideração os filhos. E estes pormenores contam, conta a sensatez de cada um dos pais, porque muitas vezes os pais magoados, basta que tenham um dia mau, um arrependem que dizem aquilo que não deviam e estragam tudo. E, portanto, há muitos pormenores, sendo certo, que eu acho muito importante que os pais não percam de vista, que não têm de ser de betão e que, portanto, são pessoas que sofrem, que de alguma forma fazem um comentário ou outro, que não é simples, mas têm que ser muito ponderados, porque tudo aquilo que acabam por fazer de forma irrefletida, repercute de tal maneira nos filhos, que depois estraga tudo, estraga as relações que vêm a seguir, mas estraga, sobretudo, a relação entre a mãe, o pai e os filhos. Isso é uma coisa absolutamente irreparável, se não for vivida com algum equilíbrio, claro.

E também é importante perceber, afinal, que nova relação é esta. É preciso algum tempo até as duas pessoas perceberem por onde é que vão, o que é aquilo que estão a viver, independentemente da preocupação, que será a prioridade deste pai. Com os filhos, é também necessário ver a relação que se tem com esta nova pessoa.

É verdade, Bruno. Sabe por quê? Porque há pais que ficam numa ânsia tão grande de trazerem essa pessoa para a sua vida. É natural que estejam apaixonados e que, portanto, queiram de alguma forma fazer com que os filhos comparticipem nisso tudo, num momento muito bonito da vida deles, que às vezes trazem não uma, trazem duas ou três, trazem num período muito curtinho várias pessoas.

Para a vida de um filho, tendo com elas uma relação de normalidade, como se estivessem nas entrelinhas com esta que é. E é neste contexto que eu acho que, independentemente dos acidentes poderem acontecer e daquilo que era uma relação que, de algum modo, tinha perspectivas de futuro e de repente se constipou toda e não vai por aí. Mas, à parte disso, claro que eu acho que é muito importante que os pais tenham esse tipo de cuidados, até por isto: porque num primeiro momento, é natural que os pais vão falando com algum interesse de alguém, que pode ser uma colega, uma amiga, mas as crianças sabem tão bem tirar as medidas aos pais, que percebem perfeitamente que não é uma amiga qualquer, não é uma colega qualquer. E, portanto, enquanto os filhos estão naquela postura expectante, às vezes quase divertida, de perceber que sim, que é uma pessoa nova que está a chegar à vida deles, depois substituem a curiosidade por uma espécie de controle de qualidade. "Vamos aqui ficar. A amiga especial do pai, pra perceber até que ponto é que ela tem jogo de cintura pra gostar de nós", que às vezes estica além do razoável. E, portanto, há, de facto, muitos vetores que entram num registo destes, mas eu tenho ideia que se os pais forem razoavelmente comedidos na sua ânsia de terem uma vida tão normal quanto possível após o divórcio, depois o futuro torna-se mais simples de seguir, claro.

É que às vezes os pais não fazem essa apresentação formal, mas os filhos já perceberam que há ali qualquer coisa, até pela presença de uma nova figura feminina ou masculina nas suas vidas. Neste caso, deste ouvinte, ele refere também a situação da nova namorada, que é alguém que também passou por um divórcio, mas já vive sozinha com a filha há muito mais tempo. E o ouvinte pergunta-nos se pode começar a relacionar-se mais abertamente com a namorada e com a filha, ou seja, a filha desta pessoa com quem ele tem esta relação, estar dentro, estar informada, e só depois com os dois filhos, visto que ele se divorciou mais recentemente. Este jogo duplo pode fazer sentido?

Mais ou menos. É como diz, os filhos percebem muito bem que ser uma colega do pai, uma amiga do pai, uma amiga especial do pai, a namorada do pai ou a madrasta, são vários degraus, que correspondem depois também a outros tipos de exigências da parte destas pessoas. Mas, de facto, estas relações a dois tempos, às vezes, não são fáceis. E não são fáceis, não é tanto tomando em consideração o aqui e o agora. É que mais tarde ou mais cedo, estas crianças todas vão se juntar. Mais tarde ou mais cedo, os filhos deste nosso ouvinte vão perceber muito rapidamente que aquela outra criança tem uma relação de tão familiar com o pai, que é impossível que aquela relação se tenha construído ontem.

Podem se sentir traídos?

Podem se sentir traídos. Sentem-se muitas vezes traídos, porque sentem que não tiveram ao seu dispor toda a verdade ou a verdade a que eles sentiam que teriam direito. E, portanto, quanto mais tarde se sentem traídos, às vezes pior. Portanto, poderem ser comedidos na forma de se relacionarem com as crianças, estaria quase tentando dizer: dentro do que for possível, se calhar, fazia sentido que as crianças fossem trazidas pra relação mais ou menos a par, porque de outra forma isto pode ficar escorregadio.

No meio disto tudo, será que pensamos que as crianças vão reagir pior e se calhar elas têm outra capacidade de entendimento destas relações?

Às vezes. Tudo depende da mãe ou do pai, portanto, da outra pessoa, que eles têm, que de alguma forma pode não reagir tão bem a isso. Porque, às vezes, há muitos ex-casais que até convivem com dor, mas convivem com uma separação dentro do que é razoável. Assinam os papéis todos, que ainda são muitos, e às vezes são negociações muito difíceis de fazer, mas fazem tudo isso com algum comedimento. Mas quando reaparece alguém de novo na vida da outra pessoa, mesmo que já não tenham um interesse tão grande um pelo outro, aí é que, de facto, o divórcio se consuma. E aí é que, no fundo, é uma espécie de prova do algodão. E logo se vê se os pais, de alguma forma, depois reagem mal. Imagine que, no fundo, a mãe destas crianças, quando vier a saber que existe alguém, reage mal e reage de uma forma magoada e, de algum modo, assume o papel de vítima com uma clareza muito grande, etc. Esses pequenos pormenores todos juntos podem contaminar a capacidade que uma criança tem de perceber, e aquilo que até podia ser fácil, de repente tornar-se tudo muito difícil. São muitos pormenores juntos, não é?

É, de facto, são sempre relações e são sempre questões que devemos lidar com pinças. Vamos lidar de uma forma mais relaxada com o fim de semana que vem aí. E nós voltamos a nos encontrar na segunda-feira e até lá, já sabem: podcast. Estamos disponíveis em todas as plataformas. Continue a escrever-nos para eduardosa@observador.pt. Um grande abraço, Eduardo. Bom fim de semana.

Bom fim de semana, Eduardo. Um abraço.

Um bom fim de semana.